Por Cristina de Branco e Rocio Quispe Yujra
Por mais que a chegada de pessoas indígenas andinas, vindas dos seus territórios de referência ancestral, Tawantinsuyu (do sul da atual Colômbia ao norte da Argentina e do Chile) e Wallmapu (da costa pacífica do centro chileno à costa atlântica do centro argentino), sobretudo para o Estado de São Paulo, aconteça desde o século passado e com maior intensidade a partir dos anos 2000, o Estado brasileiro, suas entidades e políticas públicas, sempre enquadraram essas pessoas enquanto nacionais de Estados Nação sul-americanos. Sempre as rotulou como imigrantes internacionais regionais vindos do Chile, da Argentina, da Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, sem entendê-las como pessoas indígenas em mobilidade ou em situação migratória. Ao não serem consideradas pelo Estado brasileiro como pessoas indígenas, não têm garantidos nenhum dos seus direitos enquanto indígenas, nem as pessoas que migraram, nem seus filhos já nascidos no Brasil, herdeiros de suas raízes aymara, quechua, otavalo, mapuche, entre outras. Daí a enorme importância desse primeiro reconhecimento estatal à crescente diversidade étnica indígena e a existência de povos indígenas andinos, entre outros, no Brasil.
No final de outubro deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou os resultados do Censo demográfico de 2022 no que concerne à diversidade étnica e linguística da população indígena residente no Brasil, levando em conta a intersecção de vários fatores, “como a relação deles com o território, sua condição de migrantes, a expulsão de alguns povos de seus territórios de origem e a presença de indígenas em áreas definidas como urbanas” (IBGE 2025, 28). Principalmente a partir da urgência em considerar estatisticamente pessoas indígenas nascidas na Venezuela, como no caso dos waraos, deslocados para e pelo Brasil principalmente a partir de 2017, muitas vezes em situações de refúgio e de extrema vulnerabilização socioeconômica, se anunciava a realização de coletas estatísticas mais informadas que dessem conta de expressar um panorama mais próximo da realidade índigena em mobilidade e a partir dele desenhar políticas públicas correspondentes. Em 2019, os censos experimentais do IBGE já consideravam vários setores censitários diferenciados, entre eles um setor na cidade de São Paulo onde residem “migrantes de outros países, que não usam o português como língua falada em seu domicílio de residência” (idem). A estratégia censal do IBGE vinha, assim, recentemente desenhando adaptações específicas para considerar povos indígenas em situação de migração, refúgio e solicitação de refúgio (IBGE 2025, 70).
A partir desses primeiros passos, de enorme importância seja para notar as pessoas indígenas nascidas em outros países, como também aquelas em contexto urbano, o Censo de 2022 trouxe um resultado para muitos surpreendente: das 203.080.756 de pessoas residentes no Brasil, 1.694.836 são pessoas indígenas. Do Censo de 2010 para 2022, o número de pessoas indígenas quase duplicou, representando um crescimento gigante das realidades indígenas no país e também da sua diversidade étnica e linguística. Enquanto no Censo de 2010 foram registradas 305 etnias e 274 línguas, no Censos de 2022 foram anotadas 391 etnias e 295 línguas indígenas faladas, sendo que a maioria das pessoas indígenas residem fora de terras indígenas, sobretudo em situação urbana. As etnias Aimara (Aymara), Quechua, Quíchua, Otavalenho (Otavalo) e Mapuche fazem parte dessas 85 etnias recentemente registradas pelo Censo nacional brasileiro.

Ao exercitarmos um foco mais regional e local, vamos encontrando as pessoas indígenas andinas no Brasil nesse panorama estatístico. No Sudeste brasileiro, os aymaras aparecem como a oitava etnia numericamente mais presente. Nessa região, entretanto, é o estado de São Paulo aquele com maior presença indígena, das 44.411.238 pessoas que aqui residem, 55.331 são pessoas indígenas, afirmando São Paulo no 10º lugar entre os estados com mais população indígena. No estado paulista foram notificadas 271 etnias, das quais a mais populosa é a Guarani Mbya com 3.359 pessoas, seguida pela Aymara com 2.271, sendo que a etnia Quechua surge mais adiante em 9º lugar com 905 pessoas. No contexto paulista, a quantidade de indígenas fora de terras indígenas e em situação urbana aumenta muito em relação ao resto do país, proporção que se intensifica ainda mais na capital do estado.
