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sexta-feira, maio 22, 2026

Onde está Miguel? A condição da mãe buscadora migrante no Brasil

Experiência de Ana Maria Lau evidencia as barreiras estruturais enfrentadas por famílias migrantes diante dos mecanismos institucionais de busca por desaparecidos

Por Clarissa Paiva

O Dia das Mães, para Ana Maria Lau, foi mais um dia sem filho. Enquanto famílias celebravam encontros, abraços e memórias compartilhadas, Ana atravessava mais uma data marcada pela ausência e pela espera. Desde 23 de agosto de 2025, ela vive a angústia de não saber onde está Miguel Lau Mbiya, seu filho, desaparecido aos 16 anos nas proximidades da estação Luz, no centro de São Paulo. Oito meses depois, em 4 de abril de 2026, Miguel completou 17 anos longe de casa, uma data que deveria representar passagem, crescimento e futuro, mas que se tornou apenas mais um marco doloroso da sua ausência.

Miguel é um jovem migrante negro, filho de mãe congolesa e portador de documentação angolana. Seu desaparecimento, no entanto, não pode ser compreendido como um caso isolado. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o perfil predominante das vítimas de desaparecimento no Brasil é justamente o de jovens negros, do sexo masculino, com menos de 29 anos, residentes em contextos de vulnerabilidade social, baixa presença do Estado e forte incidência de violência armada. O que diferencia a trajetória de Miguel é a sobreposição de vulnerabilidades produzidas pela condição migrante e o fato de que sua mãe, Ana Maria Lau, personifica hoje a realidade das mães buscadoras no Brasil.

Desde o desaparecimento do filho, Ana mobiliza redes de apoio, divulga informações e percorre instituições em busca de respostas. Sua rotina passou a ser organizada em torno da tentativa de localizar Miguel. Entretanto, sua experiência evidencia as barreiras estruturais enfrentadas por famílias migrantes diante dos mecanismos institucionais de busca. A dor da ausência é agravada pela dificuldade de acessar direitos em uma língua que não é a sua, dentro de um sistema que não foi pensado para acolher pessoas migrantes em situações de crise extrema.

A trajetória de Ana Maria dialoga diretamente com o conceito de “perda ambígua”, desenvolvido pela pesquisadora Pauline Boss: um luto suspenso, sem confirmação, sem ritual de despedida e sem possibilidade de encerramento. Para mães de pessoas desaparecidas, o tempo deixa de seguir uma lógica linear. A vida passa a ser organizada pela espera, pela esperança e pelo medo constante. No caso de Ana, essa experiência é intensificada pelas barreiras linguísticas, pela ausência de informações acessíveis e pelas dificuldades de compreensão dos procedimentos legais e institucionais brasileiros.

Navegar entre delegacias, sistemas digitais de agendamento e protocolos de investigação em português exige dela um esforço desproporcional para alguém submetida ao sofrimento contínuo do desaparecimento de um filho. A falta de atendimento multilíngue e de orientação específica para famílias migrantes limita o acesso a direitos básicos e compromete a efetividade da busca. O próprio processo de coleta de DNA, previsto na Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, enfrentou obstáculos técnicos e falhas de agendamento que retardaram etapas importantes da investigação.

Embora o Brasil possua, formalmente, um arcabouço jurídico destinado à proteção de pessoas desaparecidas, especialmente após a promulgação da Lei nº 13.812/2019, que instituiu a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, o caso de Miguel evidencia a distância entre a previsão legal e sua implementação concreta. A legislação determina que a busca de pessoas desaparecidas deve ser contínua e que não há possibilidade de arquivamento das investigações enquanto não houver esclarecimento sobre o paradeiro da vítima. Contudo, não há previsão específica para atendimento em diferentes idiomas, protocolos de cooperação transfronteiriça voltados a pessoas migrantes ou mecanismos eficientes de responsabilização diante de falhas institucionais.

O desaparecimento de Miguel ocorre em um país que registrou, apenas nos primeiros cinco meses de  2026, mais de 28 mil casos de desaparecimento, uma média de 242  pessoas por dia. Entre as causas estão conflitos familiares, violência urbana, exploração sexual, trabalho forçado e tráfico de pessoas. Especialistas alertam ainda que, em alguns contextos, o crescimento dos desaparecimentos pode estar relacionado à ocultação de homicídios por organizações criminosas, que utilizam o desaparecimento de corpos como estratégia para reduzir estatísticas oficiais de mortes violentas.

Nesse cenário, mães como Ana Maria acabam assumindo funções que deveriam pertencer ao Estado: investigam, articulam redes, produzem mobilização pública e pressionam instituições por respostas. Tornam-se, involuntariamente, investigadoras de casos para os quais não receberam qualquer preparo, suporte psicológico ou proteção institucional.

O caso de Miguel Lau Mbiya sintetiza dimensões profundas das desigualdades brasileiras: raça, migração, juventude e ausência estatal. Um adolescente negro e migrante desaparece em uma das regiões mais movimentadas da maior cidade do país; sua mãe busca respostas há meses enfrentando barreiras burocráticas, tecnológicas e linguísticas. Não se trata apenas de uma tragédia familiar, mas da demonstração concreta de como determinadas vidas permanecem mais expostas ao desaparecimento e menos protegidas pelas estruturas institucionais.

Mais do que solidariedade, o caso exige respostas estruturais. Exige políticas públicas capazes de reconhecer a especificidade das mães migrantes buscadoras, garantindo atendimento multilíngue, sistemas de busca integrados e funcionais, protocolos internacionais de cooperação e acompanhamento humanizado às famílias. Enquanto essas respostas não chegam, Ana Maria Lau continua buscando Miguel. E cada dia sem notícias revela não apenas a persistência de uma mãe, mas também a permanência de uma grave falha do Estado brasileiro.

A família solicita que qualquer pessoa que tenha visto Miguel ou possua informações sobre seu paradeiro entre em contato imediato com as autoridades. Informações podem ser repassadas à Polícia Militar, pelo telefone 190, em delegacias da região ou por meio do Disque 100, canal nacional voltado à proteção dos direitos humanos. Para mais informações sobre o que fazer em caso de desaparecimento em São Paulo, acesse o link da Prefeitura de São Paulo.


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