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quarta-feira, julho 1, 2026
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Pesquisa mostra impacto do coronavírus sobre a migração venezuelana

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Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

O Observatorio Venezolano de Migración (OVM), da Universidad Católica Andres Bello (UCAB), divulgou na última semana um informe sobre a situação dos migrantes venezuelanos no exterior diante da atual pandemia do novo coronavírus (Covid-19). E os resultados, mesmo com as limitações impostas pelo atual cenário, são suficientes para mostrar que o impacto tem sido grande.

A pesquisa se baseia em retornos obtidos por e-mail de 390 pessoas entre 15 de abril e 15 de maio e pode ser acessada na íntegra por este link. As respostas englobaram especialmente venezuelanos atualmente vivendo na Colômbia, Chile, Peru e Equador — há registros residuais de respostas de venezuelanos na Argentina, Brasil, Panamá e Espanha.

De acordo com dados divulgados em maio por agências da ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 5 milhões de venezuelanos deixaram o país. Destes, 80% estão em nações da América Latina e Caribe.

Desemprego e perda de renda

Segundo as respostas ao levantamento, 42% dos venezuelanos declararam estar sem emprego, enquanto outros 22% ainda possuem emprego, mas estão em casa em razão da pandemia. Somente 3% declararam conseguir trabalhar de casa.

Entre os que ainda conseguem trabalhar, 9 em cada 10 venezuelanos relatou ter perdido renda em razão da pandemia. Dado esse que tem influência direta nas remessas de dinheiro do exterior em direção à Venezuela, que registrou uma queda de 20%. Muitos imigrantes e refugiados venezuelanos ainda contam com parentes vivendo no país natal.

Ainda de acordo com o levantamento, dois em cada três venezuelanos precisam de algum tipo de ajuda para garantir alimentação. E um em cada quatro não têm dinheiro algum para compras e dependem unicamente de doações.

Impacto de saúde

O OVM também questionou os venezuelanos emigrados sobre a situação de saúde em meio ao novo coronavírus. De acordo com as respostas, 61% relatou não ter apresentado qualquer sintoma ligado à doença, enquanto 19% deram resposta positiva e 20% não responderam. No entanto, apenas 15% declarou ter procurado algum serviço de saúde.

Apesar das restrições impostas para conter o coronavírus e seus efeitos, 61% dos venezuelanos que responderam à pesquisa se manifestaram favoráveis às medidas tomadas pelos governos.

Por outro lado, 52% creem que as medidas não levaram em conta as pessoas migrantes, independente da nacionalidade.

Voltar é opção?

A pesquisa também questionou se os venezuelanos no exterior consideravam um retorno ao país em razão da pandemia, onde ainda pelo menos poderiam ter um teto — 15% dos entrevistados declararam, por exemplo, estar em situação de rua. No entanto, os dados mostram um sentimento de divisão sobre essa opção.

De acordo com as respostas, 34% dos migrantes declararam não ter considerado a opção de retornar à Venezuela, enquanto 31% cogitam essa hipótese. Outros 16% não souberam responder e 20% simplesmente não responderam.

Por outro lado, 50% dos entrevistados creem ainda que em solo venezuelano teriam ainda menos garantias de proteção social do que dispõem nos países onde se encontram.

Pesquisa em curso no Brasil

No contexto brasileiro, uma pesquisa já em curso visa medir os impactos da atual pandemia sobre a população migrante em geral.

Desenvolvida e aplicada por um conjunto de instituições, a pesquisa “O Impacto da Covid-19 na Migração no Brasil” consiste em um questionário em seis idiomas — português, espanhol, inglês, francês, árabe e creole haitiano — que pode ser acessado e respondido por meio do link a seguir: http://pesquisacovidmigra.com.br/

O projeto é tocado pelas seguintes instituições: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão Direitos Sociais e Migração (GIPE)/ PUC Minas; Grupo Distribuição Espacial da População (GEDEP)/PUC Minas; Observatório das Migrações em São Paulo/Núcleo de Estudos de População Elza Berquó/Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Como a mobilidade global pode se desenvolver em tempos de distanciamento social

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Como a mobilidade global pode se desenvolver em tempos de distanciamento social
(Foto: Free-Photos from Pixabay)

Por Danyel Andre Margarido
Publicado originalmente no LinkedIn

Quando recebemos a comunicação de que uma pandemia foi declarada pelas autoridades, todas as notícias internacionais sobre infectados e mortos nos alcançaram. É algo tão grande e, ao mesmo tempo, invisível, e nossa forma de combater essa ameaça é permanecer em nossas casas, protegidos e protegendo quem amamos e quem não conhecemos.

Mas, fica a pergunta: Como essa situação pode contribuir para seu crescimento? Como a área de Mobilidade Global fica com tudo isso? Ou melhor ainda, existe algo que possa ser tomado como positivo em meio a tudo isso?

Para responder questões sobre o futuro, nada melhor do que olhar para o passado: Como, por exemplo, a Europa no Século XVII. A Peste Bubônica. Ela ficou conhecida, na Inglaterra, como a “Grande Praga de Londres”, e matou quase cem mil pessoas, “um quarto da população da cidade na época”. Uma das formas de conter a peste foi a quarentena.

Um jovem Isaac Newton, morador da cidade inglesa de Cambridge, usou o tempo em casa para explorar melhor os problemas matemáticos que ele já havia começado a estudar, resultando nas bases do cálculo diferencial e integral, e, ainda, ele montou suas primeiras teorias sobre ótica, durante esse período.

Podemos não ser como o Sir Newton, é verdade. Mas podemos ter uma abordagem diferente sobre o momento atual, além disso não há uma regra específica sobre como os dias de quarentena têm de ser levados.

Sendo assim, por que não usar esse tempo que tem em suas mãos e fazer algo que te possibilite resultados melhores. Para ajudar nessa tarefa, me inspiro no Modelo SCARF, de David Rock, que fala sobre cinco campos que influenciam o nossos relacionamentos e nosso comportamento em relações sociais.

Status

Olhar para si mesmo, e tudo o que você toca. Quais ações tem tomado, e quais são os processos que estão paralisados. É o momento de pedir um aumento? Seus resultados estão bons? A forma de medir seus resultados, as suas métricas, estão calibradas? Quais são os passos que precisam ser tomados em curto, médio e longo prazos? Como seus clientes internos, externos e parceiros de negócio vêm o seu trabalho? O que você pode mudar no seu jeito de fazer o seu trabalho? Seus colegas sentem sua falta, ou sentem falta do seu trabalho sendo feito?

Uma das principais vias de Estrasburgo França), deserta em meio à quarentena imposta contra o Covid-19
“Olhar para si mesmo, e tudo o que você toca. Quais ações tem tomado, e quais são os processos que estão paralisados.” (Foto: MigraMundo)

Olhando para o que você tem feito, é possível tomar decisões melhores para o futuro. Conhecer melhor a si mesmo, e o seu jeito de se relacionar com outros, do seu ponto de vista, pode ajudar a identificar seus pontos fortes e os pontos que podem ser melhorados. Quando somos confrontados, seja por um parceiro seja pelo expatriado, podemos ir para uma posição defensiva, ao invés de resolver o impasse.

Conhece-te a ti mesmo é um conselho sábio que pode ajudar em suas relações com seus expatriados, parceiros, colegas…

Certeza

E por falar em futuro, ele só pode ser desenhado através das escolhas que você tem feito hoje.

Por mais “coach-de-instagram” que a frase possa parecer, decisões de curto prazo, com alto retorno, são as melhores maneiras de encaminhar o que busca no futuro. É como uma dieta, pequenas decisões diárias, que, mostram progresso, e te fazem ficar cada vez mais perto do seu objetivo.

Pequenas alterações em processos, testes de melhoria, quais erros podem ser esperados e rapidamente corrigidos. É importante mapear, e ter certezas. Afinal, as incertezas te levam ao stress, e pessoas estressadas estressam outras pessoas. Um ciclo que não faz bem a nenhum dos envolvidos.

É como se você desenhasse um mapa, de modo que todos os stakeholders possam enxergar suas decisões de maneira clara e transparente, ajudando na diminuição de atritos e stress. Com um bom mapa, e a atitude certa, você passa por qualquer caminho difícil.

Autonomia

Saber quem você é, como estão as coisas que você toca e quais são as pequenas decisões que podem ser tomadas agora, para melhorar sua vida a longo prazo, é importante saber e ter o controle das situações.

É claro, que, tirando a Culinária e a Química, nada na vida segue uma receita, onde todos os resultados são (virtualmente) iguais. Entretanto, como diz a Filosofia, Autonomia é um conceito que determina a liberdade de indivíduo em gerir livremente a sua vida, efetuando racionalmente as suas próprias escolhas.

