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domingo, junho 28, 2026
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No Pacaembu, Nigéria conquista bicampeonato na Copa dos Refugiados

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Nigéria e Marrocos disputaram a final da quarta edição da Copa dos Refugiados no Pacaembu. Crédito: Géssica Brandino/Caminhos do Refúgio

Torneio encerra sua quarta edição mostrando como o futebol pode ser uma ferramenta para unir diferentes nacionalidades em torno de uma mesma causa

Por Géssica Brandino
No Caminhos do Refúgio
Em São Paulo (SP)

O som dos tambores e a animação da torcida não deixaram dúvidas sobre o verdadeiro espírito da final da Copa dos Refugiados, disputada neste domingo, e que em dois finais de semana reuniu 16 países para celebrar a paixão pelo futebol e a colhida aos que chegam. Na disputa entre Nigéria e Marrocos não faltou bola nas redes do Estádio do Pacaembu, com o placar final de 9×4 para a Nigéria, bicampeã do torneio, que já teve como campeões a República Democrática do Congo, em 2016, e Camarões, em 2015.

“A organização criou essa Copa para conhecermos outros países e é uma honra colocarmos o melhor time do campeonato para conquistar essa vitória”, destacou o técnico da Nigéria, Mavis Ajari. Com os olhos brilhando, o capitão do time do Marrocos, Hassan El Zen, falou da emoção de disputar a final do torneio no Pacaembu. “É um grande sonho jogar num campo profissional e para nós essa final está sendo perfeita. Ganhando ou perdendo, é um sonho para todo mundo”.

A alegria dos jogadores era a mesma dos imigrantes de diversas nacionalidades que foram prestigiar a final. Jeremias Ambrosio, 21 anos, é angolano e foi pela primeira vez acompanhar os jogos da Copa, assim como Matilde Vaisako, 32 anos, da Namíbia. Em pontos diferentes da arquibancada, eles dividiam o mesmo entusiasmo ao ver times africanos na final do torneio, um momento de felicidade.

Do alto da arquibancada, a torcida nigeriana fazia bonito, com gritos de incentivo aos jogadores, dancinhas e puro agito. O torcedor Alfa Umaru Balde, 35 anos, saiu da região leste de São Paulo às 10h para acompanhar pela segunda vez uma final da Copa. Ele se juntou a amigos que lotaram dois ônibus rumo ao Pacaembu. “Estamos muito contentes, porque é uma organização que mostra que os refugiados são bem-vindos no Brasil. Não importa quem ganhe, estamos muito felizes”, afirmou sorridente.

Leia a matéria completa no site parceiro Caminhos do Refúgio

O que é o fim do DACA e o que deve ser feito pelos Dreamers nos EUA

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Protesto em Nova York contra o fim do DACA. Crédito: Rhododendrites/Wikimedia Commons - set.2017

Mais do que nunca, os Dreamers deverão organizar-se para garantir que a sociedade civil nos EUA entenda suas preocupações e as comunique junto com eles aos seus congressistas, criando pressão para atuação favorável do Congresso

Por Carolina Van Moorsel*
Em Chicago (EUA)

A Ação Diferida para Chegadas na Infância (Deferred Action for Childhood Arrivals – DACA) é um programa criado nos Estados Unidos pelo então presidente Barack Obama em 2012 por meio de um decreto-lei. O programa beneficiava certos indivíduos nascidos após 16 de junho de 1981, que entraram nos Estados Unidos como menores de 16 anos e que viviam no país desde junho de 2007. Para qualificar-se, também era necessário ter uma ficha criminal limpa, sem condenações mesmo em pequenos delitos (como por exemplo dirigir sem carta de motorista) ou crimes mais graves. Os requerentes da DACA também deveriam estar matriculados em uma escola, ou ter completado o ensino médio, formação profissional, ou ter sido dispensado das forças armadas americanas com honras. Em outras palavras, o governo de Obama foi cuidadoso em estabelecer critérios rigorosos e seletivos para este programa.

Para os que se qualificaram para o programa (aproximadamente 800 mil migrantes) o governo diferiu (adiou) tomar ações que levariam ao princípio do seu processo de deportação – daí o nome do programa.

Os aprovados receberam do governo uma autorização para trabalhar legalmente por dois anos no país, podendo pedir sua renovação por dois anos adicionais, e assim sucessivamente por tempo indeterminado. Contudo, é importante notar que este programa não criou uma via de acesso à cidadania ou outro status legal migratório no país e era completamente dependente do decreto-lei do qual ele nasceu. A DACA também não oferecia nenhum benefício para familiares dos que se qualificavam para o programa.

Na época em que o programa foi implementado, o governo americano teve que tomar iniciativas para ganhar a confiança dos migrantes sem documentos no país, já que como parte do pedido da DACA indivíduos tinham que enviar ao governo uma grande quantidade de informações biográficas, incluindo seu endereço, telefone, etc. O medo da comunidade migrante era que o governo usasse as informações da petição para iniciar processos de deportação contra os beneficiários, já que tecnicamente eles estavam no país sem documentos e tinham entrado ilegalmente.

Ao longo dos cinco anos de sua implementação o governo americano foi bem-sucedido nesse processo, o que se tornou claro pelo grande numero de migrantes que se beneficiaram do programa. Ficando conhecidos como “DREAMers”, este é um dos grupos mais bem organizados e politicamente forte de migrantes sem documentos nos Estados Unidos.

No dia 5 de setembro de 2017 o presidente Trump, após uma série de promessas desde sua campanha eleitoral, determinou, também por meio de decreto-lei, o fim da DACA. O decreto-lei de Trump estabelece que novas petições e pedidos de renovação da DACA que foram enviados aos serviços de imigração dos Estados Unidos continuariam sendo analisados. Os indivíduos que tem DACA que vai expirar entre a data do decreto e 5 de Março de 2018 podem pedir a renovação da DACA antes de 5 de outubro de 2017 e eles terão seus benefícios estendidos por outros dois anos, mas não poderão pedir outra extensão ao fim deste período. Todos os beneficiários da DACA que vão perder o seu status após dia 6 de março de 2018 não poderão pedir a renovação da DACA. Perder acesso ao programa significa perder a possibilidade de trabalhar legalmente no país e, eventualmente, isso acontecerá com todos beneficiários do programa.

Contudo, o grande impacto desse decreto está relacionado ao processo de deportação que potencialmente será iniciado contra os 800.000 beneficiários da DACA. Como discutido acima, os indivíduos que se qualificavam para a DACA não possuem status migratório nos Estados Unidos. Previamente, o governo prometeu a essa população que não iniciaria procedimentos de deportação contra as pessoas que enviaram suas informações ao serviço de imigração para pedir a DACA. Porém, o novo decreto-lei estabelece que o governo pode iniciar procedimentos de deportação contra quaisquer beneficiários da DACA que o governo possui base legal para deportar. Como o governo pode iniciar esses procedimentos contra quaisquer migrantes sem status legal no país, praticamente todos os beneficiários da DACA estão sob risco de deportação.

Protesto em Nova York contra o fim do DACA.
Crédito: Rhododendrites/Wikimedia Commons

A DACA foi um programa que beneficiou indivíduos de diversas partes do mundo. O Migration Policy Instute tem dados relativos ao programa disponíveis em seu sítio de web (http://www.migrationpolicy.org/programs/data-hub/deferred-action-childhood-arrivals-daca-profiles). Mais da metade dos beneficiários da DACA são Mexicanos. Migrantes da América Central, Coreia do Sul e China são os próximos da lista. Estima-se que aproximadamente 13.000 beneficiários da DACA sejam brasileiros.

