Por Gustavo Cavalcante
A Agência da ONU para os refugiados palestinos (mais conhecida pela sigla em inglês UNRWA) vive um de seus momentos mais críticos, tanto do ponto de vista financeiro quanto institucional. É nesse contexto que a entidade trocou recentemente de direção, com a saída antecipada do suíço Philippe Lazzarini e a volta à cena do britânico Christian Saunders como chefe de uma estrutura essencial para milhões de palestinos em meio à guerra e ao agravamento da crise humanitária local.
Essa atuação da UNRWA segue sendo considerada peça-chave sobretudo na Faixa de Gaza, onde a população civil enfrenta deslocamento massivo e colapso de serviços básicos. A combinação entre aumento das necessidades, limitações operacionais no terreno e desafios estruturais da própria agência contribui para um ambiente de alta complexidade, no qual a continuidade das operações depende de fatores que vão além da capacidade técnica da organização.
A gestão anterior, liderada por Lazzarini desde 2020, foi marcada por crises sucessivas que ajudam a dimensionar o cenário atual. Durante seu mandato, a agência enfrentou não apenas dificuldades financeiras crescentes, mas também o impacto direto da guerra iniciada em outubro de 2023, que já resultou na morte de quase 400 funcionários da UNRWA e na destruição de parte significativa de sua infraestrutura, além de dezenas de milhares de vítimas civis em Gaza.
O ingresso de Christian Saunders no comando da UNRWA é precedido de uma longa trajetória dentro do sistema das Nações Unidas, que inclui a própria agência voltada aos palestinos. Desde 2022, o britânico atuava como coordenador especial para o aprimoramento da resposta da ONU à exploração e ao abuso sexual, função voltada à supervisão de políticas institucionais e mecanismos de responsabilização. Antes disso, ocupou cargos de alto escalão, como secretário-geral adjunto em áreas operacionais e de apoio estratégico.
Saunders já atuou anteriormente na UNRWA, em 2019, na função de comissário-geral interino, em substituição ao suíço Pierre Krähenbühl, que era alvo de denúncias de irregularidades administrativas. Com um histórico de familiaridade com a estrutura e o funcionamento da agência, a expectativa é de que o britânico tenha uma atuação voltada à eficiência administrativa e à priorização de ações consideradas essenciais para a continuidade das atividades.

(Foto: UNRWA)
Cenário atual da UNRWA
Criada em 1949, a UNRWA mantém atualmente suas operações em cinco territórios — Jordânia, Síria e Líbano, além da Cisjordânia e Faixa de Gaza, ambos territórios palestinos ocupados por Israel. Nesses locais, presta assistência direta a cerca de 6 milhões de refugiados de origem palestina. Ela se consolidou como uma das principais estruturas de apoio humanitário da região, atuando em áreas como educação, saúde e distribuição de alimentos, especialmente em contextos de crise prolongada.
Na Faixa de Gaza, onde a guerra iniciada em outubro de 2023 intensificou uma situação já considerada crítica, a atuação da agência ganhou ainda mais centralidade. A ONU e outras organizações internacionais classificam a UNRWA como a principal responsável por sustentar a rede de serviços básicos para a população local, em meio à destruição de infraestrutura civil e ao deslocamento em massa de moradores dentro do território.
Os impactos do conflito também atingem diretamente a própria estrutura da agência. Desde o início da guerra, 390 funcionários da UNRWA foram mortos, segundo declarações públicas da gestão anterior. Além disso, diversas instalações da ONU foram danificadas ou destruídas durante as operações militares, comprometendo a capacidade de resposta humanitária em diferentes pontos da Faixa de Gaza.
Ao mesmo tempo, a demanda por assistência cresce em ritmo acelerado. O avanço das operações militares e as restrições de circulação têm ampliado o número de pessoas deslocadas internamente, pressionando ainda mais os serviços oferecidos pela UNRWA. Em muitos casos, famílias inteiras passaram a depender exclusivamente de ajuda para acesso a itens básicos de sobrevivência.
Pressão política, acusações e crise de financiamento
Quando Saunders liderou a UNRWA provisoriamente, em 2019, a questão financeira já era um problema latente. No entanto, a situação atual é bem mais grave e se junta a limitações crescentes de atuação, sobretudo exercidas por Israel. O país que ocupa os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia afirma constantemente que a agência serve de esconderijo para integrantes do Hamas, grupo que arquitetou o ataque de 7 de outubro de 2023 e foi o estopim para a guerra que devastou Gaza por completo. O governo liderado atualmente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defende ainda a dissolução da UNRWA e que os palestinos por ela assistidos passem para o mandato de outra agência das Nações Unidas, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).
A UNRWA nega veementemente as acusações e publicou um relatório em dezembro de 2024 em seu site oficial para desmentir cada uma delas. Além do afastamento preventivo ainda em janeiro de 2024 de dez funcionários acusados de envolvimento nos ataques, a ONU designou duas comissões para investigação das acusações de Israel: uma da própria ONU e outra de um grupo independente, liderada pela ex-ministra das Relações Exteriores da França Catherine Colonna.
Esses processos identificaram questões relacionadas à neutralidade institucional em alguns casos específicos, mas não apresentaram comprovação conclusiva das principais acusações de envolvimento sistemático da agência com grupos armados. Ainda assim, o impacto político das denúncias contribuiu para ampliar o isolamento da UNRWA em determinados contextos.
Paralelamente à pressão política, a agência enfrenta uma crise financeira que se intensificou nos últimos anos. Um dos marcos desse processo foi a suspensão do financiamento por parte dos Estados Unidos, sob ordem do presidente Donald Trump, decisão que afetou diretamente o orçamento da organização. A partir desse momento, a UNRWA passou a operar com maior dependência de contribuições voluntárias de outros países e parceiros internacionais.

(Foto: Divulgação/UNRWA)
No final de 2024, o Knesset – como é chamado o Parlamento israelense – aprovou o banimento da UNRWA tanto de Israel quanto da Cisjordânia e de Gaza. A medida, fortemente criticada pelas Nações Unidas e parte da comunidade internacional, impediu o contato da UNRWA com autoridades israelenses e resultou na evacuação de suas equipes internacionais para a Jordânia. O Parlamento israelense também suspendeu o fornecimento de vistos diplomáticos e facilidades cedidas até então à entidade.
Ao encerrar sua gestão, Lazzarini alertou para o risco de colapso da agência, relacionando a situação à combinação entre destruição de infraestrutura, pressão política e restrições financeiras. Ele afirmou que, caso a comunidade internacional não mantenha o apoio à UNRWA, as consequências poderão se estender por gerações, afetando diretamente a capacidade de assistência.
Diante desse cenário, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tem reiterado a necessidade de manutenção do apoio internacional à UNRWA. Em comunicados oficiais, ele destacou a importância do compromisso dos Estados-membros para garantir a continuidade das operações da agência em uma região caracterizada por instabilidade e crescente necessidade humanitária.
Desde outubro de 2023, 72 mil pessoas morreram em Gaza, mas o número real pode ser ainda maior em razão de vítimas que ainda podem estar sob os escombros. Cerca de 90% da população do território – estimada em 2 milhões de habitantes – está em situação de deslocamento forçado. Além disso, cerca de 36 mil palestinos sofreram a mesma condição na Cisjordânia em razão do avanço do controle israelense sobre o território, o que levou a ONU a alertar para o risco de limpeza étnica na região.
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