É inegável que discorrer sobre a experiência da maternidade é uma tarefa complexa, sobretudo em uma sociedade majoritariamente patriarcal. Um estudo amplamente divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constata que a chegada de uma criança interfere 8 vezes mais na vida profissional das mulheres do que na dos homens. Tendo isso em vista, cabe reconhecer que discorrer sobre a experiência da maternidade migrante é uma tarefa ainda mais complexa.
Além da necessidade de reestruturar a própria carreira profissional, com vistas a gerar a renda mínima necessária que garanta um cotidiano digno, ser mãe e migrante é uma experiência de confrontamento com a incerteza. Simples tarefas rotineiras, como subir no ônibus certo, fazer o mercado do mês, comprar um remédio para febre infantil ou compreender as diretrizes fornecidas pela escola dos filhos são dificultadas por barreiras linguísticas e culturais.
Inicialmente é preciso que haja o reconhecimento de uma série de desigualdades de condições que permeiam o contexto brasileiro e que atravessam os deslocamentos humanos. Segundo o Fundo da População das Nações Unidas, 50% dos deslocamentos humanos é protagonizado por mulheres e crianças. Em eventual situação de vulnerabilidade social, conforme essas mulheres estão suscetíveis a propostas de empregos mal remunerados, violência sexual, privação de liberdade e situação de rua. Apesar desta constatação, de suma importância, percebe-se duas questões: a falta de dados e a falta de espaço de fala.
Reconhecimento e pluralidade
Quando se aborda a realidade das mães migrantes, percebe-se que os dados são ou rasos, ou fragmentados ou se encontram dispersos em pilhas e pilhas de gráficos, que apresentam uma linguagem, em alguns casos, inacessível e vaga. Também percebe-se a falta de atualização desses dados. Por exemplo: sabe-se que a maior comunidade de mães migrantes no Brasil é composta por bolivianas, seguida respectivamente por chinesas, argentinas e haitianas.
Também é sabido que essas mães se concentram na faixa etária dos 30 aos 40 anos. Mas a quantificação da realidade dessas mulheres, no entanto, não é acompanhada por iniciativas que promovem a oportunidade para que os espaços de discussão sejam efetivamente ocupados por elas.
É importante que as suas narrativas sejam o respaldo para que ações concretas fortaleçam redes de apoio e acolhimento. Ou seja: fala-se sobre essas mulheres — mas as falas delas não são recebidas por uma escuta atenta e horizontal. Quem são elas? O que precisam? A experiência de ser mãe migrante deve ser reconhecida em sua pluralidade para além dos estereótipos.
Os coletivos de mulheres migrantes têm assumido um importante e potente papel de resistência nesta luta. Mas visivelmente, ainda há um longo caminho a ser percorrido pelas iniciativas e organizações preocupadas com a promoção dos direitos dos migrantes, para que o protagonismo dessas mães seja efetivamente viabilizado. O exercício de autorreflexão de nossas instituições, nesse particular, nunca foi tão necessário.
*Mariana Kuhlmann é graduada e mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Atualmente cursa mestrado em Gestão de Educação Internacional e Liderança na Pädagogische Hochschule Ludwigsburg/Helwan University Cairo (EPOS-DAAD). Membro do ProMigra – Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes da Faculdade de Direito da USP (FDUSP).
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O Largo de São Domingos, em Lisboa, acolhe um comércio informal marcado pela participação de diferentes nacionalidades - e que ajuda a refletir a atualidade migratória de Portugal.
(Foto: Alana Moreira/MigraMundo)
De Estrasburgo (França)
Uma das mobilizações mundiais deslanchadas pela pandemia de coronavírus foi pela regularização de imigrantes como medida de combate à disseminação ao coronavírus.
O raciocínio é simples: uma vez em situação regular, os migrantes teriam mais facilmente acesso a serviços como saúde e moradia, permitindo que estes tenham mais elementos para se prevenir contra o vírus. Assim, são incluídos oficialmente nos esforços coletivos para controle da pandemia, em um movimento que beneficia a sociedade como um todo.
A partir do ocorrido em Portugal, que partiu de mobilizações da sociedade civil local, surgiram ações semelhantes em outros países, como França, Espanha, Itália — onde há uma sinalização positiva do governo — e até no Brasil.
Paralelamente, surgiu-se o movimento #RegularizaçãoJá na internet, onde pessoas do mundo todo postam fotos com a hashtag pedindo a regularização dos imigrantes sem documento nos países em que vivem.
O MigraMundo reuniu os principais casos de regularização e/ou de mobilização ao redor mundo. Leia aqui o que aconteceu em cada país e o que foi feito — ou não — pelos governos.
Com a regularização, que engloba ainda solicitantes de refúgio, tais pessoas passam a ter os mesmos direitos que todos os outros cidadãos, incluindo o acesso a programas sociais e a serviços públicos essenciais. Também poderão assinar contratos de aluguel de imóveis e de trabalho e abrir contas bancárias.
Embora não tenham sido divulgados dados por nacionalidade, a medida potencialmente beneficia a comunidade brasileira, a maior entre os imigrantes no país europeu.
Brasil: mobilização na base e no Congresso
Inspirada no ocorrido em Portugal e nas mobilizações em outros países, no Brasil há uma campanha puxada pela Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas que reivindica a regularização dos imigrantes sem documentos no país.
Com o apoio de outros coletivos e associações ligadas à temática, o movimento pede, desde o dia 7 de maio, que internautas postem fotos suas com a hashtag #RegularizaçãoJá. Para aderir à mobilização, basta entrar em contato por meio do e-mail contato@warmis.org.
Essa mobilização ganhou um reforço no último dia 15 de maio, quando a bancada do PSOL protocolou na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2699/2020. Elaborado a partir de consultas a movimentos sociais e associações ligadas à temática migratória, a proposta “institui medidas emergenciais de regularização migratória no contexto da pandemia de Covid-19 e dá outras providências”.
Inspirados no caso português, o grupo enviou uma carta (leia aqui na íntegra, em francês) ao primeiro-ministro Edouard Phillipe pedindo a regularização dos imigrantes vivendo na França como medida de proteção aos mais vulneráveis durante a epidemia do novo coronavírus.
Um grupo de parlamentares franceses enviaram carta ao primeiro ministro pedindo a regularização de imigrantes face à urgência sanitária no país.
No dia 17 de abril, o primeiro ministro respondeu à carta dizendo que não via como “necessária uma medida temporária de acesso à residência para assegurar o acesso à saúde por estrangeiros no contexto da epidemia.”
De acordo com fontes ouvidas pelo jornal francês Le Monde, o debate sobre a regularização de imigrantes já chegou ao alto escalão do Palácio de Eliseu, que discute uma possibilidade de regularizar os imigrantes que vivem na França. Entretanto, as mesmas fontes, dizem ser “impossível” uma medida do governo Macron parecida com a do governo português.
A regularização “à la Macron” seria feita “sem muito barulho”, por meio de recomendações ao governos locais de serem mais “leves” na hora de tratar dos pedidos de regularização baseados na circular Valls, um dos principais textos legais que permite a regularização dos estrangeiros com crianças.
Atualmente, entre as possibilidades legais disponíveis para a regularização de imigrantes é a demonstração do quesito “integração” no país, quesito este que deve obedecer a critérios como: ter pelo menos quatro anos de residência no país, ter feito trabalhos voluntários e dominar o idioma francês. Para aqueles que têm filhos pequenos, uma circular feita em 2012, a “circular Valls”, permite que os pais de crianças escolarizadas há pelo menos 3 anos no país possam pedir a regularização.
Porém, a família tem que comprovar cinco anos, no mínimo, de permanência no solo francês. Um bom desempenho escolar da criança também conta como algo positivo perante à Justiça.
O MigraMundo noticiou o drama de imigrantes vivendo na França durante a epidemia, inclusive a história de uma enfermeira sérvia que, sem documentação desde que chegou há 4 anos no país com um filho que tem problema motor, escreveu uma carta à primeira-dama do país pedindo o direito de trabalhar nos hospitais para lutar contra o vírus.
Enfermeira sérvia mostrou ao Migra a carta que escreveu à Brigitte Macron pedindo regularização para poder trabalhar em hospitais durante epidemia.
Espanha: mobilização social
Na Espanha, vive-se também uma mobilização social potencializada pelo movimento #RegularizaçãoJá. A mobilização com mais de cem entidades pede uma regularização sem condições dos imigrantes sem documentos no território espanhol. Estima-se que existam 600 mil pessoas vivendo sob essas condições.
Em termos de proteção de estrangeiros residindo em seu território, o governo espanhol, por meio de um decreto real (leia aqui em espanhol) estabeleceu, entre outras proteções sociais e econômicas, a extensão de 6 meses dos vistos prestes a expirar.
A jurista brasileira especializada em migrações Mariana Araújo afirmou que tal decreto não resolve o problema das pessoas sem documentação, já que ele só protege quem já usufrui de um visto e/ou residência.
Araújo integra a entidade Casa da Gente na cidade de Barcelona, que oferece suporte aos brasileiros vivendo na Espanha; a entidade também tomou parte na mobilização #RegularizaçãoJá.
Na última quarta, live promovida pela Rede Sem Fronteiras com a participação de Mariana Araújo, falou sobre o movimento mundial pela regularização dos imigrantes no contexto da pandemia do coronavírus.
Segundo ela, um dos argumentos de resistência à regularização incondicional é o de que “não se pode regularizar de forma massiva por impedimento na lei europeia”. “Mentira, pode-se sim”, afirmou ela, durante uma live no Facebook promovida pela Rede Sem Fronteiras com especialistas da Colômbia, Brasil e Espanha na questão migratória, no último dia 20.
“Na Alemanha, em 2015, foi feito isso (regularização incondicional). A lei espanhola sobre os estrangeiros, no seu artigo 127, autoriza uma regularização de maneira extraordinária em caso de situações excepionais”, acrescentou.
A jurista afirmou ainda que ela integra um grupo o qual elabora, junto com congressistas espanhois, uma proposta de lei estabelecendo a regularização incondicional dos imigrantes no país. “Já contamos com 1100 assinaturas, além de apoios no Congresso”, afirmou.
“A regularização irrestrita é uma verrdadeira necessidade. A Espanha tem quase 600 mil pessoas irregulares que trabalham no setor informal (trabalho doméstico, venda ambulante etc) e são elas que continuam saindo durante o confinamento porque elas dependem disso por não terem permissão de trabalho formal. Muitas também não podem se confinar porque não têm casas onde se confinar”, disse.
Itália: governo dá sinal verde à regularização
Na Itália, o atual governo já sinalizou favoravelmente à regularização dos cerca de 600 mil imigrantes sem documentação que vivem no país. O argumento passa não só pela questão do acesso dessa população à saúde, mas também pela questão econômica: os campos de legumes e frutas, sem os trabalhadores imigrantes temporários que chegavam ao país para trabalhar na colheita, estão a secar e com isso os agricultores perdem safras inteiras.
