Por Clarissa Paiva
O desaparecimento de Miguel Lau Mbiya, jovem migrante de apenas 17 anos, expõe de forma contundente as fragilidades ainda presentes nos mecanismos de busca e proteção de pessoas desaparecidas no Brasil. Miguel foi visto pela última vez em 23 de agosto de 2025, nas proximidades da estação Luz, na região central de São Paulo. Desde então, sua família vive a angústia de não ter notícias de seu paradeiro.
Negro e migrante (de mãe congolesa e documentação angolana), Miguel representa um perfil que, historicamente, enfrenta camadas adicionais de invisibilidade e vulnerabilidade. Seu caso mobiliza familiares, amigos e a comunidade migrante, que têm se articulado para ampliar a divulgação de informações e sensibilizar a sociedade para a urgência das buscas.
No dia 4 de abril, já em meio à incerteza e à dor, Miguel completou 17 anos longe de casa. Uma data que deveria ser de celebração, mas que se tornou mais um marco da sua ausência.
Apoio das Mães da Sé e obstáculos
Na tentativa de avançar nas investigações, a família tem recorrido a diferentes ferramentas disponíveis. Uma nova imagem de Miguel foi gerada pelo programa Family Faces, um aplicativo desenvolvido pela Mult-Connect em parceria com a Microsoft e a organização Mães da Sé.
Essa tecnologia utiliza reconhecimento facial para cruzar fotos enviadas por usuários com bancos de dados de pessoas desaparecidas. Quando há semelhança, é possível emitir alertas que auxiliam as entidades responsáveis a aprofundar a apuração do caso.
As redes sociais da organização Mães da Sé também compartilharam a nova foto de Miguel gerada pelo Family Faces.
Ainda que iniciativas como essa representem avanços importantes no uso da tecnologia em prol da busca por desaparecidos, não substituem a atuação eficiente e coordenada do poder público.
Nesse sentido, a família de Miguel também enfrenta obstáculos significativos no acesso a instrumentos fundamentais para a investigação. A coleta de DNA, etapa essencial para fortalecer a identificação e cruzamento de dados, tem sido inviabilizada por falhas no sistema de agendamento da Polícia Científica de São Paulo. Há mais de um mês, o site responsável pelo serviço apresenta erros, com campos bloqueados que impedem a marcação do procedimento. Essa falha técnica, aparentemente simples, tem impactos profundos e concretos na vida de quem aguarda respostas, retardando um processo que já é, por natureza, urgente e sensível.
O caso de Miguel evidencia que, embora o Brasil tenha avançado na construção de políticas e ferramentas voltadas à localização de pessoas desaparecidas, ainda há lacunas estruturais que comprometem sua efetividade. A ausência de respostas rápidas, a dificuldade de acesso a serviços essenciais e a desigual visibilidade de determinados perfis sociais revelam a necessidade de fortalecer não apenas os sistemas tecnológicos, mas também o compromisso institucional com a proteção de todas as vidas.
Dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que 85.233 pessoas desapareceram no país em 2025, sendo 234 pessoas por dia, envolvendo crianças, adolescentes e adultos. Entre as causas mais comuns estão conflitos familiares, situações de vulnerabilidade social, fuga do lar, uso problemático de álcool ou drogas, além de casos mais graves relacionados à exploração, trabalho forçado ou tráfico de pessoas.
Como ajudar?
A família solicita que qualquer pessoa que tenha visto Miguel ou possua informações sobre seu paradeiro entre em contato imediato com as autoridades. Informações podem ser repassadas à Polícia Militar, pelo telefone 190, em delegacias da região ou por meio do Disque 100, canal nacional voltado à proteção dos direitos humanos.
À medida que os dias passam sem respostas, a família intensifica o apelo à sociedade: para Ana Maria Lau, mãe de Miguel, qualquer informação pode ser determinante para reencontrar o filho.
Para mais informações sobre o que fazer em caso de desaparecimento em São Paulo, acesse o link da Prefeitura.
Autoridades reforçam ainda que não é necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento. O boletim de ocorrência pode ser feito imediatamente assim que familiares percebem a ausência ou a impossibilidade de contato com a pessoa desaparecida, o que permite o início mais rápido das investigações e das buscas.
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