Pela primeira vez em dez anos, o mundo vê uma redução no número de pessoas refugiadas e em deslocamento forçado interno, de acordo com o mais recente relatório Tendências Globais, do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), divulgado nesta quinta-feira (11). Ao final de 2025, eram 117,8 milhões de indivíduos nessas condições, uma redução de 4% em relação aos 129,4 milhões do fechamento do ano anterior. Considerando apenas os refugiados – aqueles que buscam proteção em outros países – a queda foi de 3,5%, totalizando 35,6 milhões de pessoas em 2025.
No entanto, esse dado não representa uma boa notícia, pois os retornos aos países de origem ocorrem sob condições bastante adversas, combinadas com políticas de migração mais restritas mundo afora.
De acordo com o estudo, houve um aumento de 50% no retorno de refugiados e deslocados internos a países que enfrentam crises humanitárias severas de longa duração, como Afeganistão, Síria, República Democrática do Congo e Sudão. Ao todo, 14,7 milhões de pessoas foram obrigadas a fazer tal movimentação.
“O número de refugiados diminuiu em 2025, mas a história por trás desses números é importante. A maioria dos refugiados deseja voltar para casa, mas esse retorno precisa ser voluntário, seguro e realizado com dignidade”, ressaltou o Alto Comissário Barham Salih, em postagem nas redes sociais.
Dinamarca e Alemanha, por exemplo, têm pregado o retorno de sírios por considerarem que o país “voltou a ser considerado estável” depois da deposição do governo de Bashar al-Assad, no final de 2024. No caso dos afegãos, o retorno se dá especialmente em razão de conflitos travados contra o Irã ainda em 2025 e de um ambiente mais hostil no Paquistão.
Há casos ainda em que os retornos ocorreram em razão de um atenuamento das tensões – caso de algumas localidades no Sudão que não estão sendo palco de conflitos armados e da Venezuela com a deposição do então presidente Nicolás Maduro. Mesmo assim, ambos figuram entre os oito países que mais geraram refugiados ao longo de 2025 – ao todo, 5,4 milhões de pessoas foram forçadas a buscar abrigo além das fronteiras da terra natal.
- Sudão (952,7 mil)
- Ucrânia (788,1 mil)
- Venezuela (455,3 mil)
- Sudão do Sul (232,8 mil)
- Burkina Fasso (221,3 mil)
- Afeganistão (191,4 mil)
- Mali (177,2mil)
- Mianmar (165,4 mil).
Por sua vez, Colômbia (2,8 milhões), Alemanha (2,7 milhões), Turquia (2,4 milhões), Uganda (1,9 milhão), Irã (1,7 milhão), Chade (1,5 milhão) e Paquistão (1,3 milhão) seguem sendo os maiores receptores. Com a exceção alemã, ainda em razão do grande número de refugiados recebidos entre 2015 e 2016, todos os demais são vizinhos de alguma nação que enfrenta forte crise humanitária e de deslocamento forçado interno ou externo.
Meta de redução de fato e em melhores condições
Com 70% dos refugiados presos em exílio por anos e muitos vivendo abaixo da linha da pobreza, Salih também fez um apelo à comunidade internacional a apoiar uma nova iniciativa para retirar milhões de pessoas do deslocamento prolongado e da dependência de ajuda humanitária. Ele ainda estabeleceu como meta reduzir em mais da metade o número de refugiados durante a próxima década.
Segundo o representante do ACNUR, esse patamar pode ser alcançado por meio da ampliação das oportunidades de retorno, reassentamento e concessão de vistos humanitários, além da transição de modelos tradicionais de assistência para a promoção da autossuficiência.
“Agora temos uma meta ambiciosa, viável e mensurável para promover a autossuficiência e transformar vidas para melhor. O ACNUR mobilizará esforços em toda a sociedade para enfrentar esse desafio e criar caminhos para que milhões de pessoas deixem para trás a dura e monótona realidade do deslocamento prolongado.”
A agência também pede que governos, organizações humanitárias e de desenvolvimento, setor privado e sociedade civil ampliem esforços para empoderar refugiados, mantendo o compromisso com o asilo e a proteção internacional.
Olhar para as Américas
O relatório do ACNUR destaca o continente americano como a região do planeta com os maiores deslocamentos forçados em curso no mundo (22,8 milhões), ao mesmo tempo sendo a única que é tanto local de origem quanto de acolhida e destino dessas pessoas.
Vale a ressalva que a África é contabilizada pela agência da ONU em diferentes regiões (Sul/Leste, Oeste/Centro e Norte, em conjunto com países do Oriente Médio).
Além da histórica questão de deslocamento forçado interno na Colômbia, duas das maiores crises humanitárias em curso no mundo estão nas Américas – Venezuela e Haiti.
O país caribenho tem atualmente 12% da sua população em deslocamento forçado interno, situação também agravada pelos retornos forçados de cidadãos que estavam em outras localidades em razão de políticas migratórias mais restritas. A Venezuela, por sua vez, contabiliza 6,4 milhões de pessoas em necessidade de proteção internacional.
O Brasil é o terceiro país que mais acolhe venezuelanos (699 mil), segundo o ACNUR, atrás somente da Colômbia (2,8 milhões) e Peru (1,1 milhão). Chile (662 mil) e Equador (435,8 mil) também figuram entre os principais destinos da diáspora venezuelana.
Ao mesmo tempo, o ACNUR aponta que a região das Américas se destaca por sua liderança na promoção de solidariedade e soluções, demonstrando que inclusão e compartilhamento de responsabilidades geram resultados concretos.
“Nas Américas, solidariedade e compartilhamento de responsabilidades não são conceitos abstratos, eles geram resultados reais para as pessoas e as sociedades”, afirmou o oficial a Cargo para as Américas do ACNUR, Juan Carlos Murillo.
E o Brasil?
De acordo com o relatório Tendências Globais, o Brasil avançou com “políticas robustas que garantem acesso à permanência legal, ao emprego, a serviços essenciais e a oportunidades de inclusão”.
“O Brasil possui uma legislação vanguardista que concede documentação e acesso aos serviços públicos do país, garantindo às pessoas em busca de proteção internacional o direito à saúde, educação e trabalho. O setor privado brasileiro tem demonstrado cada vez mais apoio em abrir portas e oportunidades para que estas pessoas possam contribuir com seus conhecimentos e talentos para o país. O compromisso do governo federal em expandir o programa de patrocínio comunitário é também louvável. Estes são exemplos concretos de como a proteção internacional pode caminhar lado a lado ao desenvolvimento e à inclusão social”, reforça o representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli.
Dados mais detalhados elaborados sobre a situação do refúgio e do deslocamento forçado no país serão revelados durante a divulgação do relatório anual por parte do Ministério da Justiça, no próximo dia 22 de junho.
Com informações do ACNUR
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