De acordo com as estimativas feitas ao jornal La Reppublica pela ministra Teresa Bellanova, para Políticas Agrícolas, alimentares e florestais “(por causa da política de confinamento e de não deslocamento), estão faltando entre 270 e 350 mil trabalhadores temporários no setor agrícola italiano.”
De acordo com o jornal francês Les Echos, que cita os números do grupo Coldiretti, um dos principais representantes do setor, “40% dos produtos da terra poderão não ser colhidos nesse ano.”
Essa vontade do governo italiano não passou porém sem a reação da extrema direita do país. Matteo Salvini, antigo ministro do Interior e líder do partido a Liga afirmou em um tweet: “A ministra quer regularizar centenas de milhares de clandestinos para os fazer trabalhar na colheita. Será que não seria mais sensato de ajudar os italianos que perderam seus trabalhos ou que irão perder, lhes dando prioridade – muito mais do que regularizar um exército de clandestinos?”
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O frentista angolano João Manuel, 47, que morreu esfaqueado em Itaquera no último domingo (17) em ataque com motivação xenofóbica, segundo testemunhas.
(Foto: Arquivo pessoal)
Texto atualizado às 16h10 de 22.mai.2020com posicionamento do CMI
O assassinato do frentista angolano João Manuel, 47, gerou grande revolta junto à comunidade migrante em São Paulo e associações ligadas à temática migratória. Ao mesmo tempo, motivou manifestações de repúdio, cobranças de providências por parte das autoridades e a necessidade de unir esforços contra novos atos de ódio.
Segundo apuração do portal G1, Manuel foi morto no último domingo (17) no bairro de Cidade A.E Carvalho, na região de Itaquera, zona leste de São Paulo. De acordo com testemunhas, o motivo da morte foi um discussão a respeito do recebimento do auxílio emergencial por imigrantes — que possuem direito ao benefício.
Na discussão, um auxiliar de mecânico brasileiro matou Manuel a facadas e fugiu. Outros dois imigrantes ficaram feridos ao tentar impedir o crime.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o caso foi registrado no 24º Distrito Policial (Ponte Rasa) e encaminhado ao DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), que prossegue com as investigações.
Reações
Uma das instituições que manifestou repúdio ao crime, assim como outras formas de discriminação, foi a Defensoria Pública da União em São Paulo.
“A Defensoria Pública da União em São Paulo, neste momento de profunda dificuldade para pessoas migrantes e refugiadas no Brasil e no mundo, reforça seu compromisso com a prestação de assistência jurídica, a garantia de direitos e o combate a todas as formas de xenofobia e discriminação”.
“Cabe à DPU/SP reforçar que todas as pessoas residentes no país que preencham os critérios de elegibilidade da Lei n. 13.982/2020 têm direito ao auxílio-emergencial. Não há qualquer distinção, para o acesso ao benefício, entre brasileiros e não-brasileiros, independentemente de sua situação migratória”.
A Rede de Cuidados em Saúde para Imigrantes e Refugiados citou o assassinato de Manuel em meio a um contexto político que criminaliza as migrações. “Esta é uma situação grave derivada da deterioração das políticas migratórias em anos recentes e que pode parecer isolada à primeira vista, mas que integra um contexto de acirramento de expressões de racismo e xenofobia”.
“É preciso romper o silêncio sobre o aumento das violências e o discurso de ódio contra imigrantes no contexto de crise intensificada pela pandemia, todas as vidas importam”.
Pedido de união e de providências
Também por meio de nota, o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante) manifestou pesar pelo crime de ódio e também fez um apelo à sociedade civil para se unir contra esse tipo de prática.
”Nossa solidariedade à comunidade angolana que tem uma presença histórica no Brasil e as demais nacionalidades, que juntas, almejam a conquista, reconhecimento e a garantia dos seus seus direitos. Mesmo em momentos difíceis como o que passamos, é importante a sociedade civil organizada monitorar, acompanhar, denunciar e fornecer todo o suporte necessário.”
O Conselho Municipal de Imigrantes (CMI) também divulgou nota na qual cobra providências contra o crime e outros atos de ódio.
“O CMI expressa solidariedade às vítimas e seus familiares pelo acontecimento ocorrido na região leste de São Paulo e solicita a todos os órgãos competentes a máxima diligência para que esse crime não fique impune”.
Ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, o colegiado é composto por imigrantes e associações ligadas à temática migratória, além de representantes do poder público municipal. Ele tem como objetivo promover a participação social junto às políticas públicas voltadas à população migrante.
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Entrega de doações de cestas básicas e kits de higiene em São Paulo pela África do Coração em parceria com a Cruz Vermelha e Projeto Parabéns no dia 3 de maio de 2020.
(Foto: Divulgação/África do Coração)
ONGs, coletivos, institutos e pequenos negócios têm assumido a linha de frente na assistência aos mais vulneráveis na atual pandemia de coronavírus — e em relação a imigrantes e refugiados não têm sido diferente.
Diante da necessidade de isolamento social imposta pela covid-19, muitas entidades fecharam suas portas fisicamente, mas continuaram suas ações de solidariedade.
Confira abaixo a campanha de cada uma delas e como ajudar. Caso saiba de alguma iniciativa que não esteja nesta lista, por favor informe pelo e-mail blogmigramundo@gmail.com — ela será atualizada à medida que novas indicações surgirem.
Missão Paz
A Missão Paz, em São Paulo, continuam abrigando 65 pessoas de diferentes nacionalidades e contextos de vulnerabilidade social na Casa do Migrante. Para poder continuar garantindo seu funcionamento, a instituição pede doação de alimentos não perecíveis, produtos de limpeza, itens de higiene pessoal ou contribuições em dinheiro para a compra do necessário.
Quem quiser ajudar pode usar o PagSeguro, fazer uma transferência bancária ou ir entregar pessoalmente os produtos na Rua Glicério, 225, mas antes é preciso ligar para (11) 3340-6950.
Nome Fantasia: Casa do Migrante Razão Social: Pia Sociedade dos Missionários de São Carlos Banco Bradesco Agência: 515-0 Conta corrente: 34123-1 CNPJ: 62.806.682/0004-24
África do Coração
A ONG, fundada e composta por imigrantes e refugiados, vem promovendo diferentes ações de distribuição de kits de limpeza e alimentos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. Na último dia 10 de maio, por exemplo, 180 cestas foram entregues na capital paulista e 500 diferentes cidades do sul.
A ONG pretende ainda realizar distribuição também nas outras três cidades em que tem representação — Florianópolis, Brasília e Rio de Janeiro. Contatos podem ser feitos pelo email contato@africadocoracao.org ou WhatsApp (11) 96737-8710.
Africa do Coração Banco Bradesco S.A Agência: 0515 Conta: 0005122-5 CNPJ: 25.224.617/0001-11
CAMI – Centro de Apoio e Pastoral do Migrante
Para amenizar as adversidades enfrentadas por imigrantes e refugiados oCAMI, em parceria com outras entidades, tem arrecadado e distribuído alimentos e kits de higiene. É possível colaborar sendo voluntário nas ações de entrega ou fazendo doações em dinheiro. Mais informações podem ser adquiridas por meio do email servicosocial@cami.org.br ou dos telefones (11) 3333-0847 / (11) 96882-9547 / (11) 96212-9313.
CAMI – Centro de Apoio e Pastoral do Migrante Banco do Brasil Agência: 0383-2 Conta Corrente: 46077-X CNPJ: 19.122.009/0001-01
Al. Nothmann, 485 – Campo Elíseos Segunda e Sextas-feiras: 15h00-17:00
CEMIR – Centro da Mulher Imigrante e Refugiada
Sabendo que as mulheres e as crianças são as mais afetadas por situações de violência doméstica, o CEMIR, em São Paulo, também está com uma campanha ativa de arrecadação de recursos para assistir as mulheres migrantes atendidas pela instituição.
As doações podem ser feitas através da conta da organização e por meio de alimentos e produtos de higiene. Caso queira entregar pessoalmente, é preciso entrar em contato (Soledad 11 95845-2979 / Elisete: 11 98616-8700 / cemir.mulherimigrante@gmail.com).
Banco Itaú Ag. 0440 / CC 20414-7 CNPJ – 29.745.640/0001-02 CEMIR – Centro da Mulher Imigrante e Refugiada
Equipe de Base Warmis
A Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas, coletivo formado por mulheres imigrantes voluntarias em São Paulo, visa garantir assistência para mulheres imigrantes (mães solo, mulheres trans, pessoas com útero e não-bináries) sem acesso ao auxílio emergencial do Governo Federal. O grupo, além de divulgar nas redes sociais informações úteis sobre a quarentena, também fez uma campanha de arrecadação de cestas básicas. Até hoje 170 cestas foram entregues para mulheres imigrantes em situação de vulnerabilidade. Para mais informações, o coletivo indica suas páginas em redes sociais.
Veja abaixo os dados bancários para ajudar com a campanha (favor enviar o comprovante no e-mail contato@warmis.org)
Banco do Brasil Agência. 3558-0 Conta Corrente 21.851-0 CPF 233.715.718-07 Elvira Riba Hernández
Talal Culinária Síria
Talal Al-Tinawi e Ghazal Baranbo, responsáveis pelo Talal Culinária Síria, decidiram no início da pandemia distribuir, por conta própria, 300 marmitas para aqueles acima de 65 anos. Hoje, a campanha continua com a ajuda de doações. Cada R$ 20 enviado ao casal corresponde a uma refeição — até hoje, mais de 1.000 marmitas já foram entregues.
Qualquer pessoa pode contribuir com a iniciativa de distribuição de refeições, por meio de depósito bancário. Maiores informações podem ser obtidas junto ao casal por meio do celular/ WhatsApp (11) 96622-1305.
Banco Itaú agência 0772 Conta 20928-4 Talal Altinawi
PAL – Presença de América Latina
Atuante em ações sociais e de empreendedorismo, a PAL lançou a campanha “Soy Latino, Soy Solidario”, que visa apoiar famílias de imigrantes que foram afetadas de forma mais séria pela pandemia. No final de abril, mais de 1.000 cestas básicas já haviam sido direcionadas para famílias vulneráveis.
Cada cesta básica tem o custo de R$ 60, mas qualquer valor é aceito em doações.
Presença da América Latina – PAL Banco Itaú Agência: 8667 Conta corrente: 03888-2 CNPJ: 07.080.188/0001-74
Instituto Adus
Com o apoio do coletivo As Yabás, do Movimento dos Sem Terra (MST), do Instituto Embelleze Grajaú, da Cruz Vermelha de São Paulo, do Restaurante Le Petit Village e de moradores da região central, voluntários do Instituto Adus realizaram a distribuição de alimentos e produtos de higiene para famílias de imigrantes atingidas pela pandemia.
