Naufrágio na Colômbia chama atenção para perigos de rotas migratórias na América

O incidente deixou ao menos 6 mortos e não consiste em um fato isolado na região, a qual representa em uma das rotas de migração mais perigosas

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Colômbia migrantes Venezuela
Mais de 5 milhões de refugiados e migrantes da Venezuela deixaram o país desde 2015, principalmente para países vizinhos, incluindo as ilhas do sul do Caribe. (Foto: Vincent Tremeau/ACNUR)

Na primeira segunda-feira de 2021, uma embarcação com 28 migrantes naufragou no Golfo de Urabá, Colômbia, deixando seis mortos. O ocorrido não é um fato isolado na região, a qual, apesar de ainda apresentar um número bastante menor de vítimas que outros rotas ao redor do mundo, se mostra cada vez mais procurada e arriscada.

Após o endurecimento no monitoramento das fronteiras sul-americanas por parte de seus países, rotas clandestinas — por água e terra — têm sido cada vez mais usadas por migrantes latinos, africanos e asiáticos que visam chegar à América do Norte.

Por conta de sua posição geográfica, a Colômbia tornou-se um dos principais países de trânsito. Entretanto, o uso de coites, a presença de máfias e sua natureza inóspita fazem com que suas rotas apresentem grande perigo para quem as usa.

O naufrágio

O trabalho de busca e resgate ainda está em andamento, uma vez que se presume que a embarcação levasse 28 imigrantes. Até o momento, 9 pessoas foram resgatadas e 14 continuam desaparecidas. Dentre as 6 vítimas fatais, está um menor.

Segundo autoridades do município colombiano de Acandí, duas pessoas que conduziam a embarcação foram detidas. Informações preliminares indicam que os dois estavam transportando migrantes haitianos para o Panamá.

O golfo de Urabá, onde ocorreu o incidente, é uma das principais rotas de trânsito para migrantes africanos, asiáticos e haitianos que buscam chegar aos Estados Unidos pelo mar do Caribe, com paradas em países da América Central.

A presença de migrantes, que pretendem fazer a rota, em municípios como Acandí, Turbo, Capurganá ou Necoclí, localizados na região do Urabá, tornou-se um fenômeno que preocupa e sobrecarrega as capacidades das administrações locais. Como consequência, mortes, acidentes e naufrágios se multiplicam.

Há menos de um mês, em dezembro de 2020, 21 cubanos — 11 homens, 9 mulheres e um bebê de 2 anos —, que pretendiam chegar à América Central para depois seguir aos EUA, foram abandonados pelos coiotes nas águas do Golfo do Urabá após naufragar.

Em setembro do mesmo ano, 94 migrantes haitianos foram resgatados na mesa área, depois de um traficante os ter abandonado em alto mar. Dentre os socorridos estavam 33 menores.

A rota colombiana e seus riscos

Os mortos no naufrágio na Colômbia já constam nos registros do Missing Migrants Project [Projeto de Migrantes Desaparecidos, em tradução livre], mantido pela Organização Internacional para Migrações (OIM) e que monitora dados de migrantes que desaparecem ou morrem em processos migratórios irregulares. Só nos 13 primeiros dias de 2021 o Missing Migrants Project contabiliza 49 mortos, a despeito das restrições à mobilidade humana criadas no âmbito da pandemia.

Além disso, a OIM aponta que entre 2000 e 2017, cerca de 60 mil migrantes morreram em rotas de migração.

Apesar do levantamento feito, o verdadeiro número de migrantes que perderam suas vidas nas travessias é desconhecido. Além de muitas mortes e desaparecimento não serem relatados, as dificuldades geográficas de muitas áreas de rotas migratórias impossibilitam que se verifique o que de fato aconteceu com essas pessoas.

Entre as travessias mais conhecidas está a do Mediterrâneo, que separa a Europa da África. A América do Sul, no entanto, também deve ser vista com bastante atenção, uma vez que se trata de uma região de origem, destino e trânsito para migrantes internacionais. No que diz respeito ao último caso, é considerada uma zona de trânsito para migrantes de diversas nacionalidades que pretendem chegar aos EUA via América Central e México.

Apesar de não ser tão conhecida e divulgada no panorama internacional, a Colômbia faz parte de uma das maiores rotas de migração para os Estados Unidos e Canadá. O Urabá Antioqueño e Chocoano se tornou uma região chave para pessoas que chegam da Ásia, África e ilhas do Mar do Caribe.

A Colômbia é o único país da América do Sul que faz fronteira com a América Central e, por isso, é um dos principais países de trânsito da região para migrantes que viajam para o norte. Há muito anos, africanos, asiáticos ou caribenhos viajam pela Colômbia, entram pelo Equador, cruzam o Vale do Cauca e seguem em direção a Chocó. O uso de coites e a participação de máfias que dirigem o negócio, faz com que estas pessoas enfrentem grande risco para se chegar ao destino desejado.

