Por Danyel Andre Margarido
A Mobilidade Global é muito maior do que um departamento dentro de uma empresa, chamado “Global Mobility”.
Não é, por natureza, um processo, embora seja frequentemente traduzido como tal no mundo corporativo.
De fato, a mobilidade não está apenas em levar pessoas de um país a outro, ou de uma região a outra. Ela está na capacidade do indivíduo de ser móvel, de transitar, de se deslocar, de se reconstruir em outro contexto.
Isso significa deixar para trás casa, rede de apoio, referências culturais. Significa se colocar no desconhecido e, muitas vezes, em um cenário de solidão, ou sem os códigos necessários para compreender o dia a dia de um novo país. Submergir em outro ambiente é muito mais do que seguir um processo.
No contexto corporativo, o departamento de Global Mobility estrutura processos e ferramentas para viabilizar essa transição. Mas a mobilidade não começa ali e nem depende disso para existir. Pessoas se movem com ou sem apoio corporativo. E é justamente por isso que o tema precisa ser compreendido em um contexto mais amplo.
Existe um cenário global em que talentos estão distribuídos pelo mundo, e não concentrados em um único país. Isso abre uma provocação importante: como as empresas podem usar o conhecimento de Global Mobility não apenas para movimentar pessoas, mas também para atraí-las?
Porque, no fim, a Mobilidade Global não está no processo. Está no movimento, na capacidade humana de ser móvel – seja por carreira, necessidade ou propósito.
Miopia
Caso olhemos para Global Mobility somente com as lentes da movimentação de expatriados, podemos ter uma impressão muito enviesada (e, muito excludente) do que a movimentação de pessoas pelo mundo realmente trata.
Por outro lado, não é errado olhar com as lentes corporativas para este tema – o grande ponto é usar essas lentes para focar tanto, que esquece-se dos demais nichos que formam a movimentação de pessoas pelo mundo. A ponto de, como crianças, podermos focar tanto em algo com uma lente que, por desconhecimento ou por intenção, atrapalha a formiga que só queria fazer o seu trabalho.
Há um equilíbrio — que varia de cenário a cenário — entre o Valor (custos, investimentos, retornos financeiros e corporativos) e a Experiência (carreira, ganhos invisíveis, impactos na vida do profissional, impactos na vida da família), que, de maneira cíclica, traz à discussão se mover pessoas, nacional ou internacionalmente, em um contexto empresarial, faz realmente sentido. Se por um lado a visão da empresa, de custos e investimentos, pesa muito, por outro lado há o interesse de movimentação de uma pessoa – que, pode, muitas vezes forçar o investimento em uma movimentação internacional.
Há o interesse individual – humano, no sentido mais amplo e mais íntimo – de mudar. Todos já contemplaram sobre, muitos pediram que as empresas onde trabalham os apoiassem no cumprimento deste desejo. E muitos desses não aproveitaram tudo o que podiam.
O eixo que empurra toda essa linha para frente está na pessoa – mesmo que para o advisor de Mobilidade Global, o seu maior cliente seja o negócio, e não a pessoa expatriada – e por ser a pessoa o principal vetor, este deve ser o ponto de partida quando se olha a arte que é movimentar pessoas pelo mundo.
“I still haven’t found what I’m looking for.” – U2
Para começar, por que pessoas decidem se mudar de país?
Essa decisão não vem em busca do desconhecido. É mais verdadeiro alguém decidir-se a movimentar-se pela ilusão de que a grama do vizinho é mais verde do que pela realidade que aguarda essa pessoa em outro país. É muito mais pela expectativa de melhora do que pelo real cenário local. Mudar para outro país nasce no desconforto, ou melhor, no nível tolerado de desconforto de alguém, em relação à sua terra, seu povo e sua comunidade – seja ela qual for, do que pela realidade local.