Além disso, em parceria com a Sodexo, cartões com saldo de R$ 300 serão disponibilizados para 100 famílias de refugiados comprarem alimentos durante a pandemia. Para ajudar a campanha, basta fazer uma colaboração com o valor desejado por meio do site: https://www.catarse.me/ajude_um_refugiado_na_quarentena_c5c7
Bibli-ASPA
Na zona oeste de São Paulo, o centro de cultura e de pesquisa dedicado a temas africanos, árabes e sul americanos está com a equipe e estrutura mobilizadas para promover ações emergenciais de apoio a migrantes, refugiados e moradores em situação de rua durante a crise da covid-19.
A coleta de materiais de prevenção (álcool em gel, luvas, máscaras e aventais), produtos de limpeza e higiene, alimentos não perecíveis, cestas básicas e passes de metrô e ônibus estão sendo recebidos na Rua Baronesa de Itu, 639 – Santa Cecília de quina a segunda das 8h às 17h. Quem preferir apoiar em dinheiro, basta enviar a quantia desejada para:
Banco do Brasil Agência 3043-0 Conta Corrente: 12348-2 CNPJ: 08.801.010/0001-38
Asociacion de mujeres inmigrantes Luz y vida
A pandemia tem afetado diretamente os migrantes e refugiado no Brasil e, consequentemente, seu poder de compra. Neste sentido, a campanha visa arrecadar latas de leite em pó e fraldas de todos os tamanhos para famílias migrantes sem recursos. A associação atua em São Paulo.
Para mais informações entrar em contato: Miriam – (11) 95371-7544 Hiordana – (11) 95131-8676
Arsenal da Esperança
Para manter seu funcionamento, a casa de acolhida localizada no bairro da Mooca, em São Paulo, pede a doação urgente de produtos de limpeza/higiene e alimentos não perecíveis.
Dentro dessas categorias, sugerem arroz, feijão carioca, óleo de soja, farinha de mandioca, açúcar refinado, sal refinado e café. Além de sabonetes (pedra e líquido), álcool 70% (gel e líquido), pasta de dentes (P), papel higiênico, barbeador e espumas de barbear, desodorantes roll-on, cândida, máscaras e luvas descartáveis (tamanhos M e G)
Para mais informações : Tel. (11) 2292-0977 e-mail: arsenaldaesperanca@sermig.org.br
As doações podem ser entregues no próprio Arsenal da Esperança, na Rua Doutor Almeida Lima, 900 – 03164-000 Mooca – SP. Depósitos também são aceitos:
Integrantes do Português de Acolhimento da escola Vila Brasil, de Brasília, mobilizaram-se para arrecadar dinheiro e produtos essenciais aos necessitados. Na primeira fase da campanha, com o valor arrecadado, o grupo conseguiu comprar 44 cestas básicas, quatro botijões de gás de cozinha e pagar a gasolina para o transporte até as casas dos alunos, ajudando 36 pessoas.
A campanha da empresa socioambiental destina o valor integral arrecadado ao financiamento e à produção de alimentos orgânicos, garantindo a entrega segura para famílias refugiadas no Distrito Federal durante a pandemia do novo coronavírus.
A contribuição pode ser feita na quantia de R$ 340, o que corresponde à cota mensal, ou de R$ 85 para uma cesta avulsa.
Por avaliar que os migrantes estarão entre os principais afetados pela paralisação das atividades econômicas durante a pandemia, o Cibai Migrações, missão da igreja católica que atua em conjunto com a Paróquia da Pompéia, em Porto Alegre, lançou campanha “Somos um só planeta. A vida vale mais”. O objetivo arrecadação de alimentos para migrantes
As doações de alimentos podem ser feitas diretamente na Paróquia da Pompeia, na Rua Barros Cassal, número 220, no centro de Porto Alegre. A igreja também busca os donativos, desde que seja acionada pelo telefone (51-98450 9153).
Cidade Invisíveis
O intuito da campanha é distribuir cestas básicas nas comunidades Frei Damião e Morro da Mariquinha e em um centro de acolhimento de imigrantes e refugiados em Florianópolis. Em três dias foram arrecadados mais de R$ 15 mil e compradas 300 cestas básicas. Doações podem ser feitas através de transferências para a conta abaixo:
Banco Sicoob n. 756 Ag 3258 CC 6145-0 CNPJ 20812195/0001-81 Projeto Cidades Invisíveis
Atendimento ao Migrante – CAM
Desde a confirmação do primeiro caso de contaminação por coronavírus em Caxias do Sul (RS), o CAM tem promovido ações para ajudar imigrantes e refugiados que recorrem à entidade em busca informações e assistência.
Para além de cestas básicas, pede-se também leite, frutas, verduras e produtos de higiene pessoal e de limpeza.
Para mais informações sobre a campanha e como ajudar: e-mail aesc.cam@aesc.org.br, o telefone (54) 3027-3360 e WhatsApp (54) 99107-8434.
Associação dos Amigos de Juiz de Fora – Aban
A Associação está recebendo doações de alimentos e materiais de limpeza para distribuir aos refugiados que vivem na cidade e foram atingidos pela crise econômica causada pelo novo coronavírus.
Quem puder colaborar deve entregar alimentos e materiais de limpeza no laboratório Neolab na Avenida Olegário Maciel, nº 2131, Bairro São Mateus.
Arquidiocese de Manaus
A iniciativa da Arquidiocese de Manaus, em conjunto com outras pastorais, visa assistir populações mais vulneráveis durante a crise da COVID-19. Além dos imigrantes, Campanha Solidária: Puxirum Manauara atende população em situação de rua, indígenas e catadores de materiais recicláveis.
As doações de roupas, alimentos e materiais de limpeza/higiene podem ser entregues, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na sede da Cáritas Arquidiocesana na Avenida Joaquim Nabuco, nº 1.023, Centro de Manaus.
Quem quiser contribuir em dinheiro, basta fazer um depósito.
Cáritas Arquidiocesana de Manaus Banco do Brasil Agência: 1862-7 Conta Corrente: 7570-1 CNPJ:04.209.813/0001-47
Mawon
Atuante no Rio de Janeiro, a ONG Mawon desenvolve uma série de ações de promoção a imigrantes e refugiados. E conta desde 5 de maio com uma campanha de financiamento coletivo para apoiar famílias de imigrantes em situação vulnerável.
Para arrecadar fundos,a ONG está vendendo rifas de R$ 10 da linda mochila da Dior Thiam, marca de roupas e acessórios africanos do senegalês Ousmane Mbaye, participante do Empregadorismo — um dos projetos da Mawon.
As doações podem ser feitas pela plataforma Vakinha (a partir de R$ 25) ou em qualquer valor por meio de transferência bancária.
Associação Brasileira de Apoio à Integração de Migrantes CNPJ 29.278.782/0001-07 Caixa Econômica Federal Ag.: 1327 C/C: 00002349-9
Para o caso de doações via transferência, a Mawon pede que seja feito o envio de um e-mail para contato@mawon.org confirmando o valor doado, nome completo e CPF do doador.
IMDH
O IMDH (Instituto Migrações e Direitos Humanos), com atuação no Distrito Federal e em Roraima, é uma das referências no atendimento e orientação a imigrantes nos dois Estados. Para manter as operações, a entidade disponibilizou dados bancários para captar doações
Instituto Migrações e Direitos Humanos Banco do Brasil Agência 1419-2 C/C 121.578-7 CNPJ: 03.591.517/0001-90
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Quadro do artista congolês Lavi Israël, inspirada na pandemia de coronavírus. Foto foi cedida ao MigraMundo pelo próprio artista
Por Priscilla Pachi
Vivemos um momento caótico em virtude da pandemia do novo coronavírus Sars-Cov-2, causador da Covid-19. Este vírus foi inicialmente detectado na China e espalhou-se pelo mundo, atingindo todos os continentes e isolando milhares de pessoas e vitimando tantas outras.
A pandemia nos revela que vários são os desafios a serem enfrentados pelas nações do mundo inteiro no que diz respeito ao controle da disseminação da doença, a capacidade de atendimento dos hospitais e das equipes médicas e os efeitos nocivos para a economia mundial quando esta maré recuar e nos possibilitar respirarmos com um pouco mais de tranquilidade.
Uma das questões que devemos levantar e que nos últimos anos tem sido manchetes de jornais, revistas e de noticiários televisivos é a questão dos fluxos migratórios: o que muda e como enfrentar o coronavírus?
A mobilidade humana e os fluxos migratórios sofreram uma grande paralisia por conta dos controles de entrada e saída de pessoas, o fechamento de fronteiras e a diminuição dos meios de transporte.
Frente à esta situação vários refugiados, que estão espalhados em campos mundo afora, escancaram as deficiências da possibilidade de controle do vírus. Condições precárias de vida e de higiene, aglomeração de pessoas, saúde fragilizada em decorrência de alimentação pobre em nutrientes são condições mais do que favoráveis para a disseminação de várias doenças, mas sobretudo neste momento, da Covid-19. Some-se a isso a impossibilidade de muitos terem acesso ao sistema de saúde do país em que estão refugiados.
É com base em discursos de contenção de fronteiras e contra a imigração que os quadros podem se agravar como o que vemos nos EUA com a deportação de imigrantes indocumentados que entraram em território norte americano como solicitantes de asilo e pelos imigrantes que não procuram o sistema de saúde porque não possuem recursos e temem serem deportados com suas famílias.
A Alemanha recebeu 47 crianças e adolescentes desacompanhados vindos do Afeganistão, Síria, Iraque e Eritreia que viviam em campos de refugiados na Grécia. Esta ação faz parte do acordo firmado entre sete países membros da União Européia (Alemanha, Luxemburgo, França, Irlanda, Finlândia, Portugal, e Croácia) para receber 1.600 migrantes menores desacompanhados que estão na Grécia. Porém, somente a Alemanha se disponibilizou em receber esses menores neste momento de pandemia.
Imigrantes e refugiados compartilham com os brasileiros uma dura realidade face à pandemia. Muitos estão inseridos na economia informal, sem proteção social ou são micro empreendedores ligados, principalmente, ao ramo de alimentação e que foram duramente afetados pelo fechamento de seus negócios. Além disso, muitos estão desempregados e vivem de forma precária nas grandes cidades brasileiras.
Em pesquisa de mestrado recentemente defendida na USP sobre imigração haitiana em São Paulo, foi possível verificar a situação desses imigrantes que lutam diariamente pela sobrevivência e vivem em habitações que são divididas com vários outros imigrantes. Esta situação também faz parte do cotidiano de imigrantes e refugiados de diversas nacionalidades que vivem no país .
Desse modo, brasileiros, imigrantes e refugiados também vivem em comunidades, em ocupações e muitos estão em situação de rua, desprovidos de acesso à água potável e saneamento básico, o que agrava ainda mais as condições mínimas de higiene e de cuidados com a saúde.
