Por Gustavo Cavalcante
Em cartaz até o próximo dia 3 de maio no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo, a peça “Travessia”, dirigida pela dramaturga Gabriela Mellão, propõe um olhar sensível sobre deslocamentos humanos em um mundo marcado por fronteiras cada vez mais rígidas. A montagem parte do teatro para dialogar diretamente com a realidade contemporânea, ao abordar experiências de migração, desigualdade e pertencimento a partir de um elenco multicultural formado também por artistas migrantes e refugiados.
Ao reunir diferentes vozes no palco, “Travessia” constrói um espaço em que histórias individuais ecoam um fenômeno global. A escolha de trabalhar com artistas de múltiplas origens não é apenas estética, mas política: são corpos e vivências que carregam experiências reais de deslocamento, adaptação e resistência. Nesse sentido, a peça se insere em um contexto mais amplo, em que a migração deixa de ser um tema distante para se tornar parte central do debate público e cultural.
De acordo com a ONU e o ACNUR, o número de pessoas deslocadas forçadamente no mundo já ultrapassa 120 milhões, um recorde histórico impulsionado por conflitos armados, perseguições políticas, crises climáticas e instabilidades econômicas. Esses deslocamentos, muitas vezes marcados por urgência e risco, expõem desigualdades profundas e revelam a fragilidade dos sistemas de proteção internacional.
É nesse cenário que o conceito de “travessia” ganha múltiplos significados. Para além de uma passagem física entre territórios, ele representa jornadas complexas, que incluem travessias perigosas por mares e fronteiras terrestres, além dos desafios de reconstruir a vida em um novo país. A peça se apropria dessa ideia para estabelecer um paralelo entre diferentes tempos e experiências, conectando narrativas históricas a deslocamentos atuais.
Ao trazer essas camadas para o palco, “Travessia” transforma dados em histórias e convida o público a refletir sobre quem são as pessoas por trás das estatísticas. A presença de artistas migrantes – como a congolesa Prudence Kalambay, o congolês Shambuyi Wetu e a gambiana Mariama Bah – reforça essa dimensão concreta, ao evidenciar que a migração não é apenas um tema, mas uma vivência em curso — marcada por perdas, recomeços e pela constante negociação de identidade em contextos muitas vezes adversos.
Migrantes no palco
A construção de “Travessia” parte de um diálogo direto com a história da arte para tensionar o presente. Inspirada no quadro “A Balsa da Medusa”, do pintor francês Théodore Géricault, a montagem retoma o naufrágio ocorrido em 1816 como ponto de partida simbólico, não para reconstituí-lo, mas para refletir sobre as continuidades de um sistema que, ontem e hoje, define quais vidas importam.
Ao deslocar essa imagem para o palco, a direção propõe uma leitura contemporânea marcada pela chamada “lógica do descarte”, evidenciada em processos de exclusão social e negligência institucional que atravessam tanto o passado quanto o presente.
A dramaturgia se estrutura como um mosaico de camadas narrativas, resultado de um processo colaborativo que combina ficção, relatos autobiográficos e referências diversas, como a tragédia grega e mitologias. Em cena, essas dimensões se entrelaçam para criar uma narrativa fragmentada, onde diferentes tempos e experiências coexistem.
Mais do que representar deslocamentos, a peça incorpora em sua própria forma as contradições que discute. Temas como racismo, xenofobia e o direito à existência emergem não como discursos diretos, mas como conflitos encarnados nos corpos em cena.
A ideia de pertencimento aparece como eixo central: quem pode ocupar determinado espaço, quem é ouvido e quem permanece à margem. Nesse sentido, o espetáculo evita respostas fáceis e aposta em imagens e situações que provocam o espectador a refletir sobre sua própria posição diante dessas hierarquias.
O elenco multicultural é parte fundamental dessa construção. Reunindo artistas de diferentes origens — como República Democrática do Congo, Venezuela, Bolívia, Gâmbia/Senegal e Brasil —, a montagem transforma diversidade em método de criação, e não apenas em tema. São trajetórias atravessadas por deslocamentos reais que alimentam a dramaturgia e tensionam a cena com diferentes línguas, culturas e visões de mundo.
É nesse contexto que a presença da atriz Prudence Kalambay ganha destaque. Nascida na República Democrática do Congo, ela chegou ao Brasil em 2008, grávida, após deixar o país por conta de perseguição política. Sua trajetória, marcada por desafios como o racismo, a adaptação cultural e a maternidade solo, atravessa sua atuação e contribui diretamente para a construção do espetáculo. Ao levar para o palco experiências vividas, Prudence amplia o alcance da narrativa e reforça a conexão entre arte e realidade.
“Sou uma mulher africana, preta, refugiada e mãe solo em um país racista”, afirma a atriz em seu relato pessoal — uma declaração que sintetiza não apenas sua história, mas também as tensões que a peça busca evidenciar. Em “Travessia”, sua presença não é apenas representativa: ela participa ativamente da criação, ajudando a construir uma dramaturgia que se ancora na experiência concreta de quem vive, na prática, os desafios da migração.
Paralelos
Ao estabelecer uma equivalência entre o naufrágio de 1816 e os deslocamentos contemporâneos, “Travessia” evidencia permanências incômodas na forma como vidas humanas são tratadas em contextos de crise. Se, na tragédia retratada por Théodore Géricault, o abandono foi resultado de decisões políticas e negligência, hoje ele se atualiza em cenários onde o acesso à sobrevivência segue profundamente desigual.
Em diferentes rotas migratórias, a ausência de políticas eficazes de proteção expõe pessoas a riscos extremos, revelando uma lógica em que, muitas vezes, define-se quem pode viver e quem é deixado à deriva.
Essa dinâmica se torna visível em travessias como as do Mar Mediterrâneo, onde milhares de migrantes e refugiados arriscam a vida todos os anos em embarcações precárias, e também na América Latina, marcada pela intensificação dos fluxos migratórios, especialmente de venezuelanos.
Em ambos os casos, a busca por segurança e dignidade esbarra em políticas migratórias restritivas, barreiras institucionais e discursos que reforçam exclusões. O que se observa é uma continuidade histórica de práticas que, ainda que sob novas formas, mantêm estruturas de desigualdade.
Ao trazer essa reflexão para o campo simbólico, o espetáculo amplia o debate sobre migração para além dos números e das manchetes. A balsa, enquanto imagem central, deixa de ser apenas um elemento cenográfico e passa a representar um espaço de disputa, onde sobrevivência, identidade e direitos estão em jogo.
Nesse sentido, a peça tensiona o público a reconhecer as conexões entre passado e presente, questionando até que ponto as sociedades contemporâneas avançaram na garantia de proteção a pessoas em situação de deslocamento.
Em um mundo em que milhões seguem em movimento, a pergunta que permanece não é apenas sobre quem consegue chegar, mas sobre quais condições são oferecidas e a quem.
Serviço
Espetáculo: Travessia
Data: De 1º de abril a 3 de maio – últimos dias
Horários: quinta a sábado, às 20h, domingo às 18h30
Local: Sesc Belenzinho – R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos
Entrada: R$50 (inteira) / R$25 (meia) / R$15 (credencial plena).
Mais informações: site do Sesc São Paulo
Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link
O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

