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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

“Quermesse da ONU”, Festa do Imigrante une ambiente multicultural e solidariedade em 29ª edição

Evento já tradicional em São Paulo, Festa teve ingresso solidário como uma das novidades em 2025 e arrecadou 12 toneladas de alimentos para o Arsenal da Esperança

“É como uma quermesse, só que uma quermesse da ONU, das Nações Unidas”: assim o animador de palco da 29ª Festa do Imigrante, que ocorreu nos dias 27 e 28 de setembro em São Paulo, procurou explicar o significado do evento para o público presente, na tarde do último sábado (27). E quem foi ao espaço da antiga Hospedaria de imigrantes do Brás, que atualmente abriga o Museu da Imigração e o Arsenal da Esperança, teve a oportunidade de verificar essa diversidade cultural na prática.

Neste ano, a Festa do Imigrante reuniu um total de 60 atrações, contemplando comunidades de 43 países e territórios. Por meio de opções gastronômicas, apresentações de música e dança e oficinas culturais diversas, o evento destaca e valoriza as heranças culturais e tradições de diversas nacionalidades presentes na capital paulista, por meio da participação de comunidades de migrantes e descendentes.

Além do contato com diferentes culturas a poucos passos uma da outra, a Festa do Imigrante teve uma novidade importante neste ano: a entrada gratuita, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível – exceto sal. Ao final da festa, foram arrecadados 12 mil quilos de mantimentos, repassados integralmente ao Arsenal da Esperança – saiba mais sobre o impacto dessa medida ao final deste texto.

Atrações de artesanato disponíveis na 29ª Festa do Imigrante, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Com a palavra, o público e os migrantes

Visitando pela primeira vez a Festa do Imigrante, a coordenadora pedagógica Renata Pedroso buscava justamente aproveitar o evento para se conectar e conhecer outras culturas. “Estamos atrás de opções gastronômicas que em geral não conseguimos encontrar no iFood”, disse ela, acompanhada do marido, o engenheiro de sistemas Valmir Bellini. Ambos haviam acabado de provar – e aprovar – um prato de Camarões e olhavam com atenção para as salteñas disponíveis em uma barraca de culinária boliviana.

Para a analista de comércio exterior Mariana Bazane, que foi à Festa do Imigrante acompanhada da mãe, a aposentada Marilda Bazane, o evento ajudou a aproximar a família de um dos integrantes, que atualmente mora na Tchéquia – como é conhecida atualmente a República Tcheca. A barraca gastronômica do país da Europa Central foi uma das escolhidas pelas visitantes, que vieram do Guarujá (litoral paulista) para conhecer a festa. Mas elas também exaltaram a oportunidade de ter contato também com outras culturas além da tcheca e italiana, de onde possuem cidadania.

“Esse é um dos pontos mais bacanas dessa festa. O mundo é muito grande, mas está aqui pertinho da gente”, completou a analista.

Do “outro lado do balcão”, migrantes e descendentes aproveitam o evento como forma de valorizar suas culturas originárias e também para desfazer estereótipos. “Essa festa dá visibilidade para mostrar que os afegãos formam uma comunidade de fato aqui no Brasil, que nem todo mundo foi embora. Também ajuda a mostrar que nós afegãos não somos árabes e nem falamos o idioma árabe”, disse o afegão Shabir Ahmadi Niazi, que pela segunda vez participou da Festa do Imigrante com uma barraca temática do Afeganistão.

Para o chef congolês Pitchou Luambo, responsável pelo restaurante Congolinária, o evento serve para reforçar a identidade de seu país natal – a República Democrática do Congo – e ampliar o contato do público com o empreendimento. “As pessoas que já nos acompanham vêm aqui na Festa do Imigrante nos prestigiar”, comentou ele, que participou de todas as edições pós-pandemia – desde 2021.

Ao todo, segundo o Museu da Imigração, 14 mil pessoas compareceram à Festa do Imigrante deste ano, somados os dois dias de evento. O número foi bem visto pela organização, levando em consideração outros eventos que ocorreram no fim de semana com teor multicultural.

Público acompanha apresentação durante a 29ª Festa do Imigrante, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Migrações do passado e do presente

Local de recepção de cerca de 2,8 milhões de migrantes internos e internacionais ao longo de 91 anos de operação, a antiga Hospedaria do Brás já é um ponto de referência para comunidades com raízes históricas mais profundas. Desde que reabriu com uma nova proposta, em 2014, o Museu da Imigração tem dado grande ênfase a trazer para si também as migrações contemporâneas.

Essa postura se soma a outros esforços por parte do Museu da Imigração, como os contatos com consulados de diferentes países em São Paulo, como forma de atrair tais comunidades de migrantes e descendentes para a festa – seja para apresentações e oficinas de artesanato, música e dança, seja para as atrações gastronômicas.

“A gente tem trabalhado muito para isso, para dar cada vez mais visibilidade a essa migração contemporânea, fazendo com que se sintam realmente que essa casa. A ideia é que o Museu realmente consiga atuar dentro do seu objetivo original, de ser uma casa de acolhida, de acolher todos esses povos aqui dentro. A Festa do Imigrante, inclusive, mostra bem isso”, explicou Alessandra Almeida, diretora do Museu da Imigração.

Além de receber eventos diversos ligados a tais grupos, o Museu da Imigração será novamente um dos pontos físicos de votação do Conselho Municipal de Imigrantes (CMI), que terá eleição neste domingo (5.out) – o mesmo já havia ocorrido em 2023.

Solidariedade

Os 12 mil quilos de alimentos arrecadados junto ao público como ingresso na Festa do Imigrante terão um impacto significativo para o Arsenal da Esperança, que ocupa pouco mais da metade do espaço da antiga Hospedaria do Brás. Em funcionamento desde 1996, é atualmente o maior centro de acolhida da capital paulista e abriga homens em situação de rua. Cerca de 1.200 pessoas são atendidas por noite, segundo a entidade.

Um dos alojamentos do Arsenal da Esperança, aberto ao público durante a 29ª Festa do Imigrante, em São Paulo.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

“Para nós, isso significa muito! Para uma pessoa que trouxe 1kg de alimento pode parecer muito pouco, mas é nessa conta de 1kg + 1kg + … que essa casa mantém a sua porta aberta há quase 30 anos acolhendo diariamente 1.200 pessoas em vulnerabilidade social, chegando a uma média de 1.350 kg de alimento por dia”, exemplifica o padre Simone Bernardi, missionário do Arsenal da Esperança.

Neste ano, além de ter acesso às instalações do local, o público que participou da Festa do Imigrante teve a oportunidade de integrar visitas guiadas, conduzidas pelo Centro de Preservação, Pesquisa e Referência (CPPR) do Museu da Imigração.

“A Festa do Imigrante não deixa de ser também uma oportunidade para abrirmos ainda mais nossas portas a todas aquelas pessoas que estão entrando pela primeira vez. Conhecer o que se faz dentro do Arsenal é muito importante para nós, porque por mais que nossos números sejam grandes, o Arsenal é uma ‘casa que acolhe’ cada um, um lugar de encontro, onde cada um possa encontrar uma oportunidade para dialogar e crescer, independentemente do que traz consigo”, completa Bernardi.

Pode-se dizer, sem exagero, que o Arsenal, de certa forma, dá continuidade ao que era feito pela antiga Hospedaria. Entre os que passam ou já passaram pela instituição há pessoas de outras cidades paulistas e do país, mas também cidadãos de diferentes nacionalidades, a exemplo do que aconteceu ao longo dos 91 anos de funcionamento da instituição.


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