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quarta-feira, julho 1, 2026
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Livro retrata mulheres imigrantes em conflito com a lei e desafio da maternidade atrás das grades

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Livro retrata mulheres imigrantes em conflito com a lei e desafio da maternidade atrás das grades
Foto: Marcello Casal Jr/ABr

Leia o artigo em espanhol
Leia o artigo em inglês


A Penitenciária Feminina da Capital (PFC), na zona norte de São Paulo, conta atualmente com mais de 500 mulheres. Entre elas há imigrantes que, em sua grande maioria das vezes, foram presas por envolvimento com o tráfico de drogas. E uma parte dessas histórias pode ser conhecida pelo livro “Nosotras”, recém-lançado pela Editora Pluralidades.

Escrita pela jornalista Ana Luiza Voltolini, a obra conta a história de três mulheres imigrantes presas na PFC e as razões que as fizeram chegar lá. Além disso, permite um zoom sobre uma série de questões que permeiam o cotidiano das mulheres em conflito com a lei.

O livro é fruto da experiência que Voltolini teve no Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC),  organização de Direitos Humanos que luta pela erradicação da desigualdade de gênero, pela garantia de direitos e pelo combate ao encarceramento em massa.

Nos cinco anos em que atuou pela ONG, Voltolini conheceu a história e a realidade de diversas mulheres em cumprimento de pena através de visitas a penitenciárias femininas e no atendimento feito no instituto.

Entre escutas e revistas

A Penitenciária Feminina da Capital funciona ao lado antigo complexo penitenciário do Carandiru, que mais tarde deu lugar ao Parque da Juventude. Na PFC estão presas 564 mulheres, entre elas muitas imigrantes de diversas nacionalidades – as quais variam, na maioria das vezes, de acordo com os contextos políticos e socioeconômicos dos países de origem.

Apesar da concentração de diferentes nacionalidades nas penitenciárias do Brasil, pessoas de certos países de origem acabam sendo mais vigiadas, consequência do racismo estruturante das instituições.

O livro, escrito em 2015 e publicado em 2020, narra a história de três bolivianas, Angélica, Aurora e Domitila, na PFC e os motivos que as levaram até lá. Os nomes fictícios preservam suas verdadeiras identidades e homenageiam três das cinco mulheres que derrubaram a ditadura militar na Bolívia em 1978. Entre elas, Domitila Barrios de Chungara, que foi presa grávida, torturada e perdeu seu filho na prisão.

Capa do livro Nosotras, de Ana Luiza Voltolini, que conta histórias de mulheres migrantes em situação de cárcere.
(Foto: Divulgação)

Entretanto, segundo a autora, pessoas de certas nacionalidades costumam ser mais vigiadas ao entrarem no Brasil.  “O racismo estruturante das nossas instituições, que coloca sob suspeita principalmente pessoas de países do continente africano e, entre os países da América Latina, a Bolívia” escreve na introdução do livro.

Jornalista de formação, Voltolini se viu sem seus instrumentos de profissão ao entrar na penitenciária, onde teve seus bloquinhos e seu corpo revistado. Deste modo, para poder contas essas narrativas, a autora precisou decorá-las. O processo, segundo ela, “não foi entendido como um movimento mecânico, mas como sua origem define: o ato de colocar no coração”.

Três histórias, três mães

Além da nacionalidade, as três mulheres têm em comum o fato de terem de lidar com a questão da maternidade em uma situação de cárcere judicial.

A primeira história contada é a de Angélica, que aceitou vir até o Brasil para depois pegar um voo até a Geórgia, onde seu pai estava preso por tráfico. Pai e filha viram nessas viagens a oportunidade de acabar com as dívidas que a família estava acumulando. Angelica fez a viagem grávida e foi pega no aeroporto, como a maioria das imigrantes presas em São Paulo. Sua condenação de 6 anos, 1 mês e 15 dias de reclusão foi dada por um juiz que nunca a encontrou.

Para evitar que seu filho fosse levado a um abrigo por não ter conhecidos no Brasil que pudessem cuidar dele,  Angelica entrou com o pedido de prisão domiciliar com a ajuda da Defensoria Pública da União (DPU) e do ITTC. O juiz, no entanto, negou-lhe o direito, alegando que Angelica era uma “ameaça à ordem pública” e que estaria colocando próprio filho em risco, pois poderia ser cooptada pela “organização criminosa” novamente.

Ao nascer, Joshua ficou com a mãe até os 6 meses de idade quando, por intermédio do Consulado boliviano a mãe de Angelica foi buscá-lo. O pai do menino, apesar de estar morando no Brasil, abre mão da paternidade e nunca mais volta a ajudar mãe, filho e Luana, a outra filha do casal.

A segunda história contada é a de Aurora. Ao contrário de Angelica, Aurora foi presa em um ônibus em Corumbá e descobriu a gravidez quando já estava presa. Por estar grávida, tem o direito de cuidar do filho fora da cadeia. Aos 5 meses de gravidez, aguarda uma decisão judicial.

Domitila é a terceira mulher retratada no livro. Após meses em reclusão, conseguiu contato com sua família em Cochabamba e descobriu que a seus filhos tinham sido levados para um abrigo por conta da piora da saúde de sua mãe. Quanto ao marido, ele estava desempregado e sem ajudar na casa, essa foi a última vez que se falaram.

Quando foi presa na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, já sabia que estava grávida, mas o atendimento médico da penitenciária demorou para atendê-la e entendê-la. Depois de horas de espera para o parto e diversos momentos de negligência e mal tratos, Jeremy nasceu. Domitila requisitou transferência para a PFC ao saber que a unidade contava com um Pavilhão Materno-Infantil, que todas as mães presas ocupam junto a seus filhos e filhas.

Depois de mais de um ano presa, foi concedido à Domitila o direito de cuidar de seu filho fora da penitenciária. Mãe e bebê passaram a morar em uma Casa de Acolhida, onde junto de outras bolivianas tem se “sentido um pouco mais em casa”.

Maternidade atrás das grades

Entretanto, o que aconteceu com Domitila, apesar de ser lei, não é comum. “Sinceramente, esse direito é bastante negado a todas as mulheres mães presas, sendo brasileiras ou migrantes. Geralmente, os juízes negam fundamentados em critérios subjetivos, que não estão na lei, e que muitas vezes têm por trás motivações machistas e racistas” comentou Voltolini em conversa com o MigraMundo.

Por outro lado, muito do que se relatou nessas três histórias é a realidade de muitas outras mulheres presas. Ao falar do pai dos filhos de Angelica que nunca pagou pensão ou assumiu a criação das crianças, mas que sempre frisou que ela era “uma mulher ruim, uma má mãe”, a autora está expondo o abandono e as duras críticas sofridos por essas mulheres

“Quando uma mulher vai presa, ela não é julgada só pelo crime que ela supostamente cometeu, mas por ser uma mulher cometendo um crime” observou a autora.

“Quando um homem vai preso, geralmente quem lida com o que ficou do lado de fora são mulheres: mães, esposas, filhas. Quando é uma mulher que vai presa, justamente por esse julgamento “extra”, de ser uma mulher cometendo um crime, são outras mulheres que precisam dar conta, seja a mãe, uma vizinha, uma amiga. As filas de visita das prisões masculinas são geralmente maiores que as filas das femininas. Para as mulheres migrantes, isso é mais difícil porque a maioria delas estava em trânsito quando foi presa aqui no Brasil, então as famílias estão no país de origem” explicou a autora em conversa.

“Pra mim, quando a gente ainda sobrepõe questões de gênero, raça e classe isso fica ainda pior” complementou.

Literatura como denúncia

Em conversa com o MigraMundo sobre seu livro, Voltolini falou sobre o intuito de sair um pouco do jornalismo tradicional e contar as histórias do ponto de vista único das mulheres que sofreram tais violências. Para ela, buscar imparcialidade nesse contexto através de entrevistas com os atores institucionais responsáveis por essas violências seria uma nova violência, uma vez que essas mulheres são sempre silenciadas ou desacreditadas.

