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quinta-feira, maio 7, 2026
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Alguns números de uma forma perversa de migração

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Entre os séculos XVI e XIX, por meio do tráfico negreiro, milhões de pessoas foram trazidas à força da África para a América – tendo o Brasil, último país a abolir a escravidão, como maior destinatário desse contingente.

O tempo passou, a Lei Áurea (efetiva ou não) foi proclamada, mas o crime de tráfico de pessoas – considerada uma das formas modernas de escravidão – continua sendo uma realidade para o Brasil e um desafio à política migratória do governo. E o levantamento feito pelo Ministério da Justiça, em conjunto com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Undoc), dá uma dimensão – ainda que subestimada – do tamanho do problema.

Segundo a pesquisa, 475 brasileiros foram vítimas de tráfico de pessoas entre 2005 e 2011, sendo 337 desses casos referentes à exploração sexual e outros 135 de condições de trabalho análogas à escravidão. O país onde foi registrada uma incidência maior de cidadãos brasileiros vítimas desse crime foi o Suriname (que funciona como rota para a Holanda), com 133 vítimas, seguido da Suíça com 127, da Espanha com 104 e da Holanda com 71.

No entanto, os próprios autores do levantamento admitem que existam muitos casos que sequer chegam ao conhecimento das autoridades – não são devidamente registrados pelas entidades competentes e porque as vítimas não se apresentam ou não se reconhecem nessa situação.

A estratégia brasileira para combater o tráfico de pessoas tem se baseado em campanhas de conscientização e em uma rede nacional de apoio às vítimas. De acordo com o ministério, o governo federal vai anunciar, nos próximos dias, um pacote de medidas para o enfrentamento do problema. É esperar para ver quais serão.

Tais medidas, no entanto, não devem englobar somente as vítimas brasileiras e tampouco ficarem restritas ao âmbito nacional. O caso dos imigrantes bolivianos encontrados em situação análoga à escravidão em uma fornecedora da grife de roupas Zara – infelizmente apenas um em meio a tantos outros semelhantes – é um exemplo de como o problema do tráfico de pessoas se manifesta sob uma série de outras formas. E uma verdadeira e efetiva política de combate a esse crime – que também pode ser considerado uma forma perversa de migração – precisa levar tais fatores em conta.

Para completar, conforme consta em definição no site do Undoc, o tráfico de pessoas pode ocorrer tanto internacionalmente quanto dentro do próprio país, o que requer atitudes de envergadura que ultrapassem também os limites nacionais e estejam coordenadas com outras nações.

Vigiados e punidos, mas perseverantes

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Este é o primeiro de uma série de posts que vão tratar um pouco da história e da atualidade das comunidades de imigrantes do centro e leste da Europa que se estabeleceram no Brasil, mais precisamente em São Paulo. Acompanhem!

As políticas que viam o imigrante como um fator de risco à sociedade não são exclusividade dos tempos atuais. No século passado, por exemplo, os que vinham da Europa Central e Oriental para o Brasil eram tachados de “russos”, “comunistas” e considerados “subersivos” em potencial. Mesmo sob tal rótulo e vigiados de perto pelas autoridades, tais povos conseguiram se estabelecer por aqui.

Parte desse cotidiano pode ser conhecida por meio do livro “Imigração e Revolução”, lançado pela Edusp. A obra é fundamentada em arquivos do Deops-SP, a antiga polícia política paulista, e analisa a vigilância da entidade sobre lituanos, poloneses e russos que chegaram ao Estado entre 1924 e 1954. A obra permite o resgate da memória dessas imigrantes no Brasil sob o viés da repressão e da resistência política.

“Eu ingressei em um projeto chamado Proin, que tinha por objetivo sistematizar e pesquisar o acervo do Deops-SP. Neste estágio me deparei com diversos documentos que faziam referência à comunidade lituana. Realizei uma primeira pesquisa sobre o tema e, mais tarde, percebi a relevante documentação sobre as organizações polonesas e russas.  Aos olhos das autoridades brasileiras todo imigrante da Europa centro-oriental era russo e russo era usado como sinônimo de comunismo”, explica o historiador Erick Reis Godliauskas Zen, descendente de lituanos e autor do livro.

