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quarta-feira, abril 29, 2026

Catástrofe humanitária: guerra no Oriente Médio gera milhões de deslocados no Irã e Líbano

Guerra em curso desde o final de fevereiro gera efeitos que se sobrepõem a crises de longa duração já vivenciadas pelos dois países

Por Gustavo Cavalcante

Imagine um país com 20% de sua população em situação de deslocamento forçado, enquanto outro conta com cerca de 3,2 milhões de pessoas nessa condição. É o que acontece respectivamente com o Líbano e o Irã, os dois principais palcos do conflito em curso no Oriente Médio desde 28 de fevereiro. 

Os dados acima, levantados pela ONU, ajudam a dar uma ideia do custo humano que esse conflito vem gerando. Nas palavras da organização, o que o Oriente Médio vive atualmente já é uma catástrofe humanitária. E que, além do peso do atual conflito, atinge diretamente dois países que figuram historicamente como locais de destino de refugiados no mundo, por estarem próximos de locais que vivem crises humanitárias de longa duração. 

Enquanto o Irã é um ponto de recepção de pessoas que fogem do vizinho Afeganistão, o Líbano é o país com a maior presença de refugiados per capita – um em cada oito habitantes é um deslocado internacional, sobretudo da Síria. A atual guerra, inclusive, tem feito com que sírios estabelecidos em território libanês retornem à terra natal, mesmo diante de condições ainda instáveis.

As hostilidades tiveram início em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel se uniram para bombardear o Irã. Os primeiros ataques mataram figuras importantes do comando do país, como o aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo iraniano. Tel Aviv, por sua vez, abriu nova frente no sul do Líbano, dias depois, ao revidar um ataque do grupo Hezbollah, que é apoiado pelo Irã e que divide opiniões na sociedade libanesa.

Desde então, o conflito ganhou escala e afetou toda a região conhecida como Oriente Médio, com países considerados aliados dos Estados Unidos recebendo ataques do Irã, mas tendo o próprio Irã e o Líbano como locais mais críticos. E o custo humano vem crescendo junto com o prolongamento das hostilidades.

Condições em degradação

O aumento dos ataques militares nas últimas semanas ampliou os danos à infraestrutura civil no Irã. Segundo dados de organizações humanitárias e autoridades locais, centenas de instalações essenciais foram atingidas, incluindo ao menos 282 centros de saúde e cerca de 600 escolas. Além disso, dezenas de milhares de residências sofreram danos diretos, especialmente em áreas urbanas densamente povoadas, como a capital Teerã, onde bairros inteiros foram afetados por bombardeios sucessivos.

Os impactos desses ataques se refletem também na sobrecarga dos serviços públicos. Hospitais operam acima da capacidade, lidando simultaneamente com vítimas da guerra e com a escassez de insumos médicos, enquanto sistemas de energia, transporte e abastecimento de água enfrentam interrupções frequentes. A destruição de instalações estratégicas, como refinarias e estruturas de filtragem de água, contribui para um cenário de instabilidade que afeta diretamente as condições de vida da população civil.

Além dos danos materiais, o número de vítimas continua a crescer. Estimativas variam entre 1.400 e 3.000 civis mortos desde o início da ofensiva, enquanto mais de 20 mil pessoas ficaram feridas. Organizações independentes e redes de ativistas apontam que esses números podem ser ainda maiores, diante das dificuldades de acesso a algumas áreas e da limitação de informações oficiais em meio ao conflito.

No caso do Líbano, já foram confirmados até o momento 1.260 mortos e 3.750 feridos nos ataques israelenses. A intensificação das operações militares no sul do país amplia o deslocamento populacional. Ordens de evacuação emitidas por Israel já cobrem cerca de 14% do território libanês, sobretudo áreas próximas ao rio Litani. A expansão da presença militar na região tem levado à retirada forçada de comunidades inteiras, em meio a um cenário de incerteza e restrição de mobilidade.

Há ainda a memória recente da ocupação israelense dessa região, entre 1982 e 2000, que chega junto com planos do Exército de Israel de retomar essa prática por tempo indeterminado. Dentro do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu há até quem defenda o exercício de “soberania” por Israel no sul do Líbano.

A amplitude dos ataques também tem gerado preocupações quanto ao direito internacional humanitário e saúde mental da população. Segundo relato da ONG Médicos Sem Fronteiras ao jornal Folha de S.Paulo, muitos dos deslocados atendidos no Líbano estão com ansiedade e depressão. No Irã, por sua vez, há relatos recorrentes de bombardeios próximos ou em áreas sem valor militar estratégico evidente, o que levanta questionamentos sobre a proteção de civis.

Fluxos migratórios

À medida que o conflito avança, os movimentos transfronteiriços começam a ganhar maior visibilidade. A Turquia se consolida como a principal rota de saída para quem deixa o Irã. Dados recentes apontam que cerca de 3 mil pessoas têm cruzado diariamente a fronteira, enquanto, ao longo de março de 2026, foram registradas 51.582 entradas de iranianos na Turquia.

Grande parte desses deslocamentos ocorre por vias terrestres, especialmente pela fronteira de Kapiköy-Razi, e inclui perfis variados, desde famílias em busca de segurança temporária até indivíduos que planejam seguir viagem para outros destinos. A permanência na Turquia, em muitos casos, é provisória, com uso de vistos de curta duração enquanto os deslocados avaliam possibilidades de retorno ou de migração para outros países.

No Líbano, o fluxo migratório externo tem como principal destino a vizinha Síria. Mais de 125 mil pessoas já cruzaram a fronteira nas últimas semanas, em um movimento marcado pela presença significativa de crianças, que representam quase metade desse total. Esse deslocamento ocorre em meio a condições adversas e reflete tanto a intensificação da violência quanto a limitação de alternativas imediatas para a população afetada.

Para parte dos refugiados, especialmente aqueles com mais recursos, a jornada segue em direção à Europa, com países como a Alemanha figurando como destinos finais. Esse trajeto, no entanto, envolve etapas intermediárias e custos elevados, o que restringe o acesso a uma parcela menor da população deslocada. Ao mesmo tempo, países como Iraque e Paquistão registram fluxos mais reduzidos, sem indicativos, até o momento, de pressão significativa em suas fronteiras.

Apesar desses movimentos, os fluxos internacionais ainda são considerados relativamente controlados, em grande parte devido a restrições impostas nas fronteiras e aos custos envolvidos no deslocamento. Barreiras administrativas, exigências de documentação e limitações financeiras dificultam a saída de uma parcela grande dessas populações, que permanece no interior dos países afetados mesmo diante da deterioração das condições de vida.

Ainda assim, há sinais de que esse cenário pode se alterar rapidamente. A continuidade dos ataques e a destruição progressiva de infraestrutura, além da falta de uma previsão clara para um acordo dos países envolvidos nos conflitos, tendem a ampliar o número de pessoas que buscam deixar a região. Organismos internacionais já apontam para perdas econômicas estimadas em US$ 63 bilhões na região afetada, o que agrava a instabilidade e pode acelerar os fluxos migratórios. Nesse contexto, cresce o risco de que a crise evolua de um deslocamento predominantemente interno para uma crise humanitária de alcance global.

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