Recentemente o governo brasileiro disponibilizou por um prazo de três meses um auxílio emergencial de R$ 600 aos trabalhadores informais, desempregados e microempreendedores individuais. Imigrantes e refugiados podem e devem recorrer ao governo para pedirem este auxílio.
Para melhor explicar como solicitá-lo, o governo, na figura do Ministério da Cidadania, em parceria com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e a OIM (Organização Internacional para as Migrações) traduziu para o espanhol as regras para a obtenção do auxílio para que boa parte dos imigrantes possa entender os procedimentos sem esbarrarem em dificuldades linguísiticas.
No entanto o mesmo texto deveria ser traduzido também para outros idiomas como o francês e o inglês para que a maioria pudesse ter acesso às mesmas informações.
Além do suporte que vem sendo dado aos mais vulneráveis, é preciso destacar que a existência do SUS faz toda a diferença neste contexto no qual vivemos e termos um Sistema Único de Saúde que atende aos brasileiros, imigrantes e refugiados, nos difere positivamente de países desenvolvidos como os EUA e isso merece todo o nosso reconhecimento.
Conforme a Constituição Federal de 1988, a “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. É nesta máxima que a saúde pública e gratuita possibilita à toda população, sem discriminação, o acesso ao atendimento de saúde básica até procedimentos mais complexos.
Sabemos que no caso da pandemia nenhum sistema de saúde está preparado para o máximo de atendimentos e que o colapso da saúde é inevitável se medidas como o isolamento social não forem cumpridas, mas somente a possibilidade da garantia de poder ter um atendimento médico para todos faz do Brasil uma das poucas exceções no mundo e que merece destaque.
Infelizmente imigrantes e refugiados mundo afora não contam com atendimento médico e hospitalar gratuito, o que impossibilita o acesso à saúde e ao tratamento de inúmeras enfermidades. Muitos dos imigrantes que estão no Brasil reconhecem a importância e a diferença que o Sistema Único de Saúde brasileiro faz em suas vidas.
No que pese a diferença no tratamento recebido por imigrantes e refugiados em várias partes do mundo, cabe ressaltar que países desprovidos de saúde pública gratuita condenam as pessoas mais vulneráveis, social e juridicamente, à situações degradantes quando comparadas aos imigrantes e refugiados que estão em território brasileiro e que contam com o atendimento médico e hospitalar público gratuitos.
Apesar da existência do SUS, a realidade que é imposta ao Brasil devida a imensa desigualdade social existente revela a impossibilidade de termos um discurso único sobre a quarentena, o isolamento social, a utilização de máscaras e do álcool em gel, a partir do momento que uma grande maioria vive na urgência da sobrevivência diária e não disponibiliza de condições mínimas de higiene para a dignidade de suas vidas, conforme foi possível apurar nos trabalhos de campo realizados pela cidade de São Paulo durante a pesquisa de mestrado que apontou a vulnerabilidade e a precariedade de vida dos imigrantes.
A situação atual exige responsabilidade com a gravidade da pandemia e um olhar mais humano para os mais necessitados, pois apesar do vírus acometer a todos, sabemos que as pessoas mais vulneráveis da sociedade (população carente, moradores de rua/ocupações, refugiados e migrantes em situação de desemprego) serão as mais afetadas e as maiores vítimas do inimigo invisível.
*Priscilla Pachi é doutoranda do PPGH – USP . Possui graduação em Geografia pela Universidade de São Paulo (2006), graduação em Turismo pelo Centro Universitário Ibero Americano (1993) e mestrado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo (2019). Tem experiência na área de Turismo, com ênfase em Marketing/Comunicação e Interculturalidade. É pesquisadora dos seguintes temas: imigração, cidade global, precarização do trabalho e estado.
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O clima na comunidade brasileira no exterior era majoritariamente de apoio a Jair Bolsonaro, então candidato durante as eleições presidenciais de 2018. Mas após o presidente brasileiro ter adotado posturas polêmicas frente à uma crise sanitária sem precedentes na história contemporânea mundial, qual é o clima entre os mais de 1,6 milhão de brasileiras e brasileiros que vivem fora do país ?
O MigraMundo conversou com oito brasileiros residindo em três diferentes continentes: Europa, América do Norte e Oceania — locais onde a imprensa critica acidamente o presidente brasileiro.
Os entrevistados se disseram insatisfeitos com a postura de Bolsonaro, descreveram sentimentos como ira, decepção e medo frente ao que chamaram de “postura irresponsável” do presidente ao longo da crise sanitária provocada pelo vírus Covid-19.
De acordo com dados divulgados no último sábado (17) pelo Ministério da Saúde apontam que o Brasil já registra 241 mil casos de coronavírus, com 16.118 mortes. Tais números já colocam o país como o quarto mais afetado pela pandemia, atrás somente de Estados Unidos, Reino Unido e Rússia.
Em vários Estados brasileiros o sistema hospitalar já se aproxima de um colapso, além das suspeitas de subnotificação de casos de vítimas do Covid-19.
Todos os entrevistados se mostraram altamente sensíveis ao número de mortes e ao fato de que a parcela mais pobre da sociedade estaria muito mais exposta à contaminação por conta das precárias condições em que vivem.
Da Inglaterra, a administradora Marina Carnelós se disse decepcionada com Bolsonaro e denuncia pobreza no Brasil e irresponsabilidade do presidente. (Foto: MC/ Arquivo pessoal)
“O Bolsonaro foi uma das maiores decepções (…) a gente confiou nele para gerenciar o Brasil e ele está traindo o país”, afirmou a administradora de empresa Marina Carnelós, 28, moradora da cidade de Bournemouth, na Inglaterra.
Marina votou em Bolsonaro nas últimas eleições acreditando que ele tinha uma boa equipe para gerenciar o Brasil. No entanto, seu apoio ao governante foi diminuindo desde o início da epidemia.
“Eu apoiei o Bolsonaro porque eu queria mudança (o que eu continuo querendo para o Brasil) e porque ele não era do PT, eu sabia que o Haddad seria só mais uma marionete”, contou Marina. E acrescentou: “O plano de governo de Bolsonaro era um plano muito bem estudado, com estratégias e estatísticas. Eu via no Bolsonaro um administrador que o país precisava.”
Sobre os posicionamentos polêmicos de Bolsonaro, Marina afirmou que ela não concordava com os seus princípios, mas achava que o então candidato tinha escolhido uma boa equipe, e que ele “iria deixar a sua boa equipe trabalhar.”
“Acontece que com o Covid, o fato dele ter demitido o Mandetta no meio de uma pandemia, o desrespeito às orientações da OMS, a ida a passeatas quando vidas estão sendo perdidas, ele dizendo “E daí?” quando muita gente está morrendo… eu vi que não era possível”, afirmou.
“Ele ultrapassou todos os limites da humanidade”, acrescentou a brasileira, que informou estar arrependida de seu voto, dizendo que é a favor da interdição do presidente.
Da Suíça, o engenheiro Suedemborg Franco pede ao presidente “foco”, aumento de testes e tratamento da população. (Foto: SB/Arquivo pessoal)
Marina contou ainda que seus amigos, moradores da mesma cidade na Inglaterra, estão também “profundamente decepcionados” com Bolsonaro, a quem apoiaram. Tal relato coincide com os outros relatos feitos pela maioria do grupo entrevistado.
“Muitos brasileiros aqui da Califórnia apoiaram Jair Bolsonaro durante as eleições. Com o passar do tempo, alguns mudaram o discurso, especialmente agora com as atitudes do presidente durante a pandemia” , afirmou o empresário Guilherme Tigan, 30 anos, em San Diego, nos Estados Unidos. Ele, por sua vez, informou nunca ter apoiado o presidente.
“Se eu já não estava satisfeito com o trabalho realizado pelo Bolsonaro antes da pandemia, agora piorou. A falta de tato com que o presidente trata as pessoas que estão doentes e as pessoas que estão trabalhando para mudar o cenário, é inadimissivel. Isso sem contar que tudo isso não passa de uma “gripizinha”, na visão dele”, afirmou Guilherme.
Marina Sugrue, 29 anos, jornalista, que também mora nos Estados Unidos, mas em Chicago, afirmou que apesar de não ter apoiado o presidente quando candidato, entende que “o país estava buscando uma mudança, e que muitos pensaram que ele seria a salvação para a nação.”
De Chicago, a jornalista Marina Sugrue se diz aterrorizada com a realidade no Brasil , onde tem pais idosos morando no interior. (MS/Arquivo pessoal)
Perguntada sobre a sua opinião, Marina o chamou de “irresponsável, sem nenhuma empatia para com as famílias que perderam seus pais, avós, filhos.”
Os familiares de Marina apoiaram e votaram no atual presidente da República, mas hoje, segundo ela, “eles se arrependeram” ou “não se conformam quão irresponsável ou incoerente ele é frente à pandemia.”
A assessora de imprensa Alana Moreira, 41, fala sobre o “silêncio” dos brasileiros que votaram em Bolsonaro em Lisboa, Portugal, onde mora desde 2017 — e um dos países onde o presidente teve mais votos, vindo depois apenas dos Estados Unidos, Japão e Inglaterra.
Segundo Alana, durante as eleições a parcela da comunidade brasileira a favor do atual presidente manifestou “de forma agressiva” o seu voto, “obrigando os blocos de esquerda a chamar a polícia para assegurar a votação na Universidade de Lisboa”.
“Mas depois disso eu não vi mais uma manifestação a favor, o que se tem hoje é um silêncio muito grande de quem votou nele.”
Alana afirmou que o governo está agindo de maneira “assustadora”: “É de uma irresponsabilidade tamanha (…) esse desprezo à ciência é algo assustador”, afirmou.
Myrna, tradutora intercultural na Suíça, se incomoda com debate político raivoso e denuncia falta de liderança de Bolsonaro. (Arquivo pessoal)
Da Suíça, o engenheiro Suedemborg Franco, 36 anos, e a tradutora intercultural Myrna, 56 anos, também opinaram. Suedemborg afirmou que o governo agiu com antecedência, antes do vírus se espalhar largamente. “Mas depois vários problemas transcorreram, como por exemplo, a quantidade baixa de testes, o que camufla o tamanho do problema e assim abafa ações necessárias e urgentes, além de alguns discursos sem cabimento do presidente.”
Myrna, que mora fora do Brasil há 19 anos, habitante da pequena cidade de Birrhard há pouco mais de 30 km de Zurique, não frequentava o noticiário brasileiro nos últimos tempos. A sua percepção de Bolsonaro era a mesma dos jornais suíços, críticos ao governo brasileiro por causa de acontecimentos como as queimadas na floresta Amazônica.
Myrna contou que foi muito incentivada por uma amiga a votar em Bolsonaro por “não ser o PT”. “Mas eu não tive coragem de botar o X no seu nome, ele me parecia muito despreparado intelectualmente”, afirmou ela, que contrariamente ao seu hábito de sempre votar nas eleições presidenciais desde os 16 anos, decidiu se abster em 2018.