Um paralelo interessante é a bateria de um celular, que pode ter maior ou menor autonomia, ou seja, a necessidade de recarregar, com base em sua utilização.

O quanto de autonomia você possui em sua posição? E como essa autonomia está sendo utilizada? Como está sendo verificada a autonomia de seus parceiros de negócio e provedores? Quais são os papéis e responsabilidades de todos os envolvidos em uma movimentação global?

Quando há a implementação do home office, por exemplo, há muitas pessoas se sentem perdidas com uma ilusão de liberdade, se esquecendo que, mesmo dentro da autonomia há responsabilidades e resultados – o celular continua funcionando, dando o seu melhor, mesmo sem estar conectado ao carregador de celular.

Relacionamento

A pandemia escancarou a necessidade que temos de relacionamentos saudáveis, em todas as áreas de nossas vidas. No trabalho não é diferente, nosso relacionamento com nossos clientes, com nossos parceiros, com nossos colegas de departamento tem de ser bom.

Relacionamento é networking, e networking é troca de conhecimento. Participem de grupos de networking, sigam influencers na área, estudem e compartilhem, fomentem o relacionamento com todos os que amam Global Mobility!

Ainda, com os clientes, ou melhor, com os expatriados, nosso relacionamento deve ser o melhor possível, principalmente agora. Nós, profissionais da área, estamos em nosso próprio sistema de suporte (nossas famílias, nossos amigos e nossa comunidade), ao contrário de nossos clientes, que podem estar presos em outros países ou tiveram que deixar tudo para trás e pegar o home-leave para poder se refugiar em seus home countries.

A Experiência do expatriado é marcada, também, pelos relacionamentos criados em filiais internacionais da empresa, e cuidar disso é responsabilidade nossa. E a base de todo relacionamento é a confiança. Trabalhe para que confiem em você e no que você faz.

Imparcialidade

Fazer todo esse exercício, buscando a fotografia real do seu trabalho, dos seus relacionamentos e seus clientes, é importante chegar em um denominador comum: o Ganha-Ganha.

Ambos os lados da negociação, seja ela qual for, tem que sair ganhando.

Sim, eu sei, Mobilidade Global, por si só, não é um ganha-ganha – na expatriação pode-se sair perdendo em algum aspecto. Entretanto, o foco de todos os processos, ações, decisões deve ter como alvo ambos os lados ganhando.

Se não quisermos que o outro alcance o melhor, não vamos longe em nossas carreiras. Nossos processos precisam buscar que ambos os lados, empresa e expatriado (e co-expatriados também) estejam satisfeitos e confortáveis.

Caso qualquer um dos lados esteja perdendo, onde haja certa parcialidade, que resulte em um dos lados somente ganhar algo, o outro lado se sente prejudicado, e na defensiva. Fazendo com que a confiança se quebre, e a parceria seja diminuida, ou até desfeita.

O Modelo SCARF tem seu foco nas relações humanas. Aplicá-lo à Mobilidade Global nos ajuda a olhar para nós mesmos, e olhar para nosso principal cliente: o Expatriado (e Co-Expatriados); e como fazer com que nossa parceria seja melhorada.

Há muito o que ser feito em Global Mobility, por mais que os pilares da área (Imigração, Relocation e Taxes) estejam em um momento de adaptação ao novo cenário, e, um ponto positivo da pandemia é poder olhar para dentro, e, melhorar o que for possível.

Aproveite esse momento para olhar para si mesmo, para o seu trabalho, para a contribuição que traz, não só para a sua empresa, mas, também para as pessoas à sua volta. Conte com pessoas em que confia, invista em seus relacionamentos e em você mesmo. Sempre faça seu melhor – quem saiba você não cria algo novo, como o Sir Newton?

Sobre o autor

Danyel Andre Margarido possui mais de dez anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na EMDOC, e fundador da Altiore Experience; já realizou a movimentação de mais de 2000 famílias pelo mundo. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito, MBA em Recursos Humanos, pela Anhembi Morumbi, e um mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais, pela Rome Business School.


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Workshop em abrigo capacita refugiados e imigrantes na busca por emprego

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Workshop ministrado a imigrantes e refugiados em abrigo em São Paulo. (Foto: Alethea Rodrigues/MigraMundo)

Além de terem que se adaptar à cultura do Brasil, refugiados e imigrantes enfrentam dificuldades para conseguir emprego quando chegam aqui. Por esse motivo, o projeto Pana Brasil, financiado pela OIM (Organização Internacional para Migrações) e idealizado pela Cáritas Brasileira, ofereceu um Workshop de Empregabilidade aos moradores do abrigo que administram, no Jardim Guairacá, zona leste de São Paulo.

O curso de pouco mais de três horas que aconteceu na último dia 18 de maio e foi ministrado pelo voluntário Renato Oliveira, instrutor corporativo de ONGs.

A busca por uma oportunidade de trabalho é uma realidade evidente na vida cotidiana dessas pessoas em São Paulo. E em tempos de quarentena, causada pela pandemia do Novo Coronavírus, a situação ficou ainda mais preocupante. O Workshop foi elaborado para tentar amenizar essas dificuldades, inclusive a questão do idioma, que é a principal barreira para quem vem de fora, além dos processos burocráticos em excesso e muitas vezes preconceitos.

“Eu e meu esposo viemos para o Brasil há dois anos e até hoje sentimos dificuldades para encontrar um emprego estável. Já fizemos de tudo, mas nada que ganhamos é o suficiente para o nosso sustento. Esse curso é muito importante porque nos dá a oportunidade de aprendermos como funciona um processo seletivo no Brasil, que realmente é muito diferente da Venezuela. Ajuda bastante também para saber como devo me vestir e o que devo falar no dia da entrevista”, conta Carolina García, mãe de dois filhos (de 2 anos e de 8 meses) e atualmente desempregada.

A venezuelana que vive no abrigo há um mês, procura emprego juntamente com o esposo para conseguir alugar uma casa e recomeçar a vida da família, após deixar Manaus, onde já não via mais esperança de construir um futuro digno.

(Foto: Alethea Rodrigues/MigraMundo)

O Workshop contou com temas importantes como: técnicas para elaborar um currículo de forma assertiva; como se candidata para anúncios de emprego; marketing pessoal nas redes sociais; apresentação pessoal – o que vestir e que postura assumir; como potencializar suas habilidades e competências na entrevista de emprego e dinâmicas de grupo e prática com simulações de entrevistas de emprego.

“Estamos vivendo uma pandemia em que todos estão sendo afetados, mas essas pessoas têm uma realidade ainda mais dura. Não poderia deixar de compartilhar minhas experiências. No fundo estamos ajudando a nós mesmos, saímos melhores depois de vivências como essa”, contou Renato, que há cinco anos atua como voluntário em diversas organizações que abrigam pessoas em situação de vulnerabilidade.

Atividade ocorreu no abrigo temporário do Jardim Guairacá, zona leste de São Paulo.
(Foto: Alethea Rodrigues/MigraMundo)

Desde 1997, a lei brasileira de refúgio garante aos refugiados e solicitantes a emissão da Carteira de Trabalho, garantindo o direito dos mesmos a trabalharem como brasileiros nativos, assim como os imigrantes em situação regular, que também podem ser empregados sem qualquer problema para os empregadores, que muitas vezes ainda enxergam a oportunidade de dar uma chance a um estrangeiro como uma barreira.

A falta de informação sobre como contratar refugiados e o medo de auditorias do Ministério da Economia no caso de contratações irregulares também são entraves para a inserção de refugiados no mercado de trabalho.

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Parceria entre embaixada e ONG distribui 1.500 cestas básicas para imigrantes em três Estados

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Entrega de doações de cestas no Rio Grande do Sul e no Paraná pela ONG África do Coração em parceria com a Embaixada de Bangladesh. (Foto: Divulgação/África do Coração)

A ONG África do Coração, formada basicamente por imigrantes e refugiados, uniu forças com a Embaixada de Bangladesh no Brasil e distribuiu um total de 1.500 cestas básicas para famílias de imigrantes que vivem dificuldades em razão da pandemia de coronavírus.

A ação, que teve como foco imigrantes bengalis, também beneficiou pessoas de outras nacionalidades e atingiu cidades de três Estados brasileiros: São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.

Bengalis no Brasil

Segundo relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2018, as solicitações de bengalis para o reconhecimento do status de refugiado representavam 3% do total de todos os pedidos em trâmite no Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). Trata-se de uma imigração recente, mas significativa. Em 2011, houve pela primeira vez registro de solicitações de refúgio de bengalis no país, num total de 74; em 2012, foram 280, em 2013, 1830.

