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sábado, fevereiro 14, 2026

Sem tédio, sem roteiro: a Mobilidade Global em um mundo em choque

Mesmo que as fábulas nos tenham vendido o conto do herói, o “heroísmo” na Mobilidade Global é cansativo para todos os que dele tomam parte

Por Danyel Andre Margarido

Não há como dizer que toda a arte envolvida em Global Mobility pode tornar o dia a dia monótono. A multidisciplinaridade da movimentação global de talentos se reflete em quase todos os aspectos da vida de uma pessoa enviada para outro país, outra cultura, e qualquer abalo no mundo pode trazer uma grande exposição para todos os envolvidos.

As recentes tensões geopolíticas, em escala literalmente global, mostram que o tédio não é parte de tudo o que é feito para que empresas façam a movimentação das pessoas certas para os lugares certos. Em um mundo, e em uma arte, onde a proatividade prevalece, os eventos, tensões e os abalos colocam a área de Mobilidade Global em um lugar mais reativo do que gostaria.

Como se preparar para o inesperado? Sendo ainda que este inesperado se renova a quase toda a semana?

“Faça bem feito e fará uma vez só”

Essa não é uma frase que se aplica a Global Mobility. Uma vez que os eventos globais que acontecem (e vêm acontecendo em uma escala de tirar o fôlego) não seguem padrão algum, estar preparado significa estar atrasado. Afinal não são só eventos de escala global por si só, podem afetar pessoas diferentes de formas diferentes, e a obviedade deste momento é o que precisa ser lembrado.

O mundo está sempre se alterando, sempre passando por algo, e, independentemente do seu tamanho, pessoas são afetadas. A lembrança da Covid-19 ainda nos é presente não só por toda a dor e perda causadas, mas também pelos processos de Mobilidade Global que foram alterados para acomodar os passos – o famoso Duty of Care – a serem todos caso algo assim aconteça novamente. Não pela esperança de que algo tão terrível se repita, mas pela esperança de que, em caso de algo tão terrível assim se repita, possamos auxiliar a cuidar de mais pessoas, mais rápido.

O mesmo se passa com as crescentes “guerras e rumores de guerras” que rondam nosso 2026. Como estar preparado, se algo novo acontece no mundo a cada semana? Durante a pandemia tivemos a invasão russa sobre o estado-soberano da Ucrânia – até hoje é possível ver países bálticos com frases de suporte à Ucrânia, e de condenação ao atual Kremlin. Ainda o mundo foi lembrado recentemente de um conflito secular entre Israel e Hamas, que perdura há tanto tempo, e que possui tantas facetas, conseguindo continuar de várias maneiras – algumas dessas maneiras embasadas em puro preconceito. Em cenários absurdos como estes, como estar preparado para a movimentação de pessoas?

Em primeiro lugar, é importante saber os primeiros afetados. Expatriados. Localizados, recém-chegados. Dependentes. Viajantes a negócio. A lista pode ser maior ou menor, dependendo de quem é enviado. Mas não é possível desvincular o conceito principal: uma pessoa deslocada, sem sua rede de apoio, em uma nova cultura, que provavelmente não conhece todas as regras locais. Saber quem são essas pessoas, onde estão, e o que está acontecendo, vai ajudar na definição do próximo passo – mesmo que seja uma mensagem simples, a depender do tamanho da situação.

Ninguém espera que movimentos geopolíticos aconteçam de maneira tão rápida – principalmente em um mundo mergulhado na complexidade das relações entre países. Em poucas semanas de diferença, incursões estadunidenses aconteceram na Venezuela, ferindo soberanias e passando mensagens, e ofertas, também estadunidenses, de compra de um território autônomo ligado a outro país, foram feitas. Os impactos dessas ações no mundo das Pessoas em Movimento ainda não foram plenamente sentidos, mas a pedra foi jogada no lago, só falta saber quantas ondas atingirão a margem e por quanto tempo.