Sobre os tempos que correm no Brasil, Myrna disse que o presidente “não assume uma postura de liderança”, como quando foi contra a política de isolamento do seu então ministro Luiz Henrique Mandetta.
De Sidney , Victor Olivieri chama negacionismo de Bolsonaro de assustador e propõe ao governo que adapte medidas utilizadas por outros países à realidade brasileira. (Foto: VO/Arquivo pessoal)
Myrna reclamou da falta de especialistas assessorando Bolsonaro, do presidente ter subestimado os efeitos do vírus, e de ter tido atitudes “provocadoras e irresponsáveis” como o juntar aglomerações de pessoas, provocando “insegurança no povo, medo, impedindo um enfrentamento efetivo da situação”, afirmou ela, que relatou ter colegas de trabalho no Brasil que não sabem a quem obedecer, se ao governo local ou ao governo federal.
“Eu comparo (as atitudes do presidente) com a atitude responsável e de liderança das autoridades daqui, que fazem o povo saiba da gravidade, mas que sinta que é possível superar a crise.”
Moradora da cidade de Barcelona, na Espanha, Mariana Araújo, 29, jurista especializada em migrações, disse que quem está “salvando Brasil é o federalismo”, por estar contendo a crise criada pelo Executivo federal graças às suas estruturas.
A brasileira culpou Bolsonaro pelas consequências da epidemia no Brasil e também responsabilizou os seus eleitores.
“Existe uma diferença entre responsabilidade e culpa, como escreveu (Hannah) Arendt (renomada filósofa alemã por suas teses sobre a condição humana e a banalidade do mal). A culpa pelas mortes Bolsonaro vai carregar para sempre, mas eu acredito também que quem votou nele tenha sim responsabilidade com o que está acontecendo.”
Em Sidney, na Austrália, o jornalista Victor Olivieri, 26 anos, afirmou que o sentimento que perpassa a comunidade brasileira na cidade australiana é “misto”.
“O sentimento é misto, algumas se decepcionaram, mas ainda há apoiadores, que acreditam que o governo tem feito o possível para solucionar a crise, tentando retomar a economia dentro de uma quarentena mais flexível”, afirmou.
E acrescentou: “ Na minha opinião, o governo falhou e segue falhando ao não encontrar um plano de medidas sério e claro. É desesperador ver as crises que a própria gestão cria, indo equivocadamente na contra-mão dos médicos e cientistas, além do fato do apoio a manifestações pela volta do regime militar, algo que é ainda mais assustador.”
O Brasil (quando o vemos) de longe
As condições de vida da população mais pobre no Brasil choca os que vivem longe quando falam sobre as mortes pelo vírus. A maioria dos (as) entrevistados (as) tem parentes em grupos de risco, o que lhes causa preocupação por estarem longe.
“É assustador (estar longe do Brasil nesse momento). Eu não tenho nenhum familiar morando aqui nos EUA, meu maior medo é que algum familiar no Brasil fique doente e não tenha acesso ao tratamento ou que o hospital não tenha recursos suficientes (quarto, respirador, equipe médica), que seria o caso de meus pais que moram em cidade do interior e estão acima de 60 anos.”, disse Marina Sugrue, em Chicago.
Mariana Araújo, que mora em Barcelona e está atualmente no Brasil com os pais durante a epidemia, afirmou que o grande debate deste momento é fazer ou não a fila única nos hospitais, sem distinção entre pacientes privados e públicos.
Poder pagar por leitos privados explicita, segundo ela, uma elite da qual ela diz fazer parte. “Somos parte de uma certa elite que não conhece o Brasil (…) O Brasil não é o que a gente vive, o Brasil não é a Suiça, o Brasil não é o que mostra a propaganda do governo.”
Da Inglaterra, Marina Carnelós disse “ser um absurdo o Brasil ter pessoas sem saneamento básico e que vão morrer também de fome se o governo não fizer nada.”
Alana Moreira, de Lisboa, disse ser “preocupante viver fora do Brasil, porque “não conseguimos deixar tudo pra trás. Temos pais idosos, mesmo que tenham seguro privado, nós não sabemos se haverá luga para eles nos hospitais.”
“E eu me sinto realmente triste e preocupada porque vive-se em uma insegurança, numa falta de amparo, de responsabilidade”, afirmou Myrna, brasileira na Suíça, onde ela se sente segura quanto à gerência da crise sanitária, assim como Suedemborg.
Victor e Guilherme, um na Austrália e outro nos Estados Unidos, se dizem aliviados e satisfeitos por viverem em países que gerenciam bem a epidemia.
Epidemia escancara ignorância política
Dois elementos agravadores da crise sanitária foram recorrentes nas respostas dos (as) entrevistados (as): o fosso entre a política brasileira e a realidade do Brasil e a falta de educação política da população.
Para a jurista Mariana Araújo, existe uma falta de interesse da população brasileira, que acaba “diminuindo” tudo o que é política. “Eu li há dez minutos no Whatsapp mensagens de conhecidos meus dizendo que não queriam discutir política mas sim saúde, como se ambos não estivessem ligados”, afirmou.
“O Brasil tem dificuldade de fazer esse link (porque) a educação em política é muito precária”, acrescentou ela, que disse ainda estar “cansada de discutir questões mínimas, básicas e claras”, como por exemplo que “não se coloca presos em containers ou que diante de uma epidemia não podemos escolher de acordo com a conta bancária.”
A tradutora Myrna disse se incomodada com “o debate político raivoso” no Brasil, implementado, segundo ela, pelo ex-presidente Lula e pelo PT em 2002 quando eles dividiram a sociedade entre “pobres x ricos”.
“Eu conheci o Brasil antes dessa divisão, quando se debatia política sem se ter raiva uns dos outros. Mas o Lula foi implantando essa divisão, o tempo foi passando e isso foi se arraigando e se radicalizando, sem ser percebido. E temos o que temos hoje.”
Para a administradora Marina, na Inglaterra, a política é sinônimo de enriquecimento privado, por isso o interesse dos políticos de estarem lá, enquanto o país, de 270 milhões de habitantes, tem pessoas sem saneamento básico e que passam fome, além do fato de pagar impostos e não receber retorno.
Recados e propostas a Bolsonaro
“Se você tivesse quinze minutos de reunião com o presidente da República, o que você falaria e/ou proporia para ele?”, questionou a reportagem a todos (as) os (as) entrevistados (as).
“Eu não ia ter nem tempo para propor, eu ia esculachar: “Cadê a sua humanidade? Você foi uma das maiores decepções. Nós confiamos em você para gerenciar o país e você o está traindo”, respondeu Marina Carnelós, na Inglaterra, que votou em Jair Bolsonaro e hoje se arrependeu.
Da Austrália, Victor Olivieri gostaria de propor um plano de ação a Bolsonaro: “Gostaria de propor ao Bolsonaro que começasse agindo seriamente, como um presidente diante de uma crise. Seria interessante pegar o exemplo da gestão feita por outros países e adequar às nossas necessidades. Criar um plano de ação contra a pandemia, e parar de negar os fatos e não continuar polarizando a sociedade.”
Mariana Araújo, de Barcelona: “ Eu tinha muita vontade de encontrar com ele, porque eu tenho curiosidade de saber o que acontece na cabeça dele. Mas eu acho que não adiantaria falar com uma pessoa que só faz as coisas do seu jeito. Mas eu acho que eu ia dar uma de jornalista chata.”
Da Suíça, Myrna disse: “ Eu acho que eu nem ia gostar de ver ele. Eu ia preferir não ir porque não é coisa que a gente possa falar que vai entrar na cabeça (do presidente).”
Guilherme Tigan, em San Diego, também disse não preferir se encontrar com o presidente. “Acredito que não tenho estômago para dividir o mesmo ambiente com um cara desse por cinco minutos, quem dirá 15.”
Suedem, também na Suíça, diria ao presidente para manter o foco : “Foco nas nossas fortalezas, evite discussões desnecessárias, não brinque com temas criticos e haja como líder de uma das maiores e mais importantes nações do mundo.”
Marina Sugrue, nos EUA, pediria para Bolsonaro ser “ mais humano, (porque) os número de casos e mortes tem nome sobrenome e endereço assim como seus eleitores em 2018.”
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O angolano Miranda João Bambi, que se formou em Enfermagem no Brasil e enfrentou questões ligadas ao racismo, assim como outros negros no Brasil.
(Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)
Por Vitor Lelis Gallo Pedrosa*
Além de estudar Enfermagem, o agora enfermeiro Miranda João Bambi, 25, também teve o triste aprendizado sobre o que é racismo no Brasil.
Nascido em Angola, viveu por cinco anos em terras brasileiras e voltou ao país natal antes da explosão da pandemia de coronavírus. Mas esteve por aqui tempo o suficiente para elencar uma série de situações que exemplificam o preconceito e discriminação que permeiam a sociedade brasileira.
Já prestes a se formar, Miranda concedeu entrevista da casa em que viveu em Lins, no interior de São Paulo, com outros 14 angolanos estudantes no país — ele se formou pelo Unilins (Centro Universitário de Lins). Embora tenha se adaptado bem ao país, a questão racial o faz pensar duas vezes em se estabelecer por aqui com a família. Por outro lado, deixa seu recado a outras pessoas sobre como lidar com as situações de racismo que vivenciou.
A cultura brasileira tem muitas raízes na cultura africana. Como você se sentiu quando chegou ao Brasil? Sentiu uma identificação com a cultura daqui?
É verdade que grande parte da cultura brasileira é oriunda das culturas africanas, é uma miscigenação das culturas africanas e europeias. Elas têm algumas coisas em comum e isso me ajudou a me adaptar ao país, pois eu me senti a vontade em vários aspectos. As culturas não são distantes, existem muitas particularidades que tornaram a fase de adaptação mais fácil, como o clima e a comida, que foram fatores muito importantes.
A taxa de pessoas negras em cargos de importância no Brasil é baixa, assim como a representação na mídia, na política e na sociedade de um modo geral, como você analisa tais fatos?
A minha percepção é que está diretamente ligado a questões da escravidão, pois nos deparar com situações desse gênero em um país de maioria negra me leva a acreditar que o negro ainda é visto como alguém inferior e não está livre da escravidão pois ainda é submisso.
No Brasil ainda não aceitaram que uma pessoa negra é igual á uma branca, a ausência de negros em cargos políticos e a baixa presença na mídia consistem na visão de superioridade do povo branco, porque não há justificação para tais fatos. Acompanhamos o caso da Maju (jornalista da TV Globo) que incomodou muita gente pelo fato de uma negra apresentar o jornal de maior relevância no país que evidencia isso.
A minha língua é da mesma cor que a de outras pessoas, o meu cérebro é da mesma cor, mas ainda assim em uma disputa por vaga de emprego entre um negro e um branco os brancos levam vantagem, não é justa a diferença de tratamento vista no Brasil, o racismo ainda está enraizado na mente das pessoas, a visão que eles tem do negro é como um escravo e isso precisa ser mudado.
