Por Gustavo Cavalcante
A apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl no último domingo (8), majoritariamente em espanhol e carregada de símbolos da cultura latina, marcou um dos momentos mais políticos da história do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos. Uma semana, o artista porto-riquenho já havia protagonizado outra cena histórica ao vencer o Grammy com um álbum totalmente em espanhol e usar o discurso de agradecimento para denunciar diretamente o ICE, órgão responsável pela repressão migratória no país. As duas aparições, conectadas no tempo e no discurso, colocaram a migração no centro da cultura pop estadunidense.
O impacto foi imediato e extrapolou o campo musical. A performance no Super Bowl gerou reações políticas, incluindo críticas públicas do presidente Donald Trump, que classificou o show como uma afronta à “grandeza da América”. A resposta negativa evidenciou como a presença explícita da identidade latina na língua, na estética e na narrativa incomoda setores que defendem uma ideia excludente de nação. No palco, Bad Bunny propôs outra definição de América: plural, continental e marcada pela experiência migrante.
Essa sequência de acontecimentos revelou um momento em que cultura pop, migração e política se cruzam nos Estados Unidos. De um lado, há o endurecimento das políticas antimigratórias, o fortalecimento do discurso de criminalização de migrantes e a atuação violenta de órgãos como o ICE. De outro, um artista latino que se recusa a abandonar o espanhol, suas referências porto-riquenhas e sua trajetória periférica, mesmo ao ocupar os espaços mais tradicionais e simbólicos do entretenimento estadunidense.
Quem é Bad Bunny
Bad Bunny é o nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio, nascido em 10 de março de 1994, em Vega Baja, município de Porto Rico próximo à capital, San Juan. Criado em uma família de origem popular, o artista cresceu em um território marcado por uma relação política singular com os Estados Unidos, além de crises econômicas e fluxos migratórios constantes. Embora os porto-riquenhos sejam cidadãos estadunidenses, eles não podem votar nas eleições para presidente e tampouco elegem representantes para o Congresso dos Estados Unidos – votam apenas para o governo local. Dessa forma, a população da ilha historicamente enfrenta situações de marginalização e tratamento como estrangeira, tanto no debate político quanto no campo cultural, especialmente quando migra para o continente.
Antes de alcançar projeção internacional, Bad Bunny trabalhava em um supermercado e cursava comunicação audiovisual, ao mesmo tempo em que lançava músicas de forma independente na plataforma SoundCloud. Foi nesse ambiente digital que suas produções ganharam visibilidade e atraíram a atenção de produtores da indústria musical. A trajetória inicial do artista ocorre paralelamente à experiência da diáspora porto-riquenha nos Estados Unidos, marcada pela circulação entre territórios, pela busca por oportunidades econômicas e pela afirmação de identidade em contextos sociais adversos.
Ao longo da carreira, Bad Bunny se tornou um dos principais nomes na consolidação do trap latino e do reggaeton no mercado musical global. Álbuns como Un Verano Sin Ti e Debí Tirar Más Fotos figuram entre os lançamentos mais relevantes da música contemporânea, abordando temas como memória, território, cotidiano e vínculos afetivos, frequentemente associados à experiência caribenha e latino-americana.
A opção por manter o espanhol como idioma central de sua obra e por incorporar referências culturais porto-riquenhas contribuiu para ampliar a presença da língua e da estética latina na cultura pop dos Estados Unidos. Nesse contexto, a música de Bad Bunny tem sido associada à representação de migrantes e descendentes de migrantes, refletindo transformações demográficas e culturais em curso no país e evidenciando o papel da indústria cultural na disputa por visibilidade e reconhecimento de identidades historicamente marginalizadas.
Do Grammy ao Super Bowl
No Grammy 2026, Bad Bunny conquistou uma vitória histórica ao vencer com um álbum totalmente em espanhol, consolidando um marco para a música latina na principal premiação da indústria fonográfica. Ao subir ao palco para receber o prêmio, o artista porto-riquenho fez um discurso em espanhol e direcionou sua fala à política migratória dos Estados Unidos. Antes dos agradecimentos formais, afirmou: “Antes de dizer obrigado, eu quero agradecer a Deus e quero dizer fora ICE”, em referência ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA.
