Por Gustavo Cavalcante
A primeira vez que Eduardo Baldelomar chegou à Chiquitânia, no leste da Bolívia, procurava referências para um ambiente na CASACOR. Voltou com algo que não estava nos planos. Entre igrejas centenárias, oficinas de artesãos e comunidades que preservam tradições há gerações, encontrou uma parte do próprio país que conhecia menos do que imaginava.
A descoberta provocou um deslocamento que não era geográfico. Enquanto construía uma pesquisa sobre a cultura chiquitana, o arquiteto boliviano passou a rever sua própria relação com a identidade, a memória e a diversidade cultural da Bolívia. O resultado desse percurso está hoje materializado nas mais de 200 peças que compõem o Co-Living Chiquitano, ambiente apresentado na edição deste ano da CASACOR São Paulo, principal mostra de arquitetura, design e paisagismo das Américas.
No entanto, a história começou muito antes da mostra, em Santa Cruz de la Sierra, cidade onde nasceu e onde a arquitetura entrou em sua vida ainda na adolescência.
Da infância ao desenho de espaços
Baldelomar cresceu em uma família numerosa. Os primos moravam próximos, as brincadeiras aconteciam na rua e a convivência diária ajudou a construir uma rede de afetos que ele ainda recorda com nitidez. Entre as lembranças mais presentes está a companhia constante do irmão gêmeo, com quem dividiu praticamente todos os momentos da infância.
A arquitetura surgiu cedo. Aos 13 anos, durante uma atividade escolar, os alunos precisavam construir uma pequena maquete de casa. Depois de concluir a própria, começou a ajudar os colegas. Em pouco tempo, passou a produzir maquetes para quase toda a turma.
“Entrou na minha mente virar arquiteto”, recorda Eduardo.
A convicção se fortaleceu nos anos seguintes. Vieram cursos de modelagem, softwares de desenho arquitetônico e a graduação na Universidade Autónoma Gabriel René Moreno, em Santa Cruz de la Sierra. Mais tarde, especializações na Espanha e na Argentina ampliariam sua formação, mas a escolha profissional já estava definida muito antes dos diplomas.
Enquanto construía a carreira, alimentava outro objetivo. Em 2003, ainda universitário, começou a acompanhar a CASACOR por revistas que chegavam à Bolívia. Comprava os exemplares para observar tendências e projetos. Quando soube que a mostra desembarcaria em seu país, decidiu escrever para a organização. O gesto abriu caminho para uma relação duradoura. Ao longo dos anos, participou de doze edições da CASACOR Bolívia.
O Brasil também entrou cedo em seus planos. A primeira visita aconteceu em 2000. Em 2012, conheceu São Paulo e ficou impressionado com a dimensão cultural da cidade.
“Falei para mim mesmo: um dia vou morar aqui.”
A oportunidade surgiu mais de uma década depois. Convidado para participar da CASACOR São Paulo em 2023 e novamente em 2024, decidiu abrir um escritório na capital paulista. Desde então, divide a rotina profissional entre São Paulo e Santa Cruz de la Sierra.
A mudança exigiu adaptação. Compreender o mercado brasileiro, formar equipes e entender a dinâmica dos projetos demandou aprendizado constante. Mas foi justamente a experiência de viver fora da Bolívia que despertou uma inquietação inesperada.
Nas conversas com brasileiros, percebia que a imagem mais difundida sobre seu país se limitava ao altiplano andino, às montanhas, ao Salar de Uyuni ou ao Lago Titicaca.
“Isso representa apenas uma parte da Bolívia”, afirma.
A observação o levou a uma constatação mais profunda. Se muitos brasileiros conheciam apenas uma parcela da diversidade boliviana, ele também carregava lacunas sobre algumas regiões de seu país. Foi dessa inquietação que nasceu a pesquisa sobre a Chiquitânia.
Uma Bolívia pouco conhecida
Localizada na região de Santa Cruz, a Chiquitânia ocupa uma extensa área de transição entre a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal. A paisagem, marcada por florestas secas e planícies, contrasta com a imagem andina frequentemente associada à Bolívia.
Mas a singularidade da região vai além da geografia.
A partir do século XVII, missões jesuíticas foram estabelecidas em territórios habitados por povos indígenas chiquitanos. Ao longo do tempo, formou-se um processo singular de intercâmbio cultural. Em vez de apagar completamente os saberes locais, o encontro entre diferentes tradições produziu uma identidade própria, perceptível até hoje na arquitetura, na música, nas artes e nos costumes da região.
“Existia uma tradição milenar antes da chegada dos jesuítas e ela continuou viva depois deles”, explica Baldelomar.
Esse encontro histórico deu origem ao chamado barroco mestiço da selva, expressão utilizada para definir a fusão entre referências europeias e conhecimentos indígenas. As igrejas construídas nesse período permanecem como alguns dos principais símbolos desse legado.
Reconhecidas como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1990, as Missões Jesuíticas da Chiquitânia preservam pinturas, esculturas, técnicas construtivas e elementos decorativos que revelam a colaboração entre missionários e povos originários.
Foi diante desse patrimônio que Baldelomar percebeu a dimensão da história que queria contar.
Ao longo de quatro viagens realizadas para a região, percorreu comunidades, visitou oficinas, conversou com lideranças indígenas e acompanhou de perto o trabalho de artesãos que mantêm tradições transmitidas entre gerações.