Em 2014, a Polícia Federal registou o maior de entrada de bengalis no Brasil até então, possivelmente em razão das eleições do final de 2013 no seu país, que produziu muitos conflitos e, consequentemente, emigrações.

O sul do Brasil desde o começo recebeu boa parte desses imigrantes. Parte disso se deve ao fato da região ter grandes redes frigoríficas que exercem a atividade de abate Halal, na qual animais são mortos para consumo de acordo com a lei islâmica. Como cerca de 85% da população de Bangladesh segue o Islã, muitos puderam ser empregados nessas empresas, o que não aconteceria em frigoríficos convencionais.

Cientes da vulnerabilidade que os imigrantes e refugiados estão sujeitos, principalmente, em tempos de pandemia e crise econômica, a Embaixada de Bangladesh no Brasil propôs uma pareceria com a ONG África do Coração, fundada e composta por imigrantes e refugiados.

A maior parte das cestas foi encaminhada para residentes do estado paulista, enquanto as demais foram para três cidades paranaenses – Jaguapitã, Londrina, Rolândia – e quatro gaúchas – Passo Fundo, Nova Araçá, Lajeado e Montenegro. No total foram 500 famílias apoiadas nos dois estados.

“Agradeço muito a Embaixada de Bangladesh e o governo do país. Não só aqui no Brasil, mas outros países nos quais há representação diplomática o governo ajudou”, ressaltou o bengali Khairul Islam, que ajudou a fazer a ponte entre as instituições.

Zulfiqar Rahman, embaixador de Bangladesh no Brasil, durante a entrega de cestas básicas a bengalis e imigrantes de outras nacionalidades em São Paulo.
(Foto: Divulgação/África do Coração)

Planejamento de ações

A ONG, que vem realizando campanhas solidárias desde o começo da pandemia, conta com equipes no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo que ajudam na captação de recursos e na distribuição do que for arrecadado.

Para conseguirem mapear onde estão os refugiados e imigrantes que precisam de ajuda com alimentos, a organização criou um formulário online.

Acesse aqui o formulário.

A ideia é que as cidades que têm 50 ou mais residentes inscritos no formulário recebam uma visita de algum representante com as doações.

“Estamos planejado via nossa campanha distribuir para o Distrito Federal, Santa Catarina e Rio de Janeiro até final deste mês de maio”, disse o congolês Jean Katumba Mulondayi, presidente e fundador da organização. “É um trabalho de formiga, mas é assim que a gente faz”.

“Estamos fazendo tudo o que podemos, estamos lutando”, completa Khairul.

Como colaborar

Para maiores informações e sobre como colaborar com as ações, contatos podem ser feitos pelo email contato@africadocoracao.org ou WhatsApp (11) 96737-8710.

Contribuições em dinheiro podem ser feitas via depósito ou transferência bancária para os dados abaixo

Africa do Coração
Banco Bradesco S.A
Agência: 0515
Conta: 0005122-5
CNPJ: 25.224.617/0001-11


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Pesquisa vai medir impacto do coronavírus sobre imigrantes e refugiados no Brasil

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Migrantes no pátio da Igreja Nossa Senhora da Paz, no centro de São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - jan.2019)

Uma pesquisa já disponível em seis idiomas (português, espanhol, francês, creole haitiano, árabe e inglês), visa transformar em dados —e subsídio para políticas públicas — o impacto que a pandemia de coronavírus vem provocando sobre imigrantes e refugiados no Brasil.

Desenvolvida e aplicada por um conjunto de instituições, a pesquisa “O Impacto da Covid-19 na Migração no Brasil” consiste em um questionário que pode ser acessado e respondido por meio do link a seguir: http://pesquisacovidmigra.com.br/

De acordo com os organizadores, os resultados irão contribuir para o desenho de propostas de políticas, com o intuito de reduzir os impactos negativos impostos pela situação de distanciamento social. A pesquisa também vai coletar informações sobre questões como acesso a serviços de saúde e ao auxílio emergencial do governo federal.

O projeto é tocado pelas seguintes instituições: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão Direitos Sociais e Migração (GIPE)/ PUC Minas; Grupo Distribuição Espacial da População (GEDEP)/PUC Minas; Observatório das Migrações em São Paulo/Núcleo de Estudos de População Elza Berquó/Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Também atuam como parceiros da pesquisa a DPU (Defensoria Pública da União), o MPT (Ministério Público do Trabalho), Missão Paz, Coletivo Cio da Terra e SJMR (Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados). O apoio fica por conta das agências da ONU: Unfpa, OIM e ACNUR.

Em busca de dados

Em conjunto ou separadamente, as instituições envolvidas na pesquisa tem largo histórico de contribuições com subsídios para políticas públicas voltadas à questão migratória. Dessa forma, acabam alertando ainda para uma série de lacunas existentes no país em referência à população migrante.

A professora e pesquisadora Rosana Baeninger, uma das coordenadoras da pesquisa e responsável pela coordenação do Observatório das Migrações em São Paulo, ressalta que a participação migrante é fundamental para o levantamento.

“Consideramos que a participação de imigrantes e refugiados respondendo ao questionário permitirá apontar aspectos que subsidiem as políticas para imigrantes no âmbito local e nacional em meio à pandemia”,

Os organizadores ressaltam que os dados recolhidos são anônimos e serão tratados de forma agregada, sem a identificação dos respondentes. E também que nenhuma informação individualizada será fornecida a qualquer órgão de governo ou disponibilizada para divulgação ou uso na pesquisa ou em qualquer outro estudo.

Maiores esclarecimentos podem ser solicitados por meio do email: contato@pesquisacovidmigra.com.br

Lacunas e mobilizações

A ausência de dados públicos sobre o impacto da pandemia sobre os imigrantes é apontada como um dificultador a mais na luta contra o vírus.

Uma dessas áreas carentes de dados é a saúde. E diante disso, coletivos e associações ligadas à temática migratória lançaram uma carta aberta na qual pedem a inclusão da informação sobre nacionalidade nos registros do Ministério da Saúde.

Também no escopo do esforço para conter a pandemia há movimentações tanto de coletivos como no Congresso Nacional para regularização de imigrantes residentes no Brasil.

Na Câmara dos Deputados, o PL 2699/2020, protocolado pela bancada do PSOL, aproveita contribuições tanto das organizações envolvidas na campanha online #RegularizaçãoJá quanto recomendações coletadas junto a instituições que tiveram papel de destaque no debate em torno da atual Lei de Migração, em vigor desde novembro de 2017.


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La investigación medirá el impacto del coronavirus en los inmigrantes y refugiados en el Brasil

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Los resultados contribuirán al diseño de propuestas de políticas para reducir los impactos negativos impuestos por la situación de retraimiento social 

Escrito por Rodrigo Borges Delfim
Traducción por Natália Valverde Jatobá 
Version en inglés
Version en portugués

Una encuesta que ya está disponible en seis idiomas (portugués, español, francés, criollo haitiano, árabe e inglés), tiene por objeto transformar en datos -y en subsidios para las políticas públicas- el impacto que la pandemia del coronavirus ha estado causando en los inmigrantes y refugiados en el Brasil. 

Elaborado y aplicado por un conjunto de instituciones, el estudio “O Impacto da Covid-19 na Migração no Brasil” consiste en un cuestionario al que se puede acceder y al que se puede responder a través del siguiente enlace: http://pesquisacovidmigra.com.br/. 

Según los organizadores, los resultados contribuirán a la formación de propuestas de políticas para reducir los impactos negativos impuestos por la retirada social. La encuesta también recogerá información sobre cuestiones como el acceso a los servicios de salud y la asistencia de emergencia del gobierno federal. 

El proyecto es tocado por las siguientes instituciones: Grupo Interdisciplinar de Investigación y Extensión de los Derechos Sociales y la Migración (GIPE)/PUC Minas; Grupo Distribución Espacial de la Población (GEDEP)/PUC Minas; Observatorio de las Migraciones en São Paulo/Núcleo de Estudios de Población Elza Berquó/Universidad Estatal de Campinas (Unicamp). 

También actúan como socios en la investigación la DPU (Defensoría Pública de la Unión), MPT (Ministerio Público de Trabajo), Misión Paz, Colectivo Cio de la Terra y SJMR (Servicio Jesuita para Migrantes y Refugiados). El apoyo es en nombre de los organismos de las Naciones Unidas: el UNFPA, la OIM y el ACNUR. 