Como se preparar para movimentações tão grandes? E como informar e guiar os envolvidos? Infelizmente, os advisors de Global Mobility acabam por ser mais reativos do que proativos justamente pela impossibilidade de prever próximos passos – não incapacidade, mas sim a impossibilidade. A Incerteza do Mundo VUCA (ou “VICA”) realmente deu lugar ao Incompreensível do mundo B.A.N.I. (bem como se juntou o Ansioso, do mesmo mundo).

“Primeiro aprender a ficar de pé, depois, voar. Regra da natureza, Daniel-San” – Sr. Miyagi (Karatê Kid).

Mesmo com a Reatividade causada pela Incompreensibilidade do mundo, ações podem ser tomadas para que haja a proteção da pessoa em deslocamento, em movimentação pelo mundo. Decisões não muito populares, no começo, precisam ser tomadas em meio a um evento de grande escala. Muitas confirmações e validações das decisões tomadas vão acontecer após os eventos. Além disso, não é possível ser uma decisão tomada só por GM.

A Multidisciplinaridade da Mobilidade Global requer o “buy in” de várias frentes, o que em um momento de intensa decisão, precisará do apoio de áreas como Segurança, Compliance, Jurídico, RH entre outras tantas. Decisões como o congelamento de viagens, o que impediria as pessoas de deixarem o local onde estão no momento, o que pode ser uma ferramenta importante (e simples) na contenção de problemas, precisam de todos esses envolvidos.

Ainda a questão de parceiros estratégicos é pouco comentada. Quais ações os seus parceiros precisam tomar em casos como o dos Estados Unidos com a Venezuela? Quais soluções podem ser pensadas em conjunto para poder resolver algum problema que impeça a entrada de pessoas no país, ou mesmo, na necessidade de saída de alguém que já está alocado neste destino? A resposta do primeiro contato de emergência não pode ser um simples “vou verificar”. Ações reais precisam estar, no mínimo, ensaiadas, e as parcerias precisam estar sólidas desde o começo, justamente para diminuir a reatividade inerente ao estado de incompreensão.

Mesmo que as fábulas nos tenham vendido o conto do herói, o “heroísmo” na Mobilidade Global é cansativo para todos os que dele tomam parte. Problemas vão acontecer. Erros serão feitos, e somente vistos depois. É hercúlea a tarefa da perfeição, do heroísmo do Advisor de Global Mobility, da pessoa que vai resolver todos os problemas sozinha – por mais que este seja o desejo de muitos – não é nada fácil.

“Para aqueles que ainda virão” – Gustave

Por mais que a incerteza, a ansiedade e a incompreensão (além das outras letras que formam o mundo BANI), preparar o caminho, com parcerias estratégicas, com conversas difíceis, com planos e ensaios, sabem quem são as pessoas atingidas, ajuda muito com o lidar do incerto.

A movimentação de pessoas pelo mundo, não só de talentos, mas de pessoas, está ficando cada vez mais complexa. A multidisciplinaridade está ficando cada vez mais multidisciplinar, e impossível de se colocar em trilhos que ligam (e seguram) a movimentação de pessoas de um ponto A a um simples ponto B. O dever do cuidado com a pessoa, com as vidas envolvidas, é tanto dever quanto cuidado. Principalmente em meio a cenários novos, a pessoas que estão em culturas novas, sem uma rede de apoio para segurar a bronca que é mudar de país, e que é ter isso mudado do dia para a noite, a depender do cenário. Na maioria das vezes, a rede de apoio das pessoas, das famílias, das vidas enviadas é você.

Sobre o autor

Danyel Andre Margarido possui mais de quinze anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na Suzano. Já coordenou a movimentação de mais de 2.000 famílias pelo mundo, oferecendo suporte estratégico em relocation, imigração, integração cultural e todas as áreas que formam a Mobilidade Global de Talentos. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito. Tem MBA em Recursos Humanos pela Anhembi Morumbi e um mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais pela Rome Business School.


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