Não é novidade que, desde o ponto de vista sociopolítico e econômico, os Estados Unidos declinam a passos largos. Década a década, ano a ano, o centro das decisões geopolíticas e da produção mundial desloca-se para o continente asiático, com destaque para a China e Índia. Certo. Militarmente, os Estados Unidos seguem com sua liderança incontestada. Mas isso, longe de significar potência hegemônica, é antes sinal de fraqueza. Hegemonia, de fato, segundo o filósofo italiano António Gramsci, não se impõe apenas pelo poderio bélico. Tem a ver, muito mais, com uma superioridade naturalmente reconhecida, consensual e articulada. Refere-se, por exemplo, à capacidade de estabelecer acordos no complexo xadrez internacional das relações comerciais, bem como no jogo da política econômica globalizada. Não está descartada, ainda, a potencialidade das expressões culturais que ajuda a pavimentar o campo da troca de bens, de tecnologia e de saberes.
Por si só, o uso da força militar costuma ser sintoma de desespero. Da mesma forma que um doente em fase terminal tende a tomar remédios cada vez mais fortes, e em maior quantidade, o declínio de uma potência pode ser medido por sua agressividade gratuita, aleatória e indiscriminada. Quando uma pessoa, um grupo ou um país se vê na necessidade de apelar ao poder bélico ou de elevar o tom da voz e dos gritos, evidencia a própria irracionalidade. A falta de razão é substituída pelos punhos e pelas armas. Mas não é só isso! Igual falta de bom senso se revela quando os berros e a força bruta se voltam justamente contra os mais frágeis, indefesos e vulneráveis. No contexto atual, entre esses figuram os imigrantes!
As deportações de estrangeiros dos Estados Unidos (mas não só), com voos frequentes para os países de origem; a política migratória cada vez mais rigorosa, intransigente e intolerante no âmbito da Comunidade Europeia e do Reino Unido; a emergência consideravelmente generalizada de forças de extrema direita, sempre prontas a rechaçar na raiz o processo de imigração, como são os casos de Portugal, Chile, Hungria, Itália, França, entre outros; o aumento progressivo das exigências para conseguir vistos ou o direito de refúgio em numerosos países, com inclusão do Brasil; o crescimento de multidões de migrantes imobilizados nos campos de refugiados, e em situações de grande precariedades, nas várias fronteiras do planeta; e até mesmo as restrições ao turismo numa série de nações; – tudo isso espelha e aponta para o agravamento do preconceito, da discriminação e da xenofobia.
Em tempos de crise e de caos, cresce proporcionalmente o medo do “outro, diferente e estrangeiro”. Aquele que vem de fora tende a se tornar o “bode expiatório” de todos os males sociais e políticos, para não falar das doenças, pestes e epidemias. Enquanto as redes digitais, a opinião pública e a mídia em geral os veem como uma ameaça à ordem normal, as autoridades acionam os mecanismos de segurança nacional. O outro que bate à porta, vindo em especial dos países periféricos, se converte em potencial perigo. Por isso é que, não raro, nas páginas dos jornais, nas telas e telinhas, o noticiário sobre migrações vem com frequência associado ao terrorismo, ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas. Cruzam-se fatos, boatos e imagens que fazem questão de demonizar e criminalizar todo aquele que, forçado por uma série de motivações a deixar o solo pátrio, busca desesperadamente uma nova pátria, “aquela que lhe dê o pão”, como lembrava o bispo de Piacenza, Itália, São João Batista Scalabrini, considerado o “pai e apóstolo dos migrantes”.
Desnecessário acrescentar que nas turbulências da geopolítica mundial, a qual tenta reacomodar as peças do xadrez, os migrantes se encontram no vórtice da tempestade, no olho do furacão, no redemoinho dos ventos contrários e contraditórios. Num vaivém sem rumo e sem porto, correm ao sabor das correntes que movem o capital e a produção, disputam entre si as migalhas que caem da mesa dos mais ricos. Jogados uns contra os outros, não será novidade vê-los trabalhando por um mísero prato de comida. Felizmente, o migrante jamais pode ser reduzido a uma vítima inerme. Parafraseando Euclides da Cunha, ele é “antes de tudo um forte”. Venceu a primeira batalha ao escapar à violência, à guerra, à pobreza à fome. Venceu também as batalhas da dura travessia: criativo e dinâmico, sabe como enfrentar outros obstáculos e adversidades que se erguem pelos caminhos e fronteiras. Não são poucas as comunidades étnicas que, de uma forma ou de outra, se organizam e se mobilizam para “levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, como diz a canção popular. Neste caso, memória e valores culturais são ferramentas indispensáveis!
Sobre o autor
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
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