En busca de datos 

Juntas o por separado, las instituciones que participan en la investigación tienen un largo historial de contribuciones con subsidios a las políticas públicas centradas en la cuestión de la migración. De esta manera, también terminan alertando sobre una serie de lagunas existentes en el país en relación con la población migrante. 

La profesora e investigadora Rosana Baeninger, una de las coordinadoras de la investigación y responsable de la coordinación del Observatorio de la Migración en São Paulo, subraya que la participación de los migrantes es fundamental para la encuesta. 

“Consideramos que la participación de los inmigrantes y refugiados que respondan al cuestionario nos permitirá señalar los aspectos que subvencionan las políticas para los inmigrantes a nivel local y nacional en medio de la pandemia”. 

Los organizadores señalan que los datos recogidos son anónimos y serán tratados de forma global, sin la identificación de los encuestados. Además, no se proporcionará información individualizada a ningún organismo gubernamental ni se pondrá a disposición para su difusión o utilización en la investigación o cualquier otro estudio. 

Se pueden solicitar más aclaraciones por correo electrónico: contato@pesquisacovidmigra.com.br 

Lagunas y movilizaciones 

Se señala la falta de datos públicos sobre el impacto de la pandemia en los inmigrantes como un obstáculo más en la lucha contra el virus. 

Una de esas esferas en las que se carece de datos es de la salud. Y en vista de ello, los colectivos y asociaciones vinculados al tema de la migración han lanzado una carta abierta en la que solicitan la inclusión de información sobre la nacionalidad en los registros del Ministerio de la Salud. 

También en el ámbito del esfuerzo por contener la pandemia hay movimientos tanto de colectivos como en el Congreso Nacional para regularizar a los inmigrantes que viven en el Brasil. 

En la Cámara de Diputados, el Proyecto de Ley 2699/2020, presentado por la bancada del PSOL, aprovecha las contribuciones tanto de las organizaciones que participan en la campaña en línea #RegularizaçãoJá como las recomendaciones recogidas de las instituciones que han desempeñado un papel destacado en el debate en torno a la actual Ley de Migración, en vigor desde noviembre de 2017. 

Research will measure impact of coronavirus on immigrants and refugees in Brazil

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Migrantes no pátio da Igreja Nossa Senhora da Paz, no centro de São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - jan.2019)

The results will contribute to the design of policy proposals in order to reduce the negative impacts imposed by the situation of social withdrawal

Written by Rodrigo Borges Delfim
Translated by Natália Valverde Jatobá
Read here the Portuguese version
Read here the Spanish version

A survey already available in six languages (Portuguese, Spanish, French, Haitian Creole, Arabic and English), aims to transform into data – and subsidy for public policies – the impact that the coronavirus pandemic has been causing on immigrants and refugees in Brazil.

Developed and applied by a set of institutions, the survey “The Impact of Covid-19 on Migration in Brazil” consists of a questionnaire that can be accessed and answered through the following link: http://pesquisacovidmigra.com.br/.

According to the organizers, the results will contribute to the design of policy proposals in order to reduce the negative impacts brought about social withdrawal. The survey will also collect information on issues such as access to health services and emergency relief from the federal government.

The following institutions responsible for the project are: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão Direitos Sociais e Migração (GIPE)/ PUC Minas; Grupo Distribuição Espacial da População (GEDEP)/PUC Minas; Observatório das Migrações em São Paulo/Núcleo de Estudos de População Elza Berquó/Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Also acting as partners in the research, there are Defensoria Pública da União (DPU),  Ministério Público do Trabalho (MPT), Missão Paz, Coletivo Cio da Terra and Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados (SJMR). The support is on behalf of UN agencies such as UNFPA, IOM and UNHCR.

Data searching

Together or separately, the institutions involved in the research have a long history of contributions with subsidies to public policies focused on the migration issue. In this way, they also end up alerting to a series of existing gaps in the country in reference to the migrant population.

Professor and researcher Rosana Baeninger, one of the coordinators of the research and responsible for the coordination of São Paulo’s Migration Reasearch Centre, emphasizes that the migrant participation is fundamental for the survey.

“We consider that the immigrants and refugees’ answers to the questionnaire will allow us to point out aspects that subsidize policies for immigrants at the local and national levels in the midst of the pandemic.”

The organizers point out that the data collected is anonymous and will be treated in an aggregate way. An individualized information will neither be given to any government agency or made available for dissemination or use in the research or any other study.

The email address contato@pesquisacovidmigra.com.br is provided in case of any further questions.

Gaps and mobilizations

The lack of public data on the impact of the pandemic on immigrants is pointed out as a further obstacle in the fight against the virus.

One of these areas lacking data is health. And in view of this, collectives and associations linked to the issue of migration have launched an open letter in which they ask for the inclusion of information on nationality in the records of the Ministry of Health.

Also in the scope of the effort to contain the pandemic there are movements both in collectives and in the National Congress to regularize immigrants living in Brazil.

In the Chamber of Deputies, Proposed Law 2699/2020, filed by the PSOL bench, takes advantage of contributions both from organizations involved in the online campaign #RegularizaçãoJá and recommendations collected from institutions that have played a leading role in the debate on the current Migration Law, which has been applied since November 2017.

Vida dos brasileiros no exterior ficará pior após veto dos EUA a viajantes a partir do Brasil

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Polícia Federal suspendeu entrega de passaportes e de documentos migratórios devido ao coronavírus
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 10.jul.2015

Atualizado às 15h40 de 25.mai.2020

Seja para viagens simples, intercâmbio ou para processos migratórios, brasileiros devem ter uma vida bem mais difícil no exterior a partir de agora. Assim veem tanto pesquisadores como brasileiros residentes nos Estados Unidos a partir do anúncio feito no último domingo (24) pelo presidente Donald Trump, que decidiu proibir a entrada no país de viajantes procedentes do Brasil nos últimos 14 dias.

Trump concretizou o que já vinha ensaiando nas últimas semanas, na esteira da escalada de casos confirmados de coronavírus. O veto passa a valer a partir desta próxima sexta-feira (29).

“Eu me preocupo com tudo, eu não quero pessoas vindo para cá e infectando nosso povo”, disse o americano a jornalistas na Casa Branca no último dia 19, referindo-se especificamente ao caso brasileiro. “Eu também não quero que o povo lá [no Brasil] fique doente. Nós estamos ajudando o Brasil com respiradores. O Brasil está tendo alguns problemas, sem dúvida.”

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil já contabiliza 363 mil casos confirmados de coronavírus, com 22.666 vítimas fatais. Tais números fazem do país o segundo no mundo mais afetado pela pandemia, atrás somente dos próprios EUA.

Por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que ambos os países “têm mantido importante cooperação bilateral no combate à covid-19”. E que a decisão da Casa Branca se dá por “motivos técnicos”.

“A decisão do governo dos Estados Unidos de suspender temporariamente a entrada de viajantes provenientes do Brasil, anunciada hoje, tem teor idêntico a medidas anteriores que suspenderam a entrada de viajantes de outros países afetados pelo Covid-19, como China, Irã, Reino Unido e Irlanda, bem como os países que fazem parte do Espaço Schengen da União Europeia”.

Vale lembrar que o Brasil também suspendeu, desde o final de março, o ingresso de pessoas de outros países em seu território, por meio de portaria — prorrogada na última semana por mais 30 dias.

As exceções ficam por conta de brasileiros natos ou naturalizados; imigrantes que tenham residência permanente no Brasil; profissionais estrangeiros em missão que estejam a serviço de organismo internacional; passageiros em trânsito internacional, desde que não saiam da área internacional do aeroporto e que o país de destino admita o seu ingresso; funcionários estrangeiros acreditado junto ao Governo brasileiro; além de estrangeiros que sejam cônjunges, conpanheiros, filhos, pais ou curadores de brasileiros; que tenham o ingresso autorizado pelo governo brasileiro ou sejam portadores do Registro Nacional Migratório.

Incertezas

Residente em Los Angeles há dez anos, a antropóloga Michelle Medrado está atualmente no Brasil e vive a incerteza gerada pelas políticas e contradições dos governos dos dois países.

Ela possui green card —como é conhecida a autorização para residência permanente no país —, mas não tem informações claras do governo dos EUA sobre como vai terminar sua viagem de regresso para casa, agendada para os próximos dias.

“Tem uma falha no processo americano, de como informar isso para os residentes permanentes, e tem a ausência de entendimento de como essa viagem funcionaria por aqui”, disse ela, que integra o Coletivo Por Um Brasil Democrático de Los Angeles.

