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sexta-feira, junho 12, 2026

Em continuidade a Francisco, Leão XIV defende migrantes e diz que “dignidade humana não tem passaporte”

Em visita às Ilhas Canárias, Pontífice afirmou que o drama migratório deve provocar um "exame de consciência" global

Em mais uma manifestação pública de apoio aos migrantes, o Papa Leão XIV fez novas críticas à forma com que governos em todo o mundo estão tratando a temática migratória. Ele também cobrou dos líderes mundiais um compromisso com a preservação da dignidade das pessoas em situação de deslocamento, além de pedir que os fiéis católicos não fiquem indiferentes ao assunto.

“Não podemos nos acostumar a contar os mortos. A dignidade humana não tem passaporte, nem perde valor ao cruzar uma fronteira”, disse o Pontífice durante atividade no Porto de Arguineguín, nas Ilhas Canárias. O arquipélago está no continente africano, mas pertence à Espanha e é ponto de chegada de embarcações com migrantes que tentam melhores condições de vida em países europeus.

O próprio porto em si visitado pelo Papa é o local de desembarque de pessoas resgatadas no mar após travessias precárias, em embarcações conhecidas como “cayucos” e “pateras”. Em 2020, durante a fase aguda da pandemia de Covid-19, cerca de 3.000 migrantes chegaram a ficar aglomerados no local por dias, que acabou recebendo o apelido nada honroso de “porto da vergonha”.

Segundo relatório da ONG Caminando Fronteras, apresentado nesta semana, mais de 1.300 ‌migrantes morreram ao tentar chegar à costa espanhola nos primeiros cinco meses de 2026. O dado já supera os quase 1.200 morreram ou desapareceram na rota das Ilhas Canárias ao longo de 2025 de acordo com levantamento da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

“Vocês não são números” e “exame de consciência”

Após ouvir testemunhos de migrantes e de representantes de entidades que atuam junto à temática migratória no local, Leão XIV criticou o tráfico humano e outras formas de exploração – ele chamou de “máfias do mar” os grupos que lucram com as travessias em locais como o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo.

“Queridos migrantes: antes de dizer-lhes outra palavra, quero me curvar diante da sua dignidade. Vocês não são números, nem fascículos! Vocês são pessoas com família e uma casa que deixaram para trás, com sonhos que ninguém tem o direito de desprezar. Mas também quero dizer que sua vida precisa ser protegida. Não entreguem sua vida a quem a comercializa. Não acreditem em quem promete paraísos fáceis em troca de seu corpo, seu dinheiro, seu silêncio ou sua liberdade. Essas falsas promessas são cantos de sereia, são indústrias da morte.”

Em uma crítica direta aos governos europeus, que vêm priorizando medidas de restrição à migração, Leão XIV ressaltou que a dignidade humana “exige vias legais e seguras [de imigração], além de assistência e proteção efetiva aos mais vulneráveis e processos sérios de acolhimento e integração. Ele reforçou que o drama migratório deve provocar um “exame de consciência” global e isso envolve países de origem, de trânsito e também a Europa, que “não pode se acostumar a ver o Mediterrâneo e o Atlântico como cemitérios sem lápides”.

“Cada barco que chega traz não só migrantes; traz consigo uma pergunta: que tipo de mundo construímos se tantos irmãos e irmãs têm de arriscar a vida em busca de sobrevivência?”, questionou.

Depois de visitar o porto, Leão XIV celebrou uma missa para 40 mil pessoas em Las Palmas e fez um apelo em defesa daqueles que “perdem a vida no mar”. O Pontífice também participou de um ato em homenagem aos migrantes, jogando flores ao mar em memória daqueles que perderam a vida nas travessias.

“Santo Agostinho dizia: ‘Onde está a caridade, aí está a paz, e onde está a humildade, aí está a caridade’.’ É assim. Onde há verdadeira humildade, há amor, e onde há amor, há paz, porque só na humildade conhecemos realmente quem somos e, por isso, podemos amar-nos, encontrar-nos, entregar-nos e perdoar-nos na verdade”.

Papa Leão XIV durante homenagem a migrantes nas Ilhas Canárias.
(Foto: Vatican Media)

Continuidade

A vista de Leão XIV às Ilhas Canárias era um desejo do antecessor, Francisco, que deixou como uma das marcas de seu pontificado a defesa dos migrantes. Uma atuação que vem sendo mantida pelo sucessor.

Batizado como Robert Prevost, Leão XIV nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, tendo mãe de ascendência espanhola e pai estadunidense. No entanto, passou a maior parte de sua carreira religiosa no Peru, onde atuou desde a década de 1980 em cidades como Piura, Trujillo e Chiclayo. Tal vivência no país sul-americano permitiu que em 2015 ele visse a obter também a cidadania peruana, fazendo dele o primeiro Papa a ter dupla nacionalidade.

A reverência com a pátria que adotou ficou clara no primeiro discurso de Prevost como Papa, fazendo-o parte dele em espanhol e mencionando de forma especial a Diocese de Chiclayo. Dias depois, em solenidade com diplomatas baseados no Vaticano, o Pontífice se colocou ele próprio como resultado de um processo migratório, tanto nas origens familiares como na própria trajetória eclesiástica. E pediu que a dignidade das pessoas migrantes fosse respeitada pelos governos de todo o mundo.

Com tal postura, Leão XIV tem sido alvo de críticas constantes do parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O tom chegou até mesmo a incomodar a premiê italiana Georgia Meloni, que, mesmo alinhada politicamente ao atual ocupante da Casa Branca, expressou sua reprovação contra os ataques ao Pontífice.

Com informações de Vatican News, Terra e Ansa


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