Por Gustavo Cavalcante
Quem caminha pelas praias do Guarujá, circula pelas ruas de Vicente de Carvalho ou atravessa os centros urbanos de Santos e São Vicente provavelmente já encontrou migrantes trabalhando no comércio ambulante, em feiras ou em pequenos negócios da região. O que nem sempre é visível são as histórias por trás dessas trajetórias: pessoas que deixaram seus países, enfrentaram desafios para acessar trabalho, moradia e serviços públicos e hoje fazem parte de uma presença migrante cada vez mais consolidada na Baixada Santista.
Nos últimos anos, o crescimento dessa população passou a mobilizar iniciativas de acolhimento na região. Uma delas é a Pastoral da Mobilidade Humana, criada há três anos em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá, e que atualmente acompanha migrantes e refugiados de diferentes nacionalidades em cidades como Guarujá, Santos, São Vicente, Bertioga e Praia Grande.
Embora haja carência de dados públicos oficiais, os registros de atendimentos dão uma ideia da presença dessa comunidade no litoral paulista. Em média, a pastoral atende 50 migrantes por mês com cursos de português, orientações médicas e distribuição de cestas básicas. Na alta temporada, no entanto, esse número pode triplicar e passar de 150 atendimentos mensais.
Uma população invisível que precisava ser vista
A história da Pastoral da Mobilidade Humana começou a partir de uma inquietação. Ligadas desde a infância ao trabalho dos Missionários Scalabrinianos por meio da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Vicente de Carvalho, as irmãs Juliana e Joyce Ramalho de Santana atuavam como voluntárias no curso on-line de português da Missão Paz, em São Paulo, quando passaram a observar uma realidade que parecia ignorada na Baixada Santista.
Nas ruas desse distrito do Guarujá, era cada vez mais comum a presença de migrantes senegaleses trabalhando no comércio ambulante. Apesar de estarem inseridos na paisagem cotidiana da região, pouco se sabia sobre suas trajetórias, necessidades e condições de vida.
“Observávamos diariamente muitos imigrantes senegaleses trabalhando nas ruas da nossa região, inclusive nas proximidades da própria igreja. E nos perguntávamos: por que existe uma pastoral para migrantes em São Paulo e não há uma aqui, onde essa população também está presente?”, relembra Juliana.
A partir dessa percepção e com o apoio do então pároco da comunidade, padre Jesus González, a Pastoral da Mobilidade Humana foi criada com a proposta de acolher migrantes e refugiados na Baixada Santista.
Os primeiros passos aconteceram por meio de visitas às casas de famílias senegalesas que viviam na região, uma experiência que revelou tanto as dificuldades enfrentadas por essa população quanto a forte rede de solidariedade entre seus integrantes.
Segundo Juliana, embora houvesse uma comunidade organizada, faltavam espaços de orientação e acompanhamento. “Muitos sequer sabiam a quem recorrer quando precisavam de ajuda”, afirma. Aos poucos, a própria comunidade passou a indicar a pastoral para novos migrantes que chegavam à região, fortalecendo uma rede de confiança que permanece até hoje.
“Percebemos que a migração não se resume à documentação ou ao emprego. Ela envolve acolhimento, escuta, pertencimento e a construção de vínculos”, disse Juliana.
Na última sexta-feira (28), a pastoral e o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) promoveram uma capacitação voltada a servidores públicos do município de Guarujá, envolvendo representantes das secretarias de Assistência Social, Saúde e Educação, além da Guarda Civil Municipal (GCM). O objetivo da formação foi apresentar e reforçar os direitos básicos garantidos por lei a pessoas migrantes e refugiadas no Brasil, com o propósito de qualificar o atendimento oferecido por esses serviços e reduzir situações de discriminação por nacionalidade, idioma, documentação ou origem.
Uma nova realidade migratória na Baixada Santista
O trabalho desenvolvido pela Pastoral da Mobilidade Humana também permitiu acompanhar mudanças no perfil da população migrante da região. Embora os senegaleses representem a maior parte dos atendimentos, a organização também acompanha pessoas vindas de outros países, como Venezuela, Haiti, Marrocos e Nigéria.
Ao longo dos últimos anos, a equipe passou a observar uma mudança importante: se antes muitos migrantes chegavam sozinhos e enxergavam a região como uma etapa temporária de suas trajetórias, hoje é cada vez mais comum o acompanhamento de famílias inteiras, incluindo mulheres e crianças.
De acordo com Juliana, esse movimento revela que a migração na Baixada Santista não pode mais ser compreendida apenas como um fluxo passageiro. Muitas dessas pessoas estão matriculando os filhos nas escolas, utilizando serviços públicos e estabelecendo relações duradouras nas cidades onde vivem.
A escolha pela região também está relacionada às redes de apoio formadas pelos próprios migrantes. Em muitos casos, quem chega encontra familiares, amigos ou conhecidos que já vivem em cidades como Guarujá, Santos, São Vicente e Bertioga. Essas conexões ajudam na busca por moradia, trabalho e adaptação ao novo país.
Durante as visitas realizadas pela pastoral, a equipe percebeu a força dessas relações comunitárias, especialmente entre os senegaleses. Compartilhar moradia, dividir despesas e trocar informações fazem parte das estratégias encontradas para enfrentar os desafios da adaptação e da sobrevivência econômica.