Medrado credita a postura da Casa Branca à política fracassada do governo Bolsonaro de conter o vírus no Brasil. E vê tal situação com tristeza, pois a saída do Brasil pode significar, entre outros efeitos, uma despedida definitiva de entes queridos, a depender dos efeitos do Covid-19.

“Sair agora é não saber quando eu retorno, e pensando que nessa situação tem pessoas que a gente pode não voltar a ver. É bastante triste, uma restrição que deixa a gente um pouco sufocada.”

Imagem negativa e estigmatização

A postura de Bolsonaro em relação à pandemia tem sido alvo de críticas e repulsa em toda a comunidade internacional. E além das incertezas geradas pela pandemia, há o temor que brasileiros que vivem em outros países —e não somente nos EUA — também sintam os efeitos dessa visão negativa.

“O brasileiro — seja ele turista, viajante a trabalho, estudante em intercâmbio ou mesmo como migrante — vai ser impactado. A irresponsabilidade de Bolsonaro tem custado vidas hoje. E a médio e longo prazo seguirá prejudicando a vida de brasileiros”, ressalta Camila Asano, Diretora de Programas da Conectas Direitos Humanos.

“Em outros tempos é difícil que notícias sobre o Brasil saiam nos grandes noticiários, nos jornais, nos programas de TV e rádio. Mas agora infelizmente o Brasil está nas notícias em toda parte, chegando a pessoas que não tinham acesso a informações sobre o país antes. E a imagem que vai ficar é muito negativa. Não me surpreende se isso passar a afetar como as comunidades brasileiras nos EUA são tratadas”, ressalta Ana Cernov, cientista social brasileira residente em Los Angeles e integrante do mesmo coletivo que Medrado.

Para o geógrafo Renato Balbim, professor visitante da Universidade da Califórnia em Irvine, xenófobos que já associavam o coronavírus à China agora ganham elementos para fazer o mesmo em relação aos brasileiros.

“Isso é péssimo para as pessoas que vivem fora, nos EUA e em outros países. Foram anos de trabalho intenso para melhorar a imagem do brasileiro no exterior, que era associada apenas ao futebol, carnaval e sexo. As imagens que podem ser criadas agora, com uma política como essa, que visa de imediato apenas os eleitores do Trump na Flórida, poderão durar por anos”.

Balbim também vê o veto de Trump como um recado político a seu aliado sul-americano, apesar das afinidades ideológicas entre os ocupantes da Casa Branca e do Palácio do Planalto.

“A restrição é um ato político, diplomático, e passa o seguinte recado: ‘não nos associamos com países como esse, para além das similaridades que possam ser apontadas, das cloroquinas etc, nos distinguimos, estamos nos salvando deste mal’. O Brasil é um pária no mundo e isso não está relacionado ao número de casos do coronavírus”.

Para Alvaro Lima, pesquisador da Boston Planning and Development Agency e estudioso da comunidade brasileira nos EUA, a decisão do governo Trump representa ainda o fracasso da política externa e interna tocada pelo atual governo brasileiro.

“Na infame reunião presidencial, o ministro tresloucado do Itamaraty [Ernesto Araújo], diz que agora temos uma posição de influenciadores das políticas internacionais. Não conseguimos sequer respeito. O que realmente importa é a incompetência do governo brasileiro de enfrentar a crise de saúde pública e salvar a vida de milhares de brasileiros…”, desabafa.

Apoio questionado

Bolsonaro contou com grande apoio da comunidade brasileira no exterior nas eleições de 2018, obtendo 61% dos votos válidos no primeiro turno e 71% no segundo.

Embora o prestígio do capitão reformado continue alto junto aos brasileiros emigrados, já há quem repense o voto dado na eleição presidencial.

Reportagem do MigraMundo do último dia 18 de maio mostrou que a postura assumida pelo presidente diante da pandemia é o principal motivo para a mudança de opinião em relação ao eleito.

Antes ainda, em março de 2019, o MigraMundo mostrou os sentimentos diversos gerados na comunidade brasileira no exterior sobre declarações do presidente eleito em relação a imigrantes. Ao lado de Trump, que tem como modelo, Bolsonaro chegou a dizer que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer fazer o bem ao povo americano”.


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25 de Maio: africanos no Brasil refletem o Dia da África

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Mama África (ao centro) homenageada em 2018 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. (Foto: Alex Vargem)

Por Alex André Vargem*

“Vidas pretas importam! É preciso o reconhecimento e respeito aos africanos e todos os negros no mundo”, declara o africano Domingos, cabo-verdiano residente no Brasil.

Recorda- se, no dia 25 de maio, a luta pela independência do continente contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid que estabeleceu a segregação racial na África do Sul. Foi instituído porque neste dia, em 1963, que se criou a Organização da Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano.

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África. Em 2002 a OUA foi substituída pela União Africana, mas a celebração da data manteve-se.

No Brasil, cuja maioria da população é composta majoritariamente por afrodescendentes (54% da população) ao longo dos anos, atividades são realizadas por grupos de diferentes nacionalidades que aqui residem.

Africanos durante a 11º Marcha dos Imigrantes e Refugiados em São Paulo, em dezembro de 2017.
(Foto: Alex Vargem)

Mesmo em tempos de Covid-19 e dado o isolamento social, na data solene reflete-se como uma forma de afirmar o protagonismo, a releitura da luta anticolonial, denúncias contra o racismo e xenofobia, combater estereótipos negativos, em muitos casos, dada a relação histórica do racismo estrutural advindos de inúmeras situações, em especial, daqueles que residem no Brasil, as considerações sobre as relações hierarquizadas na sociedade entre brancos e não-brancos, nacionais e não-nacionais, o lugar de fala neste contexto marca o posicionamento negro africano frente às diversas situações, cujo papel político e pedagógico é fazer com que muitos não-africanos compreendam as múltiplas realidades.

Reflexo de conquistas

Para João Canda, escritor angolano que reside em São Paulo faz 5 anos, palestrante em questões africanas, produtor cultural e fundador da Literáfrica:

“O dia da liberdade e libertação da África como chamado anteriormente e comemorado anualmente todo dia 25 de Maio, nos remete a uma profunda reflexão em relação ao papel do continente berço no mundo, as conquistas que precisam ser ampliadas e consolidadas, procurando sempre compreender a evolução história dos povos africanos em sua relação com os outros povos e, por meio da arte, espelhar a riqueza cultural e vivências africanas”, ressalta o escritor que realiza grandes eventos no país sobre a temática.

João Canda, escritor angolano, durante palestra sobre africanidades na Câmara dos Vereadores de São Paulo.
(Foto: Arquivo pessoal)

Entre os grandes expoentes da migração africana no Brasil, é importante frisar o destaque para as grandes ações realizadas por diversos grupos e pessoas nestes anos, em especial, protagonizado pela senhora Diamu Diop, conhecida por todos como Mama África. Pude acompanhar sua trajetória ao longo destes anos —especialmente, sua liderança — na construção de uma rede de apoio e solidariedade em torno das pessoas desabrigadas (migrantes e brasileiros) em decorrência do incêndio e desabamento do edifício Wilson Paes de Almeida, no dia 1 de maio de 2018.

Senegalesa, ela tem atuado frente às diversas situações para o prol e bem-estar da sua comunidade desde sua chegada aqui no ano de 2006, se tornou uma importante referência para africanos de diversas nacionalidades e afro-brasileiros, reconhecida e premiada. A iniciativa nos últimos anos como empreendedora com a venda de tecidos e roupas africanas, o suporte diário aos grupos, em alguns casos, emergencial às comunidades, são alguns exemplos das benesses promovidas pela Mama África.

Mama África (ao centro) homenageada em 2018 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. (Foto: Alex Vargem)

Mobilização social

Nas últimas semanas, coletivos têm se manifestado e fomentado suas atividades dado o isolamento social. A importância da #soujoaomanuel lançada em memória do angolano assassinado na última semana em São Paulo, é uma das iniciativas e formas de se almejar por justiça social, mas para além do mundo digital e algumas reportagens veiculadas em grandes mídias, que infelizmente ainda reproduz estereótipos negativos e promove o exotismo, atividades no que tange às africanidades no mundo marcam o momento.

De acordo com a angolana residente em São Paulo, Rudmira Fula — comunicadora, palestrante e idealizadora do Projeto Mira África — o dia 25 de Maio é comemorado pelos africanos e todos os negros no planeta, mas para se chegar a esta data muitas questões se antecederam.