A vigilância do Deops-SP sobre tais comunidades era cerrada. Os agentes elaboravam dossiês detalhados com todos os passos de cada pessoa ou organização suspeita de “subverter a ordem social”. A entidade também se aproveitava de cisões internas nas comunidades e cooptava informantes para colaborar nas investigações. A proibição de falar o idioma de origem em público, o fechamento de escolas e de associações culturais, o confisco de documentos pessoais, a prisão e o ato de expulsão de estrangeiros serviam como medidas para inibir as proposta ditas “revolucionárias” e garantir o controle social.

Apesar dos rótulos impostos a esses imigrantes, Zen enfatiza as diferenças entre eles. “Lituânia, Polônia e Rússia são próximas e distantes ao mesmo tempo. Tem uma história em comum desde a União Polonesa-Lituana, depois, o Império Russo e finalmente com a soviética e os regimes comunistas – e com tudo isso são muito diferentes. Os russos que chegaram aqui na década de 1920 buscavam refúgio da revolução bolchevique. Já os poloneses em São Paulo tinham organizações com distintas perspectivas políticas, do nacionalismo ao comunismo, assim como os lituanos”.

Apesar de terem uma trajetória menos conhecida, Zen não crê tais comunidades sejam subestimadas nos estudos sobre imigração. “Talvez o que falte seja uma divulgação destas pesquisas, e isso vale para todos os temas e áreas. Não é muito fácil fazer uma pesquisa “sair” da academia. Por outro lado, é preciso considerar que muitos trabalhos não vão a fundo às questões e organizações políticas e isso creio que falta mesmo para os grupos maiores”, pondera.

Nas ruas, nas igrejas…

Apesar da desconfiança estatal, tais comunidades se estabeleceram e deixaram marcas em São Paulo, em especial na região da Vila Prudente. A Vila Zelina, por exemplo, expõe suas raízes lituanas nas vias públicas (Praça República Lituana e Rua Monsenhor Pio Ragazinskas), no comércio e na Paróquia São José, que conta com missas em lituano aos domingos. O bairro conta ainda com a atividade dos grupos folclóricos lituanos Nemunas e Rambynas.

Outra paróquia da região a oferecer missas em língua estrangeira é a Paróquia Nossa Senhora da Glória, na Vila Bela, também chamada de Paróquia Pessoal dos Ucranianos e que conta com missas celebradas em ucraniano. Já a comunidade russa conta com a Paróquia da Santíssima Trindade, no bairro de Vila Alpina, e a Associação Cultural Grupo Volga.

Livro: Imigração e Revolução – lituanos, poloneses e russos sob vigilância do Deops-SP
Autor: Erick Godliauskas Zen
Editora: Edusp
232 páginas – R$ 47

A multiétnica seleção alemã de futebol

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Atualizado em 09/07/2014

Já imaginou turcos, poloneses, bósnios, ganenses, nigerianos, brasileiros e alemães jogando na mesma seleção? Pois essa situação é uma realidade quando se fala da atual seleção alemã de futebol.

Sim, é a mesma Alemanha que ficou marcada a ferro e fogo na história pelo regime nazista, de alto teor racista e xenófobo, que tinha o conceito da raça pura ariana como ideal. Felizmente, o país tem apresentado mudanças (ainda que a contragosto dos mais conservadores, nacionalistas e xenófobos de plantão) e o esporte representa um belo termômetro dessa abertura recente.

Bandeira da Alemanha no Budestag, em Berlim. Seleção do país abre espaço para imigrantes e se reinventa. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Bandeira da Alemanha no Budestag, em Berlim. Seleção do país abre espaço para imigrantes e se reinventa.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Na Copa do Mundo de 2010, por exemplo, nada menos que dez dos jogadores convocados para defender a Alemanha eram estrangeiros naturalizados ou descendentes: Klose, Podolski e Trochowski, nascidos na Polônia; Marin, da Bósnia; Özil e Tasci, alemães de nascimento e descendentes de turcos; Aogo, Boateng e Khedira, com pais nigerianos, ganenses e tunisianos, respectivamente.

O time do último Mundial ainda contava com o brasileiro Cacau, de Santo André (SP), naturalizado alemão desde 2009. E outro “novo” alemão, o descendente de espanhóis Mario Gomez (também apelidado de “Super Mario”), aparecia nas convocações.

