Atualizado às 17h05 de 29.jun.2026
“Meu corpo está no Brasil, mas meu coração está na Venezuela”. Essa frase, dita ao MigraMundo pela ativista e produtora cultural Ani Castrellón, ajuda a traduzir o sentimento de compatriotas que vivem fora do país logo após o forte terremoto que atingiu a Venezuela na noite de quarta-feira (24). Apesar do choque e da incerteza gerados pela tragédia, a comunidade venezuelana no Brasil tem se mobilizado para apoiar a terra natal.
Enquanto boa parte do Brasil acompanhava a vitória da seleção de futebol contra a Escócia pela Copa do Mundo, a Venezuela sofria o mais forte terremoto em seu território desde 1900. Outros tremores ocorreram nos dias seguintes, incluindo um na manhã desta segunda-feira (26), ampliando os danos e dificultando ainda mais as operações de resgate.
De acordo com informações oficiais mais recentes, 1.500 pessoas morreram em razão dos terremotos. No entanto, os números podem subir, pois há cerca de 50 mil desaparecidos no país, segundo estimativas da ONU. A chance de encontrar sobreviventes sob os escombros diminui a cada hora.
Foi o que aconteceu com um casal de venezuelanos residente em Brasília, que arrecadou fundos junto aos vizinhos para retornar ao país natal quando souberam que o edifício em Caracas no qual viviam os três filhos e seus avós havia desmoronado. Antes mesmo de chegarem à capital, no entanto, foi confirmada a morte dos entes queridos que estavam no prédio. Assim como essa família, muitas outras acabaram marcadas de alguma forma pela tragédia.
Crises em sobreposição
Vivendo em Florianópolis, Ani expressa preocupação com a capacidade estatal de responder à tragédia que se abateu sobre o país, especialmente em um contexto de crise generalizada que levou muitos venezuelanos a migrarem para outros locais, incluindo o Brasil.
“Não é segredo para ninguém que a Venezuela enfrenta há anos uma profunda crise social, econômica e institucional. O impacto de um episódio como este é muito maior do que muitas pessoas conseguem imaginar. Para mim, essa história representa a dor acumulada de muitas famílias venezuelanas. Por isso, os terremotos não atingem apenas prédios e cidades. Eles atingem uma população que já carrega anos de perdas, separações familiares, perseguições, migração forçada e esgotamento emocional”.
Presente a uma reunião da Pastoral dos Migrantes e Cáritas Diocesana locais de Roraima, em Boa Vista, o padre Alfredo Gonçalves relatou que a atividade converteu-se numa sessão de pranto e lágrimas. Dos 25 presentes, 19 eram migrantes venezuelanos, sobretudo mulheres. “Muita ansiedade e preocupação com os familiares que moram nas imediações de Caracas. Também é bom não esquecer que o terremoto se abate sobre um povo já vulnerabilizado pela pobreza e pela carência. Por exemplo, o sistema de saúde já estava colapsado. O terremoto agrava essa situação precária dos direitos básicos”, comentou.
Segundo dados das Nações Unidas, os venezuelanos representam o maior êxodo na história recente da América Latina, com 7,9 milhões de pessoas que deixaram o país em razão da crise generalizada. Desses, de acordo com a plataforma R4V, que monitora a migração venezuelana, 774 mil residem no Brasil.
Mobilizações
O desabafo e a dor de Ani e outros venezuelanos, no entanto, são acompanhados de mobilizações em prol dos compatriotas. Em comunicado divulgado na noite de quinta-feira (25), as organizações e lideranças que integram a Rede Venezuelanos no Brasil (REDEVEN) e entidades parceiras lançaram uma campanha de arrecadação de recursos destinada a apoiar as ações humanitárias em favor das vítimas. A ONG Humanidade Mais Que Fronteiras, sediada em Boa Vista (RR), ficou como responsável por centralizar os recursos, que podem ser doados por meio dos canais a seguir:
PIX ou transferência bancária
Chave PIX (celular): (95) 99157-4749
Favorecido: Organização Não Governamental Humanidade Mais Que Fronteiras
Dados para transferência bancária
Agência: 0001 Conta: 2982523-1
Instituição: 403 – Cora SCFI Titular: Organização Não Governamental Humanidade Mais Que Fronteiras
CNPJ: 46.759.193/0001-60
“Nas primeiras horas após um desastre dessa magnitude, cada minuto é decisivo. Milhares de pessoas permanecem afetadas, muitas delas ainda aguardando resgate, atendimento médico, água potável, alimentos, medicamentos, abrigo e outros itens essenciais à sobrevivência”, traz a nota conjunta da Rede, que manifesta ainda “profunda solidariedade ao povo venezuelano diante da grave tragédia humanitária provocada pelo terremoto”.
Mesmo a milhares de quilômetros ao sul, Ani se coloca a serviço para colaborar no que for necessário para ajudar as vítimas do terremoto na Venezuela, acionando por conta própria instituições como o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para refugiados)
“Deixo aqui meu apelo e também minha disposição para contribuir na construção de mecanismos mais ágeis e eficientes de apoio, já que a barreira linguística pode, em muitos casos, transformar situações simples em processos mais complexos e difíceis de resolver”.
Outras campanhas estão sendo criadas por entidades da sociedade civil e também por indivíduos. Caso saiba de alguma iniciativa, por favor envie para blogmigramundo@gmail.com para que ela seja incluída neste material.
Repercussão internacional
Vários países, entre eles os Estados Unidos e o Brasil, anunciaram que enviarão equipes para auxiliar nas buscas. Nesta sexta-feira (26), a ajuda começou a chegar à Venezuela.
As Nações Unidas mobilizaram suas agências e fundos para apoiar as vítimas dos terremotos na Venezuela. Ao menos duas delas, o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) já anunciaram ações em prol das vítimas do tremor.
Segundo a OIM, a agência está se mobilizando para fornecer assistência emergencial com abrigo, água, saneamento, higiene e serviços de saúde, além de itens essenciais não alimentares às famílias afetadas, ao mesmo tempo em que apoia iniciativas para garantir que as populações deslocadas recebam proteção e assistência.
Em nota, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) disse estar “profundamente entristecido com a destruição e com as perdas de vidas” causadas pelo terremoto e se colocou à disposição de parceiros e das autoridades venezuelanas.
“Neste momento difícil, manifestamos nossa solidariedade a todas as pessoas afetadas, suas famílias e comunidades. Nossos pensamentos estão com aqueles que sofreram perdas e com todas as pessoas que participam dos esforços de resposta e recuperação”, reforçou o representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzili.
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