Em 2010, a antiga Comissão Especial sobre Questões de Migração (CEAM) da Organização dos Estados Americanos (OEA) destacou que a imigração do exterior era um fenômeno “novo e crescente” na América Latina. Atualmente, a América do Sul apresenta fluxos de migrantes econômicos, solicitantes de asilo, refugiados e vítimas de contrabando de migrantes e tráfico de pessoas oriundos, principalmente, da África e da Ásia, aponta o relatório da OIM.

Segundo a Migración Colômbia, agência de imigração da Colômbia, em 2016, foram detectados 33.891 migrantes irregulares. Entre as principais nacionalidades estavam haitianos (20.366), cubanos (8.167), indianos (874), congoleses (570) e nepaleses (553).

A localização geográfica do país, faz com que a Colômbia possua muitas rotas de trânsito em seu território, tanto por via aérea, como terrestre e marítima. Em 2016, três novas rotas de contrabando de migrantes para os Estados Unidos como destino final foram identificadas .

“A primeira é por meio do Departamento de Putumayo (do Equador e do Peru); a segunda é do Brasil, passando pelo Departamento de Amazonas, até o Departamento de Antioquia, onde o destino final na Colômbia é a cidade de Turbo; A última rota identificada é aquela para migrantes que chegam como turistas em voos comerciais para a Ilha de San Andrés e daí de barco para a América Central” apontou o relatório da OIM.

Fonte: OIM, 2017

De acordo com a Migración Colômbia, em agosto de 2016, cerca de 1.800 migrantes foram registrados em Turbo, que é sua última parada antes de entrar no Panamá ou em outros países da América Central. Diante desta situação, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) expressou sua “profunda preocupação com a extrema vulnerabilidade de alguns migrantes que estão presos na cidade colombiana de Turbo, perto da região de Darien, Colômbia, perto da fronteira com o Panamá”. A maior parte migrantes veio de Cuba e Haiti, junto com outros de países africanos e asiáticos, e se dirigiam aos Estados Unidos.

Em resposta ao fluxo migratório, países da América do Sul passam a adotar medidas mais duras nas fronteiras. Como consequência, visando evitar a detecção pelas autoridades oficiais, os migrantes passaram a fazer rotas mais tortuosas e perigosas. “Isso inclui viajar pelas fronteiras amazônicas entre a Bolívia, Brasil, Peru e Equador; a selva densa entre a Colômbia e o Panamá; e o deserto e a zona de minas terrestres no Chile, onde as condições geográficas e climáticas são severas e extremas”, explicou o relatório da OIM.

A floresta presente na fronteira entre a Colômbia e o Panamá é uma das maiores e mais densas do mundo. A região de Darien divide o continente americano em dois, cortando a Rodovia Pan-americana e impossibilitando o trânsito regular de pessoas. Este contexto somado ao maior controle nas fronteiras, fez com que com o passar dos anos a região se tornasse uma das rotas migratórias irregulares mais perigosas da região. 

Migrantes na rota pelo Panamá costumam viajar em pequenos barcos da costa norte da Colômbia, pelo Golfo do Urabá. Quem realiza a rota por esse território enfrenta altas temperaturas, rios bravos, umidade, presença de grupos armados ilegais e contrabandistas. Este cenário, faz com que casos de naufrágios com vítimas de diferentes nacionalidades não seja raridade na região.

Os números da rota

Em 2016, na América Latina,  pelo menos 707 mortes foram registrados em 2016, um aumento de 43% sobre o 493 registrados em 2015. O Projeto de Migrantes Desaparecidos registrou 27 mortes em 2016 na América do Sul, em comparação com apenas 2 mortes registrados em 2015. Destas mortes, 89% ocorreram na Colômbia, a maioria dos quais ocorreram na fronteira do país com o Panamá na região de Darién e no Golfo de Urabá, aponta dados levantados pela da OIM .

O relatório também mostra que, em 2016, 18 mortes foram registradas no Golfo ou perto dele, onde os afogamentos e roubos violentos representam as principais causas de morte.

Quatro mortes foram registradas na área de Darién em 2016, mas o verdadeiro o número de mortes provavelmente é muito maior, uma vez que a região é notoriamente inacessível e nem todos os desaparecimentos e mortes são comunicados. Neste sentido, migrantes que viajaram através da rota relataram a presença de corpos decompostos ao longo do caminho, os quais provavelmente nunca serão identificados e entrarão nas estatísticas.

De acordo com a ONU, só em 2019 cerca de 24.000 pessoas cruzaram os 575.000 hectares que a região de Darien representa. Dentre aquele que chegaram até os EUA e o Canadá, 39 nacionalidades estavam representadas.

No entanto, os números da Migración Colômbia são mais conservadores. A agência garante que em 2019 percorreram 17.668 migrantes por aquela região do país, dos quais 3.170 eram haitianos. Em 2020, em decorrência da pandemia mundial, o número caiu para apenas 3.887.

Em comparação com outras regiões, a América do Sul não apresenta altos números  de mortes durante a travessia. Entretanto, o aumento desses números traz preocupações. Além disso, é preciso lembras que existe uma lacuna significativa de dados  sobre migrantes desaparecidos e mortos na região, o que impede que se saiba ao certo o que está acontecendo no continente e em suas fronteiras.


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