Por Nathalia Ramos
A imigração é frequentemente tratada como um problema por certos grupos políticos e até setores sociais. Mas, para o economista Alejandro Delmo Rodriguez, cubano radicado no Brasil, ela deve ser entendida como um motor de desenvolvimento econômico e social.
Sua própria trajetória reforça essa perspectiva. Ao deixar Cuba em busca de melhores condições profissionais e de vida, enfrentou barreiras que milhares de imigrantes também conhecem: da adaptação cultural à revalidação do diploma.
Essa vivência pessoal, segundo ele, mudou sua forma de analisar o tema. “Antes, eu conhecia o assunto apenas pelas teorias econômicas; depois de viver na pele, ele ganhou um lado humano”, afirma.
Tal olhar pessoal conecta-se a uma realidade global. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 281 milhões de pessoas viviam fora de seus países de origem em 2020, correspondendo a 3,6% da população mundial.
Imigrantes na economia brasileira
No Brasil, embora os números sejam proporcionalmente menores do que em países como Alemanha, Canadá ou Estados Unidos, a presença de migrantes e refugiados tem crescido de forma expressiva na última década. E os efeitos dessa mobilidade já são sentidos na economia local.
De acordo com dados do governo federal, mais de 203 mil migrantes, refugiados e apátridas foram admitidos no mercado de trabalho formal entre janeiro e agosto de 2024. Os homens representaram a maioria, com 28.886 admissões, mas as mulheres também tiveram participação relevante, com 19.562 registros.
Setores como a indústria e o comércio puxaram as contratações, reforçando a ideia defendida por Rodriguez de que a imigração amplia a força de trabalho e estimula o consumo.
Os dados de longo prazo mostram ainda maior impacto. Entre 2010 e 2019, o número de imigrantes com carteira assinada passou de 55,1 mil para 147,7 mil, apresentando um crescimento de 168%.
Além disso, houve aumento de 23,9% no número de estrangeiros com ensino superior atuando no país. Esses números evidenciam um perfil cada vez mais qualificado de imigrantes, capaz de dinamizar setores estratégicos da economia.
Integração para potencializar benefícios
Rodriguez reconhece que existem custos de curto prazo gerados pela imigração, como pressão sobre serviços públicos locais ou ajustes salariais em segmentos específicos. Mas, para ele, as políticas de integração são determinantes para transformar potenciais dificuldades em ganhos sustentáveis. “Esses passos tornam o imigrante produtivo mais rápido e ajudam a evitar tensões sociais”, explica, defendendo medidas de revalidação de diplomas, cursos de idiomas e menos burocracia.
Essa leitura é reforçada por dados internacionais. Em 2022, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) identificou que refugiados e migrantes venezuelanos geraram um impacto econômico positivo de US$ 529,1 milhões na Colômbia, principalmente por meio do consumo e da arrecadação de impostos.
Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao analisar 25 países entre 2006 e 2018, constatou que o saldo fiscal dos imigrantes foi positivo em todos eles, mostrando que a receita tributária superou os gastos públicos destinados a esse grupo.
No Brasil, os setores que mais se beneficiam da presença de imigrantes vão da saúde — com médicos e enfermeiros atuando em regiões de escassez — ao agronegócio, onde migrantes se tornam essenciais nas safras.
A construção civil, a hotelaria, os restaurantes e o varejo também dependem desse contingente, que garante dinamismo e flexibilidade ao mercado.
Outro ponto relevante é o microempreendedorismo: pequenos comércios, serviços étnicos e startups criadas por estrangeiros têm movimentado economias locais e contribuído para a inovação.
Necessidade de políticas públicas
Ainda assim, desafios permanecem. Uma pesquisa da ONG Visão Mundial, realizada em Boa Vista, Manaus e São Paulo, revelou que cerca de 67,4% dos imigrantes permanecem fora do mercado formal de trabalho. Entre as mulheres, a taxa de inserção é ainda mais baixa, com apenas 42% delas empregadas, número que cai ainda mais quando se trata de mães.
Para Rodriguez, isso confirma que não basta abrir fronteiras: é preciso desenhar políticas de acolhimento e integração capazes de transformar vulnerabilidade em produtividade.
No caso dos refugiados, os obstáculos são ainda maiores. Em 2024, o Brasil contava com 156.612 pessoas reconhecidas como refugiadas, um crescimento de 9,5% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, mais de 68 mil solicitações de asilo aguardam parecer final do governo federal.
Eles costumam chegar em condições mais vulneráveis, sem planejamento ou documentação, exigindo maior suporte inicial em áreas como moradia, saúde e qualificação. Ainda assim, como destaca Rodriguez, “o fator decisivo não é o perfil de chegada, mas sim a qualidade das políticas públicas”. Ele reforça que com inclusão, refugiados atingem níveis semelhantes de contribuição aos demais migrantes.
Derrubando mitos e preconceitos
Apesar de evidências positivas, mitos ainda persistem no debate público. Entre eles, a ideia de que imigrantes “roubam empregos” ou “provocam queda nos salários”. Rodriguez contrapõe, apontando que estudos mostram que, em geral, os efeitos sobre os salários são pequenos e restritos a perfis muito semelhantes, enquanto a demanda criada pelos imigrantes ajuda a movimentar a economia.
Também é recorrente associar imigração à criminalidade, uma tese que não se sustenta quando os dados são analisados de forma controlada. Estudos realizados na Alemanha pelo Instituto Ifo – um dos mais renomados do país – concluíram que imigrantes ou refugiados não têm uma tendência maior a cometer crimes. Além disso, também descartaram correlação entre a proporção de imigrantes em um determinado distrito e a taxa de criminalidade local.
Para o economista, a chave é simples: ter uma ação pública inteligente. “Com medidas de integração, os benefícios superam amplamente os custos”, afirma.
Essa visão ganha força em um momento em que o Brasil, assim como diversos países, busca soluções para gargalos no mercado de trabalho, desafios demográficos e desigualdades regionais.
“Imigração não é apenas deslocamento de pessoas, é circulação de conhecimento, cultura e oportunidades. Quando entendemos isso, percebemos que não é uma ameaça, mas sim uma chance de crescimento mútuo”, completa Rodríguez.
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