publicidade
terça-feira, junho 30, 2026

República Democrática do Congo: uma independência que ainda está sendo construída

Sessenta e seis anos após o fim do domínio colonial, o país continua enfrentando guerras, exploração e invisibilidade, enquanto sua população resiste e reivindica o direito de contar a própria história

Por Marina Lee Colbachini e Christian Mutulani

No dia 30 de junho, a República Democrática do Congo celebra sua independência. Em 1960, após mais de sete décadas de colonização belga, milhares de congoleses ocuparam as ruas para celebrar o nascimento de uma nova nação. A independência representava muito mais do que a troca de uma bandeira: significava a possibilidade de que o povo congolês finalmente pudesse decidir seu próprio destino.

Sessenta e seis anos depois, essa data continua despertando orgulho, mas também convida à reflexão. O que significa ser independente quando as riquezas naturais do país continuam despertando interesses econômicos globais? Como celebrar a soberania nacional quando milhões de congoleses ainda enfrentam conflitos armados, deslocamentos forçados e a necessidade de reconstruir suas vidas dentro e fora de seu país?

Este artigo nasce justamente do encontro entre duas perspectivas. É escrito por uma pesquisadora brasileira que, há mais de uma década, desenvolve projetos de pesquisa e educação com refugiados congoleses, e por Christian Mutulani, cidadão em situação de refúgio em seu próprio país, o Congo. Nossa parceria não é apenas uma escolha de autoria; ela representa uma forma de construir conhecimento em diálogo, aproximando experiências que a história insistiu em manter distantes.

A independência do Congo costuma ser lembrada pelo histórico discurso de Patrice Lumumba, primeiro-ministro do país, que rompeu o protocolo durante a cerimônia oficial ao denunciar as violências do regime colonial. Enquanto autoridades belgas exaltavam a chamada “missão civilizatória” da colonização, Lumumba recordava o trabalho forçado, as humilhações e os sofrimentos impostos ao povo congolês. Seu pronunciamento permanece atual porque afirmava algo essencial: a liberdade não poderia ser um presente concedido pelo colonizador, mas uma conquista do próprio povo.

Entretanto, a independência política não significou o fim das disputas pelo território congolês. Ao longo da história, diferentes recursos naturais fizeram do Congo uma peça central da economia mundial. Primeiro vieram o marfim e os corpos de milhões de africanos escravizados. Depois, a borracha impulsionou a Revolução Industrial. O cobre participou da eletrificação do século XX. O urânio extraído do solo congolês esteve presente na construção da era nuclear. Hoje, o coltan e o cobalto alimentam celulares, computadores, veículos elétricos e baterias utilizadas em todo o planeta.

Mudaram as tecnologias. Mudaram os discursos. Mas a cobiça internacional pelas riquezas do Congo permanece.

Paradoxalmente, quanto mais indispensável o país se torna para o funcionamento da economia global, menos ele aparece como protagonista de sua própria história. Quando o Congo chega às manchetes internacionais, geralmente é associado à guerra, às epidemias, à fome ou aos conflitos armados. Raramente aparecem seus cientistas, escritores, músicos, professores, artistas e empreendedores. Raramente se fala de uma sociedade que continua produzindo conhecimento, cultura e esperança mesmo diante das adversidades.

Como congolês em situação de refúgio em meu próprio país, escrevo este texto sabendo que o Congo é muito maior do que as imagens que costumam circular sobre ele. Cresci aprendendo a valorizar a independência conquistada por gerações anteriores, mas também compreendi que ela não pode ser vista apenas como um acontecimento do passado. A independência continua sendo um projeto coletivo, construído diariamente por pessoas que insistem em estudar, trabalhar, criar, educar seus filhos e preservar sua cultura, mesmo quando a violência tenta reduzir o Congo apenas às suas tragédias.

Nossa convivência ao longo dos últimos anos nos ensinou que falar sobre o Congo exige, antes de tudo, escutar os congoleses. Durante muito tempo, o país foi narrado por administradores coloniais, correspondentes estrangeiros e organizações internacionais. São poucas as oportunidades em que os próprios congoleses ocupam o centro da narrativa para explicar quem são, o que pensam e quais futuros desejam construir.

Talvez esta seja uma das razões pelas quais ainda seja tão difícil compreender o significado da independência congolesa. A liberdade não se resume ao reconhecimento de fronteiras nem à existência de um Estado soberano. Ela também depende do direito de contar a própria história, preservar a memória, participar das decisões sobre seus recursos naturais e ser reconhecido pela riqueza de sua produção intelectual e cultural.

Escrever este artigo em coautoria é, para nós, um pequeno gesto nessa direção. Não se trata de uma pesquisadora brasileira falando sobre o Congo nem de um refugiado congolês narrando sozinho sua experiência. Trata-se de um diálogo construído entre duas trajetórias que se encontraram por meio da pesquisa, da educação e da amizade. Em tempos marcados por discursos de intolerância e desinformação sobre migração e refúgio, acreditamos que a escuta continua sendo uma das formas mais profundas de solidariedade.

Neste aniversário da independência da República Democrática do Congo, não celebramos apenas um marco histórico. Celebramos também a possibilidade de construir pontes entre povos, compartilhar narrativas e reconhecer que a história do Congo nunca pertenceu apenas aos congoleses. Ela atravessa silenciosamente o mundo contemporâneo e desafia todos nós a pensar o verdadeiro significado da liberdade, da soberania e da responsabilidade compartilhada.

Porque a independência continua sendo construída todos os dias. Ela também começa quando escolhemos ouvir as vozes que, por tempo demais, foram mantidas à margem da história. A imagem de crianças, muitas delas com menos de oito anos, erguendo uma escola com galhos de árvores e um teto de palha revela mais do que a ausência do Estado: revela a potência de uma comunidade que insiste em construir o próprio futuro. Cada galho colocado, cada feixe de palha amarrado, expressa a convicção de que a educação é um caminho para romper ciclos de violência, pobreza e invisibilidade. Construir uma escola, nesse contexto, é também reivindicar o direito de existir, de aprender e de fazer com que suas vozes sejam finalmente escutadas.


Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link

O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Publicidade

Últimas Noticías