O ex-presidente iraquiano Barham Ahmed Salih deve ser o próximo Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) a partir de janeiro de 2026. É o que apontam as agências de notícias Reuters e AFP, além do portal Devex e da rede Al Jazeera, a partir de fontes próximas à ONU.
As agências de notícias citam uma carta assinada pelo atual Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, datada da última quinta-feira (11), que formaliza a intenção de indicar o ex-presidente iraquiano para o posto. A escolha ainda precisa ser confirmada pelo Comitê Executivo do ACNUR e pela Assembleia Geral da ONU, o que deve ocorrer ainda neste mês de dezembro.
Caso seja ratificado, Salih assume o posto em janeiro para um mandato de cinco anos, que pode ser prorrogado por igual período. Ele vai substituir o italiano Filippo Grandi, que chegou ao cargo em 2016 e acabou mantido para um novo período. Antes dele, o ACNUR foi chefiado por cinco anos pelo próprio Guterres, passando de lá para a Secretaria-Geral da ONU.
Quem é Barham Salih
Fluente em inglês, árabe e curdo, Barham Salih tem 65 anos e exerceu a presidência do Iraque entre 2018 e 2022, além de outros postos de menor escalão no país pós-derrubada do governo de Saddam Hussein, em 2003. Considerado de tendência moderada, era um dos onze nomes conhecidos publicamente como candidatos a substituir Grandi – e um dos poucos de fora da Europa.
Além da experiência política e diplomática, Barham Salih é pesquisador da Middle East Initiative e do Belfer Center for Science and International Affairs da Universidade Harvard. Também foi responsável pela implantação da Universidade Americana do Iraque, uma das mais conceituadas do país.
A ida de Salih para o Reino Unido tem origem no fato de ter sido obrigado a deixar o Iraque por conta da perseguição promovida pelo regime então liderado por Saddam Hussein. O agora provável futuro chefe do ACNUR disse durante sua campanha para o cargo que acreditava profundamente na missão da agência para refugiados “porque a viveu na prática”.
“Minha visão é um ACNUR que coloque os refugiados no centro, reconhecendo que a ajuda humanitária deve ser temporária”, afirmou.
Reversão de tendência?
Caso confirmado, Salih será apenas o terceiro não-europeu a comandar o ACNUR. Desde sua criação, em 1951, a agência já teve 11 altos-comissários, com forte predominância europeia e, sobretudo, masculina. As únicas exceções foram o iraniano Sadruddin Aga Khan (1965-1977) e a japonesa Sadako Ogata (1991-2000).
Considerando ainda o recorte entre Norte e Sul Global, o iraquiano será apenas o segundo nome a partir de um país identificado como parte do Sul Global.
Essa preponderância de nomes europeus à frente do ACNUR se explica pelo fato de países desse continente figurarem entre os maiores doadores da agência. Entre os demais candidatos conhecidos ao cargo estavam nomes como o empresário sueco Jesper Brodin, CEO da rede IKEA e parceira do ACNUR, a canadense Joanne Liu, ex-presidente internacional da Médicos Sem Fronteiras, além de uma série de políticos e diplomatas de países como Suíça, Alemanha. Espanha e Bélgica.
Em outubro, Salih recebeu o apoio formal do Grupo Árabe, assim como do governo dos Emirados Árabes Unidos, para assumir o ACNUR. Ou seja, chama a atenção o fato de ocorrer a ascensão de um candidato apoiado por nações do Golfo Pérsico, que têm se posicionado de forma independente em relação a grandes potências e que contam com poderio econômico considerável.
Cenário adverso
O próximo chefe do ACNUR vai encontrar uma agência que enfrenta grandes dificuldades de orçamento, assim como outras organizações do Sistema ONU. Cerca de 5 mil postos de trabalho – quase um quarto do quadro total – já foram cortados na sede da organização, em Genebra (Suíça).
Para 2026 a perspectiva segue pouco animadora, já que a previsão é de um orçamento de US$ 8,5 bilhões — 20% a menos do que neste ano — além de 4.000 postos a menos e vários escritórios de campo fechados. Um cenário que faz o ACNUR depender ainda mais de doações voluntárias e de parcerias locais.
O ACNUR planeja atender a 136 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado no mundo – o que inclui tanto refugiados quanto pessoas em situação vulnerável que não conseguiram ultrapassar as fronteiras de seus países.
A redução global de recursos para ajuda humanitária, que já vinha se acentuando ao longo dos últimos anos, foi agravada em 2025 pela decisão do governo dos Estados Unidos ainda em janeiro de desmantelar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Além disso, a invasão russa na Ucrânia e o medo de que outros países sejam afetados levaram governantes europeus a redirecionar o dinheiro que antes ia para assistências humanitárias para reforçar o orçamento destinado às políticas de defesa nacional.
No começo de dezembro, o MigraMundo destacou que o processo de escolha do novo chefe do ACNUR serve de exemplo dos desafios e contradições que a questão do refúgio vivencia atualmente em escala global.
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