Na cidade de São Paulo, entre 11.451.999 residentes, 19.783 são pessoas indígenas, conformando a capital paulista como 10ª cidade com maior população indígena do país, sendo que as três primeiras estão no Estado do Amazonas (Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga) e as seguintes variam entre quase 28 mil e 20 mil pessoas (números bastante próximos ao total em São Paulo). Na capital, foram registradas 194 etnias, sendo que os locais da cidade com maior concentração de pessoas indígenas em ordem decrescente são: Cangaíba, Real Parque, Bresser, Bom Retiro, e mais adiante, Vila Maria, Vila Guilherme, Penha, Belém, Feira da Madrugada, Jardim Japão e Pari. Note-se que mais de metade dos locais indicados entre aqueles com maior concentração demográfica indígena na capital paulista correspondem a bairros com alta presença de população residente boliviana, sendo que entre os quatro primeiros, Cangaíba, Bresser e Bom Retiro são bairros notoriamente andinos. Além disso, é no Pari que está a Feira Kantuta, um palco a céu aberto de danças e rituais indígenas andinos, onde a arte, música e espiritualidade se entrelaçam, no qual as tradições dos povos Aymara e Quechua ganham visibilidade, convertendo esse espaço público em território simbólico de pertencimento e resistência indígena andina em São Paulo. No Bresser, por sua vez, está a Rua Coimbra, local de grande circulação de pessoas andinas e andino-descendentes, onde é possível encontrar produtos tradicionais de referência indígena andina, como artesanatos, tecidos, vestimentas típicas, instrumentos musicais, ervas medicinais e alimentos tradicionais.
A publicação recente do IBGE – Censo Demográfico 2022: Etnias e línguas indígenas: Principais características sociodemográficas: Resultados do universo (IBGE 2025) – revela que oito etnias que, no Censo de 2010, estavam agrupadas sob a categoria de “etnias indígenas de outros países” passaram a ser apresentadas individualmente no Censo de 2022, refletindo um avanço enorme na identificação e reconhecimento da diversidade étnico-linguística indígena no Brasil. Segundo esse mesmo relatório, notamos que as etnias andinas surgem na Tabela 9 – Pessoas indígenas, segundo etnia, povo ou grupo indígena, sobretudo entre as chamadas “outras etnias das Américas” (idem 165): 2.434 pessoas aymaras, 250 pessoas mapuches, 1.164 quechuas e 80 quíchuas, sendo que as 97 pessoas otavalenhas surgem no índice geral de etnias. Ao somarmos, contamos 4.025 pessoas autodeclaradas indígenas referenciadas em etnias de vínculo aos biomas andinos, residentes no Brasil.
Por meio da intersecção de dados pesquisados por meio do SIDRA, o Banco de Dados Estatísticos do IBGE, é possível aprofundar esses dados gerais e considerar a distribuição destas pessoas pelo território, suas proporções de gênero e idade, entre outros dados específicos. É possível notar, por exemplo, que para além de presenças pontuais em outros estados, é justamente no estado de São Paulo que estas pessoas indígenas andinas mais residem. Os aymaras se concentram principalmente no Sudeste e Centro-Oeste, sendo que 2.271 das 2.434 pessoas aymaras estão no estado de São Paulo, ou seja, 93% da população aymara censada no Brasil reside no estado de São Paulo. Por sua vez, os quechuas parecem não residir nos estados do Amapá, Alagoas e Sergipe, mas em todos os outros estados está pelo menos uma pessoa quechua. Do contingente geral de 1.164 pessoas quechuas, 905 residem no estado de São Paulo, ou seja, 77% dos quechuas no Brasil residem no estado de São Paulo, enquanto no Rio de Janeiro moram 51 pessoas quechuas e no Amazonas, 33. Dos 80 quíchuas registrados pelos Censos em 2022, 40 residem no estado de São Paulo, 6 no Rio Grande do Sul e 6 no Paraná. Entre os 97 otavalenhos censados, 66 residem no estado de São Paulo, 11 em Santa Catarina e 8 no Distrito Federal. Finalmente, entre as 250 pessoas mapuches notadas pelo Censo, 98 vivem no estado de São Paulo, 37 no Rio de Janeiro e 32 na Bahia. Ainda sobre essa dispersão territorial, vale anotar que tanto no Distrito Federal, como em todos os estados do Sul e quase todos do Sudeste (com exceção do Espírito Santo), residem pessoas indígenas andinas.