“Foi a organização de várias conferências, partidos e coligações, que lutaram para que este momento fosse comemorado, que tinham como princípio, o Pan-Africanismo, que era a luta pelo emancipação do negro no mundo, que sofriam com as atitudes dos países coloniais, que julgavam os povos africanos como mercadorias, como pessoas sem consciência e capacidade de raciocínio. Os negros, mulheres e homens, mostram ao mundo que podem se governar e exercer funções não antes disponibilizadas a nós”.

A comunicadora angolana Rudmira Fula palestrando em evento sobre questões africanas. (Foto: Gustavo Stefano)

Rudmira considera que é preciso pensar sempre na temática: “É importante não só o 25 de Maio, mas todos os dias para se pensar questões do continente, mas essa data vem cada vez mais reafirmar a existência e nunca esquecermos que o continente africano viveu e contribuiu para a construção daquilo que nós conhecemos no mundo. Da África saíram forças, riquezas, não só minerais, mas toda uma intelectualidade espalhada pelo mundo, além de uma força de trabalho, que contribui para a economia mundial, em todos os continentes, inclusive no Brasil, dada a nossa presença histórica aqui”, destaca a comunicadora.

Já para Vensam IaLa, oriundo da Guiné-Bissau – ator, ativista Pan-Africanista e Idealizador da @vistoafrica, tem atuado ao longo dos anos como forma de conscientizar a sociedade brasileira sobre questões do continente africano, em especial, a campanha “A África não é um país”, no qual conscientiza a sociedade brasileira que no continente africano, há mais de 50 países com diferentes culturas, ele comenta o dia 25 de Maio.

O ator e ativista, Vensan IaLa, de Guiné-Bissau, com a camiseta da campanha “Africa is not a country”, “A África não é um país”.
(Foto: Arquivo pessoal)

 “Esta data é importante, mas para mim não há o que comemorar, apesar das nossas independências políticas, engana-se quem acha que o projeto colonial deixou o continente em paz, o projeto colonial não acabou, ele só se reinventa e continua, podemos ver que logo após as independências nos anos de 1960, os líderes que lutaram, todos foram mortos por conta de uma agenda imperialista, e a partir disso a África começou a produzir líderes ao qual não se reconhecia, não tinham o espírito de patriotismo. Eu sempre falo que esses líderes são ‘peles negras com máscaras brancas’, que atendem à demanda do ocidente (em referência a obra do intelectual negro, Frantz Fanon), isso é complicado e essa data significa para nós pensarmos, que independência é essa que nós tomamos e não se consegue trazer grandes avanços para o povo?”, questiona Vensam.

“É uma data para pensarmos enquanto povo africano no continente e enquanto povo africano diaspórico, o que podemos fazer em conjunto para superarmos essas dificuldades? Como romper de maneira efetiva essa imposição e controle colonial no continente? É importante termos força e fazer com que nossa voz e nossa luta seja ouvida, inclusive aqui no Brasil”, completa o guineense.

*Alex Vargem é doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro da Cátedra Sérgio Vieira de Mello – Unicamp, com mais de 18 anos de trabalho social junto a diversos grupos africanos no Brasil.

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Resiliência durante a pandemia

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Pôster do Projeto Amplifier. que usa a arte como forma de ampliar vozes de movimentos sociais, que ressalta que a tarefa de salvar vidas está nas mãos de todos. (Foto: Christian Bigwater/Amplifier)

Por Migrant Women Press

Desde a declaração da Organização Mundial da Saúde sobre a pandemia de Covid-19, e o conselho de que “todos os países devem encontrar um bom equilíbrio entre a proteção da saúde, a minimização das perturbações econômicas e sociais e o respeito aos direitos humanos”, os estados começaram a tomar medidas para diminuir a propagação do Coronavírus.

Observou-se, especialmente através da cobertura da mídia, que apesar de todo o mundo ser afetado por esta pandemia, o vírus atinge com mais força as comunidades mais vulneráveis, especialmente as mulheres. Organizações de direitos humanos e de mulheres, ativistas e jornalistas ao redor do mundo estão conscientizando a população sobre o impacto da pandemia nas mulheres e como a violência doméstica aumentou durante a quarentena, já que mulheres e meninas podem estar presas com seus agressores. A situação das mulheres migrantes é ainda pior, pois muitas delas são indocumentadas e têm direitos fundamentais, como o acesso à saúde, negados.

Existem organizações locais especializadas em dar apoio as mulheres migrantes, ajudando-as a acessar serviços locais, aprender línguas locais, ter acesso a apoio psicológico para superar traumas, oportunidades de aprender novas habilidades, encontrar emprego, organizar-se e capacitar-se. Além disso, elas criam um espaço seguro onde as mulheres podem encontrar e superar a solidão. Muitas delas executam seus projetos com mínima ajuda governamental.

Por motivos diversos, imigrantes em geral estão entre as populações mais vulneráveis ao coronavírus
Covid-19 atinge com mais força as comunidades mais vulneráveis, especialmente as mulheres (Foto: cedida ao MigraMundo por Levi Israel)

Após o surto de Covid-19, essas organizações tiveram que fechar suas instalações, pois a maior parte de seu trabalho é feita através da interação social e começaram a realizar algumas de suas atividades em casa. Algumas delas conseguem manter alguns serviços usando a Internet. Nesta oportunidade, conversamos com pessoas e organizações que trabalham com mulheres imigrantes na Itália para ouvir quais são as dificuldades que estão enfrentando e também como estão construindo resiliência durante este período incerto.

ONGs das migrantes na Itália

Casa di Ramia é um centro intercultural de mulheres em Verona, bem conhecido como um espaço seguro onde mulheres de diferentes origens se encontram para criar, aprender e desenvolver uma variedade de projetos. É também um lugar onde muitas organizações de mulheres locais usam como base para suas atividades. Principalmente, é um lugar onde as mulheres podem se ouvir e apoiar umas às outras.

Este é um espaço do município de Verona, da área de serviços sociais e igualdade de oportunidades; porém, é administrado como um espaço informal, não há necessidade de qualquer documentação para ter acesso. É um local de encontro criado principalmente para suprir a necessidade das mulheres de se encontrarem, fazerem coisas juntas, pensarem juntas, confrontarem-se e construírem uma linguagem comum”, explicou Elena Migliavacca, coordenadora do espaço.

Antes da quarentena, a Casa di Ramia, que abriu suas instalações em 2005, oferecia um programa diário de atividades para mulheres, jovens e crianças com aulas de italiano e inglês, grupos de narração, aulas de dança tradicionais, coral, apoio pós-escolar, aulas de costura e muito mais.

Muitas mulheres que frequentavam atividades naquele local criaram seus grupos e agora utilizam o espaço para organizar seus eventos e criar projetos colaborativos. Algumas mulheres compareciam apenas para fazer amizade e se sentirem em casa.

Na quarentena, alguns grupos conseguiram continuar algumas de suas atividades à distância usando a Internet. Mas o impacto de ter esse espaço fechado é enorme. Muitas mulheres estão agora isoladas, enfrentando dificuldades financeiras e correndo o risco de serem vítimas de violência doméstica.

Para as organizações de mulheres migrantes, a quarentena representa a incerteza do financiamento, a falta de sustentabilidade dos projetos e poucas possibilidades de dar apoio às mulheres necessitadas. “O impacto dessa quarentena é terrível porque estes espaços de encontro são essenciais para o apoio mútuo. Esta situação de isolamento é dura. Tentamos resistir, mas não podemos fazer muita coisa”, explicou Elena.

Ciente da situação de vulnerabilidade de muitas das mulheres que participaram das atividades da Casa di Ramia, Elena está entrando em contato com organizações de caridade, como a Cáritas, para fornecer pacotes de alimentos para as mulheres que estão em dificuldades financeiras.

Ela também mencionou que, embora seja em pequena escala, alguns grupos de mulheres da Casa di Ramia estão resistindo e criando formas de continuar apoiando umas às outras e continuam algumas de suas atividades online.

Global Mobility, Mobilidade Global
Movimento “Arpilleras”de mulheres chilenas contra a violência inspiram outras mulheres no mundo.(Foto: Pixabay)

Resiliência inspiradora

Durante os anos 70 e 80 sob o regime militar totalitário de Augusto Pinochet no Chile, as mulheres criavam Arpilleras – bordados e quadros de retalhos de cores vibrantes – que serviam como uma forma de compartilhar as dores sobre seus maridos, pais, familiares e amigos que eram mortos, torturados e desaparecidos.

Essa técnica serviu para documentar e denunciar as opressões durante um regime que não permitia a liberdade de expressão. Ajudou a registrar a capacidade de resistência das mulheres para vencer o sofrimento, a perda e o desespero. Em seguida, tornou-se um movimento que inspirou grupos de mulheres na América Latina e, posteriormente, inspirou mulheres em outros lugares. O bordado de Arpilleras é utilizado hoje também como ferramenta para denunciar a violência de gênero e outras formas de opressão.

