Por Mariana Almeida Silveira Corrêa*
A aversão de Trump aos migrantes do Sul Global já era conhecida desde o seu primeiro mandato. Todavia, em sua versão 2.0, segundo mandato, o presidente se mostrou ainda mais hostil, realizando expulsão em massa de migrantes enquadrados principalmente nas categorias de possíveis criminosos (sem julgamento), indocumentados e estudantes. Trump realiza uma “caça às bruxas” ou um novo Macarthismo em que os migrantes se tornaram o alvo. Esse cenário antidemocrático, de repleta violação dos direitos humanos e de medo, é a principal marca do atual governo dos Estados Unidos da América (EUA). A cada dia é noticiada uma nova medida de restrição a migrantes e até mesmo a turistas de diferentes nacionalidades, desencantando o tão famoso “sonho americano”. Ainda, frequentemente, há notícias de pessoas que tiveram sua entrada negada por portar conteúdo contra o presidente em dispositivos eletrônicos. Contudo, os principais alvos são os indivíduos em situação de vulnerabilidade, como os venezuelanos, estimados em cerca de 700 mil no país.
A Venezuela é um país em grave crise humanitária. Desde 2016, mais de 8 milhões de venezuelanos foram forçados a migrar, fugindo do colapso econômico, político, sanitário e de abastecimento instalado no país. A maioria desses indivíduos se deslocou para países da América do Sul. Em 2019, os quatro principais destinos eram: Colômbia (1,2 milhão), Peru (725 mil), Chile (288 mil) e Equador (249 mil). No entanto, as medidas securitárias implementadas por esses países, aliadas à xenofobia e, em alguns casos, à insuficiente capacidade institucional para lidar com grandes fluxos de pessoas, dificultaram as condições de vida dessa população, deixando-os em situação de grande vulnerabilidade. Como se sabe, medidas restritivas de entrada e de regularização não dissuadem a migração, principalmente quando ela é forçada. O que ocorre, na realidade, é o agravamento da precariedade vivenciada por essa população.
Durante a pandemia de Covid-19 esse cenário se agravou com as regras de distanciamento social. O fechamento do comércio e a restrição de circulação deixaram grande parte dos venezuelanos sem fonte de renda e, em alguns casos, sem moradia, uma vez que a maioria vivia em habitações alugadas, frequentemente, sem um contrato formal. Nesse contexto, muitos começaram a retornar para a Venezuela ou a buscar outro país de destino. O fim da pandemia não cessou esse fluxo em direção a outros países da América do Sul, nem o retorno à Venezuela. A insatisfação e a situação precária em que se encontravam no país de acolhida os fizeram optar por outro destino. Alguns, que inicialmente planejavam se estabelecer na Colômbia, após enfrentarem dificuldades nesse país, seguiram para o Equador, onde permaneceram por um período em condições também precárias, o que os levou a migrar novamente, desta vez em direção ao Peru. A fragmentação da migração é muito presente nesse fluxo migratório. Na fronteira do Peru com o Equador, em 2022, por exemplo, era recorrente o fluxo de venezuelanos em ambas as direções – uns pretendiam chegar ao Chile, enquanto outros desejavam retornar à Venezuela.
Diante da frustração experimentada na América do Sul somada a experiência em cruzar países por via terrestre (caminhando ou de ônibus), muitos venezuelanos vislumbraram o “sonho americano”. Os EUA como destino eram frequentemente relatados por aqueles que retornavam do Chile, Peru, Equador ou Colômbia em direção à Venezuela. Muitos que moravam nesses países tinham a percepção de existirem melhores oportunidades e condições de vida nos EUA do que na América Latina. A selva de Darién entre a Colômbia e o Panamá, extremamente perigosa, não parecia ser tão difícil de cruzar para aqueles que já haviam enfrentado condições extremas ao longo do deslocamento pela América do Sul. Em torno de 1 milhão de venezuelanos atravessaram essa região em direção ao norte entre 2022 e 2024.
