Não se deve culpar os refugiados pelos atentados de Paris

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Por Ricardo Rossetto – @rirossetto
De Pamplona (Espanha)

A lógica perversa de atuação do grupo terrorista autodenominado ‘Estado Islâmico’ (EI) provoca medo e sensação de impotência nas sociedades que são alvos de atentados. Na Europa, depois dos ataques de sexta-feira (13) em Paris, a desesperança e o fatalismo predominaram. Passado o choque e os dias de luto, a provável reação por justiça da sociedade francesa (e europeia) deve intensificar discursos e práticas intolerantes e xenofóbicas contra imigrantes e refugiados que vivem no continente – a maioria deles, é muito importante ressaltar, são sírios, iraquianos e afegãos que saíram do seu país fugindo dos mesmos terroristas.

Na França, Alemanha e Polônia, políticos conservadores e partidos nacionalistas de extrema-direita já começaram a criminalizar os mais de 800 mil imigrantes e solicitantes de refúgio que entraram na União Europeia somente neste ano de 2015. Em entrevistas durante todo o final de semana, afirmavam que soldados da jihad islâmica podiam ter se infiltrado em meio aos peregrinos para alcançar os países ricos do norte europeu e ali realizar ataques.

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (partido francês de extrema-direita) disse “que a França deveria abandonar imediatamente o Tratado de Schengen”, que mantêm as fronteiras abertas entre 26 países da União Europeia (UE). Markus Söder, líder da ala extrema-direita do partido alemão União Democrata Cristã, escreveu em seu Twitter que “os ataques mudam tudo e nós [Alemanha] não podemos mais permitir toda e qualquer imigração ilegal (sic) e descontrolada em nosso território”. Na Polônia, um país que tem se tornado cada vez mais reacionário, o líder do partido conservador Lei e Justiça (que chegou ao poder em eleições em outubro), Konrad Szymanski, disse que a “Europa precisa revisar profundamente a política de acolhida de refugiados”. Anunciou, ainda, que o país não acolherá novas pessoas solicitantes de asilo.

Mais uma vez os países do Ocidente não reconhecem a sua culpa no processo de formação de extremistas. Muitos dos perpetradores dos ataques são filhos de imigrantes de países árabes que se estabeleceram na Europa para recomeçar a vida. Ou seja, são cidadãos europeus. O problema é que há décadas o mundo muçulmano é rechaçado pelo Ocidente e apontado como uma ameaça aos valores cristãos, à democracia e à liberdade. Esse Ocidente acredita na narrativa do “choque de civilizações”, na qual esses dois grupos não podem coexistir. E quando dividem o mesmo espaço, o fazem por meio de um apartheid velado.

A charge é clara: imigrantes e refugiados, pressionados pelo EI e repelidos pela UE. Crédito:
A charge é clara: imigrantes e refugiados, pressionados pelo EI e repelidos pela UE.
Crédito: reprodução

A França é o país da UE com a maior população muçulmana. São mais de 6 milhões de pessoas vivendo, em sua maioria, concentradas em guetos afastados dos centros urbanos. São indivíduos que, para integrar-se à sociedade francesa e ao seu conjunto de valores, tiveram que se sujeitar à uma assimilação forçada de costumes, como a proibição do uso de véu pelas mulheres em lugares públicos. A paz social entre o grupo majoritário (a sociedade francesa) e os estrangeiros nunca foi consolidada.

Análises e reportagens de intelectuais e jornalistas especializados no assunto, como Noam Chomsky e Patrick Cockburn (autor do melhor livro sobre o surgimento do EI), mostram que os jovens muçulmanos que vivem na Europa e Estados Unidos, ao sofrerem humilhações diárias em uma sociedade que eles consideram de valores decadentes, encontram no jihadismo islâmico uma maneira de dar sentido à sua vida. A maior força do EI não está nas armas, e sim na capacidade de sedução do seu discurso, que é capaz de aliciar cada vez mais mentes para a causa extremista: simplesmente, acabar com o Ocidente e ampliar os domínios do seu califado.

Matar civis indefesos em nome de uma guerra santa é uma ideia delirante e abominável. Mas o fanatismo (ou seja, a ideologia islâmica por detrás das atrocidades do EI) não se combate com bombas. Enquanto continuarmos fechando os olhos para as injustiças contra os muçulmanos, mais razões os fanáticos terão para odiar seus opositores e planejar outros atentados. A guerra na Síria se desenrola há quatro anos e nenhuma das potências mundiais tomou medidas para acabar com o conflito e o sofrimento da população local (a não ser, é claro, financiar diferentes grupos que disputam o poder ali). A crise dos refugiados e a expansão do terrorismo em todo o mundo são os efeitos mais emblemáticos dessa letargia.

