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quinta-feira, janeiro 22, 2026

ONU confirma ex-presidente do Iraque Barham Salih como chefe do ACNUR a partir de 2026

De etnia curda, político iraquiano será apenas o terceiro não europeu a exercer a função da Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados em mais de 70 anos

O ex-presidente do Iraque Barham Ahmed Salih foi confirmado como próximo chefe do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR). A escolha, que veio a público na semana passada, ainda precisava ser confirmada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o que ocorreu de fato nesta quinta-feira (18).

Salih assume o ACNUR a partir de 1º de janeiro, substituindo o italiano Filippo Grandi, que comandou a Agência da ONU para Refugiados nos últimos dez anos. O mandato vai até 2030 e pode ser prorrogado por igual período.

“Barham Salih traz décadas de serviço público em alto nível, marcadas por uma liderança consistente e uma diplomacia cuidadosa. Proveniente de um país recentemente marcado por conflitos, perseguições e deslocamentos, ele tem experiência direta dos desafios que muitos refugiados enfrentam hoje. Sua formação e experiência o tornam bem preparado para liderar o ACNUR em um momento de deslocamentos em larga escala e de desafios humanitários e políticos cada vez mais complexos”, afirmou Grandi sobre seu sucessor, em nota distribuída pela agência.

O novo chefe do ACNUR vai encontrar uma agência que enfrenta grandes dificuldades de orçamento, assim como outras organizações do Sistema ONU. Cerca de 5 mil postos de trabalho – quase um quarto do quadro total – já foram cortados na sede da organização, em Genebra (Suíça). Para 2026 a perspectiva segue pouco animadora, já que a previsão é de um orçamento de US$ 8,5 bilhões — 20% a menos do que neste ano — além de 4.000 postos a menos e vários escritórios de campo fechados.

Quem é Barham Salih

Iraquiano de etnia curda, Barham Salih tem 65 anos e exerceu a presidência do Iraque entre 2018 e 2022, além de outros postos de menor escalão no país pós-derrubada do governo de Saddam Hussein, em 2003. Fluente em inglês, árabe e curdo, é considerado um político e diplomata de tendência moderada.

Salih também possui uma destacada trajetória acadêmica, sendo pesquisador da Middle East Initiative e do Belfer Center for Science and International Affairs da Universidade Harvard. Também foi responsável pela implantação da Universidade Americana do Iraque, uma das mais conceituadas do país.

“Tendo servido como Presidente do Iraque (2018–2022), com uma carreira que abrange mais de três décadas de serviço governamental no Iraque e na Região do Curdistão, o Sr. Salih traz ampla experiência em liderança diplomática, política e administrativa em nível sênior, incluindo atuação junto a instituições internacionais e regionais, além de uma visão e experiência em direitos humanos e ação humanitária — inclusive como refugiado, negociador de crises e arquiteto de reformas nacionais”, afirmou Guterres em pronunciamento oficial sobre o novo chefe do ACNUR.

Quebra de um padrão?

A escolha de Salih quebra um padrão entre os comissários da ONU para os Refugiados. Desde a criação da Agência, em 1951, foram 11 altos-comissários, com forte predominância europeia e, sobretudo, masculina. As únicas exceções até então tinham sido o iraniano Sadruddin Aga Khan (1965-1977) e a japonesa Sadako Ogata (1991-2000).

Considerando ainda o recorte entre Norte e Sul Global, o iraquiano será apenas o segundo nome a partir de um país identificado como parte do Sul Global. Essa preponderância de nomes europeus à frente do ACNUR se explica pelo fato de países desse continente figurarem entre os maiores doadores da agência.

A presença de europeus também era a maior entre os demais candidatos conhecidos ao cargo. A lista incluía nomes como o empresário sueco Jesper Brodin, CEO da rede IKEA e parceira do ACNUR, a canadense Joanne Liu, ex-presidente internacional da Médicos Sem Fronteiras, além de uma série de políticos e diplomatas de países como Suíça, Alemanha. Espanha e Bélgica. Tal predominância de candidatos europeus fazia com que analistas duvidassem da possibilidade de escolha de um nome de fora do continente europeu.

Em outubro, a candidatura de Salih para o ACNUR recebeu o apoio formal do Grupo Árabe, assim como do governo dos Emirados Árabes Unidos. Ou seja, chama a atenção o fato de ocorrer a ascensão de um candidato apoiado por nações do Golfo Pérsico, que têm se posicionado de forma independente em relação a grandes potências e que contam com poderio econômico considerável.

No começo de dezembro, o MigraMundo destacou que o processo de escolha do novo chefe do ACNUR serve de exemplo dos desafios e contradições que a questão do refúgio vivencia atualmente em escala global – tanto do ponto de vista da representatividade e transparência no processo de escolha, quanto em relação aos fatores financeiros que a agência enfrenta.


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