As exigências de entrada nos EUA empurram muitos venezuelanos para o ingresso irregular no país. Até 2022, alguns solicitavam refúgio após cruzarem a fronteira, mas essa proteção internacional foi dificultada durante o governo Biden. Por outro lado, o ex-presidente, em 2021, implementou o “Status de Proteção Temporária” (TPS) para os venezuelanos que já estivessem no território dos EUA. Esse documento garante a proteção contra deportação e concede autorização de trabalho. Ademais, em 2022, a mesma gestão criou o programa de liberdade condicional humanitária para Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela (CHNV), o qual permitia a entrada legal de indivíduos dessas nacionalidades nos EUA. Todavia, era necessário cumprir algumas exigências, como ter um patrocinador residente legal nos EUA que comprovasse ter condições financeiras para sustentar o solicitante CHNV e passar por verificações de segurança. O documento garantia a entrada legal, a permanência e a possibilidade de trabalhar por dois anos no país, período no qual deviam buscar outro mecanismo de proteção como a solicitação da condição de refugiado ou regularização por outra categoria migratória.
Até janeiro de 2025, cerca de 607 mil venezuelanos haviam se beneficiado desse programa. Além disso, alguns nacionais da Venezuela ingressaram, nos EUA, pelo programa de reassentamento (USRAP), que existe desde o “Refugee Act” de 1980. De acordo com os dados, em 2024, essa foi a terceira principal nacionalidade a usufruir do programa. No entanto, ainda que muitos venezuelanos não reunissem os critérios para a obtenção do CHNV e não fossem contemplados pelo programa de reassentamento, essas medidas representavam uma esperança em concretizar o “sonho americano”, mesmo para aqueles que haviam entrado e permanecido em situação irregular e de vulnerabilidade nos EUA.
Contudo, o governo Trump 2.0 desencantou o sonho e o transformou em pesadelo. Logo, no início de seu mandato, proibiu o acesso a solicitações de refúgio na fronteira sul dos EUA. Ainda em janeiro de 2025, suspendeu o programa de reassentamento (USRAP) por tempo indeterminado alegando que a ordem de suspensão permaneceria “até que a entrada de refugiados nos EUA esteja alinhada aos interesses dos EUA” (White House, 2025). Em junho de 2025, encerrou o programa de liberdade condicional humanitária, o qual havia contemplado cerca de 500 mil pessoas. O governo enviou um comunicado aos participantes do programa, informando-os que as respectivas permissões para viver e trabalhar haviam sido revogadas e que deveriam deixar o território dos EUA. Trump 2.0 também revogou o TPS para os venezuelanos, porém a medida foi suspensa apenas para parte dos beneficiários a depender da data de requerimento de renovação, outros ainda têm sua autorização válida de trabalho até outubro de 2026. Desde setembro de 2025, mais de 500 mil venezuelanos precisaram deixar o país em 60 dias após a revogação de seus TPS. Além disso, em 9 de junho de 2025, o presidente restringiu a entrada de venezuelanos no país, mesmo para aqueles que possuíam visto. Ainda, em 3 de dezembro de 2025, Trump suspendeu os pedidos de imigração, incluindo “Green Card” e cidadania, para nacionais da Venezuela e de outros 18 países.
De acordo com os dados mais recentes de dezembro de 2024, os EUA figuram como o terceiro principal Estado receptor de nacionais da Venezuela (987 mil). Trump 2.0, além de suspender os programas que beneficiavam essa população e revogar a documentação de milhares dessa nacionalidade, realizou deportações em massa. A mais controversa ocorreu em 15 de março de 2025, quando mais de 200 venezuelanos foram enviados a uma prisão de segurança máxima (CECOT) em El Salvador, com base numa normativa do final do século XVIII, intitulada “Lei dos Inimigos Estrangeiros” e utilizada somente em tempos de guerra. O governo estadunidense acusou os deportados de serem parte de uma gangue chamada “Tren de Aragua”, porém a ação não respeitou o devido processo legal. No entanto, em abril, a Suprema Corte dos EUA ordenou a suspensão de novas deportações que se embasassem na lei de 1798. Após esse episódio, Maduro passou a aceitar a repatriação forçada de seus nacionais. Assim, já, em 24 do mesmo mês, 200 venezuelanos indocumentados foram deportados para a Venezuela através de Honduras.