Os meios de comunicação mais importantes dos Estados Unidos apresentaram o problema da DACA de maneira prática, discutindo os efeitos devastadores que o decreto-lei terá na população que se beneficiou do programa –muitos dos indivíduos vieram aos Estados Unidos muito pequenos e nem mesmo conhecem os países onde têm cidadania e a grande maioria dos que se beneficiaram a DACA contribuem para a sociedade em diversos âmbitos. Outro ângulo explorado foi relacionado à responsabilidade do congresso de responder às circunstâncias criadas pelo decreto-lei, trabalhando em legislação que garanta aos beneficiários da DACA uma via mais segura para acesso a status migratório no país.

Apesar de muitos grupos e organizações pró-migrantes nos Estados Unidos estarem analisando o decreto-lei de perto, no momento há apenas uma ação judicial questionando sua legalidade. Nessa ação judicial, quinze estados (entre eles Nova Iorque, Washington, Illinois e Massachusetts) propõem que a decisão de Trump em terminar a DACA é inconstitucional porque foi motivada no racismo de Trump contra Mexicanos. Eles usam como argumento muitas das afirmações que o presidente tem feito contra Mexicanos, entre elas, que eles são criminosos, bandidos e “bad hombres”. Uma ação judicial similar foi apresentada contra o órgão executivo quando o presidente tentou proibir imigrantes muçulmanos de entrar no país no início de seu mandado.

A questão da DACA está intimamente ligada ao poder conferido pela constituição americana ao órgão executivo dos Estados Unidos na forma do decreto-lei. O poder do presidente de decretar é amplo e da mesma maneira que órgãos judiciais decidiram permitir a Obama criar a DACA, é provável que cortes entendam que Trump tem poder para acabar com o programa. Como muitas das questões migratórias ao redor do mundo, esta também é uma questão política, em que os diferentes poderes interagem por meio das ações que lhes cabem. O congresso americano pode, a qualquer momento, elaborar, votar e aprovar legislação relacionada à migração nos Estados Unidos, incluindo legislação que impacta os beneficiários da DACA. Contudo, a decisão dos membros do Congresso de agir e de votar a favor ou contra a legislação é, também, política.

Os membros da sociedade civil devem, como têm feito desde a eleição de Trump, organizar-se para expressar suas vozes de maneira coletiva. Um dos meios importantes de expressão que tem gerado efeitos concretos no congresso, é o contato constante e direto com parlamentares. Um exemplo recente de ação dos membros da sociedade civil nesse sentido foi a situação do Obamacare. A ação coletiva da população expressando suas preocupações aos seus parlamentares por meio de ligações, emails e visitas aos gabinetes e reuniões públicas criou pressão nos membros do congresso e foi decisivo para assegurar que o Obamacare não fosse revogado no começo de 2017.

O término da DACA convida, mais uma vez, a sociedade civil a engajar-se com os parlamentares, expressando suas preocupações relativas a DACA e às contribuições positivas à sociedade que os beneficiários da DACA têm feito. Agora, mais do que nunca, os Dreamers deverão organizar-se para garantir que a sociedade civil entenda suas preocupações e as comunique junto com eles aos seus congressistas, criando pressão para atuação favorável do congresso.

*Carolina Ramazzina Van Moorsel atualmente é Oficial de Programas Sênior da Heartland Alliance International, com foco na Africa Sub-Saariana. Envolvida em ativismo migratório nos Estados Unidos, trabalhou por três anos no National Immigrant Justice Center (NIJC), que atua representando imigrantes em questões diversas para melhorar a política pública migratória americana.

Migrar até para o céu: uma homenagem aos que migram para a eternidade

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Por Flávio Carvalho*
De Barcelona (Catalunha)

O meu sonho é voar, disse meu filho, certa vez. Nunca mais esqueci.

Acho que muitas pessoas, na vida, desejaram o mesmo. Algum dia com mais intensidade. Ficaram olhando passarinho por mais de um minuto ou dois. Ontem, por exemplo, eu fiquei bem mais tempo. Tanto que chego a pensar que voei. De Barcelona, cheguei ao Alto da Sé, em Olinda, na frente da igreja onde os meus pais se casaram. Quando vem lembrança forte assim, não sei vocês, mas no meu caso vai direto pras comidas.

Ontem, perguntamos aos meus filhos, do que mais se lembravam do avô. Caranguejo, responderam. Sorrindo, pois lembraram dos caranguejos que provaram ao molho de coco, quando ainda vivos tentavam fugir do meu pai. Que também muito sorria, a outra boa lembrança de todos nós.

Naquela minha voada de ontem eu também fui ao coco. Explico. Já não é tão importante pra mim a tapioca de Olinda, quanto a visão agarrada na saudade do meu pai, com um raspador de coco (rapa-coco, assim chamamos) entre as pernas, raspando e falando, raspando e falando…

Tudo de coco pra mim é bom. O meu pai ao coco era o melhor.

Digo duas piores coisas, agora que ele descansou.

Eu trouxe de Olinda um rapa-coco pra Catalunha, além de um produzido artesanalmente pelo meu pai, com valor mais sentimental que tudo. Pois o comprado no Mercado de São José raspa o coco bem melhor que o dele, devo confessar. A primeira coisa mais pior (perdoem a redundância, mas é isso mesmo) foi limpar todo o ateliê de artesanatos dele imaginando que ele já não poderia utilizar tudo aquilo. Ou tanto quanto antes. Foi a dor que me limpou na minha breve viagem à casa dos meus pais, quando ele já havia entrado em coma, dias atrás. Depois de estar mais limpo, eu guardei em mim tudo aquilo dele que eu ainda tinha pra guardar dele em mim. Doeu demais, mas foi muito bom. Reciclagem interna, emocional.

A segunda dor, entre as poucas frases que expliquei ontem chorando numa videoconferência com Mainha foi esse último assunto que eu quero brevemente entrar, já voltando a falar do que eu gosto, de migrar. Eu não podia dizer a ele que estava me despedindo, pra não desanimar ele naquela luta pra sair do coma. Mas estava, porque eu sabia que precisava. A gente não sabia se era bom que ele estivesse consciente, achando que sim, porque poderia significar estar com dor, ele querendo se comunicar, sem poder – e isso deve ser muito ruim. Se a gente se despede assim, de verdade, quando voltar a se ver é um lucro bom danado. Prove!

Então, o que eu quero dizer é que quando a gente vai pra longe dos pais, acho que deve se despedir sempre, por mais que a gente ache que volte a se ver.
Despedir é chorar mesmo (aprendi em poucos meses que sempre, sempre, é melhor não conter um choro, nem o próprio nem o dos outros), mas é somente aproveitar pra aflorar um sentimento bom, nunca ruim. Quanto mais quilômetros de distância que estiveres (milhares, no meu caso), mais eu recomendarei multiplicar a durada e intensidade dos abraços de despedida. Disso nunca te arrependerás. Garanto.

Mas a última lição mais importante que eu me permito compartilhar é o estar preparados sempre para voar: passaporte em dia, economia no “banco ético” (sim, existe) e ter amigos de verdade, quatro camisas, quatro cuecas e uma calça de reserva em vista, por precaução, um livro grosso mas leve, e no meu caso um caderninho pra escrever.

Ontem, depois que eu li no meu celular que Painho morreu (sim… viver é isso, aproveitar cada dia, como a gente já sabe, mas de longe tem que ter mais cuidado ainda com isso de comunicação não presencial), eu peguei aquele mesmo caderninho pra tentar voltar a escrever. Tentar, porque a folha ficou em branco. E nem por isso eu a guardarei com menos carinho.