A intenção foi relatar o que essas três mulheres quiseram que fosse contado e, ao mesmo tempo, denunciar a naturalização da violência que há da própria existência da prisão e tentar discutir os motivos que a permitem. “Qual a função social dela, hoje, se não mais uma forma de genocídio de uma população sistematicamente marginalizada, seja migrante, latina, negra, LGBTIQA+?” indagou.

“Este livro dificilmente mudará diretamente a realidade que tenta transpor em palavras. No entanto, não deixa de ser um mecanismo de registro para que outras pessoas as conheçam, se reconheçam e um espaço de denúncia para quem também pode tentar mudar o curso dessas e de outras trajetórias” escreve no epílogo de seu livro.

Situação das prisões femininas no Brasil

De acordo com o Infopen 2019- Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias -, no final do ano, 36.929 mulheres estavam encarceradas no país, o equivalente 4,94% da população penitenciária brasileira de 748.009 pessoas. O número garante ao país a posição de terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China respectivamente.

Enquanto mais da metade dos homens está preso por crimes contra o patrimônio, 50,94% das mulheres presas cumprem pena por envolvimento com drogas.

Quanto às africanas presas no Brasil, as nacionalidades mais frequentes são sul-africana, angolana e queniana respectivamente. No que diz respeito às encarceradas de origem americana, 37,34% são bolivianas, em segundo lugar, com menos da metade, vem as venezuelanas, representando 17,2% das presas.


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Os estereótipos de gênero como motivador para a não concessão de refúgio às pessoas LGBTI

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Bandeira LGBTTI carregada durante manifestação em Moldova. Crédito: Joseph Smida/ACNUR

Por Danielle Menezes

Em 28 de junho de 1969, a polícia de Nova York invadiu o Stonewall bar, conhecido por ser um espaço libertário, frequentado pela comunidade gay, lésbica, travesti e de drags queens que eram recebidos com hostilidade em outros lugares.

Embora tais batidas fossem relativamente frequentes, os policiais não imaginavam que naquele dia, tantos os frequentadores, como moradores locais, fossem se insurgir contra aquela ação. Os protestos ganharam forma e duraram cerca de 5 dias.

No ano seguinte, as primeiras paradas gays (como ainda eram chamadas na época) surgiram em Chicago, Nova York, São Francisco e Los Angeles. Por causa de toda essa movimentação é que a data foi considerada como um  marco na defesa dos direitos LGBTI e junho, ficou marcado como o mês do orgulho de ser gay, lésbica, transexual, queer e intersexo.

Após 51 anos desse momento histórico, cerca de 70 países ainda criminalizam os relacionamentos homossexuais ou a transexualidade, sendo punível com a morte em alguns locais.

Atentos a realidade, a comunidade internacional ampliou a proteção do Estatuto das Pessoas Refugiadas, aprovado em 1951 em Genebra, para também garantir que a população LGBTI oriunda de regiões com histórico de violência e perseguições baseadas na orientação sexual e/ou identidade de gênero, também possam requerer asilo em outros países.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) estima que atualmente cerca de 40 países concedam o refúgio a quem precisou fugir sua terra natal por ser gay, lésbica, bissexual, transexual, entre outros. O ACNUR publicou em 2012 a Diretriz de Proteção Internacional nº9, com o direcionamento específico às perseguições motivadas por questões ligadas à orientação sexual e à identidade de gênero real ou percebida a fim de nortear o trabalho dos países dispostos a proteger os direitos da população migrante LGBTI.

Abismo entre teoria e realidade

Porém, embora alguns avanços legislativos possam ser notados, ainda há um grande abismo entre a teoria e a realidade. A principal dificuldade encontrada é relacionada a questão probatória. Alguns países ainda baseiam suas decisões em entendimentos ultrapassados que reforçam os estereótipos de gênero.

Um caso que ganhou a atenção internacional foi de Aderonke Apata, condenada pelo Tribunal Islâmico (Sharia) da Nigéria por adultério. Durante o processo, ela alegou ter se casado com um homem para esconder o seu relacionamento de 20 anos, com uma mulher. Quando a família do marido desconfiou que ela era lésbica, a denunciaram e a levaram até o tribunal. O irmão e o filho de três anos de Aderonke foram assassinados por multidões enfurecidas e a ativista foi presa, torturada e sentenciada à morte por apedrejamento.

Aderonke conseguiu fugir para o Reino Unido onde pediu asilo em 2004. Em 2015, o delegado do Ministério do Interior declarou que ela havia mentido a respeito de sua orientação por usar cabelo comprido e ter filhos. O asilo foi concedido, finalmente, em 2017, após 13 anos de luta judicial e vários protestos da sociedade civil.

Um estudo conduzido pelo Ethnic and Racial Studies identificou que na Alemanha ainda é necessário obedecer aos estereótipos para ter o seu direito reconhecido, ou seja, o requerente precisa provar que é “homossexual o suficiente” para fazer jus ao pedido de asilo. 

A Áustria também já virou manchete por causa dos seus julgamentos equivocados. Em 2018, foi negado asilo a um homem gay afegão, por ele ser “masculino demais”. De acordo com o julgador, o rapaz de 18 anos não se vestia ou portava como um homossexual, além de apresentar um perfil briguento, o que não condiz com a personalidade dos homens gays.

Por outro lado, o pedido de refúgio foi negado a um homem iraquiano por ser “feminino demais por isso a sexualidade não ser verossímil”.É importante lembrar que não concessão de asilo e a consequente deportação aos países de origem, também é uma sentença de morte, em muitos casos.

A União Europeia proibiu em 2018 que os estados-membros realizem testes psicológicos para a comprovação da homossexualidade no entanto, ainda é possível encontrar decisões do Tribunal Europeu de Direitos Humanos afirmando que a população LGBTI não sofre riscos em seus países de origem se eles optarem por uma vida discreta.

Situação no Brasil

Já no Brasil, encontramos um corpo legislativo doméstico um pouco mais robusto. Por aqui, o casamento LGBTI é reconhecido, a criminalização da LGBTfobia foi recentemente aprovada, o Sistema Único de Saúde (SUS) aprovou em 2006 a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, incluindo o direito ao uso do nome social pelas travestis e transexuais e desde 2008, é possível fazer a cirurgia de redesignação sexual, tecnicamente chamadas de transgenitalização, utilizando o sistema público de saúde.

Contudo, não é possível se furtar da crítica de que o estado brasileiro é conhecido por ser o mais violento para a população LGBTI, o resultado de um preconceito profundo ainda arraigado no seio da sociedade e impede que os direitos formais sejam transformados em direitos reais. 

No campo das migrações, o Brasil foi considerado vanguarda durante algum tempo, junto com a África do Sul. O primeiro pedido de asilo em decorrência de perseguição por causa da orientação sexual ou identidade de gênero que se tem notícia aconteceu há 17 anos.

Em 2018, após uma ampla pesquisa realizada pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) em conjunto com a ACNUR, o Brasil lançou uma plataforma interativa com os números relacionados aos solicitantes de refúgio em decorrência de perseguições motivadas pela orientação sexual ou identidade de gênero, se tornando o quarto país a publicizar tais informações.

Esse trabalho, portanto, foi realizado antes da eleição do atual Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e algumas mudanças já foram sentidas. 

Em 2019, diplomatas receberam instruções oficiais do Itamaraty para reiterar o entendimento do governo brasileiro de que o gênero está ligado ao sexo biológico, além de vetar o uso do termo nas negociações internacionais e em resoluções da ONU. 

Ou seja, embora o Brasil tenha um histórico bastante positivo em relação à concessão de asilos para as pessoas que sofrem perseguição por causa da sua orientação sexual ou identidade de gênero, a avaliação para os próximos anos não é positiva, podendo apresentar, inclusive, alguns retrocessos.

