O mundo registrou 7.904 migrantes mortos ou desaparecidos em travessias durante o ano de 2025, segundo relatório divulgado na terça-feira (21) pela OIM, a Agência da ONU para as Migrações, por meio do Missing Migrants Project. A iniciativa, que existe desde 2014, monitora casos de pessoas que perdem a vida ou somem em deslocamentos.
Embora o dado represente uma interrupção na série de altas anuais que vinham sendo registradas desde a pandemia (2020), o ano passado foi o quarto mais letal desde o começo da série histórica.
Segundo a OIM, a queda de 2025 “está vinculada em parte a uma redução real do número de pessoas que tentam seguir pelas rotas migratórias irregulares e perigosas”, em particular no continente americano.
Considerando os registros obtidos desde 2014, um total de 82,9 mil migrantes morreram ou desapareceram em rotas migratórias. A OIM reconhece, no entanto, que o dado real pode ser ainda maior, pois muitos casos não são devidamente documentados – a agência da ONU utiliza registros oficiais, reportagens da mídia e informações de missões da OIM em todo o mundo para obter tais dados.
Além do Mediterrâneo
O mar Mediterrâneo voltou a figurar como a rota migratória mais letal (respondendo por 43% do total de registros). No entanto, o relatório da OIM destaca que outras regiões do planeta estão ganhando destaque, como a travessia entre o oeste da África e as Ilhas Canárias (arquipélago que pertence à Espanha), e a área entre o Chifre da África e o Iêmen, no sul da Península Arábica.
Segundo a agência da ONU, isso se deve a um conjunto de fatores: implementação de medidas mais rígidas de controle por parte de certos países – como Estados Unidos e Estados-membros da União Europeia – , conflitos em curso e questões ambientais que alteram rotas já estabelecidas e criam ou reativam travessias em outras regiões.
Em rotas terrestres, a Agência da ONU para as Migrações aponta para o alto número de afegãos que morreram em 2025 durante trânsito pelo vizinho Irã – foram 1.323 registros, contra 1.265 no ano anterior. Com isso, se tornaram a nacionalidade mais representada em mortes e desaparecimentos no monitoramento da OIM – que também identificou afegãos que perderam a vida em outros países, como Turquia, Bulgária e Sérvia.
Vale lembrar que o Afeganistão representa uma das crises humanitárias mais severas e longas em curso no mundo, e que ganhou novo impulso a partir do retorno do grupo extremista Taleban ao poder no país.
A Baía de Bengala e o Mar de Andaman, no sudeste asiático, também são mencionados no relatório da OIM por conta de seguidos registros de naufrágios de embarcações com migrantes. Trata-se de um reflexo de outra crise humanitária, a dos refugiados rohingya que tentam deixar Mianmar, onde são alvo de perseguição. Quase 900 indivíduos morreram ou desapareceram nessa região em 2025.

(Foto: OIM)
Impacto sobre famílias
Uma novidade do relatório da OIM sobre mortos e desaparecidos em travessias migratórias é o de tentar mensurar o impacto dessas perdas junto às famílias. Estima-se que pelo menos cerca de 340 mil familiares tenham sido diretamente afetados.
“Como tão poucos migrantes desaparecidos são identificados, é provável que a maioria dessas centenas de milhares de famílias continue procurando por um ente querido desaparecido, enfrentando profundas dificuldades psicológicas, sociais, legais e econômicas decorrentes da falta de respostas e de encerramento dessa situação”, destaca trecho do estudo.
“As rotas estão mudando em resposta a conflitos, pressões climáticas e alterações nas políticas, mas os riscos ainda são muito reais”, afirmou Amy Pope, Diretora-Geral da OIM, em comunicado à imprensa. “Por trás desses números estão pessoas enfrentando jornadas perigosas e famílias que ficam esperando por notícias que podem nunca chegar. Os dados são essenciais para compreender essas rotas e desenhar intervenções que possam reduzir riscos, salvar vidas e promover caminhos migratórios mais seguros.”
Assim como outras agências da ONU, a OIM também usou o relatório para fazer um novo apelo por recursos, em um contexto internacional no qual cada vez menos países se mostram propensos à ajuda humanitária. “A organização afirma que as evidências são claras: menos movimentos não significam automaticamente viagens mais seguras, e salvar vidas exige maior cooperação internacional e investimento contínuo em respostas baseadas em evidências”.
A própria OIM veio de um 2025 bastante difícil, impactada sobretudo pelo fim da USAID, agência humanitária dos Estados Unidos, por ordem do governo de Donald Trump. A entidade teve de dispensar 20% dos funcionários de sua sede, em Genebra, além de realocar profissionais e operações locais por conta do orçamento 30% menor em relação a 2024.
Em dezembro de 2025, a OIM fez um apelo público de US$ 4,7 bilhões para prestar apoio a cerca de 41 milhões de pessoas em situação de deslocamento e reforçar sistemas que promovam uma migração ordenada, regular e segura.
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