Por Karla Burgoa
Neste 6 de agosto de 2025, a Bolívia celebra duzentos anos de independência com desfiles, discursos e lembranças heróicas. Mas, longe de La Paz, outra história acontece em silêncio. É a história dos bolivianos que migraram para São Paulo em busca de uma independência cotidiana. Invisíveis para muitos, mas presentes em cada rua, em cada detalhe da cidade. A data, que deveria ser um marco de orgulho, acaba revelando uma contradição: para quem deixou tudo para trás, não é festa, é resistência mesmo.
Estima-se que 100 mil bolivianos vivem no Brasil, e a maioria está em São Paulo, a maior comunidade fora do país. Na capital paulista, inclusive, formam a maior comunidade migrante. São milhares que movem setores inteiros da economia, sobretudo a indústria têxtil, e mesmo assim enfrentam barreiras que não cabem nas comemorações oficiais: burocracia que limita direitos, discriminação, informalidade. A cidade que gosta de se apresentar como cosmopolita ainda não conseguiu ser justa. Os números impressionam, mas não garantem dignidade.
Enquanto na Bolívia os discursos falam em soberania, aqui a luta é outra: conseguir um documento, pagar o aluguel, viver sem medo. A independência proclamada em 1825 não atravessa a fronteira quando o que espera do outro lado é subemprego e exclusão. É nesse cenário que bairros como Brás, Bom Retiro e Mooca se tornam palco dessa história. A Mooca, que nasceu do encontro entre culturas, deveria ser símbolo de convivência. Mas foi ali que, em pleno 2025, que um muro apareceu pichado com a frase “fora bolivianos”. É um gesto pequeno, mas que carrega um sentido enorme: no coração de um bairro moldado por imigrantes, o preconceito ainda encontra espaço para gritar. A resposta veio no silêncio da tinta: a própria comunidade cobriu a hostilidade com arte e mensagens de orgulho.

Como brasileira e boliviana, vejo nessa cena um paradoxo difícil de ignorar. Enquanto em La Paz, capital federativa, ecoam discursos sobre dignidade e identidade, em São Paulo milhares sustentam suas famílias com jornadas exaustivas. A indústria têxtil, onde está a maioria dos migrantes formalmente registrados, é sustento e prisão ao mesmo tempo. Dias longos, salários baixos, moradias improvisadas. Muitos vieram em busca de liberdade, mas encontraram outra forma de dependência: econômica, social e, muitas vezes, emocional.
O bicentenário é um convite para olhar para trás, mas também para perguntar: o que significa independência sem pertencimento? A festa na Bolívia revisita a história de luta, mas para seus filhos em São Paulo a luta não acabou. Independência só será real quando direitos forem universais, quando existir acesso digno a serviços, quando deixar de ser necessário explicar por que se fala outra língua.
Se esta data ensina algo, é que identidade não é muro, é ponte. Celebrar os 200 anos não pode ser apenas erguer bandeiras; é também enfrentar as contradições que se escondem atrás delas. São Paulo precisa reconhecer que a história boliviana também é sua.
Uma nação não é soberana quando seus filhos no exterior continuam tratados como estranhos. Que este bicentenário inspire uma segunda emancipação: social, econômica e cultural, para todos que fazem da cidade um pedaço vivo da Bolívia.
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