O passaporte brasileiro começou 2026 como o 16º mais poderoso do mundo, empatado com o argentino. O dado consta da primeira atualização deste ano do ranking elaborado pela consultoria britânica Henley & Partners. Ambos permitem acesso sem necessidade de visto para 169 destinos em todo o planeta.
Em relação à edição anterior, divulgada em outubro passado, o documento de viagem brasileiro ganhou três posições – embora o total de destinos acessíveis siga o mesmo.
O topo do ranking continua dominado por asiáticos e europeus. A cidade-Estado de Singapura permanece como o pais detentor do passaporte mais poderoso do mundo, com acesso a nada menos que 192 destinos, com Japão e Coreia do Sul (188 cada) dividindo o segundo lugar. Em terceiro, com 186, aparecem empatados Dinamarca, Espanha, Suécia e Suíça.
O Afeganistão, por sua vez, segue como o país cujo passaporte é considerado o menos poderoso do mundo, com acesso dispensado de visto em somente 24 destinos. Na parte de baixo do ranking, tal como na edição anterior, aparecem ainda Síria (26), Iraque (29), Iêmen (31) e Paquistão (31).
Com sede em Londres, a Henley & Partners utiliza dados exclusivos da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) para elaborar o ranking, considerado uma referência global. Por meio do portal da entidade é possível fazer comparações diversas sobre os passaportes e verificar onde ele permite acesso com ou sem necessidade de visto.
Contradições e aspectos da migração e mobilidade global
Além da curiosidade sobre a aceitação de cada documento de viagem, a lista da Henley & Partners ajuda a entender algumas das lacunas existentes no mundo sobre mobilidade global.
Países europeus e asiáticos que compõem o chamado Norte Global dominam as primeiras colocações do ranking, refletindo relações diplomáticas fortes e a atratividade econômica que exercem. Por outro lado, nações que enfrentam crises humanitárias de longa duração – e que geram refugiados e deslocados forçados internos – são alvo de crescentes restrições sobre a própria capacidade de mobilidade internacional.
“Nos últimos 20 anos, a mobilidade global se expandiu significativamente, mas os benefícios foram distribuídos de forma desigual. Hoje, o privilégio do passaporte desempenha um papel decisivo na formação de oportunidades, segurança e participação econômica, com o aumento do acesso médio mascarando uma realidade na qual as vantagens de mobilidade estão cada vez mais concentradas entre as nações economicamente mais poderosas e politicamente mais estáveis do mundo”, disse Christian H. Kaelin, presidente da Henley & Partners e criador do Henley Passport Index, em análise sobre a atual edição do ranking.
Em comentários sobre edições anteriores do ranking de passaportes, a própria Henley & Partners reconheceu que a “noção de cidadania e seu sorteio de direitos de nascimento precisa ser repensada fundamentalmente à medida que as temperaturas aumentam, os desastres naturais se tornam mais frequentes e severos, deslocando comunidades e tornando seus ambientes inabitáveis”. E que “a instabilidade política e os conflitos armados em várias regiões forçam inúmeras pessoas a abandonar suas casas em busca de segurança e refúgio”.
Mais “efeito Trump” à vista?
Os Estados Unidos, que chegaram a liderar o ranking em 2014, aparecem na décima posição, com acesso sem visto a 179 destinos. Na edição final de 2025, o país ficou fora do top 10 pela primeira vez desde que a lista foi criada, o que foi visto como consequência da cada vez mais restritiva política migratória conduzida pelo governo de Donald Trump.
Tal como nas edições anteriores, o “efeito Trump” também vem mexendo com o ranking de passaportes. E a expectativa é que tais mudanças se aprofundem, caso Washington decida implementar um processo no qual cidadãos de 42 países aliados — incluindo Reino Unido, França, Alemanha e Japão — teriam de fornecer uma ampla gama de dados pessoais no âmbito do Visa Waiver Program, que permite que cidadãos de países participantes viajem aos Estados Unidos para turismo ou negócios por até 90 dias sem precisar de visto.
Na visão da Henley & Partners, tal medida poderia, na prática, acabar com as viagens sem visto para os Estados Unidos — ainda que sem extingui-las formalmente.
Por outro lado, outros países que vem apostando na expansão de relações diplomáticas vão ganhando terreno no campo da mobilidade global. É o caso dos Emirados Árabes Unidos, que subiram 57 posições no ranking e aparecem em quinto na atual edição, com acesso sem visto a 184 destinos. O emirado vem se consolidando ainda como referência para grandes eventos globais e se colocando como mediador em negociações geopolíticas, além de adotar uma política de liberalização de vistos.
Outro destaque é a China, que subiu 28 posições (do 87º para o 59º lugar) nos últimos 10 anos, ao adicionar 31 destinos ao seu total, alcançando 141 países que seus cidadãos agora podem visitar sem a necessidade de visto prévio – entre eles, o Brasil.
Entre nações menos badaladas, chama a atenção o caso do Kosovo, que registrou a maior ascensão no ranking nos últimos dez anos, com alta de 38 posições (do 97º para o 59º lugar desde 2016). O país, que declarou independência da Sérvia em 2008, ainda não tem a soberania reconhecida por parte da comunidade internacional – incluindo Brasil e Rússia, aliada histórica dos sérvios, que também rejeitam tal autonomia.
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