A presença crescente dessas famílias também desafia uma percepção comum na região, que associa a migração apenas ao comércio ambulante ou ao trabalho sazonal ligado ao turismo.
Os desafios por trás do recomeço
Apesar de mais visível, a integração dos migrantes à sociedade brasileira continua marcada por obstáculos. A partir do acompanhamento realizado pela Pastoral da Mobilidade Humana, três desafios aparecem de forma recorrente: o idioma, o acesso ao trabalho e a garantia de direitos básicos.
Para muitos migrantes, aprender português é o primeiro passo para reconstruir a vida no país. A barreira linguística interfere desde situações cotidianas, como utilizar serviços públicos, até a busca por oportunidades de emprego.
As dificuldades também se refletem no mercado de trabalho. Segundo Juliana, muitos migrantes chegam ao Brasil com experiência profissional consolidada e, em alguns casos, formação universitária. Ainda assim, encontram barreiras para ingressar no mercado formal, seja pela dificuldade de validar diplomas obtidos no exterior, seja pela falta de oportunidades ou mesmo por situações de preconceito.
Diante desse cenário, o comércio ambulante tornou-se uma das principais alternativas de geração de renda, especialmente para a comunidade senegalesa. Nas praias, feiras e ruas da região, muitos encontram uma forma de sustentar a si próprios e suas famílias. Ao mesmo tempo, essa atividade depende diretamente do turismo e da movimentação da temporada, tornando a renda instável ao longo do ano.
O acesso à saúde também aparece entre as demandas mais frequentes. A pastoral auxilia no agendamento de consultas, exames e outros serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), além de orientar migrantes sobre seus direitos e, quando necessário, atuar diante de barreiras linguísticas e culturais.
A moradia é outro obstáculo recorrente. Para reduzir custos, muitas pessoas dividem pequenos imóveis com familiares, amigos ou conterrâneos. Entre os senegaleses, não é incomum encontrar cinco ou mais pessoas compartilhando a mesma residência como forma de viabilizar o pagamento do aluguel e das despesas básicas.
Acolhimento que vai além da assistência
Ao acompanhar o cotidiano dos migrantes, a Pastoral da Mobilidade Humana percebeu que os desafios não se limitam à falta de renda ou documentação. Em muitos casos, compreender o funcionamento da sociedade brasileira e acessar serviços públicos representa uma barreira tão grande quanto conseguir trabalho.
Foi a partir dessa percepção que a organização estruturou uma atuação voltada à promoção da autonomia. O curso de português concentra a maior parte da demanda e funciona como uma ferramenta fundamental para ampliar o acesso a oportunidades de trabalho, educação, saúde e integração social.
Além das aulas, a pastoral realiza encaminhamentos para consultas médicas, auxilia em questões documentais e promove ações solidárias voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade. As cestas básicas costumam atender principalmente pessoas recém-chegadas ou que enfrentam dificuldades financeiras em períodos de menor renda.
O acompanhamento, porém, não termina no primeiro atendimento. Segundo Juliana, uma das características do trabalho é a manutenção de vínculos com as famílias por meio de visitas domiciliares, contatos frequentes e articulação junto a escolas, unidades de saúde e serviços de assistência social.
Nos últimos anos, a organização também tem buscado fortalecer o diálogo com o poder público e ampliar ações de formação voltadas a profissionais das áreas de saúde, educação e assistência social, com o objetivo de qualificar o atendimento à população migrante.
Esse trabalho conta com o apoio de instituições como a Cáritas Diocesana de Santos, a Pastoral Social da Paróquia Nossa Senhora das Graças e a Missão Paz, na capital paulista. Para Juliana, a construção dessas parcerias tem sido fundamental para ampliar o alcance das ações desenvolvidas na região.
Quando a migração cria raízes
Após deixar a Venezuela, Victória precisou abandonar a profissão que exercia como advogada e reconstruir a vida no Brasil. Hoje, moradora de Vicente de Carvalho, divide o tempo entre diferentes atividades para sustentar a família e recentemente concluiu um curso de Atendente de Farmácia, ampliando suas perspectivas profissionais.
A história dela reflete uma transformação observada pela Pastoral da Mobilidade Humana ao longo dos últimos anos. O crescimento do número de mulheres e crianças entre os atendidos indica que a presença migrante na Baixada Santista vai além da busca por trabalho temporário.
Essa mudança aparece em situações cotidianas. Crianças passaram a frequentar escolas da rede pública, famílias estabeleceram relações duradouras nos bairros onde vivem e, em alguns casos, os filhos já nasceram na própria região. Para estas, o litoral paulista deixou de ser um ponto de passagem e passou a representar a possibilidade concreta de um novo começo.
“Muitos bebês já estão nascendo no município de Guarujá, o que demonstra que essas famílias não estão apenas de passagem: elas estão construindo suas vidas aqui”, afirma Juliana.
Um caso recente envolve o nascimento do pequeno Noah, filho de migrantes marroquinos que chegaram semanas antes ao município de Praia Grande. A pastoral tem dado apoio à família e também se mobilizado em busca de doações de fraldas descartáveis e leite. Mais informações sobre como ajudar podem ser vistas na imagem abaixo.

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