O que se espera de Órfãos da Terra, novela da Globo que falará de refugiados?

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Novela Órfãos da Terra (Globo), que vai abordar a questão do refúgio. Crédito: Divulgação/TV Globo

MigraMundo procurou estudiosos e migrantes que estão ou não em situação de refúgio para saber das expectativas de cada um para o folhetim

Por Rodrigo Veronezi
Colaboração de Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

A temática migratória – mais especificamente a do refúgio – terá um espaço praticamente fixo na TV brasileira nos próximos meses. Nesta terça-feira (2), estreia “Órfãos da Terra”, nova novela das 18h da TV Globo, que terá o conflito na Síria e a questão dos refugiados como pano de fundo.

O assunto ganha importância em nível nacional devido à migração venezuelana, e também se dá em um momento no qual os deslocamentos internacionais em geral são alvo de políticas e ações de rechaço e até de criminalização. O próprio Brasil recentemente entrou para esse clube ao se retirar do Pacto Global para a Migração, em janeiro deste ano.

O folhetim, escrito pelas autoras Duca Rachid e Telma Guedes, conta a história de amor entre a refugiada síria Laila e o libanês Jamil (vividos por Julia Dalavia e Renato Góes, respectivamente) que se conheceram em um campo de refugiados e se reencontram no Brasil. Além dos mocinhos e vilões de toda a novela que puxam a trama principal, outros núcleos abordarão facetas da temática migratória, como a convivência entre diferentes culturas e a revalidação de diplomas – queixa recorrente de migrantes e refugiados no Brasil.

“Órfãos da Terra” é ambientada em São Paulo, cidade que tem uma população de migrantes – incluindo refugiados e solicitantes de refúgio – estimada em pelo menos 387 mil pessoas. Para as primeiras cenas, foi montada uma réplica de um campo de refugiados na zona oeste do Rio de Janeiro, com apoio do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), com barracas que foram usadas em abrigos para refugiados venezuelanos em Boa Vista, Roraima.

Pelas estimativas da ONU, há mais de 258 milhões de imigrantes no mundo, e esse número deve continuar crescendo nos próximos anos. Em relação ao refúgio, dados do ACNUR estimam que existem pelo menos 25,4 milhões de pessoas que buscaram proteção em um país diferente do que nasceram. Os sírios lideram esse ranking global – em torno de 5,6 milhões.

No contexto nacional, o Brasil tem cerca de 750 mil imigrantes – que representam 0,4% da população nacional. E já reconheceu cerca de 10 mil pessoas como refugiados. Em torno de 5 mil ainda vivem sob tal status no país e 94,8 mil ainda aguardam julgamento de seus pedidos de refúgio – em sua maioria, venezuelanos.

Tendas usadas pelo ACNUR em abrigos para venezuelanos em Boa Vista (RR), que foram cedidas para o campo de refugiados fictício da novela Órfãos da Terra (Globo).
Crédito: Victor Moriyama/ACNUR

Expectativas de refugiados e migrantes

Para elaboração do roteiro de “Órfãos da Terra” foram feitas oficinas e pesquisas junto a diversas instituições de apoio e acolhida a migrantes e refugiados, como o próprio ACNUR e a Missão Paz, em São Paulo. Refugiados também atuaram como consultores da novela. Um deles é o sírio Abdulbaset Jarour, 29, que integra a ONG África do Coração – responsável, entre outras ações, pela organização da Copa dos Refugiados.

Abdul foi convidado para atuar como consultor da novela depois que participou de uma conversa com o diretor artístico, Gustavo Fernandes, e as autoras Rachid e Guedes, intermediada pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Pouco depois, participou também de um workshop com o elenco no Rio de Janeiro, ao lado de outros refugiados e do padre Paolo Parise, da Missão Paz – outra entidade que serviu de base e inspiração para as pesquisas e histórias a serem contadas ao longo da trama.

“Acredito que essa novela vai mudar mais o olhar das pessoas, deixá-lo mais solidário, tolerante e gerar empatia. Espero que isso realmente aconteça, porque refugiado e migrante sofre muito com preconceito aqui no Brasil”, afirma Abdul, em um misto de alegria por contribuir com a história e de tristeza pelas situações de preconceito vividas por migrantes no Brasil.

