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sexta-feira, abril 17, 2026

Migração e moradia: uma reflexão a partir do tema da Campanha da Fraternidade 2026

O ato de morar com dignidade comporta não apenas uma casa como tal – teto, paredes e piso, portas e janelas – mas o conjunto do seu entorno

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

Neste ano, a Campanha da Fraternidade (CF 2026) nos convida a refletir sobre o tema da moradia. Embora a temática esteja umbilicalmente entrelaçada com o fenômeno migratório, este, por si só, não explica a precariedade em que vive boa parte da população brasileira. Múltiplos fatores entram em jogo quando se analisa o déficit habitacional no Brasil, o qual, de acordo com os estudos mais confiáveis, gira em torno de 6 milhões de unidades. 

O êxodo rural das últimas décadas levou milhões de brasileiros às cidades, além da chegada de novos imigrantes. A falta de moradia, porém, se agrava sobretudo pela estrutura agrária concentracionista, seja no meio rural, seja no meio urbano, bem como pela falta de políticas públicas voltadas aos camponeses, de um lado, e, de outro, à população urbana de baixa renda. 

Além disso, se a imagem do cartaz da CF 2026 chama nosso olhar para a população de rua, o foco da Campanha é bem mais abrangente. Inclui, por exemplo, as pontas de rua, periferias extremas e áreas degradadas; os sórdidos porões e cortiços abarrotados no coração de tantas cidades; as ocupações de sem-teto e assentamentos; os morros e os mangues, estes sujeitos a enchentes, aqueles a deslizamentos e tragédias; as favelas e casebres de lona nos centros das grandes cidades. Também inclui a mercantilização do direito à moradia, o que eleva abusivamente o preço dos terrenos e dos aluguéis, além de estimular o frenesi pela especulação imobiliária, tanto da terra urbana quanto da construção de novos apartamentos. 

Cartaz oficial da Campanha da Fraternidade 2026.
(Foto: Divulgação)

Esse ciclo perverso e excludente entre o crescimento dos serviços públicos na geografia urbana, por uma parte, e o encarecimento dos custos habitacionais, por outra, continua expulsando os moradores para os limites da cidade. Confina-os, não raro, em áreas de mananciais, nas quais é proibido construir. Ocorre que a dor, a fome e a carência não cabem nas leis férreas do lucro e do capital. O resultado não pode ser outro: chega a estação de metrô ou banco, chega o hospital ou supermercado, chega a escola, a creche ou o posto de saúde… e o pobre tem de sair. Os preços da terra, do aluguel e da casa dobram ou triplicam. Parafraseando Shakespeare, impõe-se a pergunta imperiosa: comer ou morar, eis a questão? Torna-se impossível competir com as grandes empresas e empreiteiras, resta esperar pela distribuição das migalhas.

O ato de morar com dignidade, de resto, comporta não apenas uma casa como tal – teto, paredes e piso, portas e janelas – mas o conjunto do seu entorno. Entram aqui as redes de água potável, esgoto e asfalto; a oferta de transporte coletivo; os serviços de educação, saúde, alimentação; a instalação elétrica e a internet; o nível de arborização. A este respeito, no município de São Paulo, por exemplo, bastaria confrontar os jardins com os estremos das regiões Norte, Sul e Leste. “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), diz o lema da CF 2026.

No Mistério da Encarnação, a gruta de Belém constitui um símbolo de duplo sentido. Ao mesmo tempo em que revela a todo forasteiro a provisoriedade da casa terrena, durante a passagem pela face do planeta, aponta a solidez do Reino de Deus como casa definitiva e eterna.

Publicado originalmente no jornal O São Paulo, edição 3589

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)


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