publicidade
terça-feira, maio 19, 2026

7,9 mil migrantes morreram em travessias em 2025, segundo OIM; relatório destaca impacto sobre famílias

Desde o início do monitoramento, em 2014, mais de 82 mil migrantes morreram ou desapareceram em rotas migratórias; dados reais podem ser ainda maiores, devido a limitações diversas

O mundo registrou 7.904 migrantes mortos ou desaparecidos em travessias durante o ano de 2025, segundo relatório divulgado na terça-feira (21) pela OIM, a Agência da ONU para as Migrações, por meio do Missing Migrants Project. A iniciativa, que existe desde 2014, monitora casos de pessoas que perdem a vida ou somem em deslocamentos.

Embora o dado represente uma interrupção na série de altas anuais que vinham sendo registradas desde a pandemia (2020), o ano passado foi o quarto mais letal desde o começo da série histórica.

Segundo a OIM, a queda de 2025 “está vinculada em parte a uma redução real do número de pessoas que tentam seguir pelas rotas migratórias irregulares e perigosas”, em particular no continente americano.

Considerando os registros obtidos desde 2014, um total de 82,9 mil migrantes morreram ou desapareceram em rotas migratórias. A OIM reconhece, no entanto, que o dado real pode ser ainda maior, pois muitos casos não são devidamente documentados – a agência da ONU utiliza registros oficiais, reportagens da mídia e informações de missões da OIM em todo o mundo para obter tais dados.

Além do Mediterrâneo

O mar Mediterrâneo voltou a figurar como a rota migratória mais letal (respondendo por 43% do total de registros). No entanto, o relatório da OIM destaca que outras regiões do planeta estão ganhando destaque, como a travessia entre o oeste da África e as Ilhas Canárias (arquipélago que pertence à Espanha), e a área entre o Chifre da África e o Iêmen, no sul da Península Arábica.

Segundo a agência da ONU, isso se deve a um conjunto de fatores: implementação de medidas mais rígidas de controle por parte de certos países – como Estados Unidos e Estados-membros da União Europeia – , conflitos em curso e questões ambientais que alteram rotas já estabelecidas e criam ou reativam travessias em outras regiões.

Em rotas terrestres, a Agência da ONU para as Migrações aponta para o alto número de afegãos que morreram em 2025 durante trânsito pelo vizinho Irã – foram 1.323 registros, contra 1.265 no ano anterior. Com isso, se tornaram a nacionalidade mais representada em mortes e desaparecimentos no monitoramento da OIM – que também identificou afegãos que perderam a vida em outros países, como Turquia, Bulgária e Sérvia.

Vale lembrar que o Afeganistão representa uma das crises humanitárias mais severas e longas em curso no mundo, e que ganhou novo impulso a partir do retorno do grupo extremista Taleban ao poder no país.

A Baía de Bengala e o Mar de Andaman, no sudeste asiático, também são mencionados no relatório da OIM por conta de seguidos registros de naufrágios de embarcações com migrantes. Trata-se de um reflexo de outra crise humanitária, a dos refugiados rohingya que tentam deixar Mianmar, onde são alvo de perseguição. Quase 900 indivíduos morreram ou desapareceram nessa região em 2025.

Embarcações usadas por migrantes em praia no Iêmen. Milhares de pessoas se arriscam em travessias marítimas mundo afora em busca de melhores condições de vida em outros países.
(Foto: OIM)

Impacto sobre famílias

Uma novidade do relatório da OIM sobre mortos e desaparecidos em travessias migratórias é o de tentar mensurar o impacto dessas perdas junto às famílias. Estima-se que pelo menos cerca de 340 mil familiares tenham sido diretamente afetados.

“Como tão poucos migrantes desaparecidos são identificados, é provável que a maioria dessas centenas de milhares de famílias continue procurando por um ente querido desaparecido, enfrentando profundas dificuldades psicológicas, sociais, legais e econômicas decorrentes da falta de respostas e de encerramento dessa situação”, destaca trecho do estudo.

“As rotas estão mudando em resposta a conflitos, pressões climáticas e alterações nas políticas, mas os riscos ainda são muito reais”, afirmou Amy Pope, Diretora-Geral da OIM, em comunicado à imprensa. “Por trás desses números estão pessoas enfrentando jornadas perigosas e famílias que ficam esperando por notícias que podem nunca chegar. Os dados são essenciais para compreender essas rotas e desenhar intervenções que possam reduzir riscos, salvar vidas e promover caminhos migratórios mais seguros.”

Assim como outras agências da ONU, a OIM também usou o relatório para fazer um novo apelo por recursos, em um contexto internacional no qual cada vez menos países se mostram propensos à ajuda humanitária. “A organização afirma que as evidências são claras: menos movimentos não significam automaticamente viagens mais seguras, e salvar vidas exige maior cooperação internacional e investimento contínuo em respostas baseadas em evidências”.

A própria OIM veio de um 2025 bastante difícil, impactada sobretudo pelo fim da USAID, agência humanitária dos Estados Unidos, por ordem do governo de Donald Trump. A entidade teve de dispensar 20% dos funcionários de sua sede, em Genebra, além de realocar profissionais e operações locais por conta do orçamento 30% menor em relação a 2024.

Em dezembro de 2025, a OIM fez um apelo público de US$ 4,7 bilhões para prestar apoio a cerca de 41 milhões de pessoas em situação de deslocamento e reforçar sistemas que promovam uma migração ordenada, regular e segura.


Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link

O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

Publicidade

Últimas Noticías