“Se você está nos EUA ilegalmente*, faça como o E.T.: é hora de ligar para casa”. Essa foi a mensagem que a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil publicou na rede social X na quarta-feira (23), dirigida aos brasileiros que se encontram em situação indocumentada no país atualmente governado por Donald Trump – que tem como uma de suas principais bandeiras o rechaço à migração.
A postagem faz referência ao filme “ET, o Extraterreste”, de 1982, uma das histórias mais famosas e icônicas do cinema. Vale lembrar que nos Estados Unidos a palavra “alien” – outra forma de se referir a seres de outros planetas na ficção – é frequentemente usada de maneira depreciativa para descrever migrantes. Trump, inclusive, usa o termo com recorrência em suas postagens nas redes sociais quando o assunto é migração.
Ou seja, a postagem distorce a própria imagem passada pelo filme E.T. Isso porque a história do alienígena perdido na Terra, perseguido por autoridades e acolhido por uma criança, também é vista como uma metáfora universal do “outro” que busca abrigo — sentimento comum a muitos migrantes.
A publicação gerou reações mistas nas redes sociais. Algumas delas criticaram o tom da campanha e a forma como os migrantes foram retratados. Outras, por sua vez, expressaram indiferença e até mesmo apoio à política anti-migração empreendida por Trump. Houve até quem viu na postagem uma “humanização” do processo de deportação.
Os Estados Unidos são o país que reúne a maior comunidade brasileira no exterior, com cerca de 1,9 milhão de pessoas, de acordo com estimativas do Itamaraty. Estima-se que 230 mil estejam em situação indocumentada.
Promoção a app de autodeportação
A polêmica associação com o filme E.T foi usada pela representação diplomática estadunidense para promover o uso do CBP Home como uma forma de ir “embora agora, com apoio e dignidade”. O aplicativo conta com uma ferramenta de “autodeportação”, na qual o migrante indocumentado se identifica voluntariamente para as autoridades e expressa desejo de retornar ao país de origem. Em troca, ao menos em teoria, o migrante receberia em troca assistência e ajuda de custo para esse percurso.
O CBP Home substituiu o CBP One, lançado na gestão anterior, de Joe Biden, que tinha como função facilitar o agendamento de entrevistas por migrantes que desejavam solicitar asilo nos Estados Unidos. A descontinuação do CBP One, logo nos primeiros dias da gestão Trump, deixou milhares de migrantes sem saber o que fazer e para onde ir, pois também significou o cancelamento das entrevistas que já estavam marcadas.
Esta não é a primeira vez que a missão estadunindense no Brasil faz uma publicação com teor mais polêmico para se referir à migração e reforçar uma mensagem de soberania nacional. Em mais de uma ocasião, a embaixada reforçou que “o visto é um privilégio, não um direito”, pontuando que ele pode ser revogado em caso de violação da lei ou mesmo de publicações vistas como hostis.
Além disso, o próprio perfil da Casa Branca sob a direção de Trump tem feito postagens que desumanizam as pessoas migrantes. Em fevereiro passado, em meio aos primeiros voos de deportados, foi exibido um perfil com pessoas acorrentadas pelas mãos e pés e sendo conduzidas para aviões que as levaram para fora dos Estados Unidos.
Em outra frente, a Casa Branca também está usando as redes sociais para analisar migrantes que solicitam asilo e residência nos Estados Unidos, sob a alegação de estar filtrando pessoas potencialmente ameaçadoras para o país.
*Nota da redação: O MigraMundo repudia o termo “ilegal” em relação à migração e veta seu uso em suas reportagens e artigos, sendo substituído por expressões que não criminalizam ou estigmatizam os migrantes, como “irregular” ou “indocumentado”. A única exceção é quando tal termo se encontra presente em comunicações ou falas públicas de autoridades e instituições, caso da Embaixada dos Estados Unidos neste conteúdo
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