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quinta-feira, dezembro 11, 2025

Escolha do próximo chefe do ACNUR ilustra desafios e contradições no cenário global sobre refugiados

Processo para eleger o próximo líder da agência reflete questões como crise de financiamento, questionamentos sobre representatividade e desafios do multilateralismo

Além da escolha do próximo nome a ocupar a Secretaria-Geral das Nações Unidas, outras agências da ONU também debatem futuras lideranças. Uma delas é o ACNUR, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, chefiado desde 2016 pelo italiano Filippo Grandi e cujo mandato termina no fim deste ano. E essa proximidade traz todo um debate sobre sucessão e transparência, que fica ainda mais importante diante dos desafios vividos pelos organismos multilaterais mundo afora.

Desde sua criação, em 1951, o ACNUR já teve 11 altos-comissários, com forte predominância europeia e, sobretudo, masculina. As únicas exceções foram o iraniano Sadruddin Aga Khan (de 1965 a 1977) e a japonesa Sadako Ogata (de 1991 a 2000).

De acordo com dados do próprio ACNUR, o número de pessoas deslocadas à força internamente e para outros países chegou aos 122 milhões, enquanto a agência lida com problemas de financiamento. Ainda de acordo com Grandi, cerca de 5 mil postos de trabalho já foram cortados na sede da organização, em Genebra (Suíça), que também luta para cobrir ao menos metade do orçamento deste ano.

Para 2026 a perspectiva segue pouco animadora, já que a previsão é de um orçamento de US$ 8,5 bilhões — 20% a menos do que neste ano — além de 4.000 postos a menos e vários escritórios de campo fechados. Um cenário que faz o aCNUR depender ainda mais de doações voluntárias.

Quem são os candidatos

De acordo com o Conselho Internacional de Agências Voluntárias (ICVA, na sigla em inglês), uma rede global de ONGs que atua em conjunto com o ACNUR, onze candidatos já foram indicados para a sucessão de Filippo Grandi. Novamente neste caso a predominância é de europeus, atualmente de países que figuram entre os maiores doadores da agência da ONU.

  • Niels Annen (Alemanha): Diplomata e Secretário de Estado no Ministério Federal da Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha
  • Jesper Brodin (Suécia): Líder empresarial global da rede IKEA com mais de 30 anos de experiência, indicado pela Suécia
  • Matthew Crentsil (Gana): Representante do ACNUR em Uganda, com mais de três décadas de experiência na organização
  • Arancha González Laya (Espanha): Ex-Ministra das Relações Exteriores da Espanha, com passagens pela OMC e ONU
  • Pekka Haavisto (Finlândia): Político finlandês, ex-Ministro das Relações Exteriores
  • Anne Hidalgo (França): Prefeita de Paris
  • Szymon Hołownia (Polônia): Presidente do Sejm (Câmara Baixa do Parlamento) da Polônia
  • Christine Schraner Burgener (Suíça): Diplomata suíça, ex-Secretária de Estado para Migração e ex-enviada da ONU para Mianmar
  • Barham Salih (Iraque): Ex-presidente do Iraque, é de etnia curda
  • Joanne Liu (Canadá): médica pediátrica de emergência canadense, professora associada na Universidade McGill e ex-presidente internacional da Médicos Sem Fronteiras (MSF)
  • Nicole de Moor (Bélgica): ex-Secretária de Estado para Asilo e Migração, que contribuiu o Pacto Europeu de Migração e Asilo durante a Presidência belga do Conselho da União Europeia em 2024

A plataforma do ICVA traz ainda uma breve entrevista com cada um dos candidatos já conhecidos.

Incertezas, críticas e “fator Trump”

Mas como esses candidatos são escolhidos e, em seguida, eleitos para chefiar o ACNUR? O pesquisador do Centro de Estudos de Refugiados da Universidade de Oxford e ex-diretor de políticas do ACNUR Jeff Crisp compara esse processo a uma espécie de Conclave – como é escolhido o Papa na Igreja Católica.

“Simplesmente não sabemos que tipos de pressão diferentes Estados exercem sobre o processo, nem quais condições o candidato selecionado é obrigado a aceitar para ser nomeado”, disse Crisp em texto escrito para o portal Refugee History.

