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terça-feira, março 10, 2026

Com mais de 60 mil vistos em 2025, Brasil cresce como destino para talentos internacionais

Esses números não são apenas estatística: são um termômetro econômico e geopolítico, que mostram mais uma vez que a migração laboral precisa ser tratada como política de desenvolvimento pelo Brasil

Por Diana Quintas*

O Brasil concedeu em 2025 mais de 60 mil vistos de trabalho a profissionais estrangeiros, crescimento de 28% em relação ao ano anterior, que teve mais de 47 mil vistos emitidos. Os números são do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e mostram um salto nos últimos anos mesmo em comparação aos anos pré-pandemia, com crescimento de mais de 80% na entrada de trabalhadores estrangeiros em comparação com 2019. Esses números não são apenas estatística: são um termômetro econômico e geopolítico. Onde há gente qualificada chegando, existe capital, tecnologia, cadeias de suprimentos e projetos nascendo, e o Brasil está nesse mapa.

A mobilidade não acontece no vácuo. Antes de um investimento estrangeiro se transformar em fábrica, parque de energia, centro de Pesquisa e Desenvolvimento ou operação de serviços, há pessoas circulando para negociar, avaliar riscos, transferir tecnologia, treinar times e operar. É por isso que a migração laboral deveria ser tratada como política de desenvolvimento. Quando olhamos com lupa os fluxos de 2024 e 2025, vemos a força de setores como energia e offshore, uma vocação natural de um país com costa imensa e projetos que exigem alta especialização, mas vemos também serviços intensivos em conhecimento, infraestrutura e tecnologia da informação demandando perfis específicos que nem sempre estão disponíveis na velocidade necessária dentro das fronteiras.

Ao mesmo tempo, o mundo apertou as regras em várias frentes e redesenhou rotas. Os Estados Unidos ampliaram a exigência de entrevistas e reajustaram taxas; países europeus revisaram seus regimes de cidadania por descendência, endureceram regras e, em paralelo, vêm privilegiando caminhos baseados em habilidades, investimento e trabalho. O Reino Unido digitalizou controles; a União Europeia avança com o ETIAS, exigindo autorização eletrônica de viagem de isentos de visto; e, do outro lado do balcão, o Brasil adotou postura de reciprocidade com EUA, Canadá e Austrália, sem reimpor visto ao Japão após acordo bilateral. Em casa, 2025 trouxe atualização regulatória relevante ao ampliar atividades técnicas possíveis sob condição de visitante por períodos curtos. É uma modernização importante que reduz prazos e dá agilidade a projetos, mas que exige leitura jurídica cuidadosa para mitigar interpretações divergentes na implementação e respeitar limites de permanência e de remuneração no país.

O Brasil, aqui, tem vantagens competitivas que muitas vezes subestimamos. A legislação migratória pós-2017 é, em linhas gerais, moderna, com instrumentos para trabalho, transferência de tecnologia, pesquisa, nômades digitais e acordos multilaterais como os da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O ambiente regulatório é exigente, mas previsível quando bem navegado. Também é hora de atualizar a conversa pública. A busca por cidadanias europeias virou atalho popular na última década, mas o movimento recente de endurecimento mostra um ponto de inflexão: países com demografia desafiadora querem resolver lacunas do mercado de trabalho no curto prazo. Isso desloca o pêndulo para programas baseados em habilidades, investimento e estudo, e reforça a importância de trilhas formais e transparentes de trabalho qualificado.

Mobilidade internacional não é um fardo a ser administrado, mas uma estratégia a ser desenhada. Quando empresas incorporam essa visão, ganham acesso a talentos, aceleram inovação, constroem reputação e abrem mercados. Quando países a entendem como política de desenvolvimento, atraem investimentos, transferem tecnologia e melhoram produtividade. Os números do OBMigra mostram que o Brasil já está nesse jogo. O próximo passo é garantir que cada visto emitido se traduza em valor econômico, social e humano para quem chega, para quem recebe e para o país que queremos construir.

Sobre a autora

Diana Quintas é sócia da Fragomen no Brasil, maior e mais antiga empresa de imigração do mundo, líder em mobilidade internacional de pessoas físicas e empresas.


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