É que me distraiu… um passarinho! Eu fiquei pensando que era painho, passarinho, passando pela Catalunha, agora mesmo cheia de gritos de liberdade, a caminho do céu azul. Cheio de poesia, sobre as vinhas. Sorria.

Ser pai é alimentar o sonho dos filhos pra quando eles forem pais (ou não) e voarem pra longe da gente. Amor mesmo, mesmo quando já não estás. Mais longe, porém mais perto, uma equação que somente se sente.

Flávio Guedes (Carvalho). Solstício de outono na Catalunha, 22/9/2017.

Nova ideia de lar é tema de performance sobre refúgio em São Paulo

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10º Visões Urbanas - Festival Internacional de Dança em Paisagens Urbanas, realizado pela Cia Artesãos do Corpo em São Paulo. Crédito: Fábio Pazzini

Grupo idealizador da peça Tempo Suspenso traz nova ação relacionada à temática migratória

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Seja por necessidade, imposição ou escolha, os migrantes se apresentam como protagonistas na construção de novas possibilidades de enraizamento e são eles que criam e nutrem ramificações afetivas capazes de desenhar novos territórios individuais e coletivos. Essa nova ideia de lar é o que norteia a performance/intervenção “Refúgio ou como fixar raízes no concreto”, da Cia. Artesãos do Corpo.

A ação, que será apresentada neste final de semana no Museu da Imigração, em São Paulo (veja mais no serviço ao final do texto), é um desdobramento do projeto Tempo Suspenso, contemplado pelo 18º edital do Programa Municipal de Fomento. A iniciativa já gerou outras duas criações do grupo: a peça Tempo Suspenso, que foi acompanhada pelo MigraMundo (leia aqui a crítica); e a intervenção Estranhos seres nebulosos e ilusórios, realizada na rua e em espaços públicos.

A performance/intervenção/instalação tem inicio com nove pares de sapatos/concreto instalados no espaço, formando uma instalação. Esse espaço cênico é preenchido pouco a pouco pelos corpos dos intérpretes e pela trilha sonora, composta por depoimentos de pessoas nascidas em outras países, mas que adotaram o Brasil – mais especificamente a cidade de São Paulo – como morada e lugar para fixar suas raízes.

O teaser abaixo dá uma ideia do que o público vai encontrar ao acompanhar a intervenção:

Sobre a Cia. Artesãos do Corpo

Criada em 1999 pela socióloga e bailarina Mirtes Calheiros, a Cia. Artesãos do Corpo é formada por bailarinos, performers, atores e pesquisadores de artes cênicas, com o objetivo de elaborar espetáculos e intervenções que provoquem a sensibilidade e a consciência do espectador para temas de interesse no mundo contemporâneo – entre eles, a migração.

Uma característica marcante nos trabalhos da Cia. Artesãos do Corpo é a busca por usar o palco e locais não convencionais como espaços de atuação e diluir fronteiras entre dança, teatro e performance. Ela ainda lança mão de elementos orientais como meio de preparo tanto do corpo como da mente. Para o projeto Tempo Suspenso, por exemplo, o recurso é o MA – modo de olhar o mundo inerente à cultura japonesa, que considera o intervalo, o vazio e as lacunas.

Em “Refúgio – ou como fixar raízes no concreto” esses elementos ficam bem claros na questão da qual parte a ideia da performance: “Como lidar com o conceito de enraizamento num contexto onde o corpo é obrigado a deslocar frequentemente suas raízes?
”

Performance durante o 10º Visões Urbanas – Festival Internacional de Dança em Paisagens Urbanas, realizado pela Cia Artesãos do Corpo em São Paulo.
Crédito: Fábio Pazzini

“Refúgio – ou como fixar raízes no concreto”
Data e hora: 23 e 24 de setembro (sábado às 15h e domingo às 11h)
Local: Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1316, São Paulo (SP) – próximo à estação Bresser-Mooca do Metrô
Duração∶ 30 minutos
Classificação∶ livre
Entrada: gratuita

Veja mentiras e verdades sobre migrações no discurso de Trump na ONU

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Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York (set.2017). Crédito: Mark Garten/UN Photo

Fact-checking: MigraMundo comparou discurso do presidente dos EUA na Assembleia Geral da ONU com dados oficiais e opiniões de especialistas

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

O presidente dos EUA, Donald Trump, chocou o mundo com sua linguagem agressiva em seu primeiro discurso na 72ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na última terça-feira (19). Em frente aos chefes e representantes dos 193 Estados-membros das Nações Unidas, Trump, que usou 29 vezes a palavra “soberania”,  falou sobre priorizar os Estados Unidos em seu governo, fortalecer as fronteiras e chamou ainda o fluxo migratório atual de “descontrolado”.

Trump enfatizou ainda que os refugiados devem ser assentados fora dos EUA, argumentado que “bilhões e bilhões de dólares norte-americanos” são enviados a países como Turquia e Jordânia para que recebam refugiados de guerras como a que ocorre na Síria.

O MigraMundo reuniu as frases do republicano a respeito da temática migratória e as confrontou com números oficiais da ONU e do próprio governo dos EUA, junto com estudos e análises de especialistas no assunto. Confirma a seguir:

Donald Trump, presidente dos EUA, em discurso na Assembleia Geral da ONU (set/2017).
Crédito: Cia Park/UN Photo

Trump: “Nós procuramos uma melhora em nosso programa de reassentamento de refugiados que possa ajudar as pessoas que tem vivido situações horríveis de ameaça de vida (…)”

Fact-checking: Na verdade, a administração de Donald Trump tem dificultado o acesso aos EUA de refugiados que estão fugindo de “situações horríveis de ameaça de vida”, como a guerra na Síria e na Líbia ou a fome na Somália e a guerra civil no Sudão. Desde que o republicano assumiu a presidência dos EUA, o número total de asilos concedidos caiu dramaticamente. De acordo com pesquisa divulgada em abril deste ano pelo centro norte-americano de pesquisas Pew Research Center, os dados do governo norte-americano mostraram uma redução de quase 60%  no número de refugiados aceitos no país em menos de 6 meses. De Outubro de 2016 a Março de 2017, o número foi de 9,945 para 3.316.

No dia 25 de janeiro de 2107, Trump, em seus primeiros dias como presidente,   sancionou e executou um decreto-lei que suspendia, por 120 dias, a entrada de cidadãos do Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen. Já os sírios ficaram impedidos indefinidamente de entrar nos Estados Unidos.

A lei assinada por Trump – e depois revista por ele mesmo em 06 de março devido a diversas intervenções judiciais – cortou o orçamento do programa acolhimento de refugiados pela metade. Com o corte, em 2017, os Estados Unidos receberão 50.000 refugiados, menos que a metade dos 110.000 previstos.

Trump: “…e um programa que possa também reabilitá-las a voltar para suas casas, como parte de um processo de reconstrução de seus países.”

Fact-checking: Os refugiados que chegam hoje nos Estados Unidos e entram com um pedido de asilo podem esperar até 24 meses para terem seus casos julgados. Isso porque Donald Trump colocou a análise dos perfis dos refugiados feitos pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) e por Agências Internacionais como Cruz Vermelha debaixo da tutela do Departamento Nacional de Segurança e de agências federais de investigação, como a CIA, o que torna o processo mais moroso.

E quanto mais o migrante espera por ser reconhecido como refugiado, maior o tempo que ele levará para se integrar na sociedade local, se restabelecer financeiramente e, futuramente, voltar ao seu país.

Trump: “Pelo preço de um assentamento nos EUA, nós podemos assistir mais de dez refugiados em países próximos de suas casas”.

Fact-checking: Trump está certo quando diz que custa mais assistir um refugiado dentro dos EUA do que fora – mas apenas a curto prazo. Porque, a longo prazo, um refugiado é muito mais rentável para o país que o acolhe dentro de suas fronteiras.

