Uma pesquisa global feita pelo Instituto Ipsos, encomendada pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), mensurou a percepção de diferentes sociedades sobre como cada uma lida com a chegada de pessoas nessa condição. O levantamento foi divulgado nesta quarta-feira (15) e contempla 29 países, incluindo o Brasil, e mostra tanto avanços quanto contradições e preocupações quanto ao tema.
Segundo a pesquisa, na média global, 66% dos entrevistados concordam que as pessoas devem ter o direito de buscar refúgio em outros países. Três países europeus apresentam os maiores índices favoráveis – Suécia, Países Baixos/Holanda e Espanha. Por sua vez, os menores apoios foram registrados em três países asiáticos – Indonésia (50%), Singapura (47%) e Coreia do Sul (44%).
Os dados obtidos mostram uma situação de estabilidade em relação ao levantamento feito em 2025, com mudanças mais significativas em certos países que se tornaram ora mais abertos a refugiados, ora mais cautelosos.
Percepção global
De modo geral, a maioria das pessoas continua apoiando a oferta de refúgio para aqueles que fogem de guerras ou perseguições, apesar de uma série de países terem adotado recentemente políticas mais restritivas em relação ao tema, que também é explorado de forma negativa por determinados grupos políticos.
No entanto, muitos ainda não estão convencidos de que o sistema funciona como deveria. As dúvidas sobre quem tem direito à proteção como refugiado, como as fronteiras devem ser administradas e se os refugiados conseguirão se integrar com sucesso à sociedade continuam presentes, com fatores que variam de acordo com o país.
Na visão do ACNUR, em vez de indicar oposição à proteção de refugiados, os resultados mostraram que muitos apoiam a oferta de segurança para aqueles forçados a fugir, mas mantêm preocupações com os sistemas de asilo, a gestão de fronteiras e a integração.
“Em um momento em que conflitos, violência e perseguição continuam a desarraigar milhões de pessoas e mesmo com o sistema de asilo sendo politizado e manipulado, é encorajador que o apoio à proteção a refugiados permaneça sólido”, disse Dominique Hyde, Diretora de Relações Externas do ACNUR.
Para Trinh Tu, Diretora-Geral da Ipsos Reino Unido, não existe uma perspectiva global única sobre as pessoas refugiadas, mas sim um espectro moldado por realidades locais, cobertura da mídia, debate político e experiência nacional.
“As pessoas continuam a apoiar a proteção daquelas pessoas que são forçadas a fugir. Mas muitos questionam como a proteção a refugiados funciona na prática e se os sistemas são justos. O debate está mudando da questão de se os refugiados devem ser protegidos para questões de sistemas, implementação e responsabilidade”.
Globalmente, os jovens expressam opiniões mais positivas do que as gerações mais velhas. Enquanto 49% dos entrevistados da Geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) acreditavam que as pessoas refugiadas se integrariam com sucesso, o índice dos Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964) é de 39%.
E o Brasil?
A pesquisa Ipsos/ACNUR apresenta o Brasil em uma posição de destaque, como uma sociedade mais aberta ao acolhimento e integração de pessoas refugiadas do que a média global, posicionando-se dentre os mais favoráveis a que o governo possa fazer ainda mais para essa população.
De acordo com a pesquisa, 75% dos brasileiros concordam que pessoas que estão escapando de guerras ou perseguições deveriam ter o direito de buscar abrigo em outros países, incluindo o Brasil – ficando em quarto lugar entre os países contemplados pelo levantamento, atrás somente de Suécia, Paises Baixos e Espanha. Quanto à oposição a esse direito, o país apresenta o índice mais baixo entre os 29 pesquisados (15%).
Ao mesmo tempo, mais da metade dos que responderam (57%) disseram concordar que os refugiados contribuem de forma positiva para a sociedade e a economia do país – o segundo maior índice global, atrás somente da Austrália. Além disso, apenas 26% dos entrevistados responderam concordar com a ideia de que o país deveria fechar completamente as suas fronteiras para a entrada de refugiados, o menor índice de todos os demais países pesquisados.
“O Brasil acolhe pessoas em necessidade de proteção internacional de mais de 150 países e isso reflete a diversidade da própria sociedade brasileira. O país segue aprimorando suas políticas públicas para o acesso ao território e às oportunidades de integração local, posicionando-se globalmente dentre aqueles que enxergam de maneira mais positiva o potencial que as pessoas refugiadas trazem para o desenvolvimento local e da sociedade como um todo”, afirma o Representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli.
A Ipsos entrevistou 21.521 adultos em 29 países entre 24 de abril e 8 de maio de 2026. No Brasil, foram ouvidas 1.000 pessoas, sendo elas mais urbanas, com maior grau de escolaridade e mais afluentes que a média geral da população. Vale a ressalva de que os resultados refletem médias dos países pesquisados e não são estimativas globais ponderadas pela população.
O relatório completo encontra-se disponível, em inglês, no portal da Ipsos.
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