Por Rosiane Trabuco
Do ProMigra
Quando o deslocamento é imposto por dinâmicas de violência, conflitos armados ou violações de direitos, a ruptura com o território de origem reconfigura radicalmente as noções de lar, pertencimento e subjetividade. Longe de ser um fenômeno isolado, o deslocamento forçado contemporâneo reflete fraturas estruturais globais. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) indicam que, em meados de 2025, mais de 117,3 milhões de pessoas viviam em contextos de mobilidade compulsória, o que significa que aproximadamente uma em cada 70 pessoas no planeta precisou refazer sua existência longe de seu território de origem. Geografias historicamente tensionadas, como o Sudão, concentram processos complexos de dispersão, somando cerca de 13,4 milhões de indivíduos entre deslocados internos e solicitantes de asilo, cujas trajetórias desafiam as fronteiras nacionais e os marcos jurídicos tradicionais.
Esse panorama global reverbera de maneira singular no continente americano que, ao final de 2024, acolhia 21,9 milhões de pessoas em situação de deslocamento – cerca de 18% do total mundial –, impulsionadas por reconfigurações políticas e sociais em países como o Haiti e a Colômbia. É nesse cenário de trânsitos transnacionais que o Brasil se estabelece, na última década, como um espaço de destino e contratendência migratória. Entre 2015 e 2024, o Estado brasileiro registrou 454.165 solicitações de refúgio, abarcando pluralidades culturais de 175 nacionalidades, com destaque para a presença histórica e continuada de populações vindas da Venezuela, Cuba, Haiti e Angola, que representam mais de 82% desse universo.
Refletindo essa tendência, apenas em 2024, o preenchimento de novas solicitações de asilo no país somou 68.159 registros (um aumento de 16,3% em relação ao ano anterior), consolidando um contingente de 156.612 pessoas com status de refúgio formalmente reconhecido no território nacional. Contudo, para além da quantificação estatística que frequentemente homogeneiza essas trajetórias, esses dados revelam a emergência de novas diásporas. Nesse sentido, trata-se de investigar como esses sujeitos, ao vivenciarem a descontinuidade territorial, mobilizam agência, redes de solidariedade e memórias para reelaborar suas identidades na alteridade. O desafio que se impõe, portanto, no contexto brasileiro, é compreender a experiência da diáspora não como sinônimo de ausência ou trauma perene, mas sim como um espaço potente de produção cultural, hibridismo e reinvenção do cotidiano em múltiplos mundos.
Essa mudança de perspectiva encontra eco nas leituras cruzadas de Jardim (2016) e Handerson (2015), que nos convidam a pensar a experiência diaspórica contemporânea como um processo relacional e situado, permanentemente tensionado entre regimes de controle e formas de agência dos próprios sujeitos, desafiando definições universalizantes. Longe de se configurar como uma identidade fixa ou mera dispersão territorial, as diásporas se constituem sob lógicas distintas: ora são moldadas por tecnologias de governamentalidade que regulam populações e impõem uma provisoriedade jurídica – como no caso histórico palestino –, ora emergem como uma categoria êmica e princípio organizador da própria vida social, baseada na circulação transnacional e em redes de obrigações morais familiares, como se observa na experiência haitiana.
Diásporas: ausência, trauma ou espaço de reinvenção?
A fim de tensionar essas duas lógicas, torna-se fundamental analisar a dimensão empírica dessas trajetórias. Nesse sentido, longe de romantizar as trajetórias de quem é obrigado a deixar seu país de origem, a vivência do artista pluridisciplinar haitiano Olwitchneider Sainclair, estudante de Letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, evidencia que a potência criativa não anula a crueza do exílio; pelo contrário, brota dela. A produção cultural no contexto do refúgio não é um passatempo idílico, mas uma negociação diária com a burocracia, com a barreira linguística e com o racismo que frequentemente desumaniza corpos negros em trânsito.