Já em 2014, a presença imigrante se faz com Klose, Podolski, Özil, Boateng, Khedira, Höwedes (descendente de noruegueses) e Mustafi (de pais albaneses nascidos na Macedônia). A imagem abaixo, do Global Post, simula como seria a seleção alemã sem os jogadores com raízes fora do país.

Como seria a seleção alemã da Copa-2014 sem os imigrantes e descendentes. Crédito: Global Post
Como seria a seleção alemã da Copa-2014 sem os imigrantes e descendentes.
Crédito: Global Post

A mudança

Enquanto a Alemanha apresenta progressos na sociedade e no futebol com a miscigenação, outros países adotam caminho inverso. É o caso da França, no qual dirigentes nacionais têm investido no “branqueamento” da seleção nacional e desestimulado o ingresso dos descendentes ou estrangeiros radicados no país, que atualmente ainda são maioria no time. Ironicamente, foi comandada por Zidane, filho de argelinos, que a França conquistou seu único titulo mundial de futebol, em 1998.

Nesse mesmo Mundial, disputado em solo francês, uma seleção alemã formada somente por brancos foi derrotada por 3 a 0 pela estreante Croácia nas quartas de final. Dois anos depois, veio uma eliminação ainda na primeira fase da Eurocopa e o vice-campeonato contra o Brasil na Copa de 2002.

 

Era hora de mudar. Em 2002, o narrador brasileiro Galvão Bueno dizia que a Alemanha “jogava algo parecido com o futebol”. Doze anos depois veio a resposta, que pode virar título em pleno Brasil.

Os reveses do final da década de 1990 e na final de 2002 desencadearam um processo profundo de reformulação do futebol alemão. Os clubes das duas principais divisões nacionais foram obrigados a criar centros de treinamento para buscar e formar novos jogadores. Do plantel que disputa a Copa no Brasil, apenas Klose (o mais velho da equipe) não é fruto desses centros de excelência.

Esse processo de reformulação aumentou o ingresso de imigrantes e descendentes nas categorias de base e na seleção principal da Alemanha. Já em 2002, o ganense de nascimento Gerard Asamoah entrou para a história como o primeiro negro a vestir a camisa da Alemanha em Copas do Mundo. E teve como artilheiro o mesmo Klose, nascido na Polônia e que neste Mundial se tornou o maior goleador da história das Copas, superando o brasileiro Ronaldo.

Essa nova geração de jogadores, considerada a mais talentosa do país desde o início da década de 1990, reflete o tamanho da população imigrante na Alemanha. Dos 82 milhões de habitantes, cerca de 7 milhões têm origem estrangeira – sendo 3 milhões deles de origem turca. E tal diversidade tem sido apontada como um dos motivos para o bom desempenho da seleção nacional nos últimos anos – por mais que nenhum título ainda tenha sido conquistado.

O título ainda não veio (pode vir no próximo dia 13). Mas desde 2006 a Alemanha tem figurado entre as quatro melhores seleções em Mundiais. Neste ano de 2014 essa seleção pode conquistar enfim o título que pode coroar o processo de reformulação, que conta com grande participação dos imigrantes e descendentes.

O sucesso dessa comunidade no futebol e em outros esportes na Alemanha não os deixa a salvo dos simpatizantes de grupos de extrema-direita e neonazistas, que os acusam de “manchar” as cores germânicas. Mas quanto mais a sociedade alemã contrariar o ideal de Hitler, fazendo contorcer-se onde quer que ele esteja, melhor para o país e para o mundo.

Leia também: Uma Copa de imigrantes e descendentes

Centros de detenção e extrema-direita ameaçam imigrantes na Grécia

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A crise que afeta a Europa tem nos imigrantes uma de suas maiores vítimas. Em muitos países eles viram alvo de partidos de direita e extrema-direita, que os acusam de serem “ladrões de empregos” e acusados de “saturar os serviços públicos” – discurso tal que encontra eco nos setores mais conservadores das sociedades.