De acordo com o último balanço divulgado pelo Departamento de Estado norte-americano, US$ 358 milhões de dólares foram enviados em assistência humanitária para três países neste ano até setembro: Turquia (US$ 90 milhões), Líbano (US$ 167 milhões) e Jordânia (US$ 101 milhões). Já o valor gasto, nestes mesmos meses pelo governo dos EUA, para receber e assistir os migrantes no próprio país foi de US$ 1,559 bilhão. Esses montante inclui desde assistência médica e social, passando por aulas de inglês e treinamento técnico para o mercado de trabalho, até os gastos do próprio Departamento de Migração com salários de funcionários e etc.

Mas, a longo prazo, o refugiado assistido logo ‘pagará a conta’ ao governo que lhe acolheu. De acordo o estudo “Os ganhos econômicos e sociais dos Refugiados nos Estados Unidos: Evidências da ACS”, um refugiado que chegou aos EUA há 25 anos, já superou, com suas contribuições em impostos e taxas, em 25 mil dólares o que lhe foi dado em assistência. Os autores usaram como base os dados do centro de pesquisa nacional American Community Survey (ACS).

“Não existe nenhuma pesquisa credível que eu conheça que mostre que o refugiado não seja nada além do que um grande e rentável investimento”, afirma Michael Clemens, diretor do Departamento de Migração e Desenvolvimento do Centro Global de Desenvolvimento, em Washington.

(Observação: nos Estados Unidos, o refugiado deve também reembolsar o preço de sua passagem aérea ao governo).

Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York (set.2017).
Crédito: Mark Garten/UN Photo

Trump: “Nós temos aprendido que, a longo prazo, um fluxo migratório descontrolado prejudica ambos os lados; os países de origem e os países de destino. Para os países de origem, a diminuição de sua população faz com que o debate politico se empobreça e, assim, as reformas econômicas e políticas necessárias se tornam inviáveis. Para os países de acolhida, os custos de uma migração descontrolada recaem sobre os seus cidadãos menos favorecidos, que já são excluídos das políticas locais e da mídia.”

Fact-checking: Kalena Cortes, professora da Universidade de Austin, no Texas,  acompanhou o caso de refugiados e não refugiados recém-chegados aos EUA nos anos 1970. E o seu estudo, intitulado “Os refugiados são diferentes dos migrantes econômicos? Algumas evidências empíricas da heterogeneidade dos grupos de imigrantes nos Estados Unidos”, constatou que, após alguns anos, o refugiado conseguiu se restabelecer, abrir seu próprio negócio e gerar renda e emprego não só para si mesmo e sua família, mas também para outros refugiados de sua nacionalidade e também para os locais.

Em seu novo livro “Refúgio: repensando um sistema quebrado”, os professores Alexander Betts, diretor do Centro de Estudos de Oxford para Refúgio, e Paul Collier, também de Oxford, afirmam que os refugiados podem ser uma solução para a economia local e, em muitos casos, eles geram emprego e renda.

“Em Uganda, encontrei um jovem refugiado do Congo que queria fazer cinema. Ele, com os poucos recursos que tinha e graças ao acesso dado pelo governo local ao mercado de trabalho, conseguiu montar sua própria produtora e, de maneira amadora, estava abrindo um negócio e gerando emprego”, afirmou Betts.

“Não há uma invasão [de refugiados]”, diz Hein de Haas, vice diretor do Instituto Internacional de Migração da Universidade de Oxford e professor de Estudos Migratórios da Universidade de Maastricht, na Holanda. “O percentual da população que migra tem se mantido estável, entorno de 3% (…) Os migrantes também são atraídos pela situação econômica do país de destino, economias fortes e mercados de trabalho com oportunidades. E, normalmente, os migrantes contribuem mais para esses mercados de trabalho do que tiram algo deles”, acrescenta. “E curiosamente, quanto mais rico um país que era pobre se torna, maior a tendência de seus cidadãos migrarem, não menos – é a função do desenvolvimento, o desenvolvimento de uma nação a faz migrar mais, ela [a migração] não é algo que deve ser interrompido”, afirma Haas. “O problema é a xenofobia, não o fluxo de pessoas. Aqueles que veem a migração como um problema estão ignorando a realidade, qualquer tentativa de controle de fronteiras é delírio. Ser contrário à migração é como ser contrário ao envelhecimento. O migrar já está acontecendo, é natural. Não há nada que possamos fazer para impedir.”

Começa a IV Copa dos Refugiados; Nigéria e Marrocos vão à final

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Seleção da Nigéria é uma das finalistas da IV Copa dos Refugiados. Crédito: Miguel Pachioni/ACNUR

“Esse evento quebra preconceitos, combate a xenofobia e divulga a causa tão pouco conhecida pelos brasileiros”, conta organizador do torneio

Por Alethea Rodrigues
Em São Paulo (SP)

Depois de eventos prévios e até um torneio em Porto Alegre, começou neste final de semana (16 e 17/09) a quarta edição da Copa dos Refugiados, em São Paulo. O evento, que a cada ano se consolida como uma importante ação para integrar e unir refugiados de todas as partes do mundo, usa o futebol como meio de rebater os preconceitos em geral associados aos refugiados.

A edição deste ano começou com cerca de 250 jogadores, divididos em 16 times: Angola, Benin, Camarões, Colômbia, Gâmbia, Gana, Guiné Bissau, Guine Conacri, Iraque, Mali, Marrocos, Nigéria, República Democrática do Congo, Síria, Tanzânia e Togo. Ao final dos dois dias de jogos (sábado no Parque Ceret e domingo no Parque da Aclimação), Nigéria e Marrocos tiveram as melhores campanhas e vão disputar a final, no domingo (24). O terceiro lugar já foi definido no final de semana e ficou com Guiné Bissau, que venceu o Togo.

A decisão será no estádio do Pacaembu, tradicional palco do futebol paulista e brasileiro. A entrada é gratuita, mas a organização sugere a doação de um quilo de alimento não perecível.

Copa dos Refugiados usa futebol como pretexto para chamar a atenção para a questão do refúgio no Brasil.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Lazer e talentos

A maioria dos refugiados encara o futebol como lazer, para fazer novas amizades e unir ainda mais a comunidade dos seus países do origem. Mas um dos coordenadores da Copa, o sírio Abdulbaset Jarour, garante que há jogadores com talento suficiente para se tornarem grandes profissionais do futebol brasileiro.

“Esse evento quebra preconceitos, combate a xenofobia e divulga a causa tão pouco conhecida pelos brasileiros. E não é somente isso. Estamos no país do futebol e temos jogadores excelentes nestes times. Quem sabe em um futuro próximo alguns deles disputem uma vaga em times profissionais. Seria maravilhoso e eles têm talento para isso”, contou Jarour, que também coordena a ONG África do Coração, entidade idealizadora do projeto.

Cada jogador que vive no Brasil tem uma história de vida diferente para contar, mas todos possuem um objetivo em comum, recomeçar suas vidas com paz e tranquilidade. Ajari Mavis, técnico do time da Nigéria, treina a equipe há quatro anos. Vivendo no Brasil há quase 15, hoje é empresário e faz sua parte para integrar os colegas na sociedade brasileira.

Seleção da Nigéria é uma das finalistas da IV Copa dos Refugiados.
Crédito: Miguel Pachioni/ACNUR

“Um evento como esse traz alegria aos refugiados, faz com que a gente se sinta valorizado, acolhido. O Brasil recebe muito bem os estrangeiros e por isso temos que fazer a nossa parte, mostrarmos nosso verdadeiro valor. Meus jogadores são muito competentes e vamos continuar batalhando para que eles consigam esse título e vários outros”, concluiu o treinador, que volta a campo com o time nigeriano para a grande final, no dia 24.

