Por Gustavo Cavalcante
O resultado da premiação do Oscar 2026, no domingo (15), pode ter deixado um certo sentimento de frustração pelo fato do filme brasileiro “O Agente Secreto” não ter levado prêmios em nenhuma das quatro categorias nas quais foi indicado. No entanto, a produção dirigida por Kleber Mendonça Filho e estrelada por Wagner Moura alcançou feitos históricos e ainda ajudou a expor histórias que revisitam um dos períodos mais sombrios do país de uma forma inovadora e que ganhou aclamação internacional. Além disso, o suspense político ambientado nos anos mais duros da ditadura militar ajuda a recordar que a saída do Brasil foi uma das defesas encontradas para resistir e sobreviver à repressão.
Conhecido por explorar tensões sociais e urbanas em sua filmografia, Kleber Mendonça Filho retorna ao passado para investigar como o clima de vigilância afetava a vida cotidiana no país. A trama é vivenciada nos anos 70, período marcado pela intensificação da censura e da perseguição a opositores do regime. Nesse ambiente, a cidade se transforma em um espaço de desconfiança permanente. Encontros acontecem de forma discreta, conversas são interrompidas por receio de escutas e cada deslocamento carrega a possibilidade de perigo.
No filme, o Recife daquela época surge como um território marcado por vigilância, medo e deslocamentos silenciosos. Personagens transitam por uma cidade onde qualquer movimento pode significar risco. Em um país sob repressão, mudar de endereço, desaparecer por alguns dias ou circular discretamente podia ser uma questão de sobrevivência.
Exílio como recurso
Embora utilize elementos clássicos do suspense como investigação, perseguições e segredos, o filme vai além do gênero. A narrativa observa como o autoritarismo moldava relações pessoais, interferia na rotina das cidades e redefinia a forma como as pessoas se moviam e se relacionavam.
Isso é parte da história do protagonista Marcelo, interpretado por Wagner Moura. Um intelectual acadêmico que, ao bater de frente com um barão que tentava manipular o desenvolvimento científico brasileiro, a fim de ter controle sobre patentes e enriquecimento pessoal, o jovem personagem se vê acuado e o tempo inteiro correndo risco de vida.
Mais do que uma mudança geográfica, esse exílio representava uma ruptura profunda com o cotidiano, com as redes de afeto e com o próprio país de origem. Muitos dos que deixaram o país reconstruíram suas vidas no exterior, mantendo vínculos com a luta pela redemocratização do Brasil.
No fim, ele acaba vendo seus pares intelectuais cedendo à pressão do capital em troca de cargos públicos e, para se proteger do regime militar, é obrigado a trocar de identidade e passa a viver como um mero funcionário em um cartório, enquanto aguarda uma oportunidade para fugir e se salvar. Algo que, no fim, não aconteceu.
Cinema brasileiro revisita histórias de deslocamento
O cenário retratado no filme remete a um período de forte repressão política no Brasil. Após o golpe de 1964, opositores do regime passaram a enfrentar cassações de mandatos, censura à imprensa, vigilância constante e prisões conduzidas por órgãos de segurança do Estado. Diante desse contexto, muitos brasileiros foram obrigados a deixar o país. Intelectuais, artistas, jornalistas e militantes políticos buscaram refúgio em diferentes partes do mundo. O exílio tornou-se uma experiência comum para uma geração que viu suas trajetórias interrompidas pela repressão.
A presença de “O Agente Secreto” na corrida pelo Oscar ocorreu em um momento em que o cinema brasileiro volta a olhar para esse passado recente. O movimento ganhou força após o reconhecimento de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 ao contar a história de Eunice Paiva para defender sua família e lutar pelo marido e ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e depois reconhecido como vítima do regime militar.
Embora partam de caminhos narrativos diferentes, “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” revelam dimensões complementares da experiência do deslocamento durante a ditadura.
No primeiro, a narrativa se aproxima do suspense político para mostrar o ambiente de vigilância e clandestinidade que obrigava personagens a se movimentar constantemente. No segundo, o foco recai sobre o drama familiar e sobre os efeitos duradouros da repressão.
Em comum, os dois filmes revelam como a mobilidade forçada se tornou parte da experiência de milhares de brasileiros — seja pela fuga, pela clandestinidade ou pelo exílio. E a temática se prova como um tema muito debatido atualmente, coroando o cinema brasileiro com indicações ao Oscar por dois anos seguidos.
Ao ganhar visibilidade global, relatos sobre repressão política e exílio buscam dialogar com debates contemporâneos sobre migração e mobilidade humana. Experiências de deslocamento forçado, como as retratadas nesses filmes, continuam a marcar diferentes sociedades ao redor do mundo.
Nesse sentido, o reconhecimento internacional do cinema brasileiro também serve para mostrar a força que narrativas locais são capazes de alcançar uma dimensão universal. Histórias que, ao revisitar o passado, ajudam a iluminar discussões urgentes sobre memória, justiça e direitos humanos.
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