De quais maneiras o racismo se apresenta a você? Você pode dar um exemplo de uma situação desagradável que passou por ser negro?
O racismo se apresenta de várias formas no Brasil, por meio de expressão facial ou de falas que para quem diz pode não ser algo significativo, mas você sente que há um pensamento racista, se apresentando de maneira velada, invisível, como se fosse um vírus incubado em alguém que se manifesta em determinados momentos. É percebido quando você frequenta algum ambiente normalmente frequentado por brancos, como por exemplo um bar, restaurante ou algo do gênero, as pessoas te olham de uma maneira que é como se pensassem: ”o que esse cara veio fazer aqui? Será que veio pedir alguma coisa? Esmola ou alguma coisa assim?”. São algumas particularidades vividas pelos negros e que eles enfrentam diariamente nos mercados, nos shoppings, lojas…
Eu já passei por várias situações, uma coisa que aconteceu recentemente foi quando eu estava indo para a faculdade com livros nas mãos, era por volta das 19h e uma senhora, ao me ver, atravessou a rua e foi para o outro lado da calçada. Após alguns metros ela retornou ao lado da calçada em que eu estava porque o carro dela estava estacionado lá, ela pensou que eu ia fazer algum mal pra ela. Eu pensei ”meu Deus do céu, isso é possível?” . O tom de pele negra é um problema pra sociedade brasileira e está associado a coisas ruins.
O angolano Miranda João Bambi: “O racismo ainda está enraizado na mente das pessoas”. (Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)
O Brasil é um país no qual 54% da população é negra, mas o racismo está enraizado na sociedade por questões históricas. Quais são as diferenças entre a vida de um negro na Angola e no Brasil?
Você nem tem noção da diferença, em Angola nós temos os nossos problemas, mas nós somos muito felizes, somos muito patriotas. Em um contexto mais amplo, o negro no Brasil vive oprimido, porque a cor da sua pele é mal interpretada perante a sociedade, as condições de vida são muito precárias por falta de oportunidades. O negro em Angola é tratado normalmente, pois lá quase todos os habitantes são negros, existem alguns tipos de discriminação mas não da maneira como é aqui no Brasil. Os estudantes africanos que se encontram no Brasil não se tratam com diferença, eles se abraçam e se unem, para o negro brasileiro sentir tudo isso ele precisa de menos preconceitos e mais oportunidades, pois esse é o caminho para mudar as coisas. Em Angola, que é um país negro, nós nos sentimos iguais e aqui nos sentimos inferiores, pois aqui um negro é um faxineiro, um garçom, uma diarista, um segurança, mas raramente é um político, um médico, um advogado.
Você moraria com a sua família e criaria os seus filhos no Brasil?
Olha, atendendo ao contexto social brasileiro eu acho que enfrentaria morar no Brasil, mas pensaria duas vezes. O Brasil é um país mais desenvolvido que Angola, mas eu cresci lá e todas as minhas raízes estão lá, a minha felicidade está lá, então é uma incógnita, porque eu sei que meus filhos vão passar por situações aqui que eu não gostaria pelo fato de serem negros, eu gostaria de criá-los em um ambiente em que eles possam se sentir felizes, e eu não sei se o Brasil seria o lugar ideal. O preconceito que eles poderiam vir a sofrer (pausa para cumprimentar um amigo que chegou na casa no momento da entrevista) me faz repensar a possibilidade de estabelecer uma família aqui.
Na sua visão, o fato de ser estrangeiro ameniza ou agrava o racismo?
Estando inseridos na sociedade brasileira, tanto o estrangeiro quanto o brasileiro sofrem. Mas fato de ser estrangeiro acaba agravando, na minha visão, o preconceito, quando percebem que você é estrangeiro já perguntam ”você é haitiano né? Como é lá, vocês passam fome mesmo?” Alguns falam ”nossa você fala diferente, você não é daqui, como você aprendeu a falar português?”, eu acho que existe uma ignorância por parte de sociedade, porque se nós formos ver, em Angola nós aprendemos na escola sobre outras culturas, eu conheço o Brasil desde os meus dez ou 11 anos, isso faz parte do nosso ensino de base e aqui isso não acontece. Se você pegar um brasileiro, e perguntar pra ele quantos estados têm o Brasil, quantos continentes têm no mundo ou quantos países falam português, muitos deles não sabem responder porque não aprenderam.
De que maneira você avalia a qualidade de vida de um negro no Brasil?
A qualidade de vida de um negro no Brasil é precária, pelo que eu tenho me deparado nesses anos é que a maior parte da população negra no Brasil vive em condições péssimas, e os dados provam isso.
Como é vir de um país de origem negra, viver até os 20 anos na Angola sem saber o que é ser discriminado pela cor da sua pele e agora ter que lidar com o racismo em um outro país?
Eu acho que o impacto é muito grande, é como se fosse você acostumar o seu filho dando tudo que ele pede e amanhã ele pedir alguma coisa e você não dar, a reação que ele sente é a mesma sensação que um negro estrangeiro sente quando se instala no Brasil e começa a se deparar com algumas situações. O negro brasileiro já nasce sendo inferiorizado, já nasce sendo oprimido dentro do seu próprio país e com limitações impostas. Você estar em um meio social onde você é aberto com todo mundo, onde você é abraçado, e chegar em um outro meio em que há restrições, você se sente desconfortável. É como você ter um sentimento e amanhã não ter mais. O impacto é muito relevante, porque você passa por situações nunca vividas antes e que a partir de um momento você começa a se deparar com aquilo, e é algo que machuca muito porque você não tá acostumado a presenciar e não sabe lidar, são questões muito negativas, ter que incluir isso no seu cotidiano e assimilar que a qualquer momento você está sujeito a sofrer tal tipo de ato é desconfortável.
Qual é o sentimento de lembrar da barbárie que foi a escravidão?
Recuando no passado, são questões que nenhum negro gostaria de relembrar, porque foi um período muito triste para a humanidade. Claro que quem usou a força para submeter alguém muitas vezes encara isso na normalidade, mas se os europeus não fossem nos territórios negros e com a sua força tirar o africano de lá, o mundo teria uma visão mais conceituada e não teriam tantas disparidades e desigualdades no contexto social. O branco foi lá, tirou os africanos de suas terras, e depois largaram-os, não valorizaram o negro após a abolição da escravatura. O sentimento é de tristeza englobando um pouco de raiva, porque depois da abolição o negro não foi integrado na sociedade, foi desprezado, o que nos deixou a deriva na sociedade, e isso gerou a desigualdade encontrada hoje. Se tivesse tido uma integração, as coisas estariam em um nível mais aceitável, são questões que causam revolta e muita tristeza.
Negros representam 71% das vítimas de homicídio no país. Como você se sente quando você vê o povo negro sendo maltratado?
[Expressão de tristeza] Cara, isso comprova a não valorização do negro, se o negro fosse visto como um indivíduo, isso não aconteceria com tanta frequência aqui no Brasil, o maior sentimento de ver isso é tristeza e revolta, mas você não pode fazer nada, se sente impotente, é deplorável ver situações do gênero. Recentemente um jovem no Rio de Janeiro foi baleado pelas costas pela polícia, são casos que chocam muito e nós estamos cientes que não acontecem pra todo mundo, acontece pra população negra, parece que somos alvos, como se fosse uma tentativa de extermínio. É muito triste ver essas coisas, e é algo muito frequente no Brasil, são coisas que nos levam a pensar ”será que isso vai acontecer comigo amanhã?” Vivemos em um país oprimidos, com medo que aconteça algo conosco, é muito triste pensar nisso, lidar com isso, o pai de família que foi baleado pelo exército recentemente estava indo para um chá de bebê e foi confundido com bandidos, ele não imaginava que ”de pé pra mão” teria um tiroteio, é sempre o negro que é confundido com o bandido.
O Brasil possui um programa de cotas raciais para ingresso em universidades e para concursos. Você entende que essa é uma forma de diminuir a desigualdade ou considera desnecessário?
Eu tenho duas concepções, vejo nas cotas um ponto positivo e um ponto negativo. O ponto positivo seria tentar cessar um problema que está nas raízes, e o oposto é que isso não ameniza, eu acho que aumenta a desigualdade porque as pessoas vão enxergar aquele negro na faculdade como uma pessoa que precisou de uma ajuda para estar ali, vai manter a visão de superioridade nas pessoas brancas. Por outro lado, o negro chega para concorrer em desvantagem pelo fato de ter sido inferiorizado durante a sua vida. Acho que a única forma viável de mudar esse quadro é dando oportunidade ao negro desde o momento em que ele está a conhecer o mundo, nas escolas, no ensino de base. As cotas ajudam a sociedade negra a se inserir em alguns setores em que são minorias, mas o negro tem a mesma capacidade de qualquer outra pessoa e merece não ter que precisar das cotas para atingir seus objetivos.
Miranda João Bambi: “Vamos lutar por uma nova era de felicidade, longe do racismo e do preconceito que só nós sentimos”. (Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)
Como as pessoas no Brasil enxergam a cultura dos países africanos? Você já teve problemas ao deparar com a falta de conhecimento dos brasileiros a respeito?
Existe um déficit na educação de base do Brasil, muitas pessoas não sabem que a África é um continente, eles acham que é um país, se referem como se fosse um país. E veem como um lugar de miséria e dificuldades, enquanto a África é um continente com 54 países, com uma diversidade cultural grande e enormes riquezas, fato que levou à exploração dos europeus. Há uma lacuna na educação, é muito frequente você se deparar com perguntas como ”na África tem carro?” ou ”vocês andam de elefante?”, o povo brasileiro é muito ignorante em relação ao nosso continente, a mídia exalta a miséria da África em vez das coisas boas, e é essa a imagem que as pessoas têm.
Como você enxerga a colonização, o processo de independência tardio angolano e a atual situação política do país?
Acho que o processo de independência tardio prejudicou muito o desenvolvimento de Angola. O nosso país tem uma espontaneidade e uma diversidade muito bonita, a alegria, irmandade, patriotismo, suas riquezas, tudo isso colabora para que lá estivesse muito melhor para se viver. Em contrapartida, o processo de colonização e pós-colonização foi difícil, a independência ocorreu em 1975, recente, e depois desse período os movimentos que lutaram contra a colonização não entraram em acordo sobre quem assumiria o país, e houve guerra e conflito armado entre os patriotas, fato que levou a um retardamento do desenvolvimento e crescimento de Angola. O país está em fase de desenvolvimento e crescimento, com poucos anos de paz, mas é um país muito bonito e a má administração de governos recentes afetou bastante a vida do povo angolano.
A situação atual parece que é melhor, com o atual presidente (João Lourenço) acredito que as coisas estão a melhorar, suas ações demonstram preocupação com a qualidade de vida do povo angolano, estamos aguardando, pois ele está a trabalhar e agora é esperar que ele faça a diferença pra ver se o nosso país melhora. Pelo tanto de riquezas que Angola tem sua população merece uma qualidade de vida melhor do que a atual, somos muito esperançosos e clamamos por uma Angola melhor em um futuro breve.