A Copa dos Refugiados é organizada pela ONG África do Coração, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, o escritório brasileiro do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), o SESC-SP, a Cruz Vermelha e as empresas Netshoes e Sodexo. O evento teve ainda o apoio da Prefeitura de São Paulo, por meio das Secretarias Municipais de Esportes e Lazer, dos Direitos Humanos e das Relações Internacionais.

Regulamentação da Lei de Migração: entre receios e esperanças

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Mesa de abertura da atividade presencial do Fórum de Participação Social, do CNIg, em São Paulo (agosto/17). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Processo pode atenuar ou mesmo agravar os vetos já realizados no texto que foi sancionado

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Em novembro (provavelmente no dia 21) o Brasil começa oficialmente a contar com uma nova Lei de Migração (Lei 13.445/2017), aprovada em abril passado pelo Congresso Nacional e sancionada no mês seguinte. Mas os vetos feitos pela Presidência no ato de sanção da lei (23 ao todo) lançaram um sinal de alerta para toda a comunidade organizada em torno da temática migratória.

Ainda houve um movimento de indivíduos e entidades da sociedade civil para tentar derrubar no Congresso os vetos presidenciais. No entanto, o Legislativo não alterou uma linha sequer do que foi sancionado no fatídico 24 de maio. Entre os principais vetos estão:

  • Anistia para migrantes que ingressaram no Brasil sem documentos até 6 de julho de 2016;
  • Conceito de “migrante” – a lei sancionada conta apenas com as definições de “imigrante”, “emigrante”, “residente fronteiriço”, “visitante” e “apátrida”
  • revogação das expulsões de migrantes decretadas antes de 1988;
  • livre circulação de povos indígenas entre fronteiras nas terras tradicionalmente ocupadas por eles;
  • extensão da autorização de residência a pessoas sem vínculo familiar direto;
  • dispensa do serviço militar de brasileiros por opção ou naturalizados que cumpriram obrigações militares em outro país;
  • direito dos migrantes de exercer cargo, emprego ou função pública
  • concessão de visto ou de autorização de residência para fins de reunião familiar a outras hipóteses de parentesco, dependência afetiva e fatores de sociabilidade
  • Definição que considera como grupos vulneráveis: solicitantes de refúgio; requerentes de visto humanitário; vítimas de tráfico de pessoas; vítimas de trabalho escravo; migrantes em cumprimento de pena ou que respondem criminalmente em liberdade; menores desacompanhados.

Para Luis Renato Vedovato, doutor em Direito Internacional pela USP e professor na Unicamp, esses vetos indicam que a interpretação das normas da nova lei de acordo com os direitos fundamentais pode não ser o horizonte do governo. “A regulamentação poderá trazer entraves para os direitos declarados, além do fato dela poder ser omissa em alguns pontos”.

Migrantes querem maior participação e acesso aos debates sobre a Lei de Migração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Espaço para diálogos?

Sem mais a possibilidade de rever os vetos, o foco total passa a para a regulamentação da Lei de Migração. Em torno de 30 artigos dependem de outros projetos legislativos ou decretos presidenciais para se tornarem válidos.

Esse processo é motivo de expectativa e preocupação para a sociedade civil, que tem feito uma série de eventos e debates para tratar do assunto. A regulamentação tanto pode atenuar como aprofundar os efeitos das dezenas de vetos, dependendo do rumo que ela tomar. “Há que se ficar atento para que a regulamentação não se afaste do coração da nova lei, que é a proteção aos direitos fundamentais”, aponta Vedovato.

No entanto, o espaço para dialogar sobre o tema diretamente com o governo federal, responsável pela regulamentação, tem sido diminuto. O único evento público desde a sanção presidencial a permitir esse contato direto foi a consulta feita por meio da atividade presencial do Fórum de Participação Social, no último dia 4 de agosto. O evento, organizado pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e pelo Ministério do Trabalho, teve como objetivo coletar sugestões do público presente para a regulamentação da nova lei.

Mesa de abertura da atividade presencial do Fórum de Participação Social, do CNIg, em São Paulo (agosto/17).
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Os participantes da atividade – entre representantes da sociedade civil e do poder público, e migrantes – elaboraram um total de 68 propostas. Ao final, o presidente do CNIg, Hugo Gallo, disse esperar que o Conselho consiga fazer uma nova atividade presencial do Fórum no final do ano, com a Lei de Migração já em vigor e regulamentada. Ele afirmou ainda que as propostas apresentadas “foram de alto nível” e vão subsidiar as discussões já em curso no Executivo sobre a nova lei.

No entanto, atividades como a que ocorreu em 4 de agosto devem continuar a ser raridade. Em julho passado, entidades protocolaram um documento junto ao Ministério da Justiça pedindo uma reunião do Comitê de Acompanhamento pela Sociedade Civil sobre ações de Migração e Refúgio (CASC-Migrante), da Secretaria Nacional de Justiça (e vinculado ao Ministério da Justiça). Criado no final de 2013, o CASC poderia ser um dos canais de diálogo junto à pasta, uma das mais envolvidas com a temática migratória no governo federal. Esse conselho chegou a ser ampliado em 2014, no principal ato concreto do último dia da Conferência Nacional de Migrações e Refúgio (Comigrar), mas não voltou a ser convocado desde então.

Procurado pelo MigraMundo, o Ministério da Justiça informou que “não há intenção de realizar audiência ou consulta pública no momento” sobre a Lei de Migração. Por outro lado, fontes ouvidas pelo MigraMundo informaram que o Ministério da Casa Civil tomou para si a tarefa de convocar consultas e audiências quando e da forma que julgar mais conveniente.

CASC-Migrante ganhou novos membros após a Comigrar, em 2014. No entanto, não voltou a se reunir desde o final da Conferência.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – jun.2014

Pressão para manter conquistas

Apesar dos vetos presidenciais, a nova Lei de Migração ainda é considerada uma conquista dos movimentos sociais, dos migrantes e de entidades da sociedade civil organizada. Ela tem como paradigma principal a visão do migrante como um sujeito de direitos e deveres – ao contrário do Estatuto do Estrangeiro (revogado a partir de novembro), que vê todo e qualquer não-brasileiro como uma ameaça à soberania nacional.

Para Letícia Carvalho, assessoria de incidência política da Missão Paz e participante ativa no processo de tramitação da nova Lei de Migração, esses pontos não foram comprometidos pelos vetos e permitem retomar avanços que ficaram de fora no ato da sanção do texto final. “Temos de olhar sempre para o rol de princípios e garantias para os migrantes que estão na lei e que foram nela mantidos. Muitas das saídas para manter essas garantias ainda estão no conteúdo da lei e que não foram vetados”.

Há ainda possibilidade da lei entrar em vigor sem que o processo de regulamentação esteja finalizado, o que a deixaria dependente da interpretação que quem for aplicá-la – por exemplo, a Polícia Federal, que lida diretamente com os migrantes no seu dia a dia.

Vedovato vê como fundamental a continuidade da mobilização que marcou a tramitação da Lei de Migração no Congresso Nacional para evitar novas perdas além dos vetos. O caminho sempre é o da pressão feita pela sociedade civil”.

Letícia destaca ainda a importância que os coletivos e associações formadas por migrantes podem ter nesse processo. “Justamente agora com a lei de Migração e com a não proibição da atividade política, estamos entrando em um momento novo. Todos esses grupos que já existem e os que ainda vão se formar são de extrema importância para o debate, para que a nova lei venha a ser aplicada e que as normas ali presentes se transformem em demandas que tragam mudanças para a sociedade e para a vida de cada um deles”.