Assunto complexo

Um outro viés a ser considerado, é que a pessoa LGBTI requerente de asilo por tal motivo, carrega consigo o estigma do seu país de origem. Ao conseguirem o refúgio, uma das grandes dificuldades é a aproximação com suas comunidades locais, uma vez que mesmo estando em outro país, a maior parte das pessoas, movida por crenças religiosas, continuam partilhando da ideia de que ser lésbica ou transexual, por exemplo,  é uma doença, ou um crime.

Logo, para não serem rejeitados muitos ficam sozinhos ou continuam se escondendo. Por tal motivo,  as perseguições sofridas por causa de orientação sexual ou identidade de gênero são utilizadas apenas em última instância como motivo para o pedido de refúgio. Há também sempre o medo da negativa e o perigo de retornar para o seu estado de origem como uma pessoa LGBTI.

Ou seja, ao ler os estudos e relatos sobre o tema é possível observar que estamos diante de uma questão bastante particular. Os estudos sobre refúgio, sexualidade e gênero ainda comportam pouca intimidade entre si, o que dificulta a compreensão da complexidade do assunto.

Além das dificuldades migratórias e dos países estarem apertando a legislação a cada ano que passa, também existe a falta de preparo dos juízes, juízas e equipes responsáveis pelos julgamentos, incluindo as cortes superiores de direitos humanos. 

A ausência de conhecimento técnico sobre sexualidade e gênero e os entendimentos baseados em convicções contaminados com preconceitos de senso comum e religioso, acabam por adicionar atraso na promoção e proteção dos direitos humanos das pessoas LGBTI e expondo-os a graves riscos, tal qual já fizeram no passado. Afinal, qual a diferença entre um país que criminaliza as pessoas LGBTI de outro que nega o acesso a um direito por “não ser gay o suficiente”? Aqui de onde eu vejo, nenhum!

Sobre a autora

Danielle Menezes é advogada residente em Lisboa (Portugal) e pós-graduanda em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra. Tem interesse especialmente na questão das migrações.


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Especialistas veem EUA criminalizarem estudantes internacionais com ameaça de deportação por aulas online

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Bandeira dos EUA em noite de neblina no Empire State Building, em Nova York. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - mai.2013)

Atualizado às 16h00 de 8.jul.2020

O governo dos Estados Unidos determinou na última terça-feira (7) que estudantes internacionais que tiverem suas aulas totalmente online devido à pandemia do novo coronavírus, a partir de setembro, vão ter que deixar o país.

De acordo com a Agência de Imigração e Alfândega (ICE), a medida vale para estudantes com os vistos F-1 e M-1 a partir da retomada do ano letivo. Quem quiser permanecer em território americano precisa transferir a matrícula para uma escola ou universidade com aulas presenciais.

Do contrário, as autoridades imigratórias dos EUA podem aplicar sanções que incluem a remoção ao país de origem. O comunicado da ICE não dá maiores detalhes do porquê da decisão.

Instituições reagem

Universidades de renome internacional sediadas nos Estados Unidos tem anunciado que retomarão atividades em setembro no formato online. Ou seja, estudantes de outros países matriculados nessas instituições serão afetados pela decisão.

Já nesta quarta-feira (8), duas das mais famosas universidades do mundo — Harvard e MIT — decidiram processar a administração de Donald Trump pela medida.

Segundo reportagem do portal NBC, a medida tem sido vista como uma maneira do republicano pressionar faculdades e universidades a reabrir seus campi com aulas presenciais durante a pandemia.

“O efeito – e talvez até o objetivo – é criar o máximo de caos possível para universidades e estudantes internacionais”, diz o processo movido pelas universidades, de acordo com a NBC.

Criminalização de estudantes internacionais

Para Erika Robb Larkins, antropóloga e professora da Universidade Estadual de San Diego, a mais recente medida do governo dos EUA sugere que tais estudantes “não são membros valiosos das nossas comunidades universitárias e que não são bem-vindos em nossos bairros e cidades também”.

A docente, que também dirige o Centro de Estudos Brasileiros Behner Stiefel na mesma universidade, ressalta que tal postura “não reflete, nem de perto, a posição de seus colegas, do corpo docente que os ensina, e das comunidades onde esses estudantes vivem e contribuem”.

“Além de criminalizar estudantes internacionais de forma absurda e sem justificativa plausível, a medida recente da ICE falha em reconhecer a contribuição valiosa que esses estudantes trazem para as salas de aulas das universidades. Sem contar que esses estudantes internacionais fizeram um investimento — tanto do ponto de vista acadêmico quanto financeiro — nas comunidades onde se encontram e no país como um todo”, complementa a antropóloga.

Trump x imigrantes

A medida contra estudantes estrangeiros representa mais um passo no cerco à imigração imposto pelo presidente Donald Trump ao longo de seu mandato. O republicano, que tenta a reeleição à Casa Branca neste ano, tem no tema uma de suas principais bandeiras — que dialoga fortemente com grupos de direita e extrema-direita.

“A decisão de mudar as regras de vistos para estudantes (vistos F-1 e M-1), durante as férias escolares e em meio à pandemia, é uma medida eleitoreira. Faz parte da estratégia de Trump de se aproximar de sua base com uma retórica divisiva”, analisa Ana Cernov, cientista social brasileira residente em Los Angeles e integrante do Coletivo Por Um Brasil Democrático na cidade.

O novo golpe contra os imigrantes nos Estados Unidos vem um dia após o anúncio do resultado de uma pesquisa que notou, pela primeira vez, um aumento no número de cidadãos no país simpáticos à vinda de imigrantes.

Segundo levantamento do Instituto Gallup, 34% dos americanos são favoráveis à expansão da imigração para os EUA, enquanto 28% gostariam que ela diminuísse. Quase 8 em 10 entrevistados (77%) disseram acreditar que a imigração é boa para o país.

A política anti-imigração de Trump também sofreu um revés recente da Suprema Corte dos Estados Unidos — que equivale ao Supremo Tribunal Federal no Brasil.

Em junho, a Corte impediu o presidente de encerrar o Daca, projeto do governo do antecessor Barack Obama que impede a deportação de mais de 600 mil imigrantes que entraram de forma irregular no país quando eram crianças.

Ana espera ainda que tal percepção mais positiva sobre a migração se traduza em ações concretas de apoio aos imigrantes no país. “Isso certamente teria uma reflexo importante em outros países que olham os EUA como modelo, incluindo o Brasil”, completa.


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O ‘novo normal’ no fenômeno migratório a partir do coronavírus

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Migrantes na cidade turca de Edirne em direção à fronteira com a Grécia e Bulgária
Migrantes na cidade turca de Edirne, em direção à fronteira com a Grécia e Bulgária, antes da decretação da pandemia pela OMS. (Photo: Müge Ayman - fev.2020/OIM)

Por Pe Alfredo J. Gonçalves

Os dados revelam que a pandemia do coronavírus faz mais estragos entre as diferentes etnias que moram precariamente em países estrangeiros, afetando de maneira particular os imigrantes indocumentados. As coisas se agravam quando tais imigrantes são vítimas da rede mundial do crime organizado.

Informativo recente das Nações Unidas chama a atenção para “o impacto da pandemia Covid-19 no tráfico de pessoas”. O documento alerta de forma textual e pontual: “No tráfico de pessoas humanas, os criminosos estão ajustando seus modelos de negócios ao ‘novo normal’ criado pela pandemia, especialmente por meio de abuso das modernas tecnologias de comunicação. Ao mesmo tempo, o Covid-19 afeta a capacidade das autoridades estatais e das organizações não governamentais em fornecer serviços essenciais às vítimas desse crime. Mais importante ainda, a pandemia exacerbou e trouxe à tona as desigualdades econômicas e sociais profundamente entrincheiradas, que estão entre as principais causas do tráfico de pessoas” (Cfr. Publicado por UNODC – United Nations Office Drugs and Crime) – em português, Gabinete das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (13/06/2020).