Motivada por mulheres de seu país de origem, Peru, Vitka Olivera de la Cruz iniciou um grupo de Arpilleria. Vitka é advogada com especialização em estudos sociais.

Ela trabalha no serviço público e presta assessoria, apoio jurídico e administrativo a migrantes e é uma das mulheres que desenvolvem projetos na Casa di Ramia. Com esse grupo de Arpilleras, através do bordado as mulheres estão criando narrativas.

“Nós usamos nossas cores vivas, com todas as histórias em que podemos trabalhar, usamos retratos ou outras coisas. Por exemplo, na Casa di Ramia, representamos a casa como uma árvore, e enquanto estamos trabalhando nessa história, as mulheres começam a lembrar suas próprias histórias e a se expressar, passo a passo. Elas também começam a se reconhecer, por exemplo, para representar a cor de sua pele, você precisa encontrar o tecido adequado a essa cor. Então, construímos isso com alguns textos, alguma música e poesia da América Latina”, Vitka explicou.

Quando a quarentena começou na Itália, ela pensou que seria uma pena terminar essa atividade, pois as coisas estavam indo bem, então ela continuou fazendo o workshop usando o WhatsApp. A inspiração para manter a oficina de Arpilleria por WhatsApp veio quando ela viu que sua filha que está cursando o ensino médio, com as escolas italianas fechadas, está tendo de aulas on-line.

“Lembrei-me que venho da América do Sul e que nós inventamos tudo”. Então, eu disse para o grupo: Se vocês estiverem de acordo, podemos manter as aulas através do WhatsApp. Depois disso, começamos a compartilhar vídeos, fotos, e até dançamos. Eu coloquei algumas músicas e as 5 mulheres que estavam online naquele dia dançaram.”

Seguindo a dinâmica do workshop antes do encerramento, o grupo se reúne na WhatsApp todas as sextas-feiras, das 10:00 às 12:00 e Vitka também dá alguns trabalhos de casa para o grupo.

“Por exemplo, trabalhamos com medo, e todos começam a dizer quais são os seus medos. Algumas delas disseram que têm medo de algum animal; outras disseram que temem o vazio. Elas devem desenhar esses medos e também desenhar como superar esses medos. E no dia do nosso encontro, eles apresentam todos os desenhos, enviando as fotos.

Vitka envia vídeos ensinando o grupo a bordar, e elas enviam vídeos mostrando seu trabalho. O grupo de Arpilleras é misto, com mulheres italianas e migrantes, que se apoiam neste momento difícil.

“Elas se sentem capazes, e suas habilidades estão aumentando. Começamos a discutir questão relacionadas ao momento que enfrentamos. Também falamos sobre coisas que achávamos que não éramos capazes de fazer e que agora estamos fazendo. Tentamos descobrir por que achávamos que não éramos capazes de fazer. Quem nos disse que não éramos capazes? Nós trabalhamos a auto-estima.”

Esse grupo de Arpilleras planeja apresentar seu trabalho em uma conferência sobre auto-cura e cura comunitária em outubro na Universidade de Verona. Elas também pretendem criar pequenas roupas com um projeto de empreendimento social local que trabalha com projetos inovadores.

“A idéia das Arpilleras do Chile e no Peru terminou bem porque elas começaram a vender seus produtos, foram a museus. Eu vou adorar se conseguirmos fazer isso. Acabamos de começar, mas essa é a aspiração. Criamos algumas bonecas, cada uma do nosso país de origem. Vamos continuar fazendo essas bonecas. Tive a ideia de fazer ainda mais bonecas e criar uma exposição, para falar do nosso trabalho na Casa di Ramia, como um ponto de encontro para as mulheres”.

Falando sobre a motivação primária do grupo Arpilleras Vitka disse: “Antes de mais nada, este projeto serve como uma distração para o pensamento de que não vamos conseguir sair deste período ruim. Eu faço piadas e digo sobre coisas que aconteceram no Peru. Nossa maneira de exorcizar as coisas no Peru é fazer piadas sobre a situação. Uma das mulheres bordou o Coronavírus (risos). Com algumas histórias que lhes contei, elas perceberam que muitas outras dores estão acontecendo”. E ela concluiu: “Eu me inspirei no que acontece no meu país. Nós temos muitos problemas, mas continuamos lutando”.

Desafios para proteger migrantes durante a pandemia

Movimento na Itália exige regularizacao de migrantes para protegê-los do vírus; Pôster do Projeto Amplifier ressalta a ideia de que tarefa de salvar vidas está nas mãos de todos. (Foto: Christian Bigwater/Amplifier)

Na Itália, a estimativa é de que existem 600.000 migrantes indocumentados. Esta situação aumenta a violação dos direitos humanos, dificuldades de acesso aos direitos fundamentais como a assistência à saúde, exploração no trabalho e dificuldades financeiras. Nesse momento existe uma campanha na Itália – Sanatoria Subito (Anistia agora) pressionando o governo italiano pela anistia dos migrantes indocumentados, pois eles são os mais vulneráveis ao vírus e ao impacto que ele cria.

Um número significativo de mulheres migrantes na Itália são trabalhadoras informais, e o desemprego neste grupo é elevado. Depois da pandemia, a situação se agravou. A Associazione Stella é uma organização sediada na Casa di Ramia que oferece apoio à empregabilidade de mulheres migrantes, ajudando a construir currículos, busca de emprego e oportunidades de treinamento. Eles também organizam treinamentos de empregabilidade ajudando as mulheres migrantes a entender como funciona o mercado de trabalho na Itália, informando e preparando-as para enfrentá-lo melhor. Antes da pandemia, seus serviços começaram a ser afetados devido à falta de financiamento e podem não continuar após o fechamento.

Vedrana Skocic, coordenadora da Associazione Stella explicou que os financiadores estavam pedindo requisitos que eram quase impossíveis de serem atendidos, pois eles dependem de pequenas doações. Será uma perda significativa, pois as mulheres que participaram do projeto estavam realmente necessitadas.

Vedrana disse que a maioria das mulheres são trabalhadoras informais com baixa renda, e muitas estão desempregadas, desesperadas por um emprego. Para a Associazione Stella a quarentena representou o fechamento completo das atividades, pois as mulheres que participavam do projeto são carentes de coisas como dados para seus telefones, portanto, é impossível planejar qualquer ação online.

“No último treinamento de empregabilidade que organizamos, percebi que algumas mulheres não tinham os dados para acessar em seus telefones algumas informações que eu estava dando a elas. Então agora, elas são incomunicáveis. Nosso alvo são mulheres com muitas dificuldades financeiras, então os dados da Internet são o último pensamento/urgência delas. Portanto, não faz sentido organizar algo online para as nossas mulheres. Nós criamos um grupo WhatsApp, e eu escrevi para esse grupo, mas apenas algumas mulheres responderam”, explicou Vedrana.

Mesmo para as mulheres que têm acesso à Internet, agora seus filhos também precisam usá-la como estão em casa, frequentando aulas on-line; por isso, têm prioridade no uso da Internet. Vedrana sublinha o fato de que elas falarem sobre suas experiências de trabalho quando frequentam os treinamentos de empregabilidade é um trabalho duro e muitas mulheres acham isso um desafio.

Agora com seus filhos em casa, fazer isso online é problemático, pois elas precisam de tempo e espaço para se concentrar em falar sobre suas experiências. Antes da pandemia, as mulheres migrantes estavam desesperadas por um emprego e encontravam muitas dificuldades.

Agora a situação delas é mais difícil “Elas se sentem isoladas em casa”. Muitas são mães solteiras com seus filhos, sem renda e sem os pequenos trabalhos informais que costumavam fazer. Elas não sabem o que fazer. A mídia bombardeia com informações, mas elas ainda estão confusas porque muitos delas não falam italiano.”

Vedrana acredita que uma das possíveis ações para reduzir a situação de vulnerabilidade das mulheres migrantes neste momento pode ser os vales que o governo quer implementar. Ainda assim, ela não tem certeza de como isso vai funcionar. Ela também acha que é crucial começar agora a refletir e discutir como as coisas serão organizadas após a quarentena “Não podemos acordar um dia e ter que resolver todas essas questões. Precisamos começar a pensar nas soluções agora”.

Ela sugere que algo que as mulheres podem fazer se tiverem acesso à Internet enquanto estão em quarentena, é usar o site da WhomeN para avaliar suas habilidades transversais. WhomeN é um projeto da UE que visa reconhecer as competências transversais das mulheres em risco de exclusão social.