A refugee child has five times less chance to go to school, says UNHCR report

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Khadija, 12, sudanese refugee in a camp at Maban, South Sudan. Photo: UNHCR

Report “Left Behind” of the UN Refugees Office shows that only 1% of 6.4 million refugees in scholar age will get in university

By Victória Brotto
From Strasbourg (France)
Review by Márcia Passoni
Portuguese version – click here

“To whom does Yagani belong?”, asks, in English, the teacher Patrick Abade in the middle of a crowded classroom. He snaps his fingers, dances and put the question into a musical rhythm – and repeats it three times. The students, even though pressed at each other’s shoulders, laugh and follow the teacher. “To whom does Yagani belong?”, sing all together.

Yagani is a small primary school in Bidibidi, Uganda. There are local students and also refugee kids – most of them from South Sudan. They are part of the 61% of refugee children aged from 5 to 7 who go to school – this percentage contrasts with the percentage of local kids who also go to school; they are numbered in 91%. It means that a refugee child has 5 times less chance to go to school than a non-refugee one.

Teacher Patrick Abade during class in Yagani, primary school in Bidibidi, Uganda.
Photo: UNHCR

In some years from now, when these kids get older and get into their teenager’s time, most of them will stop their studies as there will not be enough space or opportunity for them. From all the teenager refugees, only 23% get into Elementary School – as 83% of the other teens go to school frequently.

And when they become youngsters, only 1 out of 100 will manage to go to university – what representes 1% out of a population of 6.4 million young refugees. The other 99% – more than 5 million people – will have no academic certificate what will mean for them living in the outskirts of the society after scaping from being murdered in their own countries and after leaving their houses and families behind.

The figures are from the UN Refugee Office published last Wednesday in the so-called report “Left Behind”. “Education must be an integral part of the emergency response to a refugee crisis. It can provide a protective and stable environment for these young people when all around them seems to have descended into chaos. It includes life-saving skills, promotes resilience and self-reliance, and helps to meet the psychological and social needs of children affected by conflict. Education is not a luxury – it is a basic need”, said the High-Commissioner of the UNHCR, Filippo Grandi.

Click here to download the report

Khadija, 12, sudanese refugee in a camp at Maban, South Sudan.
Photo: UNHCR

In the report, Grandi criticizes the lack of response from after the New York Declaration last year. “The New York Declaration for Refugees and Migrants, signed by 193 countries, put education at the forefront of the international response”, he says and adds: “Despite the overwhelming support for the New York Declaration, one year on, refugees are in real danger of being left behind in terms of education,” said Grandi. “Ensuring that refugees have equitable access to quality education is a shared responsibility. It is time for all of us to put words into action.”

“There is a clear gap in opportunity for refugee and non-refugee children, and we must do everything in our power to close it. This means investing in classrooms and teachers for refugees. It means giving them access to appropriate material. It also means supporting girls so that they have the same opportunities as boys”, says Alex Wek, UNHCR Goodwill Ambassador. Alek left her village behind at the age of 14 because of the local civil war. She moved with her family to London, England, where she studied Fashion as bachelor. “The world has much to lose if it allows whole generations of refugees to grow up uneducated and alienated.”

Alek Wek, UNHCR Goodwill Ambassador, during a visit to Juba, South Sudan.
Photo: Brian Sokol/UNHCR

Nyahok, the girl who wants to fly

Nyahok Reath, aged 16, wants to study to get into an airplane and fly – but not as a passenger. The girl Nyahok, from Nasser, South Sudan, wants to be a pilot. “My dream has always been to be a pilot,” she says. “When I was younger, I used to see a lot of planes flying around Nasser. I used to see the pilots when they got out of the planes in their fancy uniforms. I want to go to every country”, she said to the UNHCR team. Nyahok is part of the 67% of the refugee teens who are out of school. She and her family left South Sudan because of the civil war and they went to Ethiopia, they were encamped there and with her uncle’s aid, she could move to Nairobi, Quenia, to keep studying. But 6 months after, she had to stop because her uncle could not pay her school fees.

Nyahok, from Nasser, South Sudan, wants to be a pilot.
Photo: UNHCR

Hani al-Moliya escaped from Homs, Syria, when he was still a teenager. He left his home-town with his family after his uncle was killed because he didn’t want to leave his house. But Hani told Melissa Fleming, ACNUR spokesperson, that before he needed to leave, he took with him his High School certificate.

“I knew my life was depending on it. I am nothing without education”, he said to Mellissa Fleming. He and his family lived in a camp in Libanon and after, Hani got asylum in Canada. Nowadays, he studies Computer Engineer in Ryerson University, in Toronto.

“When people ask why the world’s refugee problem is our collective problem, I often think of Hani – a boy who reached for his high-school diploma when he had to leave almost all of his other possessions in Homs”, says Melissa Fleming. And she adds: “We have to invest in young people as brave, resourceful and determined as Hani al-Moliya.”

Why education?

“They want to know about us and we want to know about them. There’s so much to tell and explain. Sometimes I translate for the others into Arabic or German”, explains Kamala, 10, Syrian refugee in Golzow, Germany.

Kamala, 10, Syrian refugee in Golzow, Germany.
Photo: Gordon Welters/UNHCR

According to a new study made by the National Bureau of Economics Research in the USA, the longer the refugees live in the US, the more their economic outcomes improve and the less they rely on government assistance. The study “Social and Economic Incomes of Refugees in US: Evidence from ACS” based their research on the data base of the American Community Survey (ACS).

They analyse the situation of refugees aged from 18 to 45, that have arrived in United States in the last 25 years. According to the study, the ones who arrived younger than 14 years old have more economic autonomy nowadays, than the old ones in that time.

For William Evans, a Notre Dame economist and one of the authors of the study , it is wrong to focus on the cost only of a refugee for the state, because they produce more incomes than outcomes. The study has revealed that in 20 years, the refugees contributed 20,000 dollars more to the government than they got in benefits. “You can’t just look at one side of this equation. They’re getting benefits, but they are also producing incomes”, said Mr. Evans.

For the professor of the Oxford Refugee Study Centre (RSC), Alexander Betts, exclusion of refugees in society comes from a political idea that ‘all refugees are a burden’. “But they are not. They are humans beings that need their capacities being flourished”, he said during his speech in TEDX in Vancouver, Canada, last year. “Politicians frame the issue that if we help refugees we are imposing costs on citizens. We tend to have a collective assumption that refugee will be an inevitable burden to society but they don’t have to, they can contribute.”

Mojtaba Tavakoli is about to start his PhD in neurodegenerative disorders in the University of Viena, where he is graduated in the Faculty of Medicine in molecular biology. Mojtaba is afghan and arrived in Austria ten years ago as asylum seeker at the age of 13. He left his village in the countryside of Ghanzi behind with his family because they were being persecuted. They went to Turkey and after, in a boat, just he and his brother made the journey to Europe. But his brother didn’t survive. “Europe was the place where we could be safe.” Realocated to Austria, the boy was adopted by an austrian scientistic couple and then he was integrated into the austriac education system.

Mojtaba Tavakoli, afghan, now lives in Austria.
Photo: UNHCR

In his new country, now as a scientist doctor, he helped to found the Association of Afghans Pupils and Students in Austria to encourage his fellows to “take na interest in politics and get involved in shaping the future of their new homeland”, says the UN report.

The Mojtaba’s parents will live with him in a nearby future- that is what he wants. In his graduation ceremony, all the family were there: afeghan and austriac parents. His father, Joma Ali, was smilling and said: “This is a good evening.”

