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sexta-feira, junho 5, 2026

Livro “Maria e os refugiados” aborda migração e pertencimento pelo olhar de uma criança

Estreia da autora Maria Noel Brena na literatura infantojuvenil une poesia, imigração e sensibilidade para falar de pertencimento a partir do olhar de uma menina

Por Gustavo Cavalcante

Em um momento em que o mundo discute fronteiras, pertencimento e deslocamentos, o livro infantojuvenil Maria e os refugiados, de Maria Noel Brena, surge como um convite delicado à empatia. A obra aposta em uma narrativa sensível e simbólica para abordar temas urgentes a partir do olhar de uma criança.

A história acompanha Maria, uma menina que, apesar de viver cercada por pessoas, encontra na solidão um espaço próprio de imaginação. É nesse cenário íntimo, especialmente no quintal de casa, que o inesperado acontece: uma gaivota começa a deixar misteriosamente peixes ao seu redor. 

Aos poucos, o que parecia apenas um acontecimento curioso se transforma em algo maior, quando esses seres ganham novos significados e revelam uma realidade atravessada por deslocamentos e encontros.

Sem recorrer a explicações diretas, o livro constrói uma ponte entre o universo infantil e questões contemporâneas, propondo uma reflexão sobre imigração e acolhimento com leveza e profundidade. O diferencial está justamente nesse gesto: falar de temas complexos por meio da imaginação, confiando na sensibilidade das crianças para compreender o mundo e transformá-lo.

A ligação da autora com a temática migratória

A chegada de Maria e os refugiados à literatura infantojuvenil também marca um ponto importante na trajetória de sua autora. Maria Noel Brena é psicanalista, nasceu no Uruguai e vive no Brasil desde a infância — uma travessia que, embora precoce, deixou marcas profundas na forma como ela observa o mundo e constrói suas histórias.

Essa é sua estreia no gênero, mas não se trata de um começo descolado de vivência. Ao contrário, o livro nasce de um acúmulo de experiências, memórias e percepções que atravessam sua própria história. A sensação de deslocamento, por exemplo, aparece não como conceito abstrato, mas como algo vivido, sentido e, agora, transformado em narrativa.

Ao falar sobre o tema ao MigraMundo, a autora revela como essa condição molda e muito a percepção de pertencimento a uma nova casa.

“O imigrante é aquele que se espanta. Que se surpreende. Que se assusta muitas vezes. E se encanta. Apesar de ter chegado ao Brasil muito criança, eu não esqueço das minhas primeiras impressões. Gostos, cheiros, sotaques, músicas, cores. Assim como não esqueço que, aos poucos, eu fui me sentindo estrangeira também na minha terra. Mas isso vem depois”.

Infância, solidão e imaginação

No centro de Maria e os refugiados está uma experiência silenciosa, mas profundamente reconhecível: a solidão na infância. Não aquela necessariamente visível, marcada pela ausência de pessoas, mas uma solidão que nasce de dentro, mesmo quando a criança está cercada por família, rotina e cuidado.

Maria é essa menina que habita um mundo interno rico, feito de observação, curiosidade e pensamentos próprios. Sua forma de estar no mundo passa menos pelo barulho e mais pela escuta de si, do ambiente, do que ainda não tem nome. E é justamente aí que o livro encontra sua força: ao tratar a infância como um território complexo, sensível e cheio de camadas.

A autora traduz essa percepção com naturalidade, sem dramatizar, mas também sem simplificar. “Quantas vezes uma criança não se sente só? Em casa, na escola, no ônibus, até mesmo em um recreio repleto de crianças?” comentou Maria.

Essa pergunta desloca o olhar do adulto e aproxima o leitor de uma experiência universal. Afinal, quem nunca, em algum momento da infância, sentiu esse tipo de solidão natural, mas difícil de explicar?

Nesse contexto, o quintal ganha um papel essencial. Mais do que cenário, ele se torna um espaço simbólico onde Maria pode existir por inteira. É ali que ela experimenta liberdade, cria vínculos com a natureza e constrói seu próprio ritmo. O quintal é refúgio, mas também é expansão, um lugar onde a imaginação transforma o cotidiano em algo extraordinário.

É nesse espaço íntimo e aberto ao mesmo tempo que a história começa a se desdobrar. E é justamente por partir dessa experiência tão comum e ao mesmo tempo tão pouco dita que o livro estabelece uma conexão imediata com o leitor, seja ele criança ou adulto.

Do fantástico ao humano

A partir de um elemento inesperado, Maria e os refugiados começa a expandir seu sentido. A gaivota que sobrevoa o quintal e deixa cair um peixe inaugura um deslocamento sutil na realidade — algo que, à primeira vista, pode parecer estranho, mas que rapidamente se integra ao universo da personagem. Esse gesto inaugura uma lógica própria, onde o cotidiano e o extraordinário passam a conviver sem ruptura.

A autora conta que, curiosamente, o fantástico do livro reflete em um episódio da sua infância. “A imagem surgiu há muitos anos quando, morando em um bairro a certa distância do mar, encontrei um peixinho no meu quintal. Como teria ido parar ali? Dentre as várias hipóteses que imaginei, a que mais gostei foi a de uma gaivota que pescou no mar e, sem querer – ou por arrependimento – deixou cair a sua pesca do dia. Essa imagem ficou em mim e muitos anos depois me lembrei dela”, revelou.