“Estou feliz porque essa novela vai ajudar muito a mudar o olhar das pessoas para nossa causa. Sofri aqui no Brasil de uma parte da população que tem um olhar preconceituoso e xenofóbico. Esse olhar deixa a gente desanimado, irritado. Atravessamos o mundo e aí encontramos pessoas que não aceitam nossa chegada, que nos veem como diferentes. Esse olhar quebra um pouco da nossa dignidade”, completa Abdul.

O sírio Abdulbaset Jarour, que colaborou com a novela e espera que ela possa ajudar a trazer um novo olhar para a questão do refúgio.
Crédito: arquivo pessoal

Essa expectativa positiva é compartilhada pelo compatriota Ali Jeratli, que trabalha na Coordenação Pedagógica do curso de árabe do Abraço Cultural em São Paulo, ONG na qual refugiados atuam como professores em cursos de idiomas e ensinam inglês, espanhol, francês e árabe a partir de suas próprias experiências culturais.

“Eu acredito que é importante destacar o sofrimento que os refugiados passam em sua viagem até o destino final. Além disso, acho muito legal mostrar um pouco da vida dessas pessoas, dos refugiados, que muita gente não conhece e nem havia previamente se interessado”.

Refugiados e migrantes de outros países procurados pelo MigraMundo também demonstraram curiosidade sobre a trama e esperam algo que seja informativo e não reforce estereótipos e vitimização dessas comunidades.

“Gostaria que essa novela representasse a força e a valentia do imigrante e do refugiado, que consegue superar obstáculos que se representasse na vida. Não gostaria de ver uma novela na qual o refugiado seja visto como vítima”, opina a venezuelana Yilmary de Perdomo, 35, terapeuta ocupacional de formação e que no Brasil atua com gastronomia.

“Acho muito da hora uma novela como essa porque vou poder saber mais sobre refugiados. E também para que todo mundo saiba o que é um refugiado”, conta o estudante boliviano Christian Jhoel Aliaga, 19, que pretende acompanhar a novela.

A novela “Órfãos da Terra” deve contar com pelo menos dois refugiados em seu elenco: o sírio Kaysar Dadour, vice-campeão do Big Brother Brasil 2018, e o congolês Blaise Musipere.

Preocupação com estereótipos

Para Roberta Brandalise, professora de teoria da comunicação e coordenadora de ensino de cultura na Faculdade Cásper Líbero, a visibilidade trazida por uma novela pode, de fato, ser positiva para a temática do refúgio no Brasil.

“A visibilidade midiática e o agendamento do tema no cotidiano brasileiro pode ser uma vantagem se contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas, e demais ações que viabilizem a diminuição das condições desigualitárias em que se encontram os imigrantes e os refugiados. É importante que as vozes dos imigrantes e refugiados sejam ouvidas. Melhor ainda, se tivermos a participação deles na produção”.

No entanto, a pesquisadora pondera que eventuais apropriações e usos a serem feitos da trama também podem distorcer a temática.

“Uma telenovela com a proposta de “Órfãos da Terra” pode tanto sensibilizar e esclarecer a opinião pública sobre o tema quanto aprofundar estereótipos e preconceitos sobre imigrantes e refugiados. Afinal, as disputas de sentido sobre a problemática do imigrante e do refugiado se dá dentro e fora de qualquer narrativa”.

A advogada e mestranda em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais na PUC-SP, Carla Mustafa, que também pesquisa sobre migrações e refúgio, endossa a importância de se evitar uma visão estigmatizante, vitimizadora e homogênea dos refugiados.

“Ter a notícia de uma novela que trata de refúgio gera uma expectativa. Se por um lado se faz cada vez mais necessária uma perspectiva humanitária pautada na dignidade humana, por outro lado, é notório que há um crescimento da xenofobia, do racismo e da intolerância religiosa, criando obstáculos para a acolhida e a integração de pessoas em situação de refúgio”, aponta Mustafa, citando como exemplo o ataque contra muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, cujo autor é um terrorista supremacista branco.

“O receio está em como isso tudo vai ser representado e qual será a recepção desta abordagem. É importante compreender o que é refúgio e respeitar a identidade e dignidade de qualquer pessoa. Por isso, é fundamental fomentar dinâmicas que valorizem a autonomia, a diversidade, a interculturalidade, a multiculturalidade e a integração”, completa Mustafa.

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