Por ironia do destino, este tempo de máscaras desmascara (e escancara) ao máximo semelhantes “desigualdades econômicas e sociais”. O balanço de empresas como Amazon, Microsoft e Apple, para citar alguns exemplos, ganharam cada uma delas, durante o flagelo, ao redor de um trilhão de dólares no mercado de ações. Além disso a pandemia deixa também, por onde passa, um rastro de desemprego subemprego. Evidentemente que, uma vez mais, os estrangeiros são os primeiros afetados. Por falta de documentação devidamente regularizada ou por falta de melhor qualificação profissional, não poucos de entre eles acabam por cair (ou retornar) à condição de trabalhadores “descartáveis”. Para muitos, o problema é voltar para casa, como foi o caso de centenas de colombianos que tiveram de permanecer por semanas acampados no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Não é diferente para os estudantes que estão se formando em outros países. Emigrantes brasileiros, por exemplo, se vêm obrigados a desistir de estudar em Portugal: “Pandemia e euro a R$ 6,00 podem provocar êxodo de alunos brasileiros de Portugal” (Cfr. Portal da Folha de São Paulo, online, 13/06/2020.

Quanto ao drama dos refugiados – aqueles que não podem voltar atrás, sob risco de perseguição e até morte – já antes da pandemia seu contingente vinha aumentando nos últimos anos. De acordo com a jornalista Flávia Mantovani, “o número de pessoas que deixaram suas casas forçadas por guerras, perseguições e crises humanitárias no mundo quase dobrou na última década, indo de 41 milhões em 2010 para o recorde histórico de 79,5 milhões em 2019 – o que equivale a 1% da população mundial. Ao mesmo tempo, com a persistência de conflitos antigos e o surgimento de novos, [apenas] uma pequena parte deles conseguiu voltar para seus países – 3,9 milhões, comparado com quase 10 milhões na década anterior. Com isso, a maioria se vê em uma situação de exílio duradouro” (Cfr. Portal da Folha de São Paulo, 18/06/2020). 

À violência e às “crises humanitárias” de que são vítimas, acrescenta-se ano após ano o fator das catástrofes climáticas. Na exata medida em que o pêndulo do clima vem oscilando de forma cada vez mais rápida entre os extremos do espectro, aumentam em igual proporção os chamados “refugiados climáticos”. Estiagens prolongadas, furacões, tempestades atípicas e fora de época, inundações e deslizamentos – entre outros desastres – constituem o resultado nefasto (e de certa forma previsto e previsível) do aquecimento global. De resto, especialistas e ambientalistas, têm alertado para o fato de que a exploração predatória com a devastação do meio ambiente, por um lado, e o surgimento do Covid-19, por outro, não são coisas dissociadas uma da outra. Ao contrário, com a destruição do habitat natural dos animais selvagens, estes passam a conviver mais de perto com os seres humanos, o que pode explicar a série de novos vírus contraídos nas últimas décadas (gripe aviária, gripe suína, ebola, novo coronavírus, e assim por diante).

Pe. Alfredo J. Gonçalves é vice-presidente do SPM e integra a Ordem Scalabriniana


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Restrição a entrada de estrangeiros no Brasil discrimina refugiados e venezuelanos, apontam ONGs

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

O governo federal anunciou na última terça-feira (30) a prorrogação até o fim de julho da restrição à entrada de estrangeiros no Brasil em razão da pandemia de coronavírus. Entidades da sociedade civil, no entanto, criticam pontos que são vistos como discriminatórios em relação a refugiados e, mais especificamente, quanto a venezuelanos.

A Portaria Interministerial 340, assinada em conjunto pelos ministérios da Casa Civil, Justiça, Infraestrutura e Saúde, se apoia em recomendações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A restrição prevista pela portaria abrange estrangeiros de qualquer nacionalidade — seja o ingresso por meio terrestre, aéreo ou aquaviário. A exemplo do que vem ocorrendo desde março, a restrição pode ser prorrogada, caso a Anvisa entenda como necessário.

As exceções ficam por conta de estrangeiros que venham realizar atividades artísticas, desportivas ou de negócios, desde que em viagens de curta duração e sem a intenção de estabelecer residência no país.

A restrição ao ingresso no Brasil também não se aplica aos estrangeiros com residência no país por tempo determinado e visto temporário, que venham para a realização das seguintes atividades: pesquisa, ensino ou extensão acadêmica, estudo, trabalho, realização de investimento, reunião familiar ou atividades artísticas ou desportivas.

A portaria determina ainda que o descumprimento das medidas implicará responsabilização civil, administrativa e penal, repatriação ou deportação imediata e inabilitação de pedido de refúgio.

Discriminação contra venezuelanos

A portaria, no entanto, traz ainda ressalvas adicionais a cidadãos de nacionalidade venezuelana. Ela prevê, por exemplo, que venezuelanos que estejam fora do Brasil, mesmo com visto de residência no país, não possam entrar em território brasileiro.

A Venezuela foi alvo da primeira medida de restrição migratória, ainda em 17 de março, estendida dois dias depois a outros países vizinhos.

“O tratamento discriminatório contra pessoas que venham da Venezuela também continua, posto que as flexibilizações são aplicadas com exceção àqueles que venham desse país vizinho que, ironicamente, o Brasil reconhece como sendo uma crise humanitária”, aponta Camila Asano, diretora de programas da Conectas Direitos Humanos.

A entidade é uma das dez signatárias de uma carta dirigida aos quatro ministérios que assinaram a portaria anterior, de 20 de junho, que estendia a restrição à entrada de estrangeiros por 15 dias.

Além da Conectas, assinam a carta a África do Coração, Cáritas Arquiodicesana de São Paulo, Cáritas Brasileira, Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), FICAS, Instituto de Culturas e Justiça da América Latina e do Caribe (ICUJAL), Missão Paz e Visão Mundial.

Porta fechada para refugiados

Também é criticada pelas instituições a ausência de menção na portaria a situações de pessoas em situação de refúgio ou que caibam no chamado visto humanitário, previsto na Lei de Migração vigente no país.

“De forma desumana, a modalidade de visto humanitário foi excluída. Manteve-se a proibição para que um sobrevivente de guerra, por exemplo, possa sequer fazer o pedido de refúgio no Brasil. E mais, ele será deportado sumariamente para o país onde sua vida corra risco”, acrescenta Asano.

Tal restrição, exemplifica a representante da Conectas, contraria orientação do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), que sugere a permissão de pessoas em situação de perseguição mediante aplicação de quarentena e outras medidas sanitária.

O MigraMundo entrou em contato com o Ministério da Justiça sobre os questionamentos da sociedade civil quanto à portaria e aguarda retorno.

Coronavírus e xenofobia

As restrições temporárias à circulação de pessoas para casos de saúde pública como o coronavírus são legítimas perante ao Direito Internacional, segundo especialista ouvida pelo MigraMundo ainda em março. Nesse mês começaram as primeiras medidas de restrição a estrangeiros no Brasil em razão da pandemia.

No entanto, tal política deixa de ser válida quando se prova que a restrição é imposta a um determinado grupo.

“A legitimidade de impedimento de entrada de pessoas provenientes de países afetados pela pandemia pode ser questionada caso as medidas restritivas sejam aplicadas aos nacionais de determinados países ou a grupos étnico-religiosos específicos, ao invés de serem direcionadas para pessoas provenientes de locais de alta incidência da doença, independentemente da sua nacionalidade”, observa Carolina de Abreu Batista Claro, professora de direito internacional, migração e refúgio no Instituto de Relações Internacionais da UnB.

Tanto Carolina como outros especialistas já ouvidos pelo MigraMundo sobre o coronavírus concordam que atos de xenofobia, na verdade, tornam ainda mais complicado o combate à atual pandemia.


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Compro comida, mas o aluguel está atrasado: imigrantes relatam como usam o auxílio emergencial

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imigrantes relatam como usam o auxílio emergencial
Imigrantes também tem direito a auxílio emergencial criado pelo governo devido ao coronavírus. (Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil)

*A pedido dos entrevistados, alguns nomes foram alterados para preservação da identidade

Leia aqui em espanhol

A exemplo do que acontece com brasileiros de baixa renda, imigrantes nessa situação no Brasil também recorreram ao auxílio emergencial como forma de enfrentar a crise gerada pela pandemia de coronavírus. O acesso a esse benefício, no entanto, esbarra em uma série de obstáculos, enquanto as dificuldades geradas pelo atual contexto encontram caminho livre.

