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terça-feira, março 10, 2026

Novo Alto Comissário assume o ACNUR em um dos períodos mais críticos da agência da ONU

Entre expectativas e limitações, a gestão do iraquiano Barham Salih no ACNUR se inicia em um momento decisivo para o regime internacional de proteção aos refugiados

Por Gustavo Cavalcante

Em janeiro de 2026, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) iniciou um novo capítulo sob a liderança de Barham Salih, ex-presidente do Iraque. Sua posse marca uma exceção histórica: raramente a principal agência da ONU dedicada à proteção de refugiados foi comandada por alguém de fora da Europa  e menos ainda por um representante do chamado Sul Global.

A chegada de Salih ocorre em um momento particularmente delicado. O ACNUR enfrenta cortes significativos de financiamento, redução de equipes, fechamento de escritórios e um cenário global marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e por pressões crescentes contra o direito ao asilo.

Por um lado, o novo Alto Comissário chega ao cargo com credenciais no sistema humanitário. Foram décadas de atuação política em um país marcado por guerras, perseguições e deslocamentos forçados, além da experiência pessoal do exílio. Seu discurso público até o momento tem enfatizado empatia, dignidade humana e a necessidade de preservar a proteção internacional aos refugiados, especialmente em um momento de questionamento aberto às bases do direito de asilo.

De outro, a agência se vê fragilizada por limitações financeiras profundas, disputas geopolíticas e uma dependência crescente das decisões políticas dos Estados doadores. Entre a urgência humanitária e a escassez de recursos, o ACNUR se vê pressionado a priorizar, cortar e redefinir sua atuação, um cenário que coloca à prova não apenas a liderança de Salih, mas o próprio futuro do regime internacional de proteção aos refugiados.

O cenário encontrado por Barham Salih

O ex-presidente do Iraque assume o comando da agência da ONU para Refugiados em um momento em que o deslocamento forçado atinge níveis sem precedentes no mundo. Segundo dados mais recentes da própria agência, mais de 117 milhões de pessoas vivem hoje fora de suas casas devido a conflitos armados, perseguições, violações de direitos humanos e crises climáticas.

Deste total, cerca de 30 milhões são refugiados, sob mandato direto do ACNUR, que atua em mais de 130 países, frequentemente em contextos de conflito ativo, instabilidade política e emergência humanitária prolongada.

Esse cenário humanitário se combina a uma crise financeira profunda. Em 2025, o ACNUR sofreu um corte de cerca de 35% em seu orçamento, o que resultou no fechamento de escritórios, na redução de programas essenciais e na eliminação de milhares de postos de trabalho, inclusive na sede em Genebra. Um dos fatores centrais dessa retração foi a queda abrupta do financiamento dos Estados Unidos, historicamente o maior doador da agência: as contribuições norte-americanas recuaram de aproximadamente US$ 2,1 bilhões para cerca de US$ 800 milhões, uma redução superior a US$ 1,3 bilhão em apenas dois anos.

A combinação entre o aumento das necessidades globais e a diminuição drástica dos recursos disponíveis impõe limites severos à capacidade operacional do ACNUR e condiciona, desde o início, o campo de ação da nova liderança.

O que esperar de Salih – primeiros sinais

A expectativa em torno da atuação de Barham Salih à frente do ACNUR se apoia em seu discurso público, que tem enfatizado a empatia e a dignidade das pessoas refugiadas em um momento de forte desumanização do debate migratório. Ao afirmar que refugiados não podem ser tratados apenas como estatísticas, o novo Alto Comissário sinaliza a intenção de recolocar o indivíduo no centro das políticas de proteção, em contraste com abordagens cada vez mais securitárias adotadas por diversos Estados.

“Sinto-me honrado por ter sido eleito o próximo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Como ex-refugiado, sei em primeira mão como a proteção e as oportunidades podem mudar o rumo de uma vida. Essa experiência norteará minha liderança, pautada na empatia, no pragmatismo e em um compromisso inabalável com o direito internacional. Minha principal responsabilidade será para com os refugiados e outras pessoas forçadas a fugir – defendendo seus direitos e sua dignidade e promovendo soluções duradouras para que o deslocamento seja uma situação temporária, e não um destino permanente”, escreveu Salih em sua declaração por ocasião da posse como Alto Comissário.

