Atualizada às 18h20 de 29.jul.2026
Uma nova tragédia envolvendo a comunidade migrante em São Paulo vem gerando revolta e cobranças por providências das autoridades, ao mesmo tempo que mostra lacunas existentes em serviços públicos.
O caso mais recente ocorreu na manhã de 22 de julho. O bebê Abdoulaye Dieng, filho de senegaleses que vivem no Brasil, morreu depois de ficar preso em uma grade dentro do Centro de Educação Infantil Luz do Brás, unidade conveniada à prefeitura da capital e gerida por uma instituição privada.
Mesmo após o ocorrido, a unidade ainda seguiu em funcionamento até a sexta-feira (24), quando foi finalmente interditada. Esse fato, inclusive, gerou ainda mais indignação junto à comunidade migrante.
“Como pode o local continuar aberto, e ainda sem uma menção ou manifestação de pesar pela morte do bebê?”, disse uma ativista migrante que acompanha o caso e falou ao MigraMundo sob reserva.
Na última segunda-feira (27), pais de alunos, amigos da família e dezenas de imigrantes – em especial senegaleses – se reuniram em frente à creche para pedir justiça e responsabilização pelo caso.
“Em nenhum momento alguém da escola saiu para falar conosco. Nós não fomos lá para constranger as crianças, mas é muito triste ver que a escola continua funcionando como se nada tivesse acontecido. Nem um gesto de luto. Precisamos que haja uma perícia completa e que essa escola seja inabilitada até que a família consiga, minimamente, justiça”, disse a ativista Mariama Bah, presente ao ato, em entrevista ao portal Brasil de Fato.
O Fórum Nacional de Lideranças Migrantes (Fomigra) divulgou nota de pesar sobre a morte do bebê e cobrou rigor na resolução do caso. “Neste momento de imensa dor, expressamos nossa solidariedade à sua família, amigos e à comunidade senegalesa. Reafirmamos nosso compromisso com a defesa dos direitos da infância, da população migrante e da dignidade humana. Esperamos que os fatos sejam rigorosamente apurados, com transparência, responsabilidade e justiça, para que tragédias como esta jamais se repitam”.
Outras tragédias recentes envolvendo pessoas migrantes levaram a manifestações de rua da comunidade. Um desses casos foi o do vendedor senegalês Ngagne Mbaye, de 34 anos, durante uma operação policial em 11 de abril do ano passado também na região do Brás. A indignação, inclusive, ajudou a Justiça a reverter decisão anterior e reabrir o inquérito sobre o caso, além de tornar réu por homicídio o policial militar autor do tiro que matou o vendedor.
Entenda o caso
Segundo a investigação da Polícia Civil, o bebê de um ano e quatro meses estava em uma sala multiuso com outras crianças quando deitou no chão e colocou a cabeça no vão entre a barra metálica que protege um espelho e a parede. As gravações mostram que ele tentou se desvencilhar durante aproximadamente seis minutos, mas só foi retirado quando monitoras perceberam a situação.
A criança chegou a ser socorrida para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) no bairro da Mooca, mas não resistiu e teve o óbito constatado logo ao chegar ao local.
Ao portal G1, o pai do menino, o vendedor Ibrahima Dieng, contou que deixou o filho na creche por volta das 7h30. Cerca de uma hora e meia depois, recebeu uma ligação informando que a criança havia sofrido um acidente.
“Hoje foi lá na escola e depois ele fala ligar (…) chegou, ele fala ‘cadê criança?’, esperar e depois ele morreu”, disse.
Para o advogado que está representando a família, Erson de Oliveira, as imagens reforçam a suspeita de que a criança estava sem supervisão quando o acidente ocorreu, e que há uma falha grave de vigilância na creche. “”O que foi relatado para a gente é que a criança estava brincando sem supervisão. Ela prendeu a cabeça num ferro que prende um espelho e se asfixiou sem socorro, sem ajuda de ninguém, até falecer”, disse ele, ao G1.
A investigação está a cargo do 8º Distrito Policial (Brás), que trata o caso como homicídio culposo – quando não há intenção de matar. A Polícia Civil solicitou exames ao IML (Instituto Médico Legal) e ao IC (Instituto de Criminalística). A expectativa da equipe de investigação é concluir o inquérito em menos de 30 dias.
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo lamentou o ocorrido e manifestou solidariedade aos familiares e amigos. “Equipes da Diretoria Regional de Educação e do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA) estão prestando o suporte necessário à família.” A pasta também acrescentou que “as circunstâncias da ocorrência no CEI parceiro Luz do Brás estão sendo rigorosamente apuradas pelos órgãos competentes” e que a secretaria colabora integralmente com as investigações.
Ainda de acordo com a gestão municipal, duas funcionárias da creche foram desligadas.
Com informações de Brasil de Fato, G1 e Folha de S.Paulo
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