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sábado, fevereiro 14, 2026

Em meio a protestos, EUA suspendem emissão de vistos para migrantes do Brasil e mais 74 países

Restrição não inclui permissões para negócios ou turismo, mas empresas ouvidas pelo MigraMundo não descartam uma burocracia adicional para análise de vistos dessa natureza

Atualizado às 16h55 de 15.jan.2026

Em um novo ataque à questão migratória, o governo de Donald Trump nos Estados Unidos decidiu suspender por tempo indeterminado a concessão de vistos para imigrantes de 75 países – o Brasil está na lista. A medida foi antecipada nesta quarta-feira (14) pelo canal Fox News e pouco depois confirmada pelo Departamento de Estado – o equivalente no país ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil.

Até o momento, a restrição não inclui vistos para negócios ou turismo. No entanto, empresas ouvidas pelo MigraMundo não descartam uma burocracia adicional para análise de vistos dessa natureza por parte dos Estados Unidos com a nova diretriz.

Como justificativa alegada para a nova restrição, o governo Trump diz que visa impedir que prováveis imigrantes se tornem “um encargo público para os EUA ao chegarem ao país”. Segundo a Fox News, a restrição começa a valer no dia 21 de janeiro, mas o governo Trump não foi claro nessa comunicação.

“O Departamento de Estado suspenderá o processamento de vistos de imigrantes de 75 países cujos migrantes recebem benefícios sociais do povo americano em taxas inaceitáveis. O congelamento permanecerá em vigor até que os EUA possam garantir que os novos imigrantes não irão extrair riqueza do povo americano”, diz o comunicado oficial.

Ainda de acordo com o Departamento de Estado, os funcionários consulares estão instruídos a negar vistos a candidatos “que provavelmente dependerão de benefícios públicos, levando em consideração uma ampla gama de fatores, incluindo saúde, idade, proficiência em inglês, situação financeira e até mesmo a possível necessidade de cuidados médicos de longo prazo”.

Em nota, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil disse que “o presidente Trump tem deixado claro que imigrantes devem ser financeiramente autossuficientes e não representar um fardo financeiro para os americanos.”

Outras medidas restritivas recentes

A decisão ocorre em meio a uma nova onda com mais de mil protestos em todo o país contra a atuação cada vez mais violenta do ICE, a polícia migratória estadunidense. O estopim mais recente ocorreu na semana passada no estado de Minnesota, onde agentes de migração assassinaram a estadunidense Renee Nicole Good. O governo Trump, inclusive, se nega a investigar os envolvidos no caso e vem classificando a cidadã morta como “terrorista doméstica”.

No começo da semana, os Estados Unidos já haviam anunciado que tinham revogado mais de 100 mil vistos desde o início do governo Trump. Portadores de visto de estudante e até mesmo quem possui “green card” estão sujeitos a deportação em caso de mostrarem apoio aos palestinos e de criticarem a atuação de Israel em Gaza.

Verificar o apoio a grupos considerados críticos pelo governo Trump também baseia uma outra medida restritiva: os candidatos a visto estudantil agora são obrigados a desbloquear seus perfis em redes sociais para análise pelas autoridades migratórias estadunidenses.

O endurecimento ainda maior da política migratória é ainda um dos pontos da estratégia de defesa e política externa dos EUA, publicada pelo governo Trump em dezembro de 2025. O documento prevê o “fim da era da migração em massa” e fala da necessidade de “proteger as fronteiras contra migração descontrolada, terrorismo, drogas, espionagem e tráfico humano”.

“Ele basicamente vai desativar o sistema de imigração legal dos Estados Unidos”, prevê a diretora de relações governamentais da Associação de Advogados de Imigrantes dos EUA, Shev Dalal-Dheini.

O governo Trump, por sua vez, também lançou, em dezembro de 2025, o “gold card”, programa que concede residência permanente a migrantes mediante um investimento de US$ 1 milhão para indivíduos e de US$ 2 milhões para empresas que desejam obter residência para seus funcionários internacionais. Além do investimento, o processo exige uma taxa inicial não reembolsável de US$ 15 mil ao Departamento de Segurança do país.

Países com processos de visto para migrantes suspensos

O canal Fox News divulgou a íntegra dos países sobre os quais recai a nova restrição do governo Trump. A lista inclui nações de todos os continentes.