O MigraMundo conversou com imigrantes que solicitaram o auxílio emergencial, tanto os que conseguiram como os que ainda tentam obter o benefício — o prazo termina nesta quinta-feira (2). E como o próprio nome diz, ele tem sido usado para suprir necessidades básicas de quem o obteve.

“Dá pra comprar comida, mas faz três meses que não pago o aluguel”, resume a venezuelana Rosana, que vive em um bairro da zona leste de São Paulo.

Antes da pandemia, Rosana trabalhava como faxineira e vendia panos de prato. Tais atividades, no entanto, acabaram interrompidas pelas ações de isolamento social impostas para frear o avanço do vírus.

“Graças a Deus comida pelo menos não falta”, diz ela, que emprega o auxílio emergencial para esse fim, apesar da insegurança gerada pelo não pagamento do aluguel. Mesmo assim, ela conta com a ajuda de amigos e ainda tenta ajudar uma colega colombiana a solicitar o benefício dentro do prazo.

Auxílio recusado

O costureiro boliviano Hernan, que pediu para não ter o sobrenome publicado, não teve a mesma sorte. Também residente em São Paulo, está entre os que não conseguiram o benefício, solicitado também nos primeiros dias de vigência do programa.

Hernan foi um dos imigrantes que esbarrou na questão do CPF, documento primordial para cadastro no auxílio emergencial. Embora estivesse em situação regular, a falta de informações sobre o nome da mãe — exigida na solicitação do benefício — bloqueava a solicitação. Mesmo após ter resolvido a questão, ficou semanas aguardando uma resposta — que quando veio, foi negativa.

A situação de Hernan é menos grave porque a esposa, que fez a solicitação dias antes dele, obteve o benefício — e com ele, dar um jeito para a família a atravessar a crise (além do casal, são mais dois filhos).

“Vamos levando, né?”, resume o costureiro — o setor têxtil, que emprega muitos imigrantes, foi um dos mais afetados pela pandemia.

A área de eventos também sofreu duro golpe com o novo coronavírus. E tal situação repercute diretamente na vida da artista sul-africana Nduduzo Siba, que também vive em São Paulo.

A exemplo de Hernan, ela solicitou o auxílio emergencial ainda em abril, logo após o lançamento do aplicativo pelo governo. Seu pedido, no entanto, foi negado. E três meses depois, mesmo com a ajuda de integrantes da sociedade civil, Siba ainda não conseguiu resolver seu caso.

“Faz três meses que não pago o aluguel”, diz a artista, que assim como Rosana teme ser despejada. No entanto, ainda procura conservar disposição e motivação para uma apresentação cultural que fará no próximo sábado (4), de forma online, ao lado de outras artistas — a primeira após três meses — no Latinidades Afrolatinas (acesse aqui para mais informações)

Gargalos

De acordo com a Caixa Econômica Federal, atualmente são 64,3 milhões de pessoas efetivamente contempladas pelo auxílio emergencial no Brasil. O banco estatal informa ainda ter processado um total de 107,7 milhões de cadastros. Ou seja, mais de 40 milhões de solicitações foram barradas por algum motivo.

Uma das tentativas de resposta do poder público a esses e outros entraves, que afetam também brasileiros, foi a criação de uma parceria entre o Ministério da Cidadania e a DPU (Defensoria Pública da União). Por meio dela, o objetivo é fazer uma análise mais rápida de algumas hipóteses de indeferimento.

Para tal, o solicitante deve procurar uma unidade da DPU, de forma remota (telefone, WhatsApp ou e-mail) — os contatos estão disponíveis no portal da instituição. O comparecimento presencial a uma unidade só deve ocorrer em caso extremo, se solicitado.

É importante ressaltar que a parceria entre a DPU e o Ministério da Cidadania abre uma nova frente para corrigir erros na análise dos cadastros, mas não garante a solução do problema. A Defensoria criou uma seção de perguntas e respostas com as principais dúvidas sobre a iniciativa.

Além da parceria, a DPU elaborou ofícios e até uma Ação Civil Pública (ACP) contra o sistema bancário nacional para tentar garantir o acesso ao auxílio por parte dos imigrantes. Segundo apuração do MigraMundo, no entanto, a Caixa segue ignorando as recomendações da Defensoria.

A advogada Karina Quintanilha, assessora jurídica do Centro de Direitos Humanos e Cidadania dos Imigrantes (CDHIC) e pesquisadora-curadora do Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas, na USP, cita ainda outros empecilhos enfrentados pelos imigrantes que obtiveram direito ao auxílio emergencial.

“Recebemos relatos de imigrantes que tiveram o cadastro aprovado mas estavam com medo de sofrer xenofobia e racismo nas filas da Caixa, até porque as próprias agências estavam dificultando a retirada do benefício. É preciso lembrar que pela nossa legislação, qualquer forma de discriminação de raça/etnia e nacionalidade é ilegal”.

Necessidade de mobilização

Para Quintanilha, esses e outros gargalos que ficaram explícitos com os problemas ligados ao auxílio emergencial reforçam a necessidade de mobilizações como a que reivindica a regularização de imigrantes indocumentados.

“Na maioria dos casos, quem conseguiu sem muitos problemas é quem já recebia Bolsa Família. E quem não conseguiu é porque está enfrentando ainda problemas no cadastro ou problemas relacionados à política de indocumentação — ou seja, o Estado impondo barreiras burocráticas e custosas para o imigrante se regularizar, daí a importância da Campanha pela regularização migratória durante a pandemia pela Covid-19”.

A mobilização, tocada por uma série de coletivos de imigrantes e associações ligadas à temática, também ajudou a basear um Projeto de Lei na Câmara dos Deputados. O PL 2699/2020 “institui medidas emergenciais de regularização migratória no contexto da pandemia de Covid-19 e dá outras providências”.

Uma petição online foi lançada no último dia 9 de junho pela aprovação urgente do PL 2699/2020 pelo Congresso Nacional. Com a petição, o objetivo dos coletivos é pressionar os parlamentares para uma apreciação e aprovação céleres do projeto.

De acordo com o portal da Câmara dos Deputados, o PL ainda aguarda despacho do presidente da Casa, Rodrigo Maia — o que inicia oficialmente a tramitação do texto.

A luta por regularização de imigrantes não se restringe ao Brasil. Na última sexta-feira (26), organizações de cinco países — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru — realizaram uma mobilização nas redes sociais pela regularização migratória de pessoas indocumentadas no esforço de combate à pandemia.

Além da América do Sul, há movimentos semelhantes em países europeus que pressionam por mudanças na legislação que ao menos facilitem a regularização migratória como parte das respostas à pandemia.

O raciocínio é simples: uma vez em situação regular, os migrantes teriam mais facilmente acesso a serviços como saúde e moradia, permitindo que estes tenham mais elementos para se prevenir contra o vírus. Assim, são incluídos oficialmente nos esforços coletivos para controle da pandemia, em um movimento que beneficia a sociedade como um todo.


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Compro comida, pero el alquiler se retrasa: los inmigrantes informan de cómo utilizan la ayuda de emergencia

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imigrantes relatam como usam o auxílio emergencial
Imigrantes também tem direito a auxílio emergencial criado pelo governo devido ao coronavírus. (Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil)

Aunque se aplica a los inmigrantes, el acceso a la prestación se enfrenta a una serie de obstáculos

Por MigraMundo equipe
Traduccion: Natália Valverde
Version en portuguès

*A petición de los entrevistados, se cambiaron algunos nombres para preservar la identidad.

Al igual que los brasileños de bajos ingresos, los inmigrantes en esta situación en Brasil también han recurrido a la ayuda de emergencia como forma de enfrentar la crisis generada por la pandemia del coronavirus. Sin embargo, el acceso a este beneficio se enfrenta a una serie de obstáculos, mientras que las dificultades generadas por el contexto actual se abren paso con claridad.