Criança refugiada tem 5 vezes menos chance de estudar, aponta ONU

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Patrick Abale, professor da escola de Yangani, em Uganda. Crédito: ACNUR

Relatório “Deixados para trás”, do ACNUR, mostra que apenas 1% dos 6,4 milhões de refugiados em idade escolar concluirão ciclo de estudos até o ensino superior

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)
English version – click here

“A quem Yagani pertence?”, pergunta em inglês o professor Patrick Abade no meio de uma sala lotada por crianças. Estalando os dedos e dançando, ele faz da pergunta uma canção – e a repete três vezes. As meninas e os meninos ao seu redor, mesmo espremidos uns nos outros, dão risada e o acompanham. “A quem Yagani pertence?”, cantam todos.

Yagani é uma pequena escola primária em Bidibidi, Uganda. Lá não estudam só meninos e meninas ugandeses, mas também algumas crianças refugiadas, principalmente vindas do Sudão do Sul. Elas fazem parte dos 61% de crianças refugiadas entre 5 e 7 anos que vão à escola – percentual que contrasta com os 91% de outras crianças ao redor do mundo que frequentam a escola regularmente. Ou seja, uma criança refugiada hoje tem cinco vezes menos chances de estudar do que uma criança fora de uma situação de refúgio.

Patrick Abale, professor da escola de Yangani, em Uganda.
Crédito: ACNUR

Daqui alguns anos, quando já estiverem na adolescência, a maioria delas vai parar de estudar porque não vai encontrar espaço no sistema educacional dos países que as acolheram. Isso porque de todos os refugiados adolescentes, apenas 23% conseguem uma vaga no Ensino Fundamental – sendo que 83% dos outros adolescentes no mundo conseguem continuar seus estudos depois da escola primária.

E, quando forem jovens, apenas 1 em cada 100 refugiados entrará no Ensino Superior – o que representa 1% de uma população de 6,4 milhões de jovens. Os outros 99% – mais de 5 milhões de jovens – ficarão sem um diploma universitário, o que significa que viverão às margens da sociedade depois de terem fugido de seu países para não morrerem assassinados por milícias, por seus próprios governos ou para simplesmente não morrerem de fome.

Os números são do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o ACNUR, publicados na última quarta-feira, 13, no relatório “Deixados para trás” (Left Behind, no nome original em inglês). “A Educação deve ser parte integral da resposta para a crise de refugiados – ela não é um item de luxo, mas uma necessidade básica”, afirma o alto comissário para refúgio da ONU, Filippo Grandi. “Ela proporciona um ambiente estável e de proteção para o jovem, quando tudo ao redor dele parece ser apenas caos”.

Clique aqui para fazer o download (em inglês)

No relatório, Grandi critica a falta de resposta da comunidade internacional um ano depois dela ter se comprometido, pela Declaração de Nova York, a ajudar os refugiados em termos de educação.

“A Declaração para Refugiados e Migrantes feita em Nova York ano passado, assinada por 193 países, coloca a educação como prioridade à crise migratória”, afirma o comissário. “Mas mesmo após um ano depois, os refugiados estão em risco de serem deixados realmente para trás em termos de educação”. E acrescenta: “É tempo para todos nós colocarmos em prática as nossas palavras”.

“Há uma desigualdade evidente de oportunidades para refugiados e não-refugiados (…). Precisamos investir em escolas, em professores, dar o material de estudo apropriado aos refugiados e também dar oportunidades iguais tanto a meninas quando a meninos refugiados”, afirma a sudanesa Alek Wek, embaixadora da Boa Vontade do ACNUR.

Alek Wek, embaixadora do ACNUR, durante visita a Juba (Sudão do Sul).
Crédito: Brian Sokol/ACNUR

Alek fugiu de sua vila aos 14 anos por causa da guerra civil e se mudou para Londres, na Inglaterra, onde estudou moda na universidade. “O mundo tem muito a perder se deixar gerações inteiras de refugiados crescerem marginalizados e alienados.”

Nyahok, a menina que quer voar

Nyahok Reath, de 16 anos, quer estudar para conseguir entrar em um avião, mas não como passageira. A menina Nyahok, da cidade de Nasser, no Sudão do Sul, quer pilotar uma aeronave. “Meu sonho sempre foi me tornar uma piloto. Quando eu era mais nova, eu via aeronaves sobrevoando Nasser. Eu via aqueles pilotos saindo de seus aviões com aqueles uniformes bonitos…”, afirmou a menina a uma das equipes da ACNUR.

Nyahok faz parte dos 67% dos refugiados que estão fora da escola. Ela e sua família fugiram de Nasser por causa da guerra civil, moraram em um campo de refugiados na Etiópia e, com a ajuda de um tio, a menina foi estudar no Quênia, em Nairóbi. Mas depois de seis meses o tio não conseguiu mais pagar a sua escola, e Nyahok precisou interromper seus estudos.

Nyahok Reath, 16, sonha em pilotar aviões.
Crédito: ACNUR

Hani al-Moliya fugiu ainda adolescente com a sua família de Homs, na Síria. Seus tios e primos foram mortos porque não quiseram deixar suas casas. Na hora de deixar tudo para trás, Hani contou à Melissa Fleming, porta-voz do ACNUR, que decidiu pegar seu diploma do Ensino Médio.

“Eu sabia que a minha vida dependia dele. Sem educação, eu não sou nada”. Ele e sua família viveram depois em um campo de refugiados no Líbano e após “tempo demais”, conforme diz Fleming, o jovem conseguiu asilo no Canadá. Hoje ele estuda Engenharia da Computação na Ryerson University, em Toronto.

“Quando as pessoas me perguntam por que o problema dos refugiados deve ser um problema do mundo todo, eu sempre penso em Hani, o menino determinado que pegou seu diploma entre todas as outras coisas que deixou para trás”, afirma Fleeming. “Investindo em educação, nós investimos em jovens determinados, corajosos e criativos como Hani”.

Por que Educação?

“Eles querem saber de nós e nós queremos saber deles. Há tanto o que ser dito e explicado. Às vezes eu traduzo do Árabe para o alemão ou do alemão para o árabe”, diz Kamala, 10 anos, uma refugiada síria que vive hoje em Golzow, na Alemanha sobre seus colegas de classe.

De acordo com um novo estudo feito pelo Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas dos Estados Unidos, quanto mais jovem e mais integrado na cultura local o refugiado está, mais lucros econômicos ele gerará para o país.
O estudo “Os ganhos econômicos e sociais dos Refugiados nos Estados Unidos: Evidências da ACS” usou a base de dados do centro de pesquisa American Community Survey (ACS) para analisar o perfil de refugiados de entre 18-45 anos que chegaram aos EUA nos últimos 25 anos. De acordo com as análises, os migrantes que chegaram antes dos 14 anos, hoje tem mais autonomia econômica do que os que chegaram aos EUA mais velhos.

Kamala, 10, refugiada síria que vive hoje na Alemanha.
Crédito: Gordon Welters/ACNUR

Para William Evans, um dos autores do estudo, é errado focar apenas no custo com os refugiados, porque eles também geram ganhos para a sociedade. De acordo com o estudo, ao longo de 20 anos, os refugiados contribuíram com 20,000 dólares a mais do que o que o governo americano gastou com eles. “ Você não pode olhar apenas para um lado dessa equação. Eles estão recebendo ajuda, mas também estão gerando ganhos sociais e econômicos”, afirma William Evans, economista e um dos autores do estudo.

Para o professor do Centro de Estudos de Refugiados (RSC, sigla em inglês) da Universidade de Oxford, Alexander Betts, é uma presunção coletiva incentivada pelo discurso político de que ‘se ajudarmos os refugiados, nós estaremos impondo custos aos cidadãos’.