A possibilidade (cada vez menor, de acordo com as investigações) de que um dos terroristas responsáveis pelos ataques em Paris seja dono do passaporte de um sírio que entrou como refugiado na Europa, tampouco deve servir de pretexto para o surgimento de discursos de ódio contra os solicitantes de asilo. De acordo com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) e a Organização Internacional para Migração OIM), não existe nenhuma prova de que terroristas chegaram infiltrados nessa multidão de pessoas. Nesse momento, é importante que a racionalidade prevaleça sobre possíveis sentimentos de revanchismo, e a imprensa e as instituições políticas europeias devem atuar para impedir uma indignação generalizada da opinião publica.

Homens, mulheres e muitas crianças estão deixando tudo para trás e arriscam suas vidas por mar e por terra para tentar uma vida melhor na Europa. É inconcebível e inumano pensar que essas famílias são uma ameaça à segurança do bloco europeu. Fechar fronteiras não impedirá a sua chegada, apenas tornará a sua viagem mais perigosa.

Não culpem os refugiados pelos atentados de Paris. Nos seus países de origem, eles são vítimas de perseguições políticas, sociais, culturais. Muitos dos que chegam à Europa são sobreviventes de genocídios perpetrados por milícias armadas. Eles são tão vítimas do terrorismo quanto os cidadãos europeus, brancos e cristãos. E eles vêm em paz, para somar, para contribuir com o desenvolvimento e o bem-estar do país que o acolher.

A Europa vive um momento chave da sua história, como um bloco econômico e político, no qual terá que mostrar se validará os ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, princípios fundantes das bases da democracia moderna surgidos no século XVIII. Ou se deixará na história a marca de um continente “feudalizado”, fechado em seus próprios interesses e com uma pequena população de privilegiados.

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Français
tradução por Alexia Oh-ian

Nous n’avons pas le droit de rejeter la faute des attentats sur les réfugiés.

La logique perverse des actes du groupe terroriste autoproclamé “État islamique” génère un sentiment de peur et d’impuissance dans les sociétés qui ont été la cible d’attentats. Le désespoir et le fatalisme ont saisi l’Europe vendredi soir (13) après les attaques de Paris.

Une fois l’état de choc et le deuil passé, la société française ( et européenne) va très certainement demander justice et cela va se traduire par une intensification des discours et pratiques intolérantes et xénophobes à l’égard des immigrants et réfugiés qui vivent sur le continent – la majorité d’entre eux, et c’est important de le souligner, sont des syriens, iraquiens et afghans partis de leur pays pour fuir les mêmes terroristes.

En France, Allemagne et Pologne, les conservateurs et les partis nationalistes d’extrême droite ont déjà commencé à rejeter la faute sur les plus de 800 000 immigrants et réfugiés entrés dans l’Union Européenne sur la seule année 2015. Pendant tout le week-ends, les personnes interviewées ont affirmés que les soldats du jihad islamique auraient pu s’infiltrer parmi les migrants pour rejoindre les pays riches de l’Europe du Nord et y réaliser les attaques.

Marine Le Pen, leader du parti FN ( Front national, parti d’extrême droite français) a déclaré que « La France devait immédiatement se désolidariser du traité de Shengen »qui assure le maintient de l’ouverture des frontières au sein des 26 pays signataires de l’accord. Markus Söder, chef de l’aile d’extrême droite du parti Allemand L’Union Démocrate Chrétienne, a écrit sur son compte Twitter « les attaques changent tout et nous [L’Allemagne] ne pouvons autoriser l’immigration illégale (sic) et incontrôlée sur notre territoire. ». En Pologne, un pays qui devient de plus en plus conservateur, le leader du parti conservateur Loi et justice (qui a pris le pouvoir lors des élections d’octobre) , Konrad Szymanski a déclaré que « L’europe a besoin de revoir en profondeur sa politique d’accueil des réfugiés. ». Il a aussi annoncé que le pays n’accueillerait pas de nouveaux demandeurs d’asile.

Une fois de plus les pays occidentaux ne reconnaissent par leur faute dans le processus de formation des extrémistes. La plupart de ceux qui ont perpétrés les attaques, sont des enfants d’immigrés venus s’installer en Europe pour commencer une nouvelle vie. Il va donc sans dire qu’ils sont tous européens. Le problème se situe dans le fait que depuis des décennies le monde musulman est rejeté par l’Occident et montré du doigt comme une menace aux valeurs chrétiennes, à la démocratie et à la liberté. Cet Occident croit à la théorie du « choc des civilisations », qui explique que deux groupes culturels ne peuvent coexister et lorsqu’ils partagent le même espace ils le font dans une ambiance de quasi-apartheid non nommé.

