Além de parceiros comerciais, Brasil e China agora contam com uma reciprocidade na questão de vistos de turismo e negócios. Uma abertura que, segundo especialistas ouvidos pelo MigraMundo, deve beneficiar ambas as partes e traz consigo uma mensagem importante no contexto atual.
Na última sexta-feira (23), o governo brasileiro informou que concederá isenção de algumas categorias de vistos de curta duração a cidadãos chineses. Embora o Brasil ainda não tenha informado exatamente quais serão os tipos de vistos incluídos nessa isenção, o objetivo da medida é facilitar o intercâmbio de pessoas entre o país asiático e outras regiões, no contexto de aproximação da China com a América Latina e outros blocos.
A decisão foi tomada após uma conversa na quinta-feira (22) entre o presidente Lula e o mandatário chinês, Xi Jinping. Ela é uma reciprocidade ao que já foi feito pela China em junho de 2025, quando incluiu o Brasil em uma lista de 45 países dispensados de visto de entrada para turismo e negócios. Na América do Sul, também foram beneficiados cidadãos de Argentina, Chile, Peru e Uruguai.
Por meio de nota divulgada na sexta, o Palácio do Planalto explicou que a isenção ocorre no contexto da ampliação da cooperação em áreas da “fronteira do conhecimento”.
Potenciais
A liberação dos vistos entre os dois países foi bem recebida por participantes do mercado de Mobilidade Global ouvidos pelo MigraMundo.
“A China é hoje um dos países que mais envia profissionais para o Brasil. A isenção de vistos, ainda que de curta duração, facilitará o intercâmbio e dará uma resposta ativa do interesse político-econômico brasileiro nesse intercâmbio”, disse Marta Mitico, presidente da ABEMMI (Associação Brasileira de Especialistas em Migração e Mobilidade Internacional), que congrega dezenas de empresas e institutos que trabalham com migração.
Para a advogada Karina Chuquimia, fundadora e diretora da empresa Immigration Consulting, a medida responde a dificuldades que já vinham sendo enfrentadas no âmbito consular no Brasil, especialmente por executivos no momento de solicitar vistos de negócios, o que muitas vezes limitava viagens e negociações presenciais.
“A iniciativa tende a facilitar esse fluxo, fortalecer a relação bilateral e estimular a economia, desde que sejam mantidos critérios adequados de controle migratório e respeitada a finalidade específica da isenção”.
Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), destacou que o anúncio vai além de um gesto de reciprocidade e reforça a solidez de uma relação construída ao longo de mais de 50 anos entre os dois países.
“É um movimento que consolida a confiança mútua e demonstra maturidade diplomática entre dois países que mantêm uma parceria estratégica de longo prazo. Ao isentar cidadãos chineses de visto, o Brasil fortalece uma agenda que vai além do comércio, abrangendo intercâmbios culturais, educacionais, turísticos e de negócios, em linha com a trajetória histórica da relação bilateral”.
Law acrescentou ainda que tal movimentação representa um sinal de abertura responsável e de compromisso com o diálogo internacional por parte do Brasil.
“Ao facilitar a entrada de cidadãos chineses, o país reforça uma diplomacia baseada na cooperação, na construção de pontes e na aproximação entre sociedades. Essa postura contribui para fortalecer a imagem do Brasil como um país aberto ao intercâmbio cultural, ao turismo e aos negócios, além de favorecer relações internacionais mais equilibradas e construtivas”.
Política de vistos
O Brasil costuma historicamente a aplicar o princípio da reciprocidade diplomática para concessão de vistos a pessoas de outros países. Ou seja, exige o documento de todas as nações que pedem o mesmo, como ocorre com os Estados Unidos e o Canadá. Por outro lado, cidadãos brasileiros estão isentos de visto para turista em diversos países da Europa, América Latina, África e Ásia, entre outros exemplos.
Essa tradição da reciprocidade diplomática foi quebrada em 2019, quando o então presidente Jair Bolsonaro (2019-2023) decidiu deixar de exigir visto de turistas de quatro países (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão), sem que o mesmo tratamento fosse adotado para os brasileiros. O argumento adotado à época foi o de fomento ao turismo nacional.
Contrária à medida tomada pelo governo anterior por entender a dinâmica dos vistos sob a perspectiva da reciprocidade, a gestão Lula (2023-2026) conseguiu retomar a exigência do documento para cidadãos estadunidenses, canadenses e australianos. No caso dos japoneses, o Brasil chegou a um acordo e desde setembro de 2023 os cidadãos de ambos os países estão dispensados da exigência de visto para estadias de até 90 dias – semelhante ao que acontece com viajantes brasileiros em relação a boa parte dos países europeus.
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