MigraMundo habló con los inmigrantes que han solicitado ayuda de emergencia, tanto con los que han tenido éxito como con los que todavía están intentando obtener el beneficio – el plazo termina este jueves (2). Y como su nombre indica, se ha utilizado para satisfacer las necesidades básicas de los que lo han obtenido.

“Puedes comprar comida, pero hace tres meses que no pago el alquiler”, dice Rosana, una venezolana que vive en un barrio del este de São Paulo.

Antes de la pandemia, Rosana trabajaba como limpiadora y vendía paños de cocina. Sin embargo, estas actividades se vieron interrumpidas por las acciones de aislamiento social impuestas para detener la propagación del virus.

“Gracias a Dios que hay al menos suficiente comida”, dice, utilizando la ayuda de emergencia para este fin, a pesar de la inseguridad generada por no pagar el alquiler. Aún así, cuenta con la ayuda de amigos y sigue intentando ayudar a un colega colombiano a solicitar el beneficio a tiempo.

Ayuda rechazada

El sastre boliviano Hernán, que pidió que no se publicara su apellido, no tuvo tanta suerte. También viviendo en São Paulo, está entre los que no recibieron el beneficio, solicitado también en los primeros días del programa.

Hernán fue uno de los inmigrantes que se topó con el tema del CPF, el documento principal para el registro en la ayuda de emergencia. Aunque estaba en una situación regular, la falta de información sobre el nombre de su madre, requerida en la solicitud de la prestación, bloqueó la solicitud. Incluso después de resolver el asunto, esperó semanas para una respuesta, que cuando llegó, fue negativa.

La situación de Hernán es menos grave porque su esposa, que lo solicitó días antes que él, obtuvo el beneficio – y con él, dando a la familia una salida a la crisis (además de la pareja, hay dos hijos más).

“Estamos tratando” resume el sastre – el sector textil, que emplea a muchos inmigrantes, fue uno de los más afectados por la pandemia.

El área de eventos también sufrió un fuerte golpe con el nuevo coronavirus. Esto tiene un impacto directo en la vida del artista sudafricano Nduduzo Siba, que también vive en São Paulo.

Al igual que Hernán, solicitó ayuda de emergencia tan recientemente como en abril, poco después de que el gobierno lanzara la solicitud. Su petición, sin embargo, fue denegada. Y tres meses después, incluso con la ayuda de miembros de la sociedad civil, Siba todavía no podía resolver su caso.

“Han pasado tres meses desde que pagué el alquiler”, dice la artista, que, como Rosana, teme ser desalojada. Sin embargo, todavía está tratando de mantener el ánimo y la motivación para una presentación cultural que hará el próximo sábado (4), en línea, junto con otros artistas – la primera después de tres meses – en Latinidades Afrolatinas (acceda aquí para más información)

Obstáculos

Según la Caixa Econômica Federal, actualmente hay 64,3 millones de personas cubiertas efectivamente por la ayuda de emergencia en Brasil. El banco estatal también informa de que ha procesado un total de 107,7 millones de registros. En otras palabras, más de 40 millones de solicitudes fueron prohibidas por alguna razón.

Uno de los intentos de las autoridades públicas de responder a estos y otros obstáculos, que también afectan a los brasileños, fue la creación de una asociación entre el Ministerio de Ciudadanía y la DPU (Defensoria Pública da União, en portugués). A través de él, el objetivo es hacer un análisis más rápido de algunas de las hipótesis de rechazo.

Para ello, el solicitante debe buscar una unidad DPU a distancia (teléfono, WhatsApp o correo electrónico) – los contactos están disponibles en el portal de la institución. La asistencia a una unidad sólo debe ocurrir en casos extremos, si se solicita.

Es importante destacar que la asociación entre la DPU y el Ministerio de Ciudadanía abre un nuevo frente para corregir los errores en el análisis de los registros, pero no garantiza la solución del problema. La DPU ha creado una sección de preguntas y respuestas con las principales preguntas sobre la iniciativa.

Además de la asociación, la DPU ha desarrollado artesanías e incluso una Acción Civil Pública (ACP) contra el sistema bancario nacional para tratar de garantizar el acceso de los inmigrantes a la ayuda. Sin embargo, según las conclusiones de MigraMundo, la Caixa Econômica Federal sigue ignorando las recomendaciones de la DPU.

La abogada Karina Quintanilha, asesora jurídica del Centro de Derechos Humanos y Ciudadanía de los Inmigrantes (CDHCI) y curadora-investigadora del Foro Internacional sobre las Fronteras, en la USP, también cita otros obstáculos a los que se enfrentan los inmigrantes que han obtenido el derecho a la ayuda de emergencia.

“Recibimos informes de inmigrantes a los que se les aprobó su registro pero que temían sufrir xenofobia y racismo en las filas de la Caixa, entre otras cosas porque las propias agencias dificultaban la retirada del beneficio. Debemos recordar que según nuestra legislación, cualquier forma de discriminación de raza/etnia y nacionalidad es ilegal”.

Necesidad de movilización

Para Quintanilha, estos y otros obstáculos que se han hecho explícitos con los problemas vinculados a la ayuda de emergencia refuerzan la necesidad de movilizaciones como la que exige la regularización de los inmigrantes indocumentados.

“En la mayoría de los casos, el que lo consiguió sin demasiados problemas es el que ya recibía Bolsa Família. Y quien no lo ha logrado es porque sigue teniendo problemas de registro o problemas relacionados con la política de indocumentación, es decir, el Estado impone barreras burocráticas y costosas para que el inmigrante se regularice, de ahí la importancia de la Campaña de regularización migratoria durante la pandemia de Covid-19”.

La movilización, tocada por una serie de colectivos de inmigrantes y asociaciones vinculadas al tema, también ayudó a fundamentar un proyecto de ley en la Cámara de Representantes. El proyecto de ley 2699/2020 “instituye medidas de emergencia para la regularización de las migraciones en el contexto de la pandemia del Covid-19 y adopta otras disposiciones”.

El 9 de junio se lanzó una petición en línea para la aprobación urgente del PL 2699/2020 por el Congreso Nacional. Con la petición, el propósito de los colectivos es presionar a los parlamentarios para un rápido examen y aprobación del proyecto.

Según el sitio web de la Cámara de Representantes, la PL todavía está esperando el envío del Presidente de la Cámara, Rodrigo Maia – que comienza oficialmente el procesamiento del texto.

La lucha por la regularización de los inmigrantes no se limita al Brasil. El viernes pasado (26), organizaciones de cinco países -Argentina, Bolivia, Brasil, Chile y Perú- llevaron a cabo una movilización en las redes sociales para la regularización de los migrantes indocumentados en el esfuerzo por combatir la pandemia.

Además de América del Sur, hay movimientos similares en los países europeos que están presionando para que se introduzcan cambios en la legislación que faciliten por lo menos la regularización de la migración como parte de las respuestas a la pandemia.

El razonamiento es sencillo: una vez en situación regular, los migrantes tendrían un acceso más fácil a servicios como la salud y la vivienda, lo que les permitiría disponer de más elementos para prevenirse contra el virus. Así pues, están oficialmente incluidos en los esfuerzos colectivos para controlar la pandemia, en un movimiento que beneficia a la sociedad en su conjunto.

Que futuro estamos deixando para as crianças migrantes?

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Por Danielle Menezes

O atual fluxo de deslocamento forçado por guerras, conflitos, eventos climáticos, violências e perseguições, é o maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 2015, imagens de pessoas atravessando o oceano a nado ou em pequenas embarcações e de crianças morrendo no caminho, estamparam as capas de jornais e mostraram ao mundo o desespero de quem fugia de seus países em busca de condições de vida mais dignas.

No entanto, após a comoção inicial, que chegou a levar países como a Alemanha a aceitar inicialmente, mais de 1 milhão de refugiados, partidos políticos conservadores não pouparam esforços para apresentar os migrantes requerentes de asilo como um problema para as populações locais.

