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sexta-feira, dezembro 5, 2025

Migrantes tomam parte em manifestação no centro de São Paulo pelo direito ao trabalho

Ato em São Paulo contou com a participação de representantes de diferentes nacionalidades que pediram formas de exercer o direito ao trabalho e o fim da violência policial na região central, sobretudo no âmbito da Operação Delegada

Atualizado às 11h05 de 21.ago.2025

A região central de São Paulo foi palco da manhã desta quarta-feira (20) de uma manifestação que reivindicou o direito ao trabalho, formas de regularização de comerciantes ambulantes informais e o fim da violência contra esses trabalhadores. Em meio aos participantes era possível notar a presença significativa de pessoas migrantes de diferentes nacionalidades, como bolivianos, haitianos, venezuelanos, angolanos, senegaleses e outros.

Organizações como a USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos) e a Acilesp (Associação dos Comerciantes Imigrantes Latinos do Estado de São Paulo) também marcaram presença no ato, com faixas e reforçando o coro por garantias para o exercício de atividade remunerada na região central da cidade.

Segundo relatos de participantes, o ato chegou a reunir cerca de 5 mil pessoas no Brás, onde teve origem. De lá, a manifestação percorreu ruas da região central, incluindo um trecho da avenida do Estado, até chegar ao edifício da Prefeitura de São Paulo. Lá, representantes foram recebidos pela gestão municipal. A mobilização foi promovida pelo Sindcisp (Sindicato dos Camelôs Independentes de São Paulo).

A reunião, contudo, terminou sem respostas concretas por parte do poder público, que ficou de dar um retorno. Os organizadores do ato aguardam uma devolutiva para decidir sobre os próximos passos.

“Na minha opinião, não avançamos”, disse Margarida Ramos, representante do Movimento Unidos dos camelôs de São Paulo, que esteve na reunião.

O senegalês Mamadou Ka, que também participou da reunião e do ato na rua, esperava a presença do prefeito Ricardo Nunes (MDB) ou de seu vice, o que não ocorreu. “Isso pra mim foi uma falta de respeito com todo o povo que estava lá fora”, disse ele ao MigraMundo, se referindo aos demais manifestantes que saíram em caminhada pela cidade.

Também presente ao ato, o produtor cultural Daniel Perseguim, integrante do Fórum Fronteiras Cruzadas,  expressou espanto sobre como uma manifestação como a da quarta-feira passou praticamente batida junto à mídia. “Incrível como um ato grande como esse, com carro de som e tudo, que foi do Brás até a Prefeitura, não recebeu atenção dos meios de comunicação. De qualquer forma, acho que essa manifestação serve como forma de pressionar o poder público a fazer alguma coisa”.

A vereadora Luana Alves (PSOL) esteve presente ao ato e discursou em apoio a formas de regularização dos trabalhadores informais e cobrando uma postura do poder público municipal. “Não é impossível, dá pra fazer. Regulariza, organiza! As pessoas têm de ter direito ao trabalho. O ambulante é parte do maior polo comercial da América Latina, que é a região do Brás”.

Concentração no Brás, em São Paulo, para protesto com migrantes por trabalho digno. (Foto: Daniel Perseguim)

Histórico de tensão e violência

Tradicional polo de comércio popular na capital paulista, o Brás tem sido palco de seguidos atos de violência de forças policiais contra trabalhadores informais.

No último dia 5 de agosto, um protesto de vendedores ambulantes na rua Oriente foi dispersado com violência por agentes da Guarda Civil Metropolitana, que atuava na região em uma ação de combate ao comércio informal. Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo à Agência Brasil, uma pessoa chegou a ser detida, mas acabou liberada em seguida.

A força policial excessiva também gera casos fatais. No último dia 11 de abril, a repressão de policiais contra trabalhadores informais terminou com a morte do vendedor ambulante senegalês Ngagne Mbaye, gerando grande revolta e manifestações da comunidade migrante e da sociedade civil. A repercussão chegou até mesmo ao Senegal.

O caso envolvendo Mbaye não foi o primeiro a terminar com morte na região central de São Paulo. No final de abril de 2024, o também senegalês Serigne Mourballa Mbaye (mais conhecido como Talla Mbaye) morreu após uma ação da Polícia Militar. Ele estava em um prédio que foi alvo dos agentes por ser um suposto local de receptação de celulares roubados. As forças de segurança disseram que Mbaye pulou do prédio e morreu na queda – o que foi contestado por moradores da região, que afirmaram que o vendedor ambulante foi jogado pelos policiais.

Assim como ocorreu com a morte de Ngange, o episódio que terminou com a vida de Talla também motivou protestos da comunidade migrante, que foi às ruas cobrar justiça.

Poucos meses depois da morte de Mbaye, a imigrante chinesa Zho Xiao Wei, de 69 anos, que vendia legumes na região central de São Paulo, teve seu carrinho de feira chutado por um policial militar. Além disso, há relatos de grupos que realizam extorsão contra trabalhadores informais, sobretudo migrantes.

Operação Delegada

A repressão ao comércio informal se dá no âmbito da Operação Delegada, um convênio entre a Prefeitura de São Paulo e o governo paulista que prevê que agentes voluntários da Polícia Militar reforcem o policiamento na cidade durante os dias de folga. O foco principal é o combate ao comércio ambulante considerado em situação irregular – uma atuação que constantemente envolve violência por parte dos agentes envolvidos.

Segundo informações da Ponte Jornalismo, em 2024 a gestão Ricardo Nunes gastou R$ 324 milhões com a Operação Delegada, reajustando o valor repassado aos policiais em 20% — com adicional noturno de 20% e gratificação de 30% para atuação no centro da cidade.

Em dezembro de 2024, movimentos sociais entraram com uma denúncia junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), contra a violência policial no Estado de São Paulo. A partir da morte do migrante senegalês, em abril passado, um grupo de 66 entidades encaminhou um comunicado à CIDH para que o caso seja analisado com urgência. O documento também pede a adoção de medidas cautelares para garantir a proteção da população negra e imigrante no estado.

Em sua edição de 2024, a Marcha dos Imigrantes também incluiu em suas reivindicações o fim da Operação Delegada, reforçando a campanha mobilizada por movimentos sociais.


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