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terça-feira, fevereiro 17, 2026

Jean Charles de Menezes, vinte anos depois: livro, série e filme mantêm viva memória e luta por justiça

Produções culturais ajudam a contar história que chocou o Brasil há duas décadas, e que mostram mazelas que permanecem atuais

Há exatos vinte anos, o brasileiro Jean Charles de Menezes era morto por policiais no metrô de Londres, confundido com um terrorista. O caso gerou grande repercussão à época, tanto pela comoção quanto pela série de erros e ocultação de informações por parte das forças de segurança. Ao mesmo tempo, a revisão do episódio mostra que certas percepções continuam vigentes, especialmente em um cenário no qual a xenofobia e a aversão à migração seguem ganhando terreno.

Natural de Gonzaga (MG), Jean Charles demonstrou talento para a eletrônica desde cedo. Aos 14 anos, mudou-se para São Paulo para estudar. Em 2002, viajou ao Reino Unido com visto estudantil e decidiu permanecer em Londres, onde trabalhava como eletricista e morava com dois primos.

Na manhã de 22 de julho de 2005, Jean Charles foi seguido por agentes da Polícia Metropolitana de Londres e alvejado com sete tiros na cabeça e um no ombro na estação de Stockwell. O caso ocorreu duas semanas após os ataques a bomba de 7 de julho no centro da cidade, deixando policiais em estado de alerta máximo na busca por culpados. Nessa política de “atira primeiro e pergunta depois”, sobrou para o brasileiro, morto aos 27 anos.

Os culpados, 20 anos depois

O verdadeiro terrorista responsável pelo atentado frustrado em Londres acabou capturado e preso uma semana depois da morte de Jean Charles, na Itália, para onde tinha fugido. Ainda em 2005, foi extraditado para o Reino Unido, onde permanece detido até hoje. Em 2007, foi condenado a 40 anos de reclusão.

Na polícia britânica, no entanto, ninguém foi punido pelo crime, o que até hoje gera revolta junto aos familiares de Jean Charles e integrantes da comunidade brasileira no Reino Unido.

A sucessão de erros sobre Jean Charles começou a partir do fato que o verdadeiro terrorista procurado pelos policiais. Ele morava no mesmo bloco de apartamentos que Jean Charles de Menezes, que passou a ser seguido. Ao tentar embarcar na estação Stockwell do metrô de Londres, foi morto a tiros pelos agentes, que atuavam sob um protocolo que incluía autorização tácita para atirar em suspeitos de terrorismo suicida sem aviso.

O então Chefe da Polícia de Londres, Ian Blair, foi a público no mesmo dia afirmar, sem identificar quem havia morrido, que a ação tinha relação com uma “operação antiterrorista”. Ele também disse que o alvo havia se recusado a obedecer ordens dos policiais – o que não demorou a ser desmentido. No dia seguinte, Blair foi novamente a público declarar que a polícia havia matado um homem por engano.

A autoridade, no entanto, continuou a alimentar um cenário no qual o comportamento de Jean Charles teria contribuido para sua morte. Ian Blair também foi acusado de inicialmente tentar bloquear um relatório da Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês), a corregedoria policial.

Sem receber qualquer sanção pelo ocorrido no caso Jean Charles, Ian Blair ficou no cargo até 2008. Em 2010, já ele recebeu um título de nobreza após ser nomeado para uma cadeira na Câmara dos Lordes, o que foi classificado pela família do brasileiro como o equivalente a “um tapa na cara”. Ele morreu em abril passado, aos 72 anos.

Outra autoridade policial que passou sem punições foi Cressida Dick, comandante da operação de 22 de julho e que deu a ordem para que o brasileiro fosse impedido de embarcar no metrô. Mesmo investigada por falhas no caso, ela terminou inocentada de qualquer responsabilidade e continuou a ser promovida. Em 2017, alcançou o posto de comissária-chefe da polícia londrina, cargo que deixou em 2022 após sofrer desgaste em meio a denúncias de prevalência de racismo, xenofobia e sexismo entre membros da força policial. Atualmente trabalha ministrando palestras.

As identidades de dois membros da equipe tática que efetuaram os disparos contra Jean Charles no metrô ainda permanecem em sigilo, identificadas apenas pelos códigos que usavam no ato da operação, Charlie 2 (C2) e Charlie 12 (C12).

Filme e série

A história da morte do brasileiro já foi tema de diferentes produções culturais, tanto no Brasil quanto no exterior. A primeira delas foi o filme nacional “Jean Charles” (2009), protagonizado por Selton Mello e Vanessa Giácomo.

A crítica da época destacou que o longa não se apresentava apenas como um relato ficcional, mas recorria a procedimentos semidocumentais da tragédia individual do protagonista – colocado como uma espécie de ícone do contingente de brasileiros que buscam no exterior o que não encontram na terra natal, a começar por emprego e dinheiro.