Esse ponto de partida mostra como o livro se constrói a partir de pequenas fissuras no real — brechas por onde a imaginação entra e reorganiza o mundo. À medida que os peixes surgem e passam a fazer parte da rotina de Maria, o vínculo se estabelece de forma natural, quase silenciosa.

A grande virada acontece quando esses peixes deixam de ser apenas peixes e se transformam em pessoas. O que poderia soar absurdo dentro de uma lógica encontra coerência no olhar infantil, que não exige explicações rígidas para aceitar o que sente como verdadeiro.

A autora reconhece esse movimento como algo próprio da infância. “Essa é a virada que somente uma mente infantil poderia entender. Peixes que se transformam em pessoas. Peixes que são pessoas. Monteiro Lobato fez isso em Reinações de Narizinho. Narizinho até se casou com um peixe.”

Um livro sobre o mundo de hoje

Ainda que construída a partir de um universo íntimo e imaginativo, a narrativa de Maria e os refugiados dialoga diretamente com questões urgentes do presente. Migração, deslocamento e pertencimento atravessam a história de forma sutil, mas consistente, revelando como esses temas fazem parte não apenas do cenário global, mas também das experiências mais individuais.

Ao transformar peixes em pessoas vindas de longe, a história desloca o olhar do leitor para a ideia de quem chega, de quem precisa recomeçar, de quem carrega histórias e perdas invisíveis. Nesse sentido, o livro trata o refúgio não como um conceito distante, mas como algo que pode ser compreendido a partir de gestos simples, do cuidar, abrigar e escutar.

E é justamente nesse ponto que a infância ganha força. Crianças também vivenciam deslocamentos, sejam eles geográficos, emocionais ou simbólicos. E, muitas vezes, demonstram uma capacidade de empatia que não depende de explicações complexas. 

Maria não teoriza sobre o que acontece. A própria autora destaca esse movimento ao falar da personagem.“Ela tem casa, comida, família, rotina e oferece isso a eles também. Se preocupa de imediato com a sobrevivência e com a vida deles em sociedade.”

Esse gesto direto, quase instintivo, revela a essência do livro. O acolhimento como prática cotidiana. Ao abrir espaço para o outro, Maria não apenas responde ao que vê, mas reconhece, mesmo sem nomear, a humanidade compartilhada ali.

Quando a imagem também conta história

Em Maria e os refugiados, a narrativa não se constrói apenas pelas palavras. As ilustrações de Jonathas Martins ampliam a experiência de leitura, criando uma camada visual que dialoga diretamente com as emoções do texto. 

Com uma trajetória consolidada na literatura infantil, o artista aposta aqui em uma abordagem mais orgânica, utilizando a pintura acrílica para dar corpo e atmosfera à história.

O resultado é um livro em que imagem e texto caminham juntos, sem hierarquia. Há momentos em que o que se vê completa o que não é dito ou até antecipa sensações que o leitor ainda está elaborando. Maria Noel Brena reconhece esse encontro como uma expansão da obra.

Segundo ela: “Foi incrível. Jonathas deu uma vida ao texto que eu não imaginei que ele tivesse. E deu ênfases que talvez eu não desse, o que me agradou enormemente.”

Algumas imagens se destacam justamente por traduzir visualmente temas centrais da narrativa. O pássaro em escala ampliada, por exemplo, evidencia a pequenez da menina diante do desconhecido, tornando visível aquilo que, no texto, aparece como sensação. 

Já o peixe suspenso no ar carrega a ideia de desamparo de alguém fora do seu lugar, em trânsito, vulnerável.

Acolher o outro, acolher a si

Se, em um primeiro momento, Maria e os refugiados fala sobre o encontro com o outro, aos poucos a narrativa revela uma camada mais íntima: acolher também é um movimento que acontece por dentro. Ao cuidar dos peixes, ao abrir espaço para o inesperado e, mais adiante, ao receber aqueles que chegam, Maria não transforma apenas o ambiente ao seu redor. Ela também se transforma.

Esse gesto de cuidado, que nasce quase de forma intuitiva, vai construindo um caminho de reconhecimento. A menina que antes habitava sua solidão passa a ampliar esse espaço interno, permitindo que novas presenças existam ali. Não há ruptura, mas expansão.

A  autora associa esse movimento à experiência da escrita, entendida como um lugar de escuta e acolhimento.“Escrever é uma maneira de se acolher. Acolher a emoção, acolher o vazio, acolher a palavra torta, a palavra inadequada, acolher uma maneira diferente de dizer as coisas. Acolher o erro e o acerto.”

Essa perspectiva ilumina a trajetória da personagem. Ao longo da história, Maria não abandona sua natureza observadora e silenciosa, mas passa a agir com mais abertura diante do mundo. O encontro com os refugiados não apaga sua solidão — ele a ressignifica.

Nesse sentido, o livro propõe uma leitura sensível sobre crescimento emocional. Não se trata de deixar de sentir, mas de aprender a conviver com o que se sente, criando pontes entre o dentro e o fora. Acolher o outro, aqui, é também reconhecer em si a capacidade de cuidar, de escutar e de se transformar.

Serviço

Livro: Maria e os Refugiados
Autor: Maria Noel Brena (texto) e Jonatas Martins (ilustrações)
Editora: Cambucá
Total de páginas: 40
Valor de capa: R$ 60,00


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