Mas na Grécia, país que desencadeou a atual crise e o que mais sofre com ela, a situação dos imigrantes é ainda pior. Considerada uma das portas de entrada de estrangeiros na Europa  – inclusive devido à posição geográfica em relação à África e Ásia – , as autoridades gregas já colocam na conta dos imigrantes parte da culpa pela bancarrota. Mas as atitudes de Atenas tem causado preocupação na União Europeia na comunidade internacional.

A criação de centros de detenção para imigrantes ilegais pelo país é uma delas. As autoridades gregas lançaram operações para prender milhares de estrangeiros em situação de ilegalidade, que são levados para tais locais – nos quais os detidos reclamam de maus tratos.

Os centros de detenção são reprovados pela União Europeia, do qual a Grécia faz parte. Há inclusive quem os compare com campos de concentração. Mas não há sinais de mudança na postura de Atenas em relação ao tema.

Outra questão preocupante é o crescimento da Aurora Dourada no cenário político grego. Nacionalista e xenófobo (e com um símbolo que lembra muito a suástica nazista), o partido tem no atual cenário de crise o ambiente perfeito para se expandir. Exemplo disso é a distribuição de comida e roupas que frequentemente promove junto às camadas mais necessitadas da população grega. O preço para receber o donativo é simplesmente a filiação ao partido.

E ainda segundo o jornal britânico The Guardian (repercutida pelo portal Opera Mundi), há cada vez mais evidências de que até mesmo a polícia do país está delegando funções de fiscalização para pessoas ligadas ao grupo – função que permite à Aurora Dourada coloca em prática programas de “limpeza” de imigrantes ilegais e vendedores ambulantes irregulares.

A estratégia parece estar dando certo. Em maio, pesquisas de opinião apontavam que 12% da população aprovava o Aurora Dourada. Hoje esse número atingiu a marca dos 22%.

Considerando esses fatos, o cenário para os imigrantes gregos, legalizados ou não, deve ficar ainda pior. E um triunfo maior da Aurora Dourada na Grécia também deve repercutir – negativamente, do ponto de vista dos Direitos Humanos – nas políticas assistencialistas e de anti-imigração de outros países europeus.

O retrógado Estatuto do Estrangeiro

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Apesar do crescente papel do Brasil no cenário internacional e da maior procura do país por estrangeiros, a legislação vigente sobre o tema é bastante defasada. O que está em vigor atualmente é o Estatuto do Estrangeiro, de 1980, considerado uma herança da ditadura militar (1964-1985) e inspirado no paradigma da segurança nacional, que impõe uma série de controles burocráticos e restrições às possibilidades de residência no Brasil.

Muitos dos artigos, inclusive, são incompatíveis com o rol de direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988 a todos os que vivem no Brasil, nativos ou não, como o acesso aos serviços de saúde e educação.

Para substituir o atual Estatuto, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que, apesar de afirmar o respeito aos direitos humanos, mantém o conceito do estrangeiro como indivíduo estranho à sociedade e controlado pelo Estado, além de apresentar retrocessos em relação ao código em vigor. Por exemplo, ele propõe acesso integral ao trabalho, educação e saúde para o imigrante, mas aumenta de quatro para dez anos no tempo mínimo para um estrangeiro pedir a naturalização.

Segundo Deisy Ventura, professora de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), esse novo projeto pouco ou praticamente nada muda em relação à legislação já vigente. “Trata-se de um misto de herança do regime militar com 11 de Setembro, maquiado por alguns artigos que se referem aos direitos humanos”, diz a especialista, que faz referência ao famoso atentado terrorista que aumentou a pressão e a desconfiança sobre os imigrantes nos Estados Unidos.

Já Camila Baraldi, especialista em Direito Internacional e que estuda as políticas migratórias de países da América do Sul, destaca que o país precisa adotar uma política coerente com o que defende no exterior. “Hoje diversos problemas já vêm sendo expostos por organizações que trabalham com os imigrantes e os discursos internacionais do Brasil sobre as políticas de imigração do Norte vêm sendo reivindicados como parâmetros de ação para as suas próprias políticas. Elas precisam estar de acordo com as garantias de direitos humanos a que o Brasil está comprometido constitucional e internacionalmente”, explica.

“Imigração seletiva” versus Política Nacional de Imigração

Além do desatualizado Estatuto vigente e do polêmico projeto candidato a substituí-lo, dentro do governo federal também existem outros projetos e visões antagônicas sobre qual deveria ser a postura do Brasil diante da questão migratória.