Solidariedade para mulheres migrantes

Algumas organizações de mulheres migrantes estão usando sua rede para encontrar apoio para as mais vulneráveis e colaborando com outras organizações para enviar pacotes de alimentos para as mulheres necessitadas.

Le Fate Onus desenvolve projetos com mulheres e crianças, principalmente comunidades migrantes em Verona. Elas prestam serviços como aulas de italiano e ajudam as mulheres a ter acesso aos serviços locais para si e seus filhos. A organização também oferece cursos de artesanato e projetos para aumentar as oportunidades de emprego dentro do setor de artesanato para mulheres migrantes. Oferecem apoio psicológico às mulheres durante a gravidez, às vítimas de violência doméstica e ajudam as mulheres em dificuldades financeiras.

Cristina Cominacini, coordenadora do Le Fate, explicou que a quarentena criou um impacto significativo em seus serviços, pois a maior parte de suas atividades depende do contato físico. Eles fecharam seus escritórios e os funcionários estão trabalhando em casa.

“Além de não saber quando, quanto e como vamos ser pagos pelo trabalho que estamos fazendo, é complicado organizar atividades online porque nem todas as mulheres têm um PC ou uma boa conexão de internet. Não é a mesma coisa, para o relacionamento e para as coisas que você pode fazer”. 

Le Fate está tentando ajudar as mulheres que freqüentaram suas atividades, estando em contato o máximo possível, escrevendo e ligando para elas. Além disso, alguns educadores da organização estão ajudando as crianças a se organizarem com seus estudos, já que as escolas italianas estão ministrando aulas online. Cristina explicou que eles estão ajudando as mulheres a entender como funciona o sistema de aulas on-line para que elas possam apoiar melhor seus filhos. Le Fate também está ajudando mulheres que estão enfrentando dificuldades financeiras. “Nós podemos reabastecer no Banco de Alimentos todos os meses, então distribuímos as compras para quem precisa. Neste mês também recebemos um fundo de 1500 euros da Mag (uma sociedade mútua) com a qual nascemos, e colaboramos muito. Eles pensaram que muitas das pessoas que seguimos perderam seus empregos ou não têm proteção porque estão trabalhando ilegalmente. Assim, podemos fazer uma pequena contribuição econômica tanto para as mulheres quanto para as famílias”, explicou Cristina.

“Estão se sentindo sozinhas”. Apoio às vítimas de tráfico e exploração sexual na Itália durante a pandemia

Um relatório de 2017 sobre o tráfico de pessoas através da rota central do Mediterrâneo da Organização Internacional das Migrações (OIM) estima que 51% das vítimas do tráfico de pessoas no mundo são mulheres. A exploração das mulheres é principalmente sexual (72% dos casos). O relatório revelou um aumento da chegada de migrantes e daqueles que buscam proteção internacional na Itália a partir de 2016.

A OIM estima que cerca de 80% das mulheres e meninas nigerianas que chegam à Itália por mar em 2016 são provavelmente vítimas de tráfico para exploração sexual na Itália ou em outros países da União Européia. O relatório também chamou a atenção para o aumento significativo e preocupante das adolescentes vítimas de tráfico.

A Associazione Iroko Onlus é uma organização de ajuda às vítimas do tráfico e da exploração sexual em Turim. Eles oferecem mediação cultural e linguística, assessoria jurídica e administrativa, apoio na busca de moradia e emprego, acesso à educação e serviços de saúde. Também desenvolvem diferentes projetos de formação e preparação das mulheres para a integração no mercado de trabalho.

A Iroko também promove atividades de networking, participando de diversas conferências e reuniões. A quarentena criou um impacto significativo no trabalho dessa organização, tornando difícil o contato com todas as mulheres a quem dão apoio.

Ruby Till, responsável de comunicação da Iroko, nos disse que muitas mulheres que conhecem perderam seus empregos e agora estão lutando para pagar suas contas. Ela explicou que muitas delas não tinham um emprego antes.  Agora é muito mais difícil de encontrar porque a maioria dos serviços e indústrias estão fechados.

As visitas médicas estão paradas, exceto em casos de urgência e risco de vida. Ruby explicou que, embora a organização tenha conhecimento dos problemas que muitas mulheres que elas ajudam estão enfrentando durante a pandemia, o apoio da organização, neste momento, é limitado.

“Temos recebido denúncias de violência doméstica, mas, além de dirigi-las à polícia, não há muito que possamos fazer. Também temos recebido reclamações de outras organizações que nos pedem assistência para as mulheres que elas acompanham. Elas também estão em dificuldade. Está muito mais difícil trabalhar em rede. Há histórias de aumento da violência doméstica, mas não podemos mais acompanhar os casos como antes”.

Durante a quarentena, a Iroko disponibilizou um voluntário para dar apoio educacional as mulheres migrantes que têm dificuldades para acompanhar seus filhos com as aulas on-line. Ruby explicou que a organização está disponibilizando esse ajuda porque muitas crianças não falam italiano como língua materna, e algumas mães não frequentaram o ensino básico, então elas encontram complicações para apoiar seus filhos. Para as mulheres que estão enfrentando dificuldades financeiras, a organização está planejando distribuir cestas básicas e máscaras.  Ruby acredita que neste período é essencial ajudar as mulheres que perderam o emprego, dando-lhes um auxílio financeiro para pagar suas despesas. Muitas mulheres também precisam de assistência com a gestão de seus filhos. Além disso, é imperativo garantir que elas recebam as informações corretas em sua língua ou em uma língua que elas conheçam.

Por esta razão, Iroko está preparando uma campanha de informação, usando todos os seus canais de mídia social para informar as mulheres sobre o que é o Covid-19 e como se proteger e o que fazer se elas ficarem doentes ou saírem de casa.

Além disso, ela afirma que algo precisa ser feito para enfrentar a violência doméstica durante este período.  “As mulheres precisam ter algum tipo de palavra chave que possam usar para pedir ajuda em casos de violência doméstica, onde não tenham outra forma de escapar da pessoa que usa violência.”

Antes da quarentena, toda semana ela estava na rua conversando com mulheres que se prostituíam para entender suas necessidades e fornecer ajuda. Agora que todos estão forçados a não sair, ela trabalha em casa, em um projeto de uma rede de organizações que trabalham contra o tráfico de mulheres e a exploração sexual em Verona, com a Cooperativa Azalea

“Eu ligo para elas para perguntar como eles são, como se sentem. As mulheres se sentem sozinhas e me contam todos os seus problemas. A maioria não tinha comida em casa. Então, eu envio todas as informações para a minha coordenação, e eles as enviam para a Cáritas para lhes fornecer comida em casa. Agora elas conseguem receber comida em casa. Algumas têm problemas de saúde, e a coordenação entra em contato com os serviços de saúde para dar-lhes apoio de saúde”, explica Sandra.

Um dos principais problemas que afetam as mulheres nesse momento é a falta de mobilidade e socialização “A maioria delas se sente sozinha. Graças a Deus agora temos Facebook, telefone, televisão e luz 24 horas. Assim, elas podem se comunicar com o mundo externo usando a internet e o telefone”, diz Sandra e explica que todas as garotas que ela apóia têm Facebook. Aqueles que não têm Facebook têm o telefone, então ela consegue se comunicar com elas.

Sandra acredita que nestes tempos difíceis a comunicação é muito importante: “Ligar para elas, mostrar que alguém está cuidando delas é muito importante. Algumas não querem falar comigo, mas eu tenho tento superar essa barreira. Eu sempre digo se elas quiserem discutir algo para me ligar”.

Ela também acha que uma medida realmente importante é fornecer-lhes alimentos, já que a maioria está enfrentando dificuldades financeiras.

“É muito importante planejar o envio de alimentos para elas em casa. A maioria delas enfrenta o problema de não ter dinheiro para pagar o aluguel da casa. Como ninguém está fora, elas não estão se prostituindo, então, como vão pagar o aluguel e outras contas como gás, eletricidade? Se houver dinheiro para ajudá-las a comprar comida, será muito bom”.

Além deste trabalho, Sandra também lidera um grupo de mulheres em colaboração com a estilista Margaret Enabulele, onde elas ensinam corte e costura e artenasato.

Antes da quarentena, elas costumavam se encontrar todas as semanas, e agora se encontram online: “Estamos fazendo artesanato em casa, através do WhatsApp, para que eles não se sintam sozinhas. Nós ensinamos a elas como fazer suas máscaras. Estamos fazendo um monte de coisas online.”