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terça-feira, fevereiro 17, 2026

Nômades digitais: entre desafios, liberdade e impactos que transformam o mundo

Mais de 60 países mundo afora - incluindo o Brasil - contam com algum tipo de visto voltado a esse público, cuja atividade tem potencial de mexer com economias locais. Veja o que dizem dois nômades digitais ao MigraMundo

O nomadismo digital deixou de ser uma curiosidade para se tornar um fenômeno global de proporções impressionantes. Segundo projeções da Fragomen, maior e mais antiga empresa de migração do mundo, os nômades digitais podem chegar a 1 bilhão de pessoas até 2035. Em 2025, estimativas apontam que mais de 50 milhões de pessoas vivem como nômades digitais — um salto desde os 35 milhões em 2023.

Conforme definição da Nomad Global, plataforma de referência no tema, um nômade digital é quem trabalha remotamente usando tecnologia, enquanto viaja constantemente. Em 2025, esse público já representa uma força econômica: são cerca de US$ 787 bilhões ao ano em contribuições para economias locais. Muitos desses agentes do nomadismo digital são altamente qualificados: 90% têm ensino superior e ganhos médios anuais giram em torno de US$ 124 mil.

Até agosto de 2025, um total de 66 países oferece vistos específicos para trabalhadores remotos, facilitando a mobilidade e estimulando a chegada desses profissionais a diferentes regiões. Entre eles está o Brasil, que regulamentou o tema em janeiro de 2022.

Histórias reais

Ser um nômade digital permite vantagens como autonomia, ganhos e flexibilidade. Por outro lado, existem desafios como isolamento, diferenças culturais e burocracia com vistos. Para entender melhor como é viver nesse estilo de vida, o MigraMundo conversou com dois nômades digitais: a arquiteta brasileira Bruna Castro e o japonês Futoshi Takeuchi, recrutador e gerente de projetos nas áreas de TI e educação.

Bruna sempre sonhou em viajar pelo mundo. Seu trabalho remoto exige manter até 8 horas de diferença de fuso com os Estados Unidos, o que lhe permite circular entre América Latina e Europa. “Quase toda a minha carreira foi construída nesse estilo de vida”, conta. Entre os desafios, ela cita a saudade e as conexões passageiras: “Muitas vezes conheço pessoas e lugares incríveis que talvez eu nunca mais veja. Ao mesmo tempo, isso me fortalece e me impulsiona a seguir em frente.”

O constante recomeço em lugares diferentes fortalece sua independência e resiliência, e ela destaca que o sentimento de pertencimento varia conforme o destino: “Em alguns países, mesmo passando meses, não me senti parte da comunidade. Em outros, em uma semana já parecia viver como uma local.”

Futoshi já morou em vários países, como Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, antes de se estabelecer no Brasil em 2022. Ele conecta profissionais brasileiros a empresas japonesas e atua em projetos educacionais com universidades como USP e Unicamp. “No começo foi muito difícil. Eu trabalhava em fusos horários diferentes, sozinho, e precisei conquistar a confiança das pessoas. Tudo começou do zero. Hoje me sinto mais confortável, porque aprendi a gerenciar tudo de forma independente e flexível”, explica.

Esse cenário exigiu adaptação acelerada: fazer networking presencialmente, gerenciar tudo remotamente e exercer autoridade em projetos ainda desconhecidos. Com o tempo, Futoshi passou a dominar a autonomia e flexibilidade e aprendeu a lidar com diferentes culturas: “Hoje consigo estar em qualquer lugar, seja só de passagem ou por meses, e me adaptar de forma flexível. Essa experiência me deu confiança e habilidades para lidar com negócios internacionais.”

Desafios e aprendizados

Entre os obstáculos mais citados pelos entrevistados estão a dificuldade de criar vínculos duradouros, a solidão em algumas fases da jornada e a necessidade de disciplina. Criar uma rotina de trabalho e manter hábitos saudáveis, como exercícios físicos, torna-se essencial para sustentar a produtividade.

No caso de Futoshi, a questão cultural também pesa. Ele destaca que a forma como é recebido varia muito entre os países: “No Brasil, sinto que sou muito bem acolhido por ser japonês. Já em outros lugares da América do Sul, muitas vezes as pessoas não fazem distinção entre japoneses, chineses ou coreanos. O Brasil é número um para mim.”

Bruna também percebe diferenças culturais, mas ressalta a riqueza de experiências que o nomadismo proporciona: “Cada lugar me ensina algo novo e me ajuda a ser mais adaptável.”

Bruna também comentou sobre como é percebida em diferentes países: “Sinto bastante diferença, principalmente como mulher. Na maioria dos casos, somos bem-vindos e as pessoas falam de como o brasileiro é animado e divertido. Mas em Portugal, por exemplo, já fui destratada por ser brasileira e, nos Bálcãs, como na Albânia, percebi uma forte sexualização da mulher brasileira. São perspectivas completamente distintas em cada lugar.”

Perspectivas para o futuro

A tendência é que o número de nômades digitais continue crescendo, impulsionado pelo avanço das tecnologias e pelo desejo de equilibrar trabalho e vida pessoal. Tanto Bruna quanto Futoshi afirmam querer manter esse estilo no longo prazo.

“Depois de três anos, me sinto confortável e feliz assim. Não sei quando vou parar, mas quero continuar enquanto fizer sentido”, diz Futoshi. Bruna pretende seguir nesse ritmo até encontrar um lugar em que sinta pertencimento, sem abrir mão das viagens e do contato com diferentes culturas.

Além do crescimento acelerado, os estudos mostram que cerca de 41% dos nômades digitais atuam como freelancers, evidenciando a força do trabalho autônomo nesse estilo de vida. O perfil também revela alta qualificação: 90% possuem ensino superior, e os millennials representam 38% do total, reforçando a predominância de jovens adultos nesse movimento.

O nomadismo digital renova economias locais, mas também traz tensões. Em destinos como Lisboa, o aumento de nômades elevou o custo de vida e gerou repúdio de moradores. Na Ilha da Madeira, que faz parte de Portugal, programas como Digital Nomads Madeira injetam milhões de euros mensais, mas colocam pressão no mercado imobiliário local. Esse fenômeno cria “Zoom towns” — áreas impulsionadas pelo influxo de trabalhadores remotos, o que altera a demografia e a infraestrutura locais


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