Um deles é a “Política Nacional de Imigração e Proteção ao Trabalhador Migrante”, aprovada em 2010 pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg), formado por representantes do próprio governo federal e da sociedade civil. A proposta prevê uma legislação mais coerente com os compromissos e acordos migratórios assumidos pelo Brasil no exterior. Ele ainda garante aos imigrantes acesso a serviços como saúde e educação, além da desburocratização de processos de regularização e naturalização. O projeto foi encaminhado à Presidência da República logo após a aprovação no CNIg, mas desde então se encontra pendente.

Em sentido inverso, a Secretaria de Assuntos Estratégicos, vinculada à Presidência da República, propõe que o governo adote uma política de “imigração seletiva”, que incentive e facilite a entrada de estrangeiros com alta qualificação profissional e estabeleça limites para aqueles de menor escolaridade. A prática é semelhante à adotada por Estados Unidos e países europeus – e em geral criticada pelo Brasil em encontros internacionais.

De acordo com Deisy, se basear nesse tipo de políticas de imigração é um erro. “Elas não evitaram a crise econômica europeia, a deterioração do amálgama social e a decadência destas sociedades. Ao contrário, foram um fator de tensão constante, um atraso na compreensão do mundo e um pretexto para retrocessos em matéria de direitos humanos”.

Refletir sobre as falhas apresentadas pelas políticas de controle de imigrantes adotadas pela Europa, por exemplo, é apontada por Camila como a melhor forma de aprender com o que foi aplicado na exterior. “Isto deveria abrir caminho para que o Brasil pense uma política própria, que esteja de acordo com a sua realidade e seus princípios. Pior que copiar políticas sem qualquer critério, seria copiar aquelas que fracassaram”, finaliza.

Texto adaptado da reportagem “De volta à pauta, questão migratória vira teste para o Brasil”, publicado no jornal JIL em junho de 2012

Apresentação

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Você já parou para pensar na origem do seu nome e sobrenome? Basta uma pergunta para algum parente mais velho ou mesmo uma rápida pesquisada na internet para descobrir. É muito comum ver no Brasil pessoas com nomes que, em outros países, rapidamente seriam identificados como estrangeiros.

Esse traço mostra como a questão migratória faz parte da história do Brasil, desde a chegada dos primeiros colonizadores por aqui, passando pela vinda à força de negros via tráfico negreiro e ao incentivo ao ingresso de europeus. Mas se até um passado recente o tema era mais relacionado com deslocamentos internos – como do Nordeste para o Sudeste, por exemplo – e a ida de brasileiros para outros países, o tema ganha novos ingredientes com o aumento da volta de cidadãos que estavam no exterior e a chegada de estrangeiros por aqui em busca de melhores condições de trabalho.

Para responder às novas questões, adotar argumentos e práticas já usados fora do país muitas vezes não é a melhor ideia para atender às necessidades brasileiras. Um bom exemplo é a chegada de haitianos que, fugindo de um país devastado, ingressaram no Brasil e levantaram argumentos na sociedade que iam do pronto acolhimento ao repúdio desses indivíduos, com boas doses de xenofobia.

Fatores como esses mostram o quanto o debate sobre esse novo lado da migração por aqui ainda é imaturo. Pelo próprio tamanho continental e importância que tem dentro da América Latina, é natural o Brasil se tornar um polo de atração para pessoas de outros países, que tentam a sorte por aqui.

A imigração é uma realidade com a qual a sociedade brasileira se desacostumou a lidar, mas que deve ser cada vez mais presente no cotidiano. Teoricamente, para uma sociedade multiétnica e miscigenada como a brasileira, tal assunto deveria ser encarado com naturalidade. Mas muitas vezes essa mesma teoria acaba ficando bem longe da prática.

Este novo espaço tem como objetivo ajudar a discutir tais questões, partindo do ponto de vista que a migração é, sobretudo, um direito do homem – recurso ao qual sempre recorreu e ainda recorre em busca de melhores condições de vida. E a participação do leitor também é de suma importância, seja sugerindo, elogiando ou criticando o conteúdo publicado.

Desde já muito obrigado e até o próximo post.