O resultado dessa campanha desumanizadora foi o enrijecimento das políticas migratórias e as crescentes denúncias relacionadas a violação de direitos humanos.

A situação dos menores migrantes na Europa e no mundo

De acordo com o relatório realizado em 2018 pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), cerca de 70,8 milhões de pessoas estão em deslocamento forçado, sendo que mais da metade são crianças e adolescentes e 138,6 mil encontram-se desacompanhados de seus responsáveis.

Em 2018, a UE registrou 19.700 pedidos de menores não acompanhados, representando 10% de todos os requerentes de asilo com menos de 18 anos.

Já em 2019, havia cerca de 13 mil menores desacompanhados na Espanha. Atualmente, existem em torno de 1.800 crianças desacompanhadas lutando pela sobrevivência nas Ilhas Gregas. 

Violação dos direitos humanos no continente europeu

Infelizmente, as notícias relacionadas a violação dos direitos humanos continuam a existir. O continente europeu conta com 260 campos de concentração espalhados por todos os seus estados-membros, como se eles não tivessem aprendido por meio de um passado doloroso, que nenhuma boa história pode ser contada em locais assim.

O Plano de Ação do Conselho da Europa revelou em 2019, que todos os países do continente europeu contam com centros de detenção para menores de 18 anos, em explícita desobediência ao artigo 37 da Convenção do Direitos das Crianças, considerado como um dos instrumentos de proteção dos direitos humanos mais aceito na história, tendo sido ratificado por todos os países, com exceção dos Estados Unidos.

A França também foi denunciada em 2018, em um relatório divulgado por uma organização de solidariedade que contava a situação de adolescentes de 12 anos, sofrendo violências verbais, físicas, sendo privados de água, comida, cobertores e da presença de seus guardiões legais.

No final de 2019, uma embarcação com cem migrantes foi resgatada na costa da Líbia pela ONG italiana “Mediterranea Saving Humans”. Entre os tripulantes havia 8 mulheres grávidas e 22 crianças com menos de 10 anos, com relatos de hipotermia, maus tratos e tortura. 

Porém, mesmo com todas essas informações o governo italiano não permitiu a entrada do navio em suas águas e a embarcação ficou à deriva por cinco dias até receber permissão formal da guarda costeira para atracar e ainda assim, foram multados em 300 mil euros pelas autoridades da Itália.

Esses são apenas alguns relatos recentes de situações que aconteceram na Europa e que demonstram a falta de compromisso do continente com a crise migratória e a promoção dos direitos humanos relacionadas aos migrantes menores de idade.

Portugal no acolhimento de crianças refugiadas

Portugal tem ganhado destaque na imprensa internacional quando o assunto são migrações. No entanto, ao que parece, nem todo tipo de migrante é bem-vindo na terra de Cabral.

O governo português é denunciado de maneira recorrente por manter crianças detidas em períodos que podem chegar até a 2 meses. Estudos indicam que em 2019, cerca de 77 crianças ficaram presas no aeroporto de Lisboa, sendo que 23 delas estavam desacompanhadas.

O Conselho Português para os Refugiados mantém a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR), onde os menores migrantes devem, supostamente, ser enviados imediatamente, estando ou não documentados. No entanto, diante das denúncias realizadas ano passado,  uma representante do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), relatou em outubro de 2019, que as CACR estão superlotadas e isso impossibilita que as regras sejam cumpridas.

Por outro lado, o próprio SEF divulgou dados informando que entre 2014 e 2018, Portugal recebeu apenas 188 solicitações de asilo de menores desacompanhados, revelando que não está entre os principais destinos de refugiados. Há uma conta que parece não fechar!

Portugal também já foi condenado pelo Comitê contra a Tortura das Nações Unidas pelo uso excessivo da força, ausência de alternativas à detenção, falta de condições nas instalações e cobrança de taxas de entrada a entidades externas, como advogados, nas instalações do aeroporto de Lisboa. 

A maneira como o SEF conduz os processos de pedidos de asilo também são criticados, uma vez que existe omissão de informações relevantes, como a presença de sobreviventes de tortura, violação ou outras formas de violência. Os relatórios indicam ainda que houve um total de 1849 pedidos de asilos espontâneos, sendo que 503 foram identificados como sendo de pessoas vulneráveis e a taxa de recusa é perto de 70%.

O impacto causado nas crianças migrantes pelo descaso

Os menores migrantes sofrem diversas violências ao longo da vida, incluindo a institucional cometida pelas autoridades de países que se comprometeram a protegê-los. Aliás, é importante ressaltar que quase 90% dos migrantes encontram refúgios nos países em desenvolvimento, mostrando explicitamente que o continente europeu ainda está muito longe de pagar a sua dívida histórica com os países que eles exploraram durante anos.

As crianças abandonadas em locais insalubres estão expostas a riscos físicos, como fome, sede e abusos sexuais, além de sofrerem com transtornos psicológicos, como depressão, automutilação e tentativas de suicídio.

Há também os casos em que os adolescentes desesperados pela falta de oportunidades, impossibilitados de irem à escola ou de trabalharem, acabam por cometer pequenos furtos e outras violências, sendo duplamente criminalizados: por ser migrante e por ter cometido um ato ilícito.

É urgente cobrarmos o compromisso das autoridades internacionais a fim de proverem o respaldo adequado àqueles que são considerados o futuro da humanidade. Mas enquanto seguimos roubando-lhes o presente, será que elas terão o privilégio de terem um futuro?

Sobre a autora

Danielle Menezes é advogada residente em Lisboa (Portugal) e pós-graduanda em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra. Tem interesse especialmente na questão das migrações


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Prazo para solicitar auxílio emergencial termina na quinta; veja como contestar solicitações negadas

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Site e app do auxílio emergencial estão no ar; benefício se estende a imigrantes e refugiados
Aplicativo da Caixa para pedido do auxílio emergencial, está disponível para celulares Android e iOS. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

O prazo para solicitação do auxílio emergencial termina nesta quinta-feira (2), exatos três meses após sua sanção pelo governo federal. O benefício, que é temporário, foi criado para atenuar os efeitos econômicos e sociais gerados pela pandemia de coronavírus e também pode ser solicitado por imigrantes residentes no Brasil, independente da situação migratória.

O acesso dos imigrantes ao auxílio emergencial, no entanto, tem esbarrado em uma série de obstáculos. Eles vão desde a necessidade de atualização de cadastro no CPF às negativas de agências bancárias em pagar o benefício. Há ainda pessoas que fizeram a solicitação e tiveram o pedido negado, mesmo se enquadrando nos critérios para receber o auxílio.

Parceria entre DPU e Ministério da Cidadania

De acordo com a Caixa Econômica Federal, atualmente são 64,3 milhões de pessoas efetivamente contempladas pelo auxílio emergencial no Brasil. O banco estatal informa ainda ter processado um total de 107,7 milhões de cadastros. Ou seja, mais de 40 milhões de solicitações foram barradas por algum motivo.

Uma das tentativas de resposta do poder público a esses e outros entraves, que afetam também brasileiros, foi a criação de uma parceria entre o Ministério da Cidadania e a DPU (Defensoria Pública da União). Por meio dela, o objetivo é fazer uma análise mais rápida de algumas hipóteses de indeferimento.

Para tal, o solicitante deve procurar uma unidade da DPU, de forma remota (telefone, WhatsApp ou e-mail) — os contatos estão disponíveis no portal da instituição. O comparecimento presencial a uma unidade só deve ocorrer em caso extremo, se solicitado.

É importante ressaltar que a parceria entre a DPU e o Ministério da Cidadania abre uma nova frente para corrigir erros na análise dos cadastros, mas não garante a solução do problema. A Defensoria criou uma seção de perguntas e respostas com as principais dúvidas sobre a iniciativa.

O Ministério da Cidadania anunciou ainda que está desenvolvendo plataforma que ficará disponível no aplicativo do auxílio emergencial e que permitirá a contestação do indeferimento diretamente pelo cidadão. Até o momento não há uma previsão para que tal serviço comece a funcionar.