É interessante também destacar um dado estatístico notório: de todas as pessoas indígenas andinas censadas, apenas uma vive em Terra Indígena, sendo ela uma pessoa aymara que reside no estado de São Paulo; todas as outras vivem fora de terras indígenas. Além disso, das 4.025 pessoas apenas 40 pessoas vivem em espaço rural (1%) e todas as outras 3.985 vivem em espaço urbano. Importa, por fim, notar que especificamente em contexto urbano existem mais pessoas que autodeclaram pertença étnica a mais de uma etnia. Sobre a autodeclaração a mais de uma etnia, vale relevar que 106 pessoas declararam sua etnia Aymara como primeira e a Quechua como segunda, 35 autodeclaram ao inverso, a etnia Quechua como primeira etnia e Aymara como segunda, 10 pessoas se autodeclararam aymaras e guaranis nhandewa, 8 quechuas guarani kaiowá, 4 mapuches-guarani e 2 mapuches-aymara, entre outras variações biétnicas. Esses dados sobre duplas pertenças étnicas traz a evidência de que as pessoas indígenas se relacionam entre pessoas de diferentes vínculos étnicos e culturais, se movimentam pelo território e educam seus filhos e filhas a partir de várias heranças étnicas. Mesmo assim, pelos dados partilhados pelo IBGE, ainda não sabemos quantas são as pessoas indígenas andinas nascidas no Brasil e em outros Estados-Nação.
Ainda que esse avanço estatístico oficial deva ser assinalado e continuamente estudado e aprofundado, é notória a defasagem com a realidade das comunidades indígenas andinas, pelo menos no que diz respeito aos aymaras, quechuas e otavalo, grandemente presentes na cidade e área metropolitana de São Paulo. Por exemplo, se nos concentramos apenas nos números de imigrantes bolivianos calculados pelo Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA) e demonstrados pelo Observatório das Migrações em São Paulo, são mais de 187 mil pessoas nascidas na Bolívia e residentes no Brasil em 2024, das quais mais de 159 mil pessoas residiam no estado de São Paulo e desse total, 135 mil na cidade de São Paulo. Entretanto, nos Censos bolivianos de 2001, 62% da população total autodeclarou pertencer a uma nação, povo ou comunidade indígena ou afro-boliviana. Em 2012, esse número diminuiu para 41% e, em 2022, 37,8% da população total se autodeclarou indígena ou afro-boliviana. No decorrer dos anos, entre 75% e 86% dessas pessoas se autodeclararam como quechuas e aymaras. Apenas considerando o número de pessoas bolivianas migrante hoje e a percentagem recente da autodeclaração indígena na Bolívia podemos projetar a hipótese de que no Brasil talvez contemos com mais de 70 mil pessoas indígenas nascidas na Bolívia, residentes aqui, das quais mais de 52 mil seriam aymaras e quechuas. Considerando que a população boliviana migrante no Brasil veio em peso a partir de 2000 (quando a proporção de autodeclaração indígena na Bolívia era muito maior) e que, conforme algumas pesquisas, a maioria vêm do ocidente andino boliviano (região historicamente de maior proporção demográfica indígena), imaginamos que esse volume de presença indígena andina apenas vinda da Bolívia seja ainda maior.
Isso sem contar com a interseção estatística possível em relação também aos imigrantes vindos do Peru, Equador, Colômbia, Argentina e Chile. Essa consideração hipotética demonstraria que os quantitativos de indígenas andinos das etnias Aymara, Quechua, Quichua, Otavalo e Mapuche no Brasil são bem maiores do que aqueles demonstrados pelos Censos de 2022. Se considerarmos que essas comunidades vêm estabelecendo suas redes migratórias há décadas, como, por exemplo, entre bolivianos desde finais da década de setenta e peruanos desde os anos 2000, torna-se também evidente que existem já segundas e terceiras gerações que herdaram os vínculos e identidades indígenas de seus pais e mães e conformam, hoje em dia, milhares de pessoas aymaras, quechuas, otavalos e mapuches nascidas no Brasil. Portanto, seja por meio das projeções estatísticas, seja pela vivência das comunidades indígenas andinas no país, é evidente que no Brasil residem muito mais do que cerca de 4 mil indígenas de etnias de referência em biomas andinos.
Essa defasagem possivelmente se dá, por um lado, pela falta de campanhas informativas junto às comunidades indígenas andinas pelo país, especialmente em São Paulo, que muitas vezes, diante do esquema étnico-racial brasileiro são levadas a se autodeclarar “pardas”. Por outro, essa subnotificação também acontece porque aquelas pessoas que vieram de outros Estados-Nação, vieram também de outros sistemas político-estatais nos quais, normalmente, a autodeclaração indígena não está relacionada ao acesso de políticas públicas de reparação histórica. No contexto brasileiro, estrutural e sistematicamente racista anti-indígena no qual até 2017 ainda vingava o Estatuto do Estrangeiro, lei que criminalizava a mobilização política migrante no país, é estratégica a autoproteção por via, muitas vezes, do silenciamento de suas raízes, sobretudo diante de agentes do Estado. Essa indubitável subnotificação demonstra a desinformação sobre seus direitos enquanto pessoas indígenas no Brasil, mas também sobre a xenofobia racializada que violenta, dificulta e bloqueia tantas vidas indígenas andinas no país.