A “caça às bruxas” promovida por Trump 2.0 agravou a situação de vulnerabilidade para os venezuelanos nos EUA, inclusive para muitos que estavam em situação regular e se tornaram indocumentados após a suspensão dos programas TPS e CHNV. O temor crescente entre os migrantes no país não é exclusivo dos venezuelanos – prisões violentas e arbitrárias de pessoas em condição regular e irregular são frequentes.
O “sonho americano” não desencantou apenas para aqueles provenientes da Venezuela, mas essa população, já em situação de grande vulnerabilidade, foi intensamente atingida. Ademais, a suspensão dos três programas do governo que contemplavam essa nacionalidade levou a esperança de uma população que já havia experienciado situações de escassez, precariedade e violência em seu país de origem e em outros Estados da América do Sul. Além disso, o corte de gastos da USAID realizado também por Trump 2.0 reduziu drasticamente as verbas das organizações que prestam auxílio humanitário, incluindo aquelas que atuam na América Latina. Assim, mesmo os venezuelanos que se encontram em outros países da região, longe do território estadunidense, também sofreram os impactos das medidas implementadas por Trump 2.0.
Em 3 de janeiro de 2026, essa história ganhou um novo capítulo. Após inúmeros bombardeios a navios venezuelanos que supostamente estariam levando drogas para os EUA, tropas estadunidenses realizaram um ataque à Venezuela, sequestrando o ditador Nicolás Maduro e sua esposa. Tal incursão foi justificada por Trump como defesa da democracia e combate ao narcoterrorismo. De acordo com o presidente dos EUA, Maduro seria líder de um cartel de drogas chamado “Cartel de los Soles”, responsável pela exportação de entorpecentes para os EUA. No entanto, em poucos dias, esta acusação já foi alterada em tribunal norte-americano. O argumento utilizado de defesa da democracia também é controverso, uma vez que Trump já declarou que a democracia na Venezuela não é sua prioridade. Além disso, a mesma estrutura chavista foi mantida no poder, tendo a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumido o cargo de presidente interina. Trump ainda descartou qualquer possibilidade de María Corina Machado, opositora nas últimas eleições, se estabelecer no poder. A principal preocupação do presidente estadunidense é com a indústria do petróleo, sobre a qual declarou estar sob seu controle.
Apesar do ataque ao território venezuelano e da violação da soberania e do direito internacional, muitos venezuelanos, principalmente aqueles no exterior, apoiam a atuação de Trump no país. Ainda que muitos saibam que o interesse dos EUA é no petróleo, eles acreditam no mito do herói salvador materializado na figura do presidente norte-americano. Parece inusitado que aquele responsável pela “caça às bruxas” de venezuelanos migrantes em território estadunidense seja considerado o libertador da nação que ele perseguiu em seu território. Todavia, os duros anos de repressão, de perseguição política e escassez promovidos pelo chavismo tornam um possível “algoz” em esperança. O sonho de retornar a casa, o sonho da liberdade política, o sonho da libertação dos presos políticos e o sonho de uma vida em sua terra natal deixam em segundo plano a perseguição contra os venezuelanos nos EUA. Até mesmo porque “o sonho americano” talvez não fosse mais necessário se o seu país se tornasse o que eles acreditam que poderia ser.
Contudo, é um cenário muito incerto, dependendo da atuação dos EUA na Venezuela, o fluxo migratório em direção a outros países poderá aumentar. E como ficarão “o sonho americano” e a visão sobre o seu “salvador”? Aquele que desencantou o sonho americano se sustentará como o salvador da Venezuela a longo prazo ou se tornará o segundo “algoz” do país? Essas perguntas só poderão ser respondidas no desenrolar dos eventos. No momento, parece apenas que o controle da indústria do petróleo mudou de mãos, enquanto o regime e as condições de vida dos indivíduos permanecem os mesmos.
Sobre a autora
Mariana Corrêa é doutora em Relações Internacionais pelo IRI-USP, mestra em Estudos Africanos pela Universidade de Lisboa e bacharela em Relações Internacionais.
Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link
O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