Em seguida, Bad Bunny ampliou a crítica ao que classificou como desumanização de migrantes, dizendo: “Não somos selvagens. Não somos animais. Não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos”. A declaração foi recebida com aplausos do público presente e teve ampla repercussão na imprensa internacional e entre organizações e integrantes da comunidade latina nos Estados Unidos, que interpretaram o discurso como um posicionamento direto em defesa da dignidade de migrantes e descendentes de migrantes.
O cantor também fez um chamado para que a resposta ao cenário de hostilidade fosse pautada por outra lógica. “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, afirmou. Ao encerrar, acrescentou: “Se a gente for lutar, que seja com amor.” As falas reforçaram a leitura de que o artista utilizou o palco global do Grammy para legitimar a defesa de direitos e a humanização de populações migrantes.
Dias depois, no último domingo (08) Bad Bunny levou uma mensagem semelhante ao intervalo do Super Bowl, evento de maior audiência da televisão nos Estados Unidos. A apresentação foi realizada majoritariamente em espanhol e contou com cenários que remetiam ao cotidiano porto-riquenho e latino, como salões de beleza, jogos de dominó e referências à vida comunitária. O show também incluiu a participação de artistas e personalidades latinas, reforçando a centralidade da cultura latino-americana no espetáculo.
Durante a performance, Bad Bunny exibiu a bandeira de Porto Rico, incluindo a versão com o triângulo azul-claro associada a movimentos pró-independência, e fez referência ao apagão na ilha após o furacão Maria, em 2017. No encerramento, apareceu acompanhado por bailarinos e músicos com bandeiras de países da América Latina e afirmou: “Juntos, somos a América”, propondo uma leitura do continente como espaço plural, marcado por migração, diversidade cultural e pertencimento compartilhado.
Reações políticas e disputa simbólica
A apresentação no intervalo do Super Bowl gerou reações políticas imediatas nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump criticou publicamente o show, classificando-o como uma afronta à “grandeza da América” e questionando a escolha de um artista que se apresentou majoritariamente em espanhol em um dos eventos mais simbólicos da cultura estadunidense. As declarações ampliaram o alcance do debate e reforçaram a dimensão política atribuída à performance.
Especialistas em cultura e música analisaram o episódio como parte de uma disputa simbólica mais ampla. Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, Bad Bunny passou a ser visto como uma “antítese cultural” do poder conservador, ao ocupar espaços historicamente dominados pela cultura anglófona sem adaptar sua língua ou suas referências culturais. A leitura aponta que o incômodo gerado não está restrito ao conteúdo das mensagens, mas à própria visibilidade da identidade latina em plataformas de alcance global.
Nesse contexto, a cultura pop aparece como um campo de disputa política e simbólica, no qual artistas e performances se tornam veículos de debates sobre pertencimento, identidade e poder. A presença do espanhol, de símbolos latino-americanos e de narrativas ligadas à migração em eventos como o Super Bowl e o Grammy evidencia como o entretenimento passou a refletir tensões sociais mais amplas, especialmente em um cenário de endurecimento das políticas migratórias.
A repercussão em torno de Bad Bunny também ocorre em meio ao crescimento demográfico da população latina nos Estados Unidos e às transformações culturais associadas a esse processo – segundo estudo divulgado em outubro passado pelo Pew Research Center, eles representam 20% da população, somando 68 milhões de pessoas em 2024. Mudanças no consumo cultural, na música e no uso da língua espanhola indicam uma ampliação da centralidade latina no país. Nesse cenário, o artista porto-riquenho tem sido frequentemente citado como um símbolo de uma América em transformação, na qual a diversidade cultural e a experiência migrante ocupam um espaço cada vez mais visível no debate público.
As ações recentes de Bad Bunny evidenciam como artistas latinos passaram a ocupar espaços centrais da indústria cultural dos Estados Unidos sem abdicar de sua língua, de sua identidade e de suas referências. A repercussão das apresentações e discursos indica que esses palcos deixaram de ser apenas vitrines de entretenimento e se tornaram arenas de disputa simbólica em torno de quem pode representar a cultura americana – no sentido mais amplo, do Canadá ao Chile, como bem mostrou o cantor porto-riquenho.
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