Entre outros pontos, o pesquisador também questiona as chances de um candidato vindo de um país do Sul Global ou com real experiência em deslocamento e exílio ascender ao posto, e também se as organizações lideradas por refugiados, em número crescente mundo afora, serão consultadas de alguma forma.

“Normalmente não sabemos como o comissário é escolhido”, disse Hourie Tafech, diretora de liderança e parcerias para refugiados da Refugees International, em entrevista ao podcast Rethinking Humanitarianism, do portal The New Humanitarian, corroborando a visão de Crisp. A entidade integrada por Tafech coorganizou nos últimos meses dois diálogos em Nova York e Genebra com alguns desses candidatos – uma iniciativa considerada uma demonstração rara de transparência nesse processo de seleção.

“Há muita conversa por trás das portas, mas não sabemos como o candidato está sendo selecionado. Estamos tentando mudar isso um pouco agora ao dizer: ‘Não. O próximo candidato tem que entender que precisará lidar com uma agenda liderada por refugiados”, comentou Tafech.

Crisp ainda chama a atenção para o “fator Trump”, uma referência ao atual presidente dos Estados Unidos, quanto a uma possível interferência nesse processo. “Que candidato contará com a aprovação do governo Trump, que, apesar de sua hostilidade em relação a refugiados, solicitantes de asilo e ao sistema da ONU em geral, continua sendo o principal doador do ACNUR?”

Uma mulher para chefiar o ACNUR?

Desde sua criação, em 1951, o ACNUR teve somente uma mulher entre as 11 pessoas que já ocuparam a direção geral da agência. Foi a japonesa Sadako Ogata (1927-2019), alta comissária entre 1991 e 2000, em um período pós-Guerra Fria que vivenciou algumas das maiores crises humanitárias do fim do século XX, como as guerras nos Bálcãs e na região dos Grandes Lagos na África – em especial o genocídio em Ruanda (1994).

Em artigo publicado no portal PassBlue, especializado na cobertura sobre as Nações Unidas, as autoras Susana Malcorra e Noeleen Heyzer defenderam a escolha de uma mulher para voltar a chefiar a agência da ONU para refugiados. E citaram realizações do mandato de Ogata, como a introdução de ecanismos inovadores de coordenação, fortalecimento de parcerias com governos e organizações não governamentais e a defesa de políticas inclusivas, especialmente para mulheres e crianças.

“Uma mulher liderando o ACNUR hoje poderia ser igualmente transformadora. Ela poderia priorizar as necessidades das mulheres refugiadas: segurança, saúde, educação, proteção contra violência de gênero e empoderamento econômico. As mulheres teriam uma voz mais ativa nos processos de tomada de decisão, garantindo que as respostas humanitárias sejam inclusivas e equitativas. Uma mulher no comando também enviaria um sinal global: a igualdade importa. Mulheres refugiadas são desproporcionalmente afetadas pelo deslocamento, enfrentando riscos maiores de violência, exploração e exclusão”, defenderam as autoras.

Outra agência da ONU dedicada à pauta migratória, a OIM (Organização Internacional para as Migrações), já conta com lideranças femininas no momento. A direção-geral está a cargo da estadunidense Amy Pope, a primeira a ocupar o cargo na instituição. Já a nigeriana Ugochi Daniels exerce a diretoria-adjunta de operações.

Veja abaixo a lista completa com todos o alto comissários do ACNUR desde 1951

1951-1956: Gerrit Jan van Heuven Goedhart, Países Baixos
1956-1960: Auguste R. Lindt, Suíça
1960-1965: Félix Schnyder, Suíça
1965-1977: Sadruddin Aga Khan, Irã
1978-1985: Poul Hartling, Dinamarca
1986-1989: Jean-Pierre Hocké, Suíça
1990 (jan-nov): Thorvald Stoltenberg, Noruega
1990-2000: Sadako Ogata, Japão
2001-2005: Ruud Lubbers, Países Baixos
2005-2015: António Guterres, Portugal
2016-atualidade: Filippo Grandi, Itália

Com informações de ICVA, PassBlue, Refugee History e The New Humanitarian


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