“Nós tendemos a tirar uma conclusão por nós mesmos de que os refugiados serão um fardo eterno à sociedade”, afirmou Betts em um de seus discursos no TEDx de Vancouver, no começo do ano passado. “Mas eles não precisam ser um fardo, eles podem contribuir.”

Mojtaba Tavakoli está prestes a começar o seu doutorado em doenças neurodegenerativas na Universidade de Viena, onde já se graduou na Faculdade de Medicina em biologia molecular.

Mojtaba é afegão e chegou há dez anos na Áustria, como refugiado, quando tinha 13 anos de idade. Mojtaba fugiu com sua família de Ghazni, zona rural no leste do Afeganistão, quando sua etnia começou a ser perseguida. Sua família então fugiu para a Turquia, e depois seus pais o colocaram com seu irmão em um bote para a Europa. “A Europa era o único lugar onde estaríamos seguros”. Antes de chegarem, o irmão de Mojtaba morreu afogado. Realocado na Áustria, o menino Mojtaba foi adotado por um casal de cientistas e foi sendo integrado na sociedade e no sistema educacional austríaco.

O refugiado afegão Mojtaba Tavakoli, que vive na Áustria.
Crédito: ACNUR

Em seu novo país, o médico cientista ajudou a fundar a Associação de Jovens Estudantes Afegãos na Áustria e é onde hoje incentiva jovens refugiados como ele a se “interessar por política e a se integrar e a redesenhar seus futuros na sua nova casa”. “Precisamos sonhar grande”, afirmou ele em seu discurso de formatura.

Os pais de Mojtaba viverão com ele na Áustria em um futuro próximo – é o que ele quer. Na sua formatura, a família toda estava reunida; os pais afegãos e os pais adotivos austríacos. Seu pai, Joma Ali, sorria e disse: “A noite de hoje é uma bela noite.”

Casa de Cultura fundada por colombiana promueve América Latina en la UE

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A colombiana Lígia Vasquez, fundadora da Casa América Latina, que fica em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Maison de l’Amerique Latine (Casa de América Latina) en Estrasburgo (Francia) reúne a latinos y europeos en sus actividades culturales, que incluyen saraos, exposiciones y clases de español

Por Victória Brotto
En Estrasburgo (Francia)
Traducción de María Villarreal
Versão em português – clique aqui

“Esta es mi forma de mantener un pie aquí y otro allá”. Es lo que dice Lígia Vásquez, 62, al frente del número 7 de la Rue de la Curse, en Estrasburgo (Francia), donde funciona la “Maison de l’Amerique Latine” (Casa de América Latina, en traducción libre del francés.

Directora de la institución, Lígia enciende un cigarrillo, se dirige hacia la ventana y explica, desde su español colombiano, el porqué abrir un centro de cultura latina en una de las capitales de la Unión Europea, en el corazón de la región francesa de Alsacia. “¿Por qué? Para estar siempre en casa”.

Lígia salió de Colombia cuando tenía 33 años y, bajo el estatus de refugiada política, escogió Estrasburgo para vivir. “¿Qué es lo que yo sabía? Que Estrasburgo tenía una bella catedral y que estaba en la frontera con Alemania. Solamente eso” dice la directora riéndose con una inconfundible risa latina.

La Casa de América Latina fue fundada en 1995 por Lígia y hoy funciona como un centro difusor de la cultura latina – y también de encuentro de la comunidad latina en la ciudad francesa. Con 50 miembros por año, además de visitantes esporádicos, muchos chilenos, colombianos, argentinos, brasileños y uruguayos se encuentran en los saraos, conciertos y exposiciones que la casa ofrece. Y no únicamente los latinos, sino también franceses y alemanes. “Funcionamos como un centro de integración de la comunidad latina y de la casa cultural sobre nuestra cultura” dice la directora. La tasa para hacerse miembro es de 30 euros anuales.

“Al principio, el objetivo era reunir informaciones de lo que sucedía en América Latina y pasarlas para las personas. Al comienzo, vimos que había una inmensa comunidad latina que no sabía lo que pasaba en sus países” explica Ligia. “Para que tengas una idea, antes de internet, tú encomendabas el periódico del día domingo y el periódico solo llegaba el domingo siguiente”.

Hoy, después de internet y con el fin de las dictaduras latinas -factor que politizó y unió a la comunidad latina en el exterior según Ligia-, la casa decidió cambiar un poco de tono. La Casa hoy ofrece clases de español básico, intermedio y avanzado con profesores con “acento latino” porque muchos no quieren el español de España. “La mayoría de los alumnos son estudiantes y profesionales que necesitan el español para sus actividades o personas que se casaron con latinoamericanos y quieren aprender la lengua” explica Ligia. El curso cuesta 360 euros al mes con 45 horas de clases anuales. MigraMundo preguntó si la casa también ofrecía portugués. “Lo tuvimos hace tiempo, pero no hubo adhesión” respondió la directora.

Además de las clases, la casa también ofrece: talleres de escritura de francés, el “atelier d’écriture en français”, por 30 euros anuales (o 15 euros para estudiantes); un sarao de cuentos latinoamericanos, el llamado “Festival International de Conteurs – de bouche à oreille et de boca en boca”; y una pequeña y respetable biblioteca, la Biblioteca Juan Rulfo, con autores de la más alta literatura latinoamericana en tres lenguas: español, portugués y francés.

En el local también funciona una pequeña cafetería, el llamado “Café Libro”, donde el visitante puede tomar un café, probar algunas especialidades latinas, y los días viernes, por 10 euros, degustar un almuerzo completo de uno de los países de América Latina. “Los viernes son los días en los que innovamos en el menú” dice Ligia. El día en que MigraMundo visitó la Casa, había empanadas argentinas de carne recién hechas.

La Biblioteca

Una vez que el visitante entra en el local, siete estantes de libros dividen el espacio con algunos cuadros de exposición temporal del pintor peruano Carlos Albán Herrera y con las sillas y mesas del Café. Podría ser solamente una pequeña biblioteca al servicio de cualquier cliente que quisiera tomar un café o pasar el tiempo con un libro, pero no lo es. Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Eduardo Galeano, Machado de Assis, Zélia Gattai, Rubem Fonseca, Francisco García Pavón, Federico García Lorca y Carlos Fuentes son solo algunos de los nombres que la Biblioteca posee en su catálogo.

También hay ediciones antiguas de autores raros como la brasileña Zélia Gattai que destacan en los estantes y en portugués de Brasil. Allí, el visitante también encuentra a Machado de Assis en portugués, francés y español. También aparece Galeano en español y en otras decenas de ediciones en francés. Un manantial para cualquier migrante latino que quiera, como Ligia “tener un pie aquí y otro allá” o un manantial para cualquier persona que quiera saber de lo que América Latina está hecha.

“Sabes” dice Ligia al final de la conversación, “tal vez sea por eso que yo logré vivir fuera de Colombia, por haber creado un espacio como este”. La reportera le preguntó a Ligia si ella ya regresó a Colombia desde su fuga; “Ya, pero sentí miedo, ya no es lo mismo”, dice. “Aquí es donde yo encontré el modo de continuar siendo latina”.

Eran casi las 20h cuando la reportera se despidió de Ligia. “Vuelvan mañana para un concierto que tendremos aquí con un músico francés genial”, dice Ligia. “No logro acordarme del nombre del chico ahora, pero él es genial”. Viajó por toda Europa del Este y en su repertorio musical cuenta su viaje”, dice Ligia en la despedida, dándome la mano -un hábito típicamente francés- junto a un caluroso gracias.