O novo chefe da agência tem adotado um tom pragmático ao reconhecer os limites impostos pela crise financeira da agência. Em entrevistas recentes, ele deixou claro que o ACNUR não tem mais condições de manter todas as frentes de atuação como no passado, o que aponta para uma gestão marcada por priorização, eficiência e foco em impacto, inclusive com decisões difíceis sobre onde e como atuar.

Em entrevista recente à Associated Press, o Alto Comissário falou sobre a perda de apoio financeiro, mas que sua gestão buscará caminhos pra atuar. “É claro que é uma luta, inegavelmente, mas também tenho esperança e confiança de que existe humanidade suficiente para nos permitir fazer isso”.

Outro eixo central de sua atuação esperada é a defesa do regime internacional de proteção aos refugiados, especialmente da Convenção de 1951, em um contexto de pressões políticas para enfraquecer o direito ao asilo. Salih tem se posicionado contra iniciativas que buscam relativizar obrigações internacionais, tratando a proteção não como um gesto de caridade, mas como um pilar da estabilidade e da segurança globais.

Os primeiros movimentos no cargo ajudam a materializar esse discurso. Poucas semanas após assumir, Salih priorizou viagens ao Chade e ao Quênia, países africanos que acolhem grandes contingentes de refugiados e que enfrentam situações prolongadas de deslocamento. Nessas visitas, manteve contato direto com refugiados sudaneses que fugiram da guerra em Darfur (Sudão), além de somalis, congoleses e etíopes, reforçando a importância de políticas que garantam não apenas proteção imediata, mas condições para reconstrução de vidas com dignidade.

Durante essas agendas no campo, o novo Alto Comissário destacou iniciativas voltadas à integração socioeconômica, como acesso ao trabalho, educação e meios de subsistência, tanto para refugiados quanto para comunidades anfitriãs. A ênfase em inclusão aponta para uma tentativa de romper com o modelo de dependência prolongada da ajuda humanitária, reconhecendo os refugiados como agentes ativos capazes de contribuir para as sociedades que os acolhem.

Paralelamente, Salih também buscou reforçar frentes diplomáticas e simbólicas. Em sua viagem ao Vaticano, onde se encontrou com o Papa Leão XIV, o Alto Comissário destacou o papel das organizações religiosas como parceiras históricas do ACNUR e ressaltou a autoridade moral da Igreja na defesa dos refugiados, especialmente em um momento de retração do espaço humanitário – o atual Pontífice vem seguindo a diretriz deixada pelo antecessor Francisco de apoio a pessoas migrantes.

“Minha esperança é que possamos ampliar ainda mais essa cooperação com outras organizações religiosas e desenvolver uma filantropia inter-religiosa capaz de se unir em torno dos valores centrais da fé, especialmente no que diz respeito à humanidade e ao auxílio aos nossos semelhantes em situação de necessidade”, comentou Salih em entrevista ao Vatican News.

Somada à sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, essa agenda indica que sua gestão deve combinar presença no campo, articulação política e mobilização de novos apoios internacionais. Salih terá de buscar resultados concretos, embora algumas iniciativas dependam, em última instância, da disposição dos Estados em sustentar financeiramente o sistema de proteção.

Momento crucial

A redução do financiamento do ACNUR, especialmente após a queda abrupta das contribuições dos Estados Unidos, tem provocado impactos imediatos na assistência, na proteção jurídica e na capacidade de oferecer soluções duradouras. Programas foram encerrados, equipes reduzidas e escritórios de campo fechados, justamente em um momento em que o número de pessoas deslocadas continua a crescer.

Essa realidade foi sintetizada publicamente por Patrick Wall, cofundador do Global Strategic Initiatives Group, que trabalha em estreita colaboração com equipes do ACNUR em contextos de crise. Para ele, o novo Alto Comissário assume a agência “no momento mais grave da história do regime internacional de refugiados”, com necessidades humanitárias em níveis recordes e recursos financeiros reduzidos a patamares comparáveis aos de uma década atrás, quando havia significativamente menos pessoas deslocadas no mundo.

Na avaliação de Wall, a linha de frente humanitária espera da nova liderança três elementos centrais. O primeiro é clareza moral, em um contexto de polarização política no qual refugiados e migrantes são frequentemente instrumentalizados por governos e discursos nacionalistas.