Em paralelo: O brasileiro é um povo quase “nômade”. Desde 2020 houve um crescimento de 9,5% no número de brasileiros vivendo no exterior. Os campeões de brasileiros são a América do Norte (principalmente os EUA, em torno de 2 milhões de pessoas) e a Europa (Portugal, Reino Unido e Espanha, cerca de 1,6 milhão). Por outro lado, olhando os dados da ONU, o Brasil aparece entre as posições 15 e 20 no International Migrant Stock (ONU), o ranking que olha qual dos países que acumulou mais pessoas vivendo fora ao longo do tempo. Nessa lista, o Top5 é:
- Índia → 18 milhões
- México → 11 milhões
- Rússia → 10 a 11 milhões
- China → 10 milhões
- Síria → 8 milhões
O mais interessante é olhar que esse número de pessoas não é de expatriados, mas inclui expatriados. Por mais que recebam benefícios invejáveis para poderem mudar de país, expatriados ainda são migrantes – mesmo que uma parcela deles se esconda sob a expatriação como algo que apagasse a mensagem de que deixou seu país natal, ou país atual, para outra oportunidade, em outro país.
O desconforto com a situação atual é o que move o indivíduo a buscar outras oportunidades, mesmo que não sejam, puramente, melhores, mas buscam algo diferente. Seja por um desconforto com a carreira atual, seja por conflitos e guerras, sejam por mudanças climáticas, seja por maior segurança, seja por maiores acessos, sejam questões espirituais – as razões são várias, mas todas nascem do desconforto. E qual o nível de tolerância aceitável a este desconforto.
Quando se entende o desconforto que impulsiona essa mudança de país, é necessário entender que a movimentação em si necessita de um acolchoamento ao adentrar na nova atmosfera de um novo país, de uma nova região, de uma nova cidade… de uma nova cultura. A chegada ao novo cenário está banhada em desconforto, e, com isso, vem o impacto (o choque cultural), vêm os impactos de um dia a dia diferente (ainda é necessário pagar contas, ir ao banco, ser um membro responsável da nova sociedade à qual se integrou). As lentes do turista são frágeis, e seus cacos precisam ser desfeitos, para que a visão não fique turva – é uma nova realidade, não precisa de lentes para ser vista.
A construção de uma nova identidade, de novas relações e de uma nova rotina vem com o tempo. Após o desconforto da saída, há o desconforto da chegada, muitas vezes mascarado pelos ganhos rápidos da mudança, mas que, após alguns meses, atinge com força o indivíduo. E, dependendo do grupo familiar, toda a sua família, não só os que acompanham, mas os que ficam na Origem também.
Nem toda a movimentação é escolha, mesmo que nasçam do mesmo lugar. Os níveis de desconforto podem ser vários a impulsionar uma movimentação. A mobilidade forçada de pessoas é um tema que para a Mobilidade Global latina é ainda distante, mesmo com o acesso a notícias globais de pessoas buscando refúgio em outros países por conflitos em seus países de origem, e, ainda em menor escala, de pessoas deixando seus países, ou mesmo cidades, de origem por crises climáticas. Forçada ou não, a movimentação de pessoas pelo mundo acontece e continua.
Com tantas camadas e fatores, com tanta complexidade e tanta história envolvidas na movimentação de pessoas pelo mundo, não é possível que seja tratada como algo simples.
“Não podemos resolver problemas com o mesmo nível de pensamento que os criou” – Einstein, A.
Resolver uma situação complexa e multidisciplinar como a Mobilidade Global requer muito mais que soluções simples – não é só emitir o visto e pronto. A vida de um indivíduo está em pauta, e, normalmente, acompanhada de mais indivíduos, e por ser uma vida (ou mais) tem suas complexidades inerentes, que trazem à tona “a dor e a delícia” da vida.
Há de se entender as empresas colocando a Mobilidade Global em trilhos a serem seguidos pela pessoa expatriada. A previsibilidade, os custos, a eficiência e o controle, todos juntos, pedem em uníssono que o departamento de Global Mobility traga políticas e acompanhamentos e follow-ups, de modo que esse coro uníssono seja satisfeito – e com razão. As empresas que movem pessoas pelo mundo precisam ter esse tipo de controle, precisam saber quanto custa, e precisam saber quanto investir.