Limitações do serviço

O acordo entre a DPU e o Ministério da Cidadania se aplica somente às regiões atendidas por alguma das 70 unidades da DPU — todas as 27 capitais e e em mais 43 cidades do interior, que atendem moradores de 1.830 municípios. Por ser um benefício da esfera federal, as Defensorias Públicas estaduais nada podem fazer.

A DPU esclarece ainda que, mesmo nos locais abrangidos pela entidade, há limites locais de atendimento, a depender da demanda e do número de defensores públicos federais atuantes na unidade.

Nos casos de solicitantes que vivem em cidades fora da cobertura das unidades da DPU, o caminho é procurar diretamente a subseção da Justiça Federal que responde pelo município — e nele, fazer o seu pedido de prestação de assistência jurídica. 

No caso dos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, que fazem parte do do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da Terceira Região), foi criado um formulário (acesse aqui) para quem quer contestar pedidos do auxílio emergencial sem a necessidade de advogados.

Para acessar o formulário é necessário fazer um cadastro, no qual é pedido um CPF válido — o que deve ser um entrave para imigrantes que não possuem documentos ou que ainda estejam regularizando o CPF

Como solicitar o auxílio emergencial

Para requerer o auxílio emergencial, é necessário fazê-lo pela internet (https://auxilio.caixa.gov.br ) ou por aplicativo de celular, disponível para aparelhos Android e iOS —não se deve baixar ou acessar nenhum outro programa ou site para pedir o benefício.

Para estar habilitado a receber o auxílio, o imigrante precisa se enquadrar em um dos critérios listados abaixo:

  • ser titular de uma MEI (Microempreendedor Individual);
  • estar inscrito no CadÚnico (Cadastro Único) até 20 de março (o sistema entrou em manutenção depois dessa data para ajustes);
  • ter renda média mensal de até meio salário mínimo por pessoa, e de até 3 salários mínimo por família;
  • ser contribuinte — individual ou facultativo — do Regime Geral de Previdência Social;

É preciso ainda se enquadrar em todos os critérios abaixo:

  • Ter 18 anos de idade ou mais;
  • renda mensal de até meio salário mínimo (R$ 522,50) por pessoa;
  • renda mensal de até 3 salários mínimos (R$ 3.135) por família;
  • não ter emprego formal;
  • não receber benefício previdenciário ou assistencial, seguro-desemprego ou outro programa de transferência de renda (exceto Bolsa Família)

As três parcelas do auxílio são no valor de R$ 600. Para o caso de mulheres que sejam mães e chefes de família, poderão receber R$ 1.200 mensais (o equivalente a duas cotas), caso se encaixem em algum dos critérios listados acima.

Segundo a Caixa Econômica Federal, todas as pessoas com pedidos ainda em análise terão uma resposta. E as que tiverem o benefício aprovado receberão todas as parcelas.

Dificuldades para receber o benefício

Além das dificuldades para se cadastrar no programa, imigrantes que conseguem o direito de receber o benefício ainda enfrentam obstáculos a mais para receber o dinheiro.

As agências bancárias e dos Correios têm cobrado a apresentação de DNM (Documento Nacional Migratório) ou sua versão antiga, o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), para liberar o pagamento.

Tais barreiras levaram a questionamentos da DPU (Defensoria Pública da União), por meio de ofícios e de Ação Civil Pública (ACP) contra o sistema bancário nacional para garantia do acesso ao auxílio por parte dos imigrantes.

Em um desses ofícios, a DPU informa que documentos emitidos pelo país de origem do imigrante — ainda que vencidos — são válidos como identificação para saque do auxílio emergencial.

Os defensores lembram ainda que, em razão da pandemia, os serviços e prazos de regularização migratória junto à Polícia Federal estão suspensos desde 24 de fevereiro. A própria entidade destacou que não serão aplicadas multas a imigrantes que tiverem sua regularização migratória prejudicada por esse motivo.

Relatos de imigrantes e de representantes da sociedade civil, no entanto, mostram que tais orientações têm sido ignoradas. E a dificuldade em obter o benefício, mesmo garantido por lei, chega a gerar descrédito junto aos imigrantes e a crença de que o auxílio emergencial se aplica somente aos brasileiros.


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Imigrantes no Brasil e mais 4 países fazem campanha por regularização migratória em resposta à Covid-19

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Imigrantes no Brasil e mais 4 países fazem campanha por regularização migratória em resposta à Covid-19
Imagem de divulgação da mobilização promovida por coletivos e associações de imigrantes agendada para esta sexa-feira (26). Foto: Divulgação

A campanha iniciada por coletivos de imigrantes no Brasil por regularização migratória em meio ao coronavírus vem dialogando com movimentos semelhantes em outros países. Prova disso é que organizações de imigrantes em cinco países — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru — realizam nesta sexta-feira (26) uma mobilização nas redes sociais pela regularização migratória de pessoas indocumentadas no esforço de combate à pandemia.

A mobilização, que acontece às 16h (horário de Brasília), pede o cumprimento da Resolução 04/19 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, aprovada em dezembro de 2019. Ela prevê, entre outros pontos, que “os Estados devem incentivar a regularização da migração evitando, em especial, a precariedade das condições de trabalho e outras consequências da situação migratória irregular”.

“É necessário e urgente que os Estados-nação garantam o acesso à regularização migratória nos países que residimos, já que, em muitos casos, a situação irregular impede e/ou dificulta o acesso aos serviços de saúde, de educação, ao trabalho e/ou aos serviços de assistência social, fazendo com que as famílias tenham que romper com as medidas preventivas de isolamento social por força maior”, diz comunicado coletivo da campanha.

Uma vez regularizados, os imigrantes tendem a ter acesso facilitado aos serviços públicos de saúde, dando a estes a possibilidade de buscar tratamento contra o vírus. Em consequência, desta forma colaboram mais para o combate à pandemia junto com o restante da sociedade.

PL e mobilizações no Brasil

A regularização migratória por fins humanitários e como parte do esforço de combate à pandemia de coronavírus é também o foco de um Projeto de Lei na Câmara dos Deputados.

Protocolado em 15 de maio pela bancada do PSOL, o PL 2699/2020 “institui medidas emergenciais de regularização migratória no contexto da pandemia de Covid-19 e dá outras providências”.

A proposta parte do princípio da regularização migratória por fins humanitários, previsto na atual Lei de Migração, e se insere no esforço de combate à pandemia de coronavírus e seus efeitos.

Uma petição online foi lançada no último dia 9 de junho pela aprovação urgente do PL 2699/2020 pelo Congresso Nacional.

Com a petição, o objetivo dos coletivos é pressionar os parlamentares para uma apreciação e aprovação céleres do projeto. De acordo com o portal da Câmara dos Deputados, o PL ainda aguarda despacho do presidente da Casa, Rodrigo Maia — o que inicia oficialmente a tramitação do texto.

Organizações envolvidas na campanha

  • Argentina: Bloque de Trabajadores Migrantes, Ni Una Migrante Menos, Campaña Migrar No Es Delito, Consejería Migrante Nuevo Perú en Nuevo Perú Buenos Aires;
  • Bolivia: Ni Una Migrante Menos;
  • Brasil: Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, Projeto Canicas, Presença da América Latina – PAL, CEMIR, Coletivo Sí, yo puedo!, Magdas Migram, Coletivo Diásporas Africanas, CONIC, Comunidade cubana no Brasil, Rede MILBI, CDHIC, Coletivo Cio da Terra, ProMigra, Fórum Internacional Fontié ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas;
  • Chile: Coordinadora Nacional de Inmigrantes, Integración Migrante Antofagasta, Colectividad de Colombianos Residentes en Antofagasta, Organización de Colombianos Refugiados en Chile (OCORCH), Raíces de Resistencia, Fundación Huellas, Féminas Latinas, Quilicura a color, SINDUCAP, Secretaría de Mujeres Inmigrantes, Colectivo Amauta, Agrupación Intercultural Miranda, Invisibles por la Paz

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