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quarta-feira, abril 29, 2026

O que medidas recentes no Chile mostram sobre a migração e governança do tema no país e no mundo

Em menos de um mês, governo de José Manuel Kast iniciou construção de "escudo fronteiriço" na fronteira norte chilena e suspendeu programa de regularização de migrantes

Por Gustavo Cavalcante
Colaboração de Rodrigo Borges Delfim

O atual governo do Chile, que tomou posse no começo de março, deu início à construção de barreiras físicas na fronteira norte, marcando o começo de uma de suas principais medidas e trazendo para o país um conceito que cada vez mais se espalha mundo afora como forma de lidar com a questão migratória.

As primeiras intervenções ocorreram na região de Arica, que faz fronteira com o Peru, onde máquinas começaram a escavar valas profundas que fazem parte da estrutura inicial do chamado “Escudo Fronteiriço”. A obra, que prevê a instalação de muros, trincheiras e sistemas de vigilância ao longo de até 500 quilômetros, tem prazo estimado de 90 dias para execução. O avanço das intervenções deve servir como modelo para a expansão do projeto em outros pontos da fronteira com o Peru e a Bolívia.

A abertura dos trabalhos foi acompanhada de perto pelo recém-empossado presidente José Antonio Kast, que esteve no local e participou simbolicamente do início das escavações. Diante da imprensa, o chefe de Estado posicionou-se ao lado de uma retroescavadeira em operação, reforçando o caráter prático e imediato da medida.

Segundo dados oficiais, atualmente o Chile concentra cerca de 337 mil migrantes indocumentados, a maioria de origem venezuelana. O governo Kast também prometeu avançar com políticas de expulsão de pessoas nessa condição.

Além da construção do muro, Kast anunciou no final de março a suspensão do processo de regularização iniciado pelo antecessor Gabriel Boric, que poderia beneficiar cerca de 182 mil migrantes em situação irregular no país.

Sistema integrado

O chamado “Escudo Fronteiriço” foi estruturado como um sistema integrado de contenção, combinando diferentes tipos de barreiras físicas ao longo da fronteira norte do Chile. O plano prevê a instalação de cercas eletrificadas em determinados pontos, reforçando a segurança física das áreas monitoradas.

Paralelamente, o governo aposta no uso intensivo de tecnologia, com a implementação de radares térmicos capazes de detectar movimentações durante a noite, drones para vigilância aérea contínua e torres equipadas com câmeras de longo alcance. A proposta é criar um sistema de monitoramento permanente, capaz de identificar e responder rapidamente a tentativas de entrada irregular.

Outro ponto destacado pelo governo é a integração entre infraestrutura e operação em campo. Cerca de 3 mil militares foram deslocados para atuar na região, auxiliando tanto na vigilância quanto na logística das obras. Segundo a gestão do presidente José Antonio Kast, a combinação entre barreiras físicas e recursos tecnológicos busca ampliar o controle territorial sem depender exclusivamente de presença humana constante, tornando o sistema mais eficiente e de resposta rápida ao longo dos cerca de 500 quilômetros previstos no projeto.

O que dizem os dados

O fluxo migratório em direção ao Chile se intensificou nos últimos anos, especialmente pelas rotas terrestres do norte do país, transformando regiões como Arica, Tarapacá e Antofagasta em pontos críticos de entrada. Em 2025, no entanto, foram registradas 26.275 denúncias de entradas por passagens não autorizadas, o que representa uma queda de 10,2% em relação ao ano anterior. A redução vem após o pico observado em 2021, quando o país enfrentou uma pressão migratória mais intensa. Esses dados têm sido utilizados por diferentes atores políticos para sustentar argumentos distintos sobre a necessidade, ou não, de medidas mais rígidas.

Para o governo do presidente José Antonio Kast, a diminuição recente não elimina o problema, mas reforça a urgência de consolidar o controle das fronteiras. Sua gestão defende que a imigração irregular está diretamente associada ao avanço do crime organizado e do narcotráfico, e que ações estruturais como o “Escudo Fronteiriço” são fundamentais para evitar novos picos de entrada e fortalecer a segurança interna.

Já entre setores da oposição, a leitura é diferente. Críticos questionam a eficácia de barreiras físicas como solução de longo prazo e argumentam que a queda nos números recentes poderia indicar que o fenômeno já estava em desaceleração antes mesmo da nova política. Além disso, há preocupações sobre os impactos humanitários da medida, especialmente em relação ao risco de migrantes buscarem rotas mais perigosas para entrar no país.

Para o arquiteto, sociólogo e político chilemo Daniel Jadue, a questão é mais ampla e está ligada à frustração da população com governos anteriores, incluindo o de Gabriel Boric. Nesse sentido, a pauta migratória teria se tornado um símbolo de insatisfação social, explorado politicamente por setores que defendem respostas mais imediatas e visíveis.

Segundo Jadue, o debate vai além da construção de muros e trincheiras. Ele envolve visões distintas sobre segurança, políticas públicas e o papel do Estado diante de crises migratórias. Enquanto o governo aposta em controle territorial e medidas de impacto rápido, a oposição levanta questionamentos sobre sustentabilidade e consequências sociais de longo prazo.

“Crimigração” em marcha

A iniciativa do governo chileno rapidamente passou a ser comparada a políticas adotadas em outros países, especialmente à estratégia do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que teve como uma das marcas de seu primeiro mandato a construção de barreiras na fronteira com o México. Embora o governo de José Antonio Kast não declare oficialmente essa inspiração, a semelhança no discurso, centrado na segurança e no controle migratório, tem alimentado análises sobre um possível alinhamento com tendências mais restritivas observadas em diferentes partes do mundo.

De acordo com a advogada Tamires Fallavena, especialista em securitização das migrações, o que vem do Chile é mais um exemplo de “crimigração”, conceito que descreve a crescente fusão entre o direito penal e o direito migratório. “Ao tratar a migração como questão de segurança pública, o Estado passa a associar o migrante à figura do infrator, legitimando medidas excepcionais de controle, vigilância e contenção. No caso do Chile, a construção de muros, a presença militarizada na fronteira e o discurso de ‘proteção’ revelam essa lógica. Não se trata apenas de gerir fluxos migratórios, mas de enquadrá-los sob uma ótica punitiva”.

Ainda segundo a pesquisadora, essa abordagem desloca o foco de políticas humanitárias e de integração para estratégias de repressão, reforçando estigmas e ampliando a margem para violações de direitos, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social e deslocamentos forçados.

“A experiência internacional mostra que essas estruturas raramente cumprem o que prometem. Elas não interrompem fluxos migratórios, apenas os deslocam. Tornam as travessias mais perigosas, mais caras e mais dependentes de redes ilegais. O resultado não é o fim da migração, mas sua precarização e o objeto estatal que é o controle do viver e morrer daquela pessoa”.

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