Entre os “poupados” estão países da União Europeia e Europa Ocidental, além de Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia. Nações consideradas aliadas no Oriente Médio (Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Israel) e América Latina (como Argentina, Equador e El Salvador) também ficaram de fora.

Afeganistão
Albânia
Argélia
Antigua e Barbuda
Armênia
Azerbaijão
Bahamas
Bangladesh
Barbados
Belarus
Belize
Butão
Bósnia e Herzegovina
Brasil
Myanmar
Camboja
Camarões
Cabo Verde
Colômbia
Costa do Marfim
Cuba
República Democrática do Congo
Dominica
Egito
Eritreia
Etiópia
Fiji
Gâmbia
Geórgia
Gana
Granada
Guatemala
Guiné
Haiti
Iêmen
Irã
Iraque
Jamaica
Jordânia
Cazaquistão
Kosovo
Kuwait
Quirguistão
Laos
Líbano
Libéria
Líbia
Moldávia
Mongólia
Montenegro
Marrocos
Nepal
Nicarágua
Nigéria
Macedônia do Norte
Paquistão
República do Congo
Rússia
Ruanda
São Cristóvão e Névis
Santa Lúcia
São Vicente e Granadinas
Senegal
Serra Leoa
Somália
Sudão do Sul
Sudão
Síria
Tanzânia
Tailândia
Togo
Tunísia
Uganda
Uruguai
Uzbequistão

Maior e mais antiga empresa de imigração do mundo, a Fragomen observa que muitos dos países incluídos na lista já constavam em restrições anteriores anunciadas pelo governo Trump, que incluem veto total a qualquer entrada em território estadunidense – inclusive para turismo e negócios. São os casos de Afeganistão, Antígua e Barbuda, Costa do Marfim, Cuba, Dominica, Gâmbia, Haiti, Iêmen, Irã, Laos, Líbia, Mianmar, Nigéria, República do Congo, Senegal, Serra Leoa, Síria, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia e Togo. Portadores de passaporte da Autoridade Palestina também são vetados nos Estados Unidos.

Chama a atenção, no entanto, a ausência da Venezuela – recentemente alvo de uma ação militar que removeu do cargo o presidente Nicolás Maduro. O país sul-americano consta na lista anterior de restrições anunciada pela Casa Branca.

Incertezas e cautela

Além de representar mais uma forma de endurecer a política migratória estadunidense, a mais recente medida de restrição a vistos adiciona mais um fator de incerteza para quem lida com a migração no dia a dia.

“A efetivação da anunciada medida de congelamento de vistos de imigração atingirá empresas multinacionais que tem programas de intercâmbio programado e que ficarão comprometidos/prejudicados, juntamente com planos de trabalho ou estudo internacional, impactando fortemente para empresas de Global Mobility que ainda tem EUA como significativo destino”, comenta Marta Mitico, presidente da ABEMMI (Associação Brasileira de Especialistas em Migração e Mobilidade Internacional). A entidade congrega dezenas de empresas e institutos que trabalham com migração, sobretudo em casos que envolvem o envio de profissionais para trabalho no exterior.

A Drummond Advisors emitiu um comunicado no qual recomenda cautela a seus clientes. “Os solicitantes com processamento de visto de imigrante pendente ou planejado em consulados devem acompanhar atentamente os desdobramentos e considerar ajustes de timing e estratégia, quando apropriado”.

Na mesma linha, a Fragomen destacou que tampouco há uma clareza da data em que a restrição começa a valer. “Embora alguns veículos de comunicação tenham noticiado que a suspensão dos vistos de imigrante começaria em 21 de janeiro, o comunicado do Departamento de Estado não menciona uma data de início, de modo que a política pode já estar em vigor neste momento”.

A Fragomen também menciona que não se pode descartar por parte do governo Trump uma maior burocracia para outros tipos de vistos a partir dos países incluídos nessa lista de restrição – na qual consta o Brasil . “Os solicitantes de vistos não imigrantes provenientes dos países mencionados devem estar cientes de que também podem enfrentar um escrutínio mais rigoroso quanto ao critério de “encargo público” em suas aplicações, embora nenhuma suspensão tenha sido anunciada para pedidos de visto não imigrante”.

Até o momento, o governo brasileiro não se manifestou oficialmente sobre as novas medidas de Washington. O canal CNN Brasil, no entanto, apurou junto a integrantes do Itamaraty que o país recebeu a notícia com surpresa e acompanha os acontecimentos com cautela.


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