Que conselho ou palavra amiga você daria aos negros que vivem no Brasil?
Eu diria que nós somos iguais a qualquer outra etnia. Eu sei que não é fácil viver em uma sociedade em que você sofre discriminação, mas seja você mesmo, você é capaz de alcançar muita coisa boa, faça sempre diferente, sempre esteja com um sorriso no rosto porque de onde eu venho nós somos assim, nós temos potencial para qualquer coisa, busquem as oportunidades e façam a vida valer a pena. O meu conselho é: sejamos felizes independentemente da circunstância, não deixem que tirem de vocês a esperança, ser negro não é ser inferior, as pessoas implantaram isso e nós não podemos aceitar, nós somos iguais. Vamos lutar por uma nova era de felicidade, longe do racismo e do preconceito que só nós sentimos.
Vitor Lelis Gallo Pedrosa é estudante de Jornalismo da Universidade Mackenzie. A entrevista foi publicada a partir de uma parceria do MIgraMundo com estudantes de disciplinas na instituição que são ministradas pela professora Patrícia Paixão
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Cécile Clement, assistente social da Federação de Ajuda Protestante (FEP, em francês) responsável pelo acolhimento de refugiados na região francesa do Grand-Est, visitou o Líbano uma semana antes do confinamento, entre os dias 09 e 15 de março, para conhecer as atividades do programa Corredores Humanitários em alguns dos principais campos de refugiados do país.
Na volta, Cécile também acompanhou cinco famílias sírias, 20 pessoas no total, na viagem para a França, onde elas se instalaram enquanto refugiadas. Na chegada, as famílias foram acolhidas por diferentes associações.
O MigraMundo convidou Clément para compartilhar com as nossas leitoras e leitores as suas impressões e reflexões sobre um dos países que mais acolhem refugiados no mundo
Cinco familias viajaram dos campos no Líbano, acompanhadas por Clément, através do programa dos Corredores Humanitários para serem instaladas na França (Foto:FEP)
Segunda-feira, 9 de março : imersão sonora em Beirute
Eu chego em Beirute logo depois da hora do almoço, hora local ( 1 hora de diferença da França). Faz calor na cidade ( 20 graus) , e, no ar, já se nota a poluição bem presente. Dentro do carro, a imersão sonora começa: o trânsito mal organizado, o barulho das buzinas ritimam todos os movimentos , elas vêm e vão de todo o lugar e a cada instante elas podem significar uma coisa ( bom dia/ atenção eu vou passar/ ande mais rápido!/ saí daí!/ táxi?)
A travessia do centro da cidade nos mostra que os protestos dos libaneses iniciados em outubro de 2019 deixaram suas marcas: vitrines de lojas e faixadas de agências bancárias quebradas e pixadas com mensagens de renvindicações, também presentes nas principais praças da cidade.
Uma das ruas no centro de Beirute, onde os passantes vêem pixações dos protestos do ano passado contra a crise social e econômica no país. (Cécile Clement/Arquivo pessoal)
Os protestos começaram não apenas por causa da cobrança do serviço Whatsapp até então gratuito, mas também por causa de um contexto sócio-econômico degradado há anos, e para o qual a classe dirigente do país se mostrou incapaz de encontrar soluções duradouras.
Ausência de uma política orçamentária, corrupção da classe política, envidividamento público com o qual a população precisa arcar, com mais e mais taxações… O Líbano é, assim, um dos países mais desiguais do mundo.
Mesquita chama seus fieis para a oração, chamado que se mistura com os outros sons da capital libanesa. (Cécile Clement/ Arquivo pessoal)
A imersão sonora continua: o chamado para a oração feito das mesquitas ecoam pelos bairros mulçumanos da cidade ao mesmo tempo em que os sinos das igrejas soam nos bairros cristãos. As áreas da cidade são organizadas por confissões religiosas. Eu não esperava tanta diversidade!
Terça-feira, 10 de março : condições de vida no campo de Chatila
É preciso mergulhar em ruelas para conseguir achar o centro do campo de Chatila, que não é feito constituído de tendas nem barracas. Ao longo dos anos, pequenas casas de madeira foram substituindo as tendas. As pessoas são abrigadas – atualmente sírios e palestinos – no « duro » : alojamentos superpopulados e insalubres, aos quais nós acessamos por meio de pequenas vielas perpendiculares muito estreitas.
O Souk (feira árabe) de legumes e os numerosos habitantes ocupam o espaço. Diversos odores se confudem : esgoto a céu aberto, galinhas vivas que voam por cima de nossas cabeças! O estado das instalações elétricas nos apavoram, o sistema de evacuação de água e de escrementos nos parecem inexistentes.
Nós encontramos no campo duas famílias, para melhor conhecer a situação atual delas assim como seus históricos e para apresentá-las o programa dos Corredores Humanitários (CH) e falar sobre o acolhimento na França.
Jovens refugiados sírios em acampamento no vale do Bekaa, no Líbano.
Crédito: Sam Tarling/ACNUR
No Líbano, a presença dos refugiados são apenas toleradas. O que acontece nos campos, seja violência, problemas de higiene, de acidentes domésticos, ausência de assistência médica ou criminalidade, parecem problemas secundários.
Esse ambiente obriga as pessoas a se virarem como elas podem com suas angústias, com as situações de precariedade e com suas esperanças de talvez um dia poderem sair dali. A inveja, a discriminação, a denunciação, a corrupção são presentes em numerosas histórias de vida.
Por causa da crise global que o Líbano conhecesse há anos e das condições de higiene descritas, o país tomou rapidamente as medidas necessárias face ao Covid-19. O fechamento de lugares públicos e o confinamento foram aplicados desde o dia 10/03, porque uma crise sanitária não poderia ser absorvida pelo país.
Quarta e quinta-feira : Consulado francês e Segurança Geral
Depois de serem entrevistas nas suas casas, as famílias devem se apresentar ao Consulado da França em Beirut para fazer um pedido de visto para entrada no país, justificando a sua ida para lá. Soledad acompanha as famílias na entrevista e as ajuda na apresentação das justificativas da viagem.
Quarta-feira nós acompanhamos uma família palestina, de sete pessoas, e um senhor sírio sozinho que é perseguido em razão da sua orientação sexual e que sofre de um tumor no cérebro.
Em seguida, a etapa de regitro na Segurança Geral (um serviço estatal que cumpre diferentes funções policiais e militares) é obrigatório. Nós acompanhamos então as cinco famílias, entre quarta e quinta-feira, que estão previstas para embarcar para a França na semana seguinte. Os refugiados que participam desses programas (Corredores Humanitários, programas da OIM…) precisam esperar em um hall específico dentro do prédio, no entanto, os acompanhante devem entrar por uma outra entrada para depois encontrar as famílias no interior do prédio.
Os agentes da Segurança Geral verificam a situação de cada pessoa /família no território libanês afim de autorizar ou não a saída delas do país. Concretamente, os oficiais verificam se as pessoas cometeram alguma ilegalidade no Líbano ou se elas possuem alguma dívida e/ou contas à prestar ao Estado libanês.
Por exemplo, um grande número de sírios trabalham no Líbano sem autorização de trabalho e podem, por isso, serem bloqueados pela Segurança Geral. Uma atmosfera particular, solene e rígida, reina nesse lugar, onde as pessoas refugiadas não são bem recebidas, e elas sabem que essa etapa pode comprometer a sua partida e pode até precisar pagar multas se algo for indicado pelos agentes.
Um dos senhores acompanhados por nós não tinha um documento virgem e ele foi retido pela Segurança Geral por uma semana. Ele não pode partir com a sua esposa e filhos na viagem prevista para a França, os encontrando apenas tempos depois, quando a situação foi resolvida graças à ajuda de um advogado.
Domingo, 15 de março : o dia da viagem para a França
A viagem foi antecipada para o domingo por causa da anulação dos voos anunciada para acontecer a partir de segunda-feira, 16 de março, devido à epidemia do Covid-19. Eu me disponho a acompanhar sozinha o grupo de 20 pessoas ( cinco famílias) no voo do Líbano até o aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Para a maioria dos adultos e das crianças do grupo, é a primeira vez que eles viajam de avião.
Cinco famílias chegam ao aeroporto Charles de Gaulle , em Paris, vindas de campos no Líbano para serem instaladas como refugiadas no país.(FEP/Divulgação)
Nós chegamos muito adiantados no aeroporto à Beirut, cada etapa tomará tempo por causa do número de pessoas : registro de bagagens, check-in, passagem pela segurança e, novamente, ida ao guichê da Segurança Geral e embarque. No hall do aeroporto, cada etapa é explicada às pessoas em árabe, um documento escrito recapitulativo lhes é dado, e nós consagramos tempo para lhes informar sobre a situação atual frente ao coronavírus e as consígnias a serem respeitadas ( lavar regularmente as mãos e manter ao menos um metro de distância).
A situação na França lhes é apresentada de forma que as pessoas possam estar informadas do porquê, na chegada, as equipes que estarão à espera deles não se aproximarão muito nem os comprimenterão com apertos de mão. Eles também foram informados sobre o fechamento das escolas e sobre as regras do confinamento, etc.
O grupo das famílias me segue ao longo das diferentes etapas, ele se mostra solidário e reativo, ajuda-se os pais que têm crianças pequenas. Nós nos comunicamos em inglês (básico) com alguns e com os outros por meio de um aplicativo de tradução árabe/francês.
As crianças comecam a se conhecer entre elas e também elas comigo. Eu imagino que elas devem estar curiosas e impacientes para saber como será quando o avião decolar. Os adultos aproveitam para passear no espaço Duty Free e os fumantes para fumar ainda alguns cigarros antes de entrarmos no aviao. Eu suponho ainda que as famílias estejam a falar de Paris, da Torre Eiffel, do metrô, e do coronavírus!
A viagem passa sem problemas. A equipe da Air France, informada pelos meus cuidados de que alguns viajantes falam árabe, dedica tempo para mostrar a eles o funcionamento de tablets assim como para instalar o melhor possível os pais com as crianças pequenas.
Na chegada, um pequeno comitê de recepção nos espera (FEP, St Egidio, capelão do aeroporto) para desejar as boas vindas às famílias, mesmo apesar da distância física. As familías dormirão, algumas, em casas de famílias em Paris por uma noite ou em um hotel para, no dia seguinte, pegar o trem até a cidade de acolhimento: Toulouse, Valence, Pau, Faremoutiers.
Impressões pessoais
A constatação sobre o abandono no qual os campos são deixados, onde os refugiados são abandonados à própria sorte, em condições de higiene desastrosas, ficará por muito tempo na minha memória.