Tal como nos comenta nossa companheira e colega Rocio Shuña, quechua peruana, psicóloga doutorada pela UnB e integrante da Rede Milbi+:
“O reconhecimento das etnias indígenas andinas no Censo 2022 do IBGE representa um marco histórico de visibilidade e reparação. Pela primeira vez, essas populações deixam de ser classificadas apenas como imigrantes internacionais e passam a ser reconhecidas como povos indígenas com direitos originários. Essa inclusão amplia a compreensão da diversidade étnica, cultural e linguística no Brasil e abre caminho para a reformulação de políticas públicas fundamentais, como as de saúde e educação. Também evidencia a presença urbana dos povos andinos em nosso Abya Yala, para além das fronteiras geopolíticas, especialmente em São Paulo, destacando seu impacto sócio-histórico, cultural e político na construção da cidade e no exercício de ser cidadão no Brasil”
Esses avanços estatísticos demonstram o quanto ainda há por caminhar e lutar para que sejam garantidos os direitos indígenas e migrantes das pessoas indígenas andinas nascidas fora do Brasil e os direitos indígenas de seus filhos e filhas, netos e netas. Se é certo que referentes aymaras e quechuas integraram as mobilizações migrantes históricas que nos levaram a nova Lei de Migração, de 2017, a 1ª e 2ª Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (COMIGRAR) e a tantos avanços nas políticas migratórias a nível municipal, estadual e federal, é também notável a importância das frentes de luta recentes de pessoas indígenas andinas articuladas junto aos movimentos indígenas no Brasil. As gerações se sucedem e afirmam diversos caminhos de luta pela garantia de seus direitos: para que as Universidades e outras entidades públicas não impeçam mais pessoas indígenas andinas a se autodeclarem enquanto tal, para que as crianças indígenas andinas não sejam mais caladas nas escolas por desconhecimento de sua diversidade étnico-linguística, para que as parturientes indígenas andinas sejam respeitadas em suas formas tradicionais de parto e cuidado pré e pós-natal, entre tantas outras demandas urgentes.
Os diversos coletivos e articulações de luta, como a Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas, o coletivo Si Yo Puedo, o Centro Cultural Andino Amazônico, as Cholitas da Babilônia, a Articulação Andina de Indígenas Migrantes – AYNI, entre pessoas mobilizadas de forma autônoma, seguirão esses e outros caminhos. De modo complementar, Rocio Quispe Yujra, Rocio Shuña e Cristina de Branco conversarão sobre esses e outros temas na mesa redonda Os Andes para além dos Andes: migrações e mobilidades indígenas andinas no Brasil, na manhã do dia 12 de novembro, na Universidade Nacional de Brasília (UnB), no âmbito da programação do I Encontro Multidisciplinar de Andinistas (UnB) / IV Seminário Multidisciplinar: Estudos Andinos no Brasil (CEMAA/Usp) a ser realizado nos dias 12, 13 e 14 de novembro na UnB, com a presença de pesquisadores e ativistas andinos e andinistas.
Sobre as autoras
Cristina de Branco é brasileira não indígena, filha e neta de exiladas políticas das ditaduras brasileira e chilena. É antropóloga visual e indigenista, doutoranda pela Universidade Nova de Lisboa (UNL/CRIA) e pesquisadora do Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Desde 2015, integra o Visto Permanente – coletivo audiovisual e de confluência artística migrante, como migrante retornada, e, desde 2021, é integrante-aliada do Centro Cultural Andino Amazônico. Em 2023, co-roteirizou e dirigiu a série documental Ventos do Peabiru, que traz um retrato das comunidades aymaras e quechuas migrantes na cidade de São Paulo, disponível online no serviço público de streaming latino-americano Retina Latina.
Rocío Quispe Yujra é indígena Aymara, migrante da Bolívia, integrante do Centro Cultural Andino Amazônico, servidora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e voluntária do Coletivo “Sí Yo Puedo!”, atuando em projetos voltados à comunidade do entorno do IFSP e da Praça da Kantuta. Desenvolve suas atividades com foco nesse território, articulando ações com instituições públicas próximas à praça para promover o acesso à informação sobre educação, saúde e direito à cidade. Essas iniciativas são especialmente direcionadas à comunidade migrante boliviana, composta em grande parte por indígenas Aymaras e Quechuas, reconhecendo tais direitos como fundamentais para o desenvolvimento social e econômico de sua comunidade em São Paulo.

