Um dos epicentros da questão migratória na Europa, a ilha de Lampedusa costuma aparecer no noticiário internacional por conta dos diversos naufrágios de embarcações com pessoas que tentam chegar à Europa. Mas também possui uma comunidade que faz o possível para recepcionar àqueles que sobrevivem a essa jornada. E é por esse aspecto que a localidade vai lançar sua candidatura a Patrimônio Cultural Imaterial da humanidade da Unesco, a agência das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura.
A ação será lançada oficialmente no próximo dia 12 de setembro, durante um concerto do pianista Giovanni Allevi em Lampedusa, localizada a pouco mais de 100 km da costa da Tunísia, já no norte da África. A postulação junto à Unesco, por sua vez, já estava prevista no dossiê de candidatura de Agrigento (comuna na Sicília à qual a ilha está ligada administrativamente) a capital italiana da cultura de 2025.
O processo será liderado pela associação Perou, que é responsável pelo projeto Avenir, um catamarã de 67 metros de comprimento e 22 metros de largura usado para ações de salvamento de migrantes.
“O Avenir é um instrumento pioneiro, a primeira embarcação europeia projetada para salvamento em alto mar, um lugar onde a fraternidade é afirmada e o multilinguismo é experimentado. O catamarã também apoia os gestos de salvamento, cuidado, benevolência e amizade que se desenvolvem ao encontrar aqueles que buscam refúgio na Europa”, diz o documento, de acordo com a agência de notícias italiana Ansa.
“Desde que me tornei prefeito, quase 200 corpos me foram entregues. Mesmo assim, nossa comunidade continua a estender a mão, prestar assistência e acolher. Peço que continuem a ter Lampedusa em seus pensamentos, como já fizeram em diversas ocasiões, e que nos apoiem nesta jornada que busca transformar dor em valor e humanidade em patrimônio”, declarou Filippo Mannino, atual prefeito, que convidou o presidente da Itália, Sérgio Matarella, a visitar a ilha no dia de ofialização da candidatura.
Em 2017, a própria Unesco premiou a então prefeita de Lampedusa, Giuseppina Nicolini, e a organização não governamental francesa SOS Méditerranée o Prêmio pela Paz Félix Houphouët-Boigny. Segundo a entidade, o reconhecimento se deu por “terem salvado a vida de milhares de solicitantes de refúgio e deslocados externos no mar Mediterrâneo e por tê-los ‘acolhido com dignidade'”.
Já em meados de setembro de 2023, a pequena ilha de pouco mais de 6 mil habitantes chegou a receber mais de 7 mil migrantes em 48 horas, levando lideranças locais e globais a alertar para uma sobrecarga de Lampedusa.
Origem de projeto sobre travessias migratórias
Foi nas proximidades de Lampedusa, em 3 de outubro de 2013, que ocorreu um dos naufrágios mais letais da história. Um barco lotado de migrantes que tinha saído da Líbia afundou e matou 368 pessoas, chocando a Europa à época e chamando a atenção para as perigosas travessias pelo mar Mediterrâneo.
Meses antes da tragédia, em julho, o então Papa Francisco escolheu Lampedusa como destino da primeira viagem de seu pontificado, já reconhecendo o local como epicentro da migração na Europa e onde falou sobre a “globalização da indiferença”, que “nos torna a todos ‘responsáveis’”.
Um ano depois da tragédia, a OIM (Organização Internacional para as Migrações) publicou um relatório intitulado Fatal Journeys (Viagens Fatais, em tradução livre) e deu início ao Missing Migrants Project, iniciativa que desde então vem contabilizando mortes e desaparecimentos de migrantes em travessias mundo afora.
Nos 20 anos anteriores ao naufrágio de 2013, pelo menos 20 mil pessoas tinham morrido nas águas da costa italiana na tentativa de chegar à Europa. Por esses dados e demais informações atualizadas do Missing Migrants Project, o Mediterrâneo vem consolidando alcunhas nada edificantes, como de “cemitério de migrantes” e de travessia migratória mais letal do mundo – especialmente na região conhecida como Mediterrâneo Central, que compreende Itália e Malta do lado europeu e Líbia e Tunísia na margem africana.
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