Já em abril deste ano, a plataforma de streaming Disney+ lançou a minissérie “Caso Jean Charles: Um Brasileiro Morto Por Engano”. Composta por quatro episódios, a produção britânica adota múltiplos pontos de vista (incluindo o da polícia, da família e de investigadores) para mostrar como memória, erro humano e decisões políticas moldaram o ocorrido. A família de Jean Charles atuou como consultora e foi a Londres participar do evento oficial de lançamento.

“Estamos muito felizes que a realidade da vida do meu irmão esteja sendo contada. A vida de luta. Ele nasceu no interior, correu atrás e se mudou para outro país em busca de uma vida melhor”, disse à BBC News Brasil o irmão de Jean Charles, Giovani da Silva, sobre a série.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o ator brasileiro Edison Alcaide, que vive em Londres desde 2008 e interpreta Jean Charles, resumiu a importância da obra. “São muitos temas discutidos: xenofobia, imigração, fake news, responsabilidade das instituições que deveriam nos proteger. Acho a série mais relevante do que nunca. Como sociedade, a nível mundial, a gente está muito mais disposto a ter conversas difíceis hoje do que 20 anos atrás; questionar as instituições, o sistema. Faz parte da nossa evolução como sociedade trazer esses questionamentos à tona.”

“Jean teve o azar de ser pobre e imigrante”

O caso Jean Charles teve ainda um capítulo à parte no livro “London Calling – Histórias de Brasileiros em Londres”, lançado em meados de 2012 pela jornalista Adriana Farias e publicado pela editora Giostri. A experiência dela ainda como intercambista na cidade se tornou o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em seguida em livro-reportagem.

O caminho de Adriana para contar a história de Jean Charles, no entanto, passou por Alex Pereira, primo de Jean e personagem pouco explorado pela mídia brasileira no caso. Ele foi uma das pessoas grampeadas pelo jornal News of the World, por exemplo, no escândalo global que envolveu o periódico comandado pelo magnata Rupert Murdoch há duas décadas. Direcionar a pesquisa para esse ponto e, a partir dos dois primos, falar da realidade da família e também da cidade de Gonzaga (MG), foram alguns dos diferenciais do relato e da obra em si.

Abaixo segue o que a jornalista comentou ao MigraMundo em novembro de 2012 sobre o caso, em uma das primeiras reportagens do site – que havia sido lançado no mês anterior. O conteúdo está disponível também neste link.

MigraMundo: Como foi para você levantar a história da família do Jean Charles? O que você sentiu e de onde veio a ideia de inclui-la no livro?
Adriana Farias:
Quando você fala da vida de brasileiros em Londres é impossível não lembrar do mineiro que foi morto no metrô de Londres, por isso eu já pensava em incluir essa história assim que tive a ideia do projeto. Fiz uma pesquisa nos principais veículos brasileiros e internacionais que cobriram a história e também li um livro a respeito da vida de Jean Charles. No meio do percurso, explodiu na mídia aquele escândalo de grampos telefônicos do News of The World, tabloide do empresário Rupert Murdoch. Uma das pessoas que haviam sido grampeadas foi justamente o Alex Pereira, primo de Jean Charles. A partir daí passei a focar minha pesquisa nele.

O que eu encontrava sobre o Alex na mídia brasileira era um pouco superficial, mas o suficiente para saber que ele tinha muita história para contar e ninguém soube explorar isso. Na época, a mídia estava na loucura para ter o caso do Jean e se esqueceram do Alex, que foi um homem muito importante e peça fundamental nessa história toda. Viajei à cidade de Gonzaga (MG) para contar muito mais do que a história do Jean, mas sim a do próprio Alex, que lutou contra gigantes para provar a inocência do primo.

Após o caso Jean Charles, você acha que algo mudou na Inglaterra, seja para os ingleses, seja para os imigrantes que lá vivem?
Depois da morte do Jean acredito que nada mudou no Brasil, apenas ganhamos um filme sobre o assunto e muita mídia na época [em abril de 2025 foi lançada a minissérie no Disney+]. Já na Inglaterra, apesar de nenhum policial ter sido culpado pelo crime, eles se sentem envergonhados e a comunidade brasileira não deixa esquecer o que aconteceu ao manter o altar para o mineiro em frente a estação de Stockwell, onde ele foi assassinado.

O que aconteceu com Jean Charles foi parte do arbítrio policial e repressivo que tomou conta das forças policiais no mundo inteiro após o 11 de Setembro. Além disso, Jean também teve o azar de ser pobre e imigrante, condições que o tornaram especialmente vulnerável na era atual.

Com informações de Deutsche Welle, BBC News Brasil e Folha de S.Paulo


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