Por Pedro Del Fabro
Maternar já é, por si só, uma experiência de transformação profunda. Quando essa vivência acontece fora do país de origem, os desafios se ampliam: idioma, burocracias, diferenças culturais e, principalmente, a ausência de uma rede de apoio estão entre eles. Para as brasileiras que vivem no exterior, esse cenário exige adaptação e reforça a importância de construir novos vínculos.
A psicóloga Fernanda Bortolotto conhece essa realidade na prática, como mãe e como profissional. Ela deixou o Brasil em 2018, passou pela Irlanda e por Portugal e hoje vive no México, onde teve sua filha, Lena, em 2024. Segundo ela, durante a gestação, desafios que poderiam ser simples ganham outra dimensão e questões básicas, como falar no telefone, geram mais esforço emocional. “É um momento em que você está mais sensível. Tinha dias em que eu só queria ser cuidada, mas precisava ligar para o médico e explicar o que estava acontecendo em espanhol”, relembra.
Além da barreira linguística, há diferenças nos sistemas de saúde e nos protocolos médicos. “A quantidade de exames pode ser diferente, o tipo de acompanhamento muda. Às vezes você conversa com amigas no Brasil e percebe que a referência que você tinha não se aplica ali”, afirma Fernanda. Depois do nascimento, os desafios continuam e se transformam. Questões como alimentação, escola e criação dos filhos passam a envolver negociações culturais constantes, principalmente entre casais interculturais. “Eu sou brasileira, meu marido é mexicano. Então, a gente precisa o tempo todo se perguntar: quais valores queremos seguir? O que é importante para cada um? É uma construção diária”, explica a psicóloga.
Comunidade online como suporte e rede de apoio
Fernanda atende mães brasileiras que moram no exterior pelo viés da psicologia intercultural, área dentro da psicologia social que utiliza elementos da antropologia e surge para entender como a cultura influencia o comportamento, o pensamento e as emoções das pessoas. Ela explica que é nesse contexto, entre o Brasil e o país atual, que a rede de apoio se torna um dos principais fatores de proteção emocional: “A psicoterapia é uma parte muito importante, mas não substitui a rede de apoio. É fundamental que essa mulher construa vínculos no lugar onde ela está”, explica a psicóloga.
Na prática, isso acontece de diferentes formas. Fernanda participa, por exemplo, de encontros presenciais com outras mães brasileiras no México. “A gente se reúne em parques, faz atividades com as crianças, compartilha comidas típicas como brigadeiro e pão de queijo. É um espaço de acolhimento e também de troca de informações importantes, desde escola até questões do dia a dia”, conta. Ela destaca que, além dos encontros presenciais, a tecnologia também ajuda a reduzir distâncias: chamadas de vídeo, troca de mensagens e pequenos rituais com familiares no Brasil fazem parte dessa construção. “Nossa tradição é mandar recados de vídeos para os meus pais, que adoram ver a Lena brincando”, compartilha Fernanda, mostrando a importância de criar estratégias para manter os vínculos vivos.
Apesar dos desafios, Fernanda também destaca os aspectos positivos de criar um filho entre culturas: “Existe uma ampliação de repertório, uma abertura maior para o mundo. As crianças crescem com mais flexibilidade e adaptabilidade. É um processo desafiador, mas muito rico”, afirma. Para ela, o principal ponto é conseguir olhar para essa experiência de forma completa, sem romantizar, mas também sem ignorar seus ganhos: “precisamos sair de uma visão idealizada e conseguir sustentar que existem desafios e aspectos muito positivos ao mesmo tempo. Entender por que você escolheu estar no seu país atual ajuda a dar sentido a tudo isso”, conclui a psicóloga.
Tema recorrente
Entre as principais demandas que chegam à clínica estão justamente questões relacionadas à rede de apoio, à sobrecarga e às diferenças culturais na criação dos filhos. Diante desse cenário, iniciativas que promovem conexão entre mães imigrantes ganham ainda mais relevância. A Prô Mundo Psicologia ampliou recentemente sua comunidade online, que antes estava restrita aos pacientes, e agora passa a ser aberta também para o público externo. A comunidade funciona como um ambiente estruturado de troca entre brasileiros que vivem no exterior, com encontros em grupo, rodas de conversa e conteúdos voltados aos desafios da vida fora do país.
A maternidade é um dos temas recorrentes por lá, e Fernanda Bortolotto, ao lado de Carolina Mazoni (ambas psicólogas da Prô Mundo), já conduziram um workshop voltado para mães imigrantes, criando um espaço de escuta, acolhimento e compartilhamento de experiências. Mais do que um canal de conversa, a proposta é justamente ajudar na construção de uma rede de apoio no exterior. Ao reunir pessoas que vivem contextos semelhantes, a iniciativa contribui para construir vínculos, ampliar repertórios e oferecer suporte emocional contínuo para brasileiros ao redor do mundo.
Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link
O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