Uma das descobertas mais marcantes foi perceber que muitos desses produtores culturais enfrentam dificuldades para sobreviver exclusivamente de seu ofício.
“Os artesãos quase não vivem do próprio trabalho porque existe pouco turismo. Muitos precisam desenvolver outras atividades para complementar a renda”, conta.
A pesquisa deixou de ser apenas arquitetônica. Tornou-se também uma reflexão sobre preservação cultural, reconhecimento e visibilidade.

(Foto: Carolina Mossin)
Quando a pesquisa virou travessia
Entre os aspectos que mais chamaram a atenção do arquiteto estava a capacidade de resistência das comunidades chiquitanas.
A música talvez seja o exemplo mais emblemático. A região abriga um dos mais importantes acervos de música barroca das Américas. Muitas composições preservadas desde o período missioneiro continuam sendo executadas por orquestras formadas por moradores locais.
Mas a herança cultural da Chiquitânia não se limita à música. Esculturas em madeira, máscaras, cerâmicas, tecidos e pinturas continuam sendo produzidos por artesãos que mantêm técnicas ancestrais.
Segundo Baldelomar, a continuidade dessas tradições acontece principalmente graças ao compromisso das próprias comunidades.
“São eles que fazem questão de continuar com os costumes e tradições, mesmo com pouca verba e poucos incentivos.”
Foi essa resistência silenciosa que passou a orientar o projeto que levaria à CASACOR.
A pesquisa já não era apenas uma busca por referências estéticas. Tornou-se uma tentativa de compreender como uma cultura consegue atravessar séculos sem perder sua essência.
O ambiente que conta uma história
Depois de meses de pesquisa, Eduardo Baldelomar se viu diante de uma pergunta: como transformar uma herança cultural construída ao longo de séculos em um ambiente de apenas 32 metros quadrados?
A resposta veio na forma do Co-Living Chiquitano.
Mais do que um projeto de interiores, o espaço foi concebido como uma experiência de imersão cultural. A proposta dialoga diretamente com o tema da CASACOR São Paulo 2026, “Mente e Coração”.
“O tema da CASACOR me fez pensar nas minhas próprias origens. A cada viagem para a Chiquitânia crescia a vontade de contar essa história”, afirma.
Em vez de reproduzir edifícios históricos, Baldelomar optou por reinterpretar elementos da arquitetura missioneira em linguagem contemporânea. O ambiente incorpora referências aos arcos segmentados das igrejas, aos forros curvos em madeira, às colunas inspiradas no barroco mestiço e aos grafismos presentes nos templos da região.
Os tons terrosos e a madeira predominam na composição.
“A ideia não era reproduzir uma igreja, mas traduzir essa arquitetura para uma linguagem atual.”
Esculturas, cerâmicas, máscaras, tecidos, instrumentos musicais, fotografias e pinturas coletadas ajudam a construir uma narrativa sobre a diversidade cultural da Chiquitânia.
“Comecei em janeiro e fui trazendo tudo o que podia na mala. Foram mais de oito viagens para conseguir transportar as peças”, lembra.
Entre as obras mais simbólicas para o arquiteto estão “O Corpo como Templo”, de Leoni Antequera, e o “Busto de um Menino Chiquitano”, de Sarita Callpa.
A primeira sintetiza o encontro entre tradições indígenas e influências barrocas europeias. A segunda representa a transmissão de saberes entre gerações.
Juntas, resumem aquilo que Baldelomar deseja comunicar: a cultura não pertence ao passado. Ela continua sendo construída diariamente.
Arquitetura para preservar memórias
Ao longo da pesquisa, Baldelomar passou a enxergar a arquitetura como algo que vai além da criação de espaços, sendo capaz também de preservar histórias, registrar modos de vida e ampliar o alcance de patrimônios culturais frequentemente ausentes dos grandes circuitos de visibilidade.
“Temos muito por aprender sobre nosso próprio legado. Precisamos estudar, investigar, viajar e comunicar nossa cultura, reinterpretando-a de forma contemporânea, mas sempre com respeito à sua essência.”
Essa visão aparece em toda a concepção do Co-Living Chiquitano.
Os móveis desenhados para o ambiente foram produzidos por artesãos de São Miguel de Velasco. Tecidos confeccionados na Bolívia foram incorporados a peças desenvolvidas no Brasil. O resultado é um diálogo material entre diferentes territórios e tradições.
Ao trazer essas produções para a principal mostra de arquitetura e design do país, Baldelomar espera ampliar a visibilidade de artistas e artesãos que frequentemente permanecem fora dos grandes circuitos culturais.
“Se depois de visitar o ambiente alguém decidir pesquisar mais sobre a Chiquitânia ou sobre a cultura boliviana, já vou sentir que cumpri meu objetivo.”
No fim, seu ambiente fala sobre a Chiquitânia. Mas fala também sobre algo maior: a capacidade que a migração tem de devolver às pessoas perguntas que pareciam respondidas. Às vezes é preciso atravessar uma fronteira para enxergar, com mais nitidez, aquilo que sempre esteve em casa.
Serviço
CASACOR São Paulo 2026
Local: Parque da Água Branca – São Paulo (SP)
Período: 2 de junho a 9 de agosto.
Dias e horários: terça a domingo (inclusive feriados), das 11h às 21h
Ingressos: venda online e presencial
Mais informações: site oficial da CASACOR São Paulo.
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