A maneira que o Estado libanês trata os refugiados sobre o seu território me marcou de igual modo: a presença deles é apenas tolerada. Além disso, o Estado libanês pouco se preocupa com que acontece dentro dos campos, seja a violência, os problemas de higiene, os acidentes domésticos, a ausência de assistência médica ou a criminalidade.
Está longe de ser fácil ter que fugir do seu país por causa da guerra, mas o sentimento de não se sentir bem-vindo onde nós chegamos depois de tudo, é ainda uma dificuldade a mais enfrentada pelos refugiados.
“Como ser ator, se o nosso futuro ainda nos é incerto? (…) E nós, como nós podemos acompanhá-los na descoberta do novo país de residência?” (Foto: Anistia Internacional)
O que eu quero dizer é que o que eles enfrentaram antes não parece ser levado em conta pelo país que os acollhe. Ao rever as minhas anotações e revisitar certas reflexões, eu começo a me dar conta que é o ambiente que leva essas pessoas a se virar como elas podem ( e tendo que o fazer com as angústias misturadas com as esperanças de sair de lá). E esse ambiente também pode produzir inveja, discriminação, denúncias e corrupção.
A situação continua a me interpelar : pela sua localização geográfica, o Líbano acolhe 1,5 milhões de refugiados, o que traz consequências. No entanto, o Estado quer vê-los deixando rapidamente o território, mas ao mesmo tempo, ele transforma os procedimentos de saída el algo extremamente difícil. É assim então que o Estado consegue dinheiro ao mesmo tempo que mostra estar controlando a situação.
Eu me questiono sobre esse business que tem consequências da envergadura de uma crise humanitária. Precisa-se sempre tirar proveito de todas as situações? É verdade que o Líbano passa por um período econômico ruim e isso nos deve nos questionar: nós, habitantes de países onde a economia se comporta melhor, o que estaríamos prontos a fazer se a nossa situação ficasse tão complicada quanto a desses países?
No Líbano, eu imaginava o desconforto das pessoas exiladas ao chegarem na França. Eu, no Líbano, me senti perdida e sem referência, imergida em um país que eu não entendia a língua, e onde os códigos sociais não eram os meus. Eu não me sentia capaz de ser autônoma. Muitas ações cotidianas que me era habitualmente fáceis, se transformaram extremamente difíceis, de um tipo de dificuldade nunca antes vivida.
É uma verdadeira fatiga para a mente, que passa a sermais solicitada do que o normal; torna-se necessário achar em si os recursos interiores para continuar motivado. Eu sempre pensava nas famílias que havíamos acolhido no Grand-Est e ao estatuto delas de “pessoas migrantes”, com medo de partir, obrigadas a enfrentar um lugar imposto a elas pelo país de acolhimento. Elas passam de uma sociedade ( com organizações que lhe são próprias) à outra.
No Líbano e na Síria em guerra, a relação com o direito do cidadão é muito diferente. A relação com o dinheiro, com o Estado e com a polícia, a maneira de se dirigir ao outro, o lugar da mulher, das crianças, mas também os cheiros, as vozes, os gostos…tudo é diferente.
Na França, os direitos sociais são uma herança; e o acesso a eles é algo real e efetivo para todos. Eu imagino melhor agora que não seja fácil para as pessoas exiladas entender de onde vêm todos esses direitos, como eles foram criados e porque eles existes hoje em certos países e não em outros. Nós não crescemos com a mesma História.
A nossa missão de acolhimento toma enfim um senso ainda maior. O acolhimento engloba tudo: o encontro, o abrigo, as trocas, a ajuda à subsistência, mas também o acompanhamento para ajudar a pessoa entender melhor a sociedade que a acolhe. As pessoas refugiadas, normalmente, não imaginam as dificuldades que as esperam na França no quesito “integração”.
A espera vivida nos campos sob péssimas condições, a imagem que eles fazem da França, as informações que circulam nos campos as levam a esperar escola para os filhos, atendimento médico e uma casa para a sua família. Como ser ator, quando o nosso futuro ainda nos é incerto? Como qualquer pessoa, eles também esperam uma vida melhor. E nós, como nós podemos acompanhá-los na descoberta do novo país de residência? Como podemos acompanhá-los para aliviar seus fardos, atender suas necessidades, mas também como podemos lidar com as suas desilusões quando eles percebem que a realidade não é aquilo que esperavam ?
Essas são as questões que eu me fiz – e que eu já me fazia a cada dia ; é a minha profissão (enquanto resposável pelo acolhimento de refugiados). Mas a possibilidade de visitar o Líbano, fez com que essas questões tomassem um ângulo novo.
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#RegularizaçãoJá é a hashtag da campanha iniciada por imigrantes residentes no Brasil em favor daqueles que não possuem documentos - e por consequência, mais vulneráveis a questões como o novo coronavírus.
(Foto: Divulgação)
A proposta parte do princípio da regularização migratória por fins humanitários, previsto na atual Lei de Migração, e se insere no esforço de combate à pandemia de coronavírus e seus efeitos.
“Não podemos ignorar as dificuldades que os imigrantes passam no Brasil durante a pandemia. É inadmissível que eles tenham que se preocupar agora com as burocracias para permanecer aqui. Por isso, propomos a concessão de autorização de residência e garantia de acesso ao SUS e benefícios sociais”, afirma a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), líder da bancada do partido na Câmara.
Uma vez regularizados, os imigrantes tendem a ter acesso facilitado aos serviços públicos de saúde, dando a estes a possibilidade de buscar tratamento contra o vírus. Em consequência, dessa forma colaboram mais para o combate à pandemia junto com o restante da sociedade.
Também sob o prisma da acolhida humanitária, o texto também propõe providências quanto ao acesso de imigrantes, regulares ou não, aos serviços públicos e programas de assistência como o auxílio emergencial e o Bolsa Família.
O Brasil não pode virar as costas a ninguém, independentemente de nacionalidade”, completa a parlamentar.
Nesta semana a Itália seguiu caminho semelhante e anunciou a regularização provisória de imigrantes indocumentados. Estima-se que 600 mil pessoas sejam beneficiadas naquele que é o país europeu mais afetado pelo coronavírus.
Conforme consta na justificativa para o projeto, ele foi concebido em coordenação com as demandas de movimentos e coletivos, e também através de consultas à Defensoria Pública da União e a organizações da sociedade civil que prestam atendimento e auxílio direto a imigrantes.
Entre tais instituições estão citadas a Missão Paz, o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), além da mobilização iniciada pelos próprios imigrantes por meio da campanha “Regularização Já”.
A proposta, que conta com a hashtag #RegularizaçãoJá, é puxada pela Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas e até o momento já conta com outras nove adesões de coletivos e associações ligadas à temática migratória.
“A regularização migratória vai permitir ter melhor conhecimento e realizar um seguimento adequado das pessoas imigrantes que possam estar com sintomas de Covid-19. Tendo em conta o rápido contágio que caracteriza essa pandemia, isso significa cuidar a saúde não apenas das pessoas migrantes em situação irregular, mas de toda a população do país”, diz manifesto da campanha.
Quando aprovada pelo Congresso Nacional, em abril de 2017, a atual Lei de Migração incluía um artigo dedicado especialmente à anistia de imigrantes sem documentos.
Já existe um Projeto de Lei (o PL 7876/2017), de autoria do deputado Orlando Silva (PC do B-SP), que visa recuperar essa anistia cortada da Lei de Migração. Em entrevista ao MigraMundo em junho de 2017, o deputado afirmou que o veto à anistia foi um “grave erro”.
A proposta encontra-se apta para ir a plenário para votação na Câmara dos Deputados desde novembro de 2019.
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Profissionais no corredor do centro cirúrgico do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, agora transformado em UTI
(Foto: Liliana Ducatti / HC-FM-USP)
Atualizado às 14h48 de 18.mai.2020
Imigrantes, coletivos e associações ligadas à temática migratória elaboraram uma carta aberta ao Ministério da Saúde na qual pedem a inclusão de registro de nacionalidade nos formulários e sistemas da pasta. A ausência dessa informação nos registros do Ministério da Saúde é mais uma lacuna evidenciada pela atual pandemia de coronavírus.
Sem esses dados, não é possível mensurar com clareza o impacto do atual Covid-19 sobre essa população, bem como outras questões de saúde. Ao mesmo tempo, também dificulta a elaboração de políticas públicas que permitam um melhor acesso e tratamento dos imigrantes no serviço de saúde.
Por consequência, a falta de dados sobre o impacto do coronavírus junto aos imigrantes dificulta ainda mais o combate à pandemia, prejudicando a sociedade como um todo.
De acordo com dados da Polícia Federal divulgados na carta, vivem regularmente no Brasil 1.890.742 imigrantes e refugiados — a cifra não inclui aqueles que estejam em situação indocumentada.
Há também uma petição aberta na plataforma Change.Org que está coletando apoios para a proposta — para apoiar basta acessar este link.
E a capital paulista concentra ainda 42% do total de imigrantes vivendo regularmente no Brasil, segundo a carta.
“A falta de dados sobre os migrantes cria obstáculos dentro do sistema de saúde, traz resultados negativos nas formulações de políticas pública de saúde aos migrantes, e dificulta a inserção do migrante dentro da sociedade”, destaca o sanitarista haitiano James Berson Lalane, que reside no Brasil desde 2014 e é aluno da Pós-Graduação do Departamento de Medicina Preventiva da USP. A entidade é uma das signatárias da carta.
Pela ausência desse recorte de nacionalidade, por exemplo, não é possível saber o quão impactada tem sido a população imigrante na cidade pela pandemia.
“Se não obrigarmos as equipes de saúde a informar a nacionalidade dos pacientes admitidos por SRAG [sigla para síndrome respiratória aguda grave] ou Covid-19, não saberemos o impacto da pandemia sobre essas populações”, pontua o antropólogo Alexandre Branco Pereira, que integra a coordenação da Rede de Cuidados em Saúde para Imigrantes e Refugiados de São Paulo.
“Precisamos conhecer a real situação epidemiológica da pandemia nessa população para que políticas possam ser formuladas”, completa a também antropóloga Ana Elisa Bersani, pesquisadora do Centro de Estudos de Migrações Internacionais da Unicamp (CEMI).
Apoios
A carta conta com o apoio de 20 associações e coletivos ligados à temática migratória, descritos abaixo. Lista será atualizada conforme chegarem novas adesões:
Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (MedPrev-FMUSP)
Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante – CDHIC
Centro de Estudos em Migrações Internacionais (CEMI-Unicamp)
Espacio Sin Fronteras
Forum Internacional Fronteiras Cruzadas – Fontié ki kwaze
Presença América Latina – PAL
Migralivre
Missão Paz
Coletivos de Mujeres Inmigrantes Latinoamericanas
Mujer tú eres parte, no te quedes aparte
Cátedra Sérgio Vieira de Mello – UFABC
Projeto Canicas
União Social dos Imigrantes Haitianos – USIH
Coletivo Conviva Diferente
Centro de Referência para Refugiados – Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
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