Entretanto, ao mesmo tempo, a mobilidade das pessoas é imprevisível, quase subjetiva – afinal também nasce do desconforto, mesmo que dentro das regras corporativas. Sua não-linearidade é quase rebelde, mesmo que os padrões corporativos tentem segurá-la. Quantos advisors de Global Mobility já tiveram que adaptar processos, satisfazer demandas, escalar temas, para que o processo possa ser feito, para que a pessoa expatriada se mantenha no processo que custa quase três vezes mais que um trabalhador local.
Esse equilíbrio entre a Adequação Corporativa e a Imprevisibilidade da Mobilidade é o que torna o departamento de mobilidade global das empresas tão bem visto quanto mal visto. Tão acostumado a resolver problemas e demandas e tão acostumado a ser caro. E, olhando para os demais tipos de Mobilidade Global, ainda assim não tão difíceis.
Quando uma pessoa é forçada a deixar o seu país e mudar-se (às vezes, urgentemente) para outro país, não é a simples chegada no país de destino que traduz o sucesso e a finalização desta jornada toda, mas, sim, após a chegada, sua adaptação. A satisfação do desconforto inicial. O mesmo acontece na mobilidade de talentos – o que o departamento de Global Mobility faz nas empresas – não é simplesmente chegar e começar a trabalhar, mas sim a adaptação, o pouso, após os meses iniciais (um ou dois anos depois do visto carimbado no passaporte).
O processo da movimentação de pessoas já está até “batido”. Visto, Impostos, Documentos, Contrato de Trabalho, Contrato de Aluguel, Escola, Relocation, tudo o que é parte da chegada da pessoa expatriada. Isso é onde as empresas atuam. Mas o acolchoamento, a adaptação, a mobilidade – capacidade de se movimentar – em outro país propriamente dito é o que torna a Movimentação de Pessoas pelo Mundo em uma arte.
“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” – Provérbios 16:9
A movimentação de pessoas pelo mundo carece do olhar estratégico – e, porque não, artístico – sobre o que realmente importa: pessoas.
Utilizando-se das ferramentas básicas (no melhor e mais nobre sentido da palavra) e necessárias para a movimentação de pessoas, o que acontece depois que essa parte acaba? O visto é carimbado, o contrato assinado, a família chega, e o que acontece depois? Renovações e extensões? É necessário olhar para o indivíduo migrante, a pessoa em questão, e do ponto de vista de Movimentação de Pessoas ver que o movimento continua. A Transição ainda está acontecendo. A ponte precisa ser feita – dentro das empresas, entre o negócio (cliente) e a pessoa expatriada, entre o movimento e o processo, entre a Arte e a Ciência, ambos formando o que é a Movimentação de pessoas.
“São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.” – Alvo Dumbledore
Se a mobilidade nasce do desconforto e se sustenta na adaptação, então o papel de Global Mobility precisa evoluir junto com essa realidade. Não apenas como guardião de processos, seguidor de políticas, mas como facilitador de transições humanas. Entre o processo e o movimento, entre a ciência e a arte, existe uma responsabilidade silenciosa: garantir que essa travessia aconteça para quem a vive. Porque, no fim, não são posições sendo movimentadas – mas histórias em transformação, dentro e fora das empresas.
Sobre o autor
Danyel Andre Margarido possui mais de quinze anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na Suzano. Já coordenou a movimentação de mais de 2.000 famílias pelo mundo, oferecendo suporte estratégico em relocation, imigração, integração cultural e todas as áreas que formam a Mobilidade Global de Talentos. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito. Possui MBA em Recursos Humanos pela Anhembi Morumbi e mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais pela Rome Business School. Faz parte do comitê sênior do Brazil Talks e é GMJ Ambassador no Global Mobility Journeys.
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