O segundo é uma defesa firme da proteção internacional, entendida não como um ideal abstrato, mas como um pilar construído após as grandes guerras do século XX e essencial para a estabilidade global.

Por fim, o terceiro ponto é a necessidade de orientação estratégica clara, capaz de assumir publicamente que, diante da escassez extrema, o ACNUR não poderá fazer tudo e que escolhas difíceis serão inevitáveis.

Apesar do cansaço acumulado, Wall destaca que as equipes do ACNUR e seus parceiros permanecem comprometidos com os princípios humanitários e com o direito internacional dos refugiados. O sentimento predominante não é de desistência, mas de expectativa por uma liderança que seja transparente, íntegra e capaz de conduzir a agência em meio a perdas, restrições e pressões políticas.

Nesse sentido, a gestão de Barham Salih é vista pela linha de frente não como uma solução milagrosa, mas como uma oportunidade de dar direção e legitimidade a decisões que definirão o futuro da proteção a refugiados nos próximos anos.

Transição e o legado de Filippo Grandi

A escolha de Barham Salih para comandar o ACNUR rompe com um padrão histórico consolidado desde a criação da agência, em 1951. Dos altos comissários que ocuparam o cargo ao longo das últimas décadas, a ampla maioria teve origem europeia, reflexo tanto do peso político do continente quanto de sua posição como principal financiador da agência. Iraquiano de origem curda e oriundo do Sul Global, Salih figura entre as raras exceções a esse perfil, ao lado de nomes como o iraniano Sadruddin Aga Khan (de 1965 a 1977) e a japonesa Sadako Ogata (de 1991 a 2000).

A nomeação de Salih também carrega uma dimensão geopolítica relevante. Sua candidatura recebeu apoio formal do Grupo Árabe e de países do Golfo, em um momento em que essas nações buscam ampliar sua influência em fóruns multilaterais e demonstrar protagonismo em agendas humanitárias. Ao mesmo tempo, o fato de a agência depender majoritariamente de doadores tradicionais do Norte Global reforça as tensões entre representatividade, financiamento e autonomia política que marcam o funcionamento do ACNUR.

A transição ocorre sob o legado de Filippo Grandi, que liderou a agência durante um período de sucessivas crises globais, marcado pela ampliação dos deslocamentos forçados, pela pandemia de Covid-19 e pelo início da retração do financiamento humanitário. Ao saudar publicamente a escolha de seu sucessor, Grandi destacou a experiência política e diplomática de Salih, bem como seu conhecimento direto das realidades de conflito e deslocamento.

Ainda assim, a passagem de comando deixa claro que o futuro da agência dependerá menos do perfil individual do Alto Comissário e mais das decisões políticas e financeiras dos Estados. Entre expectativas e limitações, a gestão de Salih se inicia em um momento decisivo para o regime internacional de proteção aos refugiados, cuja sobrevivência passa, cada vez mais, pela disposição do mundo em sustentar, na prática, os princípios que afirma defender.

Quem é Barham Salih — e sua experiência como refugiado

Nascido em Suleimânia, no norte do Iraque, Barham Salih é de origem curda e construiu sua trajetória política em meio a conflitos, repressão e disputas por autonomia em seu país. Durante o regime de Saddam Hussein, foi preso duas vezes por envolvimento com movimentos nacionalistas curdos, tendo relatado episódios de tortura e perseguição política. 

Ainda adolescente, em 1974, fugiu do Iraque para o Irã e, anos depois, em 1979, deixou novamente o país rumo ao Reino Unido, onde viveu no exílio. 

Exilado, Salih construiu uma sólida formação acadêmica no Reino Unido, graduando-se em engenharia civil pela Universidade de Cardiff e obtendo doutorado em estatística e aplicações computacionais pela Universidade de Liverpool. Após a queda do regime de Saddam Hussein, retornou ao Iraque e ocupou posições centrais no novo arranjo político do país, incluindo dois mandatos como primeiro-ministro da Região do Curdistão, o cargo de vice-primeiro-ministro do Iraque e, entre 2018 e 2022, a presidência da República. 

Antes de assumir o comando do ACNUR, também atuou como pesquisador em centros acadêmicos internacionais e foi responsável pela criação da Universidade Americana do Iraque, consolidando um perfil que combina experiência política, técnica e diplomática, agora colocado à prova no comando da principal agência da ONU para refugiados.


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