La France est le pays de l’UE avec la plus forte population musulmane. Il existe plus de 6 millions de personnes de profession musulmane qui vivent, pour la grande majorité, concentrées dans des banlieues ghettoïsées. Ce sont des individus qui, pour s’intégrer à la société française et à ses valeurs, ont été soumis à une assimilation forcée, avec par exemple l’interdiction pour les femmes de porter le voile dans les lieux publics. La paix sociale entre le groupe majoritaire (la société française) et les étrangers n’a jamais été consolidée.

Les analyses et reportages d’intellectuels et journalistes spécialistes du sujet, tels que Noam Chomsky et Patrick Cockburn (auteur du meilleur livre sur la formation de l’EI), montrent que les jeunes musulmans qui vivent en Europe et aux Etats-Unis trouvent dans le jihad islamique une manière de donner un sens à leur vie pour parer aux souffrances quotidiennes qu’ils subissent dans une société dont ils considèrent les coutumes décadentes. La plus grande force de l’EI ne repose pas dans les armes mais bel et bien dans sa capacité à séduire par son discours, il est ainsi capable de rallier de plus en plus personnes à la cause extrémiste : qui consiste simplement à en terminer avec l’Occident et à agrandir son califat.

Tuer des civiles sans défense au nom d’une guerre sainte est une idée délirante et abominable.

Mais le fanatisme ( soit l’idéologie islamique derrière les atrocités de l’EI) ne se combat pas avec des bombes. Et plus l’on continue à fermer les yeux sur les injustices commises contre les musulmans, plus les fanatiques auront des raisons de détester leurs opposants et de planifier des attentats. La guerre en Syrie se déroule depuis plus de quatre ans et aucune des puissances mondiales n’a pris de décisions concrètes pour mettre fin au conflit et aux souffrances de la population locale (si ce n’est, évidemment, de financer les différents groupes qui s’y disputent le pouvoir). La crise des réfugiés et la croissance du terrorisme dans le monde entier sont les effets les plus emblématiques de cette léthargie.

La possibilité (chaque fois plus faible d’après les enquêtes) que l’un des terroristes responsables pour les attentats de Paris soit propriétaire d’un passeport d’un syrien qui serait entré en Europe comme réfugié, ne doit pas pour autant servir de prétexte à l’apparition de discours de haine contre les demandeurs d’asile. Selon la Haute Commission de l’ONU pour les Réfugiés (Acnur) et l’Organisation Internationale pour la Migration (OIM), il n’existe aucune preuve que les terroristes se seraient infiltrés dans ces foules de réfugiés. Dans de tels moments il est important que la rationalité prévale sur des possibles sentiments de revanche et que la presse et les institutions politiques européennes agissent pour empêcher une généralisation de l’indignation par l’opinion publique.

Ne rejetez pas la faute des attentats de Paris sur les réfugiés. Dans leurs pays d’origine, ils sont victimes de persécutions politiques, sociales et culturelles. La plupart de ceux qui arrivent en Europe sont les survivants de génocides perpétués par des milices armées. Ils sont autant victimes du terrorisme que les citoyens européens, blancs et chrétiens. Et ils viennent en paix, pour ajouter une pierre à l’édifice et pour contribuer au développement et au bien-être des pays d’accueil.

L’Europe vit un moment clef de son histoire, en tant que bloc économique et politique, où elle devra montrer si elle défendra les idées de liberté, égalité et fraternité, principes fondamentaux des démocraties modernes du XVIII, ou si on se souviendra d’elle comme un continent « féodalisé », renfermé sur ses propres intérêts et privilèges.

6 COMENTÁRIOS

    • Por pessoas como o Roberto Antequera Moron que estas e outras coisas acontecem. Não lê, ataca. Não escuta, fica mudo. Ataca sempre. E assim quer que caminhe a Humanidade. Não, com pessoas assim não…

  1. Que besteira, a Europa deve continuar a ser européia, de que adianta virar com continente árabe-muçulmano? Mas vocês querem mesmo que a Europa vire um novo Oriente Médio? Mesmo que os refugiados não tenham culpa, o lugar deles não é na Europa. Fora que quantos outros terroristas infiltrados não existem entre eles, além dos dois que já participaram do ataque em Paris?

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