É a partir desse lugar de fala e resistência que Sainclair utiliza a linguagem, a poesia e as artes visuais para elaborar o deslocamento, visto que, para ele, criar é “um gesto de resistência, mas também uma forma de compreender o mundo e me situar nele”. Sua vivência em Salvador exemplifica como algumas pessoas em trânsito – exiladas, refugiadas ou migrantes – reconstroem a noção de “lar” na alteridade. Ao se deparar com a herança africana na capital baiana, o artista ressalta que essa proximidade atua como catalisadora de sua criação, permitindo-lhe “reconhecer fragmentos de ‘lar’ fora do meu espaço de origem”. Essa percepção ganha densidade quando o artista pontua que “a migração e o exílio, especialmente quando se inscrevem na impossibilidade de retornar ao próprio país por razões de segurança, constituem, para mim, um espaço ao mesmo tempo vivido e reflexivo. Salvador representa um espaço singular, onde os legados africanos não são apenas visíveis, mas plenamente encarnados no cotidiano”. A partir dessa experiência encarnada e ao transitar entre o crioulo haitiano e o português em seus projetos musicais, Sainclair traduz a dimensão política e afetiva das línguas, as quais, segundo ele, carregam memórias que revelam “tanto as feridas e as violências quanto as histórias que elas transportam”, transformando o exílio e a descontinuidade territorial em matéria-prima de pertencimento.
Ao declarar que “essa proximidade cultural atua como um catalisador no meu processo criativo, alimentando uma busca em torno da ideia de ‘lar’.” A fala de Sainclair sintetiza a complexidade de reconstruir uma cartografia afetiva em meio ao deslocamento. Ao encontrar na Bahia uma pulsação ancestral que ecoa a sua própria herança haitiana, o artista não opera apenas um resgate nostálgico, mas uma tradução cultural ativa. O “lar”, nesse sentido, deixa de ser uma coordenada geográfica fixa no passado para se tornar um território móvel, uma construção poética e política que se edifica na encruzilhada entre a memória do Haiti e a vivência em Salvador. Essa simbiose cultural demonstra que a identidade diaspórica não se fragmenta na alteridade; ao contrário, ela se expande e se reconhece nos espelhos da diáspora negra global, transformando o solo de acolhida em um espaço de cura e reinvenção subjetiva.
Em contrapartida, se a vivência de Sainclair em Salvador ilustra uma diáspora baseada na circulação transnacional e no reencontro de potências ancestrais, a trajetória do jovem palestino Naji Youssef Aldwaik, de 24 anos, refugiado em Valinhos (SP) após escapar dos bombardeios na Faixa de Gaza, materializa a face mais severa dos regimes de controle e da provisoriedade jurídica e afetiva que moldam a experiência diaspórica discutida por Jardim. Formado em Administração e atuante no setor de voluntariado em sua terra natal, Naji teve sua vida brutalmente interrompida pela guerra, a qual destruiu seu apartamento em Tel al-Hawa e dispersou sua família. Longe de encontrar no território de acolhida um espaço de hibridismo imediato, a existência do jovem no Brasil é marcada pela suspensão e pela angústia transnacional, monitorando a sobrevivência de amigos e de seu irmão, que permanece em Gaza após ter a perna amputada em um bombardeio, por meio de mensagens intermitentes de WhatsApp.
Essa dolorosa realidade evidencia que, para o sujeito em exílio compulsório, a desconexão com o território de origem não se resolve facilmente na tradução cultural. Embora Naji demonstre agência ao estudar a língua portuguesa e planejar o ingresso no curso de Direito para reconstruir seu futuro no interior paulista, sua subjetividade permanece profundamente vinculada à pátria de origem. Ao declarar que “todo palestino quer e deve voltar para a Palestina, porque para nós, palestinos, a nossa pátria é a nossa mãe”, o jovem ressignifica o refúgio no Brasil não como um recomeço definitivo ou um novo “lar” na alteridade, mas como um espaço de salvaguarda temporária. O nomadismo imposto pelas tecnologias de guerra produz, assim, uma identidade diaspórica tensionada pelo luto contínuo e pelo desejo soberano do retorno, onde o ideal de pertencimento recusa a fixidez das fronteiras nacionais que regulam seu trânsito.
O contraste analítico entre essas duas narrativas biográficas – a circulação afetiva e reconexão ancestral haitiana e o confinamento geopolítico e afetivo palestino – confirma que as diásporas contemporâneas não podem ser compreendidas como um bloco homogêneo. Enquanto um sujeito mobiliza agência para ressignificar o destino através da arte e da ancestralidade, o outro depara-se com os limites da própria agência diante de estruturas globais de violência que destroem os suportes materiais de sua existência. Ambos os recortes, contudo, convergem ao demonstrar que habitar múltiplos territórios é uma experiência permanentemente fraturada: seja na potência da reinvenção estética de Sainclair ou na dolorosa espera pelo retorno de Naji as novas diásporas no Brasil desafiam o Estado e a academia a enxergar o refugiado para além das estatísticas de controle fronteiriço, reconhecendo as complexas e profundamente humanas cartografias do pertencimento.
Considerações finais
Diante do panorama contemporâneo da mobilidade compulsória, as discussões empreendidas demonstram a urgência de transcender a mera catalogação numérica e burocrática dos fluxos migratórios. Se, por um lado, as estatísticas do ACNUR e os registros nacionais evidenciam as fraturas estruturais globais que impelem milhões de indivíduos ao deslocamento forçado, por outro, as abordagens qualitativas e biográficas revelam que os trânsitos transnacionais reconfiguram profundamente as noções de subjetividade, lar e agência. O Brasil, consolidando-se como um espaço de destino e contratendência migratória na última década, abriga um manancial de novas diásporas que desafiam os marcos tradicionais de recepção jurídica e integração social através de suas memórias, saberes e modos de reelaborar a identidade na alteridade.
A imersão nas experiências contrastantes do artista haitiano Olwitchneider Sainclair e do administrador palestino Naji Youssef Aldwaik ilustra, em termos empíricos, as lógicas relacionais e situadas descritas pelas leituras cruzadas de Jardim e Handerson. Enquanto a vivência de Sainclair em Salvador evidencia como a criação estética e os legados africanos compartilhados funcionam como catalisadores para a reinvenção poética e política do “lar”, a dolorosa suspensão vivida por Aldwaik no interior paulista expõe os limites da subjetivação sob o peso de tecnologias de governamentalidade e violências geopolíticas devastadoras, mantendo a ideia de pertença visceralmente vinculada à pátria de origem. Ambas as narrativas desconstroem a premissa de uma identidade diaspórica homogênea ou estática.
Portanto, a provocação de como habitar um lugar quando se é atravessado por múltiplos territórios exige reconhecer os sujeitos migrantes e refugiados não como corpos passivos regulados por aparelhos de controle fronteiriço, mas como agentes complexos cujas vidas oscilam entre o hibridismo criativo, a resiliência cotidiana e a dor indelével do exílio. Investigar e acolher as diásporas contemporâneas no contexto brasileiro demanda sensibilidade para compreender o refúgio para além da carência jurídica ou do trauma perene, validando as complexas cartografias afetivas de indivíduos que, em meio às rupturas territoriais, tecem novos mundos e reconfiguram os espaços que passam a habitar.
Sobre a autora
Rosiane Trabuco é doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS/USP), bolsista FAPESP e coordenadora do GT Acadêmico ProMigra
Referências
ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA REFUGIADOS (ACNUR). Dados: refugiados no Brasil e no mundo. Brasília, DF: ACNUR Brasil, 2026. Disponível em: https://www.acnur.org/br/dados-refugiados-no-brasil-e-no-mundo. Acesso em: 11 jun. 2026.
HANDERSON, Joseph. Diaspora. As dinâmicas da mobilidade haitiana no Brasil, no Suriname e na Guiana Francesa. Tese de doutorado – UFRJ/Museu Nacional/Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, 2015.
JARDIM, Denise F. Imigrantes ou refugiados? As tecnologias de governamentalidade e o êxodo palestino rumo ao Brasil no século XX. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 22, n. 46, p. 243-271, jul./dez. 2016.
MELO, Val. Exílio, memória e ancestralidade marcam obra de artista haitiano em Salvador. Agência de Notícias das Favelas (ANF), [2026]. Disponível em: https://www.anf.org.br/exilio-memoria-e-ancestralidade-marcam-obra-de-artista-haitiano-em-salvador/. Acesso em: 27 maio 2026.
NASCIMENTO, Aline. Conflito Israel-Hamas: após 10 meses no Brasil, palestino sonha voltar à Faixa de Gaza e vive angústia com notícias só pelo WhatsApp. g1 Campinas e Região, 8 out. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2024/10/08/conflito-israel-hamas-apos-10-meses-no-brasil-palestino-sonha-voltar-a-faixa-de-gaza-e-vive-angustia-com-noticias-so-pelo-whatsapp.ghtml